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Antes do Natal, Gronelândia volta a estar na lista de desejos de Trump. Nomeação de um enviado especial faz soar os alarmes na Europa

Trump nomeou enviado especial para a Gronelândia, um governador combativo e leal que vai "falar" com a população da ilha. EUA desafiam Dinamarca e dizem que país "não garante segurança" do território.

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O tópico praticamente desapareceu do espaço mediático durante meses. Desde o primeiro mandato, o Presidente norte-americano nunca escondeu que pretendia anexar e passar a controlar a Gronelândia, a região autónoma que pertence à Dinamarca. Depois o assunto pareceu estar esquecido. Agora, sem que nada fizesse prever, Donald Trump voltou esta semana a insistir no tema — e foi mais longe do que nunca. À semelhança do que fez na Ucrânia ou no Médio Oriente para resolver os conflitos, o líder dos Estados Unidos da América (EUA) nomeou esta semana um enviado especial para a maior ilha do mundo.

“Estou orgulhoso em anunciar que vou nomear o grande governador do Louisiana, Jeff Landry, como o enviado especial dos Estados Unidos para a Gronelândia. “O Jeff entende o quão essencial a Gronelândia é para a nossa segurança nacional e vai avançar intensamente com os interesses do nosso país para a segurança, sobrevivência dos nossos aliados e do mundo”, escreveu o Presidente norte-americano na Truth Social. Sem grande experiência em política externa, o político republicano vai assumir uma pasta particularmente sensível — e que coloca os dois lados do Atlântico em desacordo.

A Dinamarca demonstrou preocupação e até raiva com a decisão norte-americana. O ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, demonstrou estar “profundamente indignado” com a decisão norte-americana: “É completamente inaceitável”. A nomeação de um enviado especial surgiu do “nada” e a diplomacia dinamarquesa exigiu explicações aos Estados Unidos, convocando o embaixador norte-americano em Copenhaga para prestar esclarecimentos.

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Lars Løkke Rasmussen diz que decisão de nomear um enviado especial para a Gronelândia é "inaceitável"

AFP via Getty Images

“Já recebi muitas manifestações de apoio por parte de colegas da Europa”, acrescentou Lars Løkke Rasmussen. Estado fundador da NATO e membro da União Europeia desde 1973, a Dinamarca sempre viu os EUA como um aliado na política externa. A nomeação de um enviado especial — algo que acontece em zonas de conflitos — faz o governo dinamarquês temer o pior, sendo o cenário mais catastrófico uma futura invasão da Gronelândia pelos Estados Unidos. A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, reconheceu esta segunda-feira tratar-se de uma “situação difícil” gerada pelos “aliados de longa data” de Copenhaga.

Ainda assim, a primeira-ministra dinamarquesa prometeu que o país não se “desviará dos valores democráticos”, esperando “respeito pela integridade territorial do Reino da Dinamarca”. Vários líderes europeus vieram também declarar apoio a Copenhaga. A líder da diplomacia europeia, Kaja Kallas, garantiu que a União Europeia continua ao lado “da Dinamarca e da Gronelândia”: “Esperamos que todos os nossos parceiros respeitem a sua soberania e integridade territorial e cumpram os compromissos internacionais, inscritos na Carta das Nações Unidas e no Tratado Atlântico Norte”.

Trump volta a evocar “segurança nacional”, JD Vance acusa Dinamarca de não cuidar da segurança da Gronelândia

Ainda não são conhecidos grandes detalhes de como Jeff Landry chegou ao cargo de enviado especial. O fiel trumpista do Louisiana é dos defensores mais acérrimos da administração Trump e terá sido ele que, segundo disse o Presidente norte-americano, lhe sugeriu a criação do cargo: “Ele ligou-me, lembrou-se da compra de Louisiana, e disse-me ‘sou governador de Louisiana’. Não lhe liguei, foi ele que me ligou. Ele é muito pró-ativo, é um tipo excelente, é um tipo que faz negócios”. 

Nas declarações aos jornalistas, Donald Trump voltou a justificar que os Estados Unidos da América precisam da Gronelândia por questões de “segurança nacional”. “Eles têm uma população muito pequena e, não sei, dizem que a Dinamarca não gasta dinheiro lá com a proteção militar”, frisou o Presidente norte-americano, que alegou que os dinamarqueses chegaram à Gronelândia “de barco há 300 anos”. “Nós também estivemos lá de barco também.”

Insistindo da necessidade da Gronelândia para questões de “segurança nacional”, o chefe de Estado norte-americano recusou tratar-se de uma corrida por recursos naturais da maior ilha do mundo. “Nós temos tantos minerais e tanto petróleo”, justificou. Em vez disso, Donald Trump voltou a aludir à competição que ocorre atualmente na região do Ártico — em que os Estados Unidos enfrentam a Rússia e a China. “Se se olhar para a Gronelândia, há vários navios russos e chineses”, argumentou, destacando que o “assunto” em redor do controlo e da gestão da ilha é “sério”. 

O argumento parece ser responsabilizar a Dinamarca por não gerir bem a Gronelândia. O vice-presidente norte-americano, JD Vance, assinalou, no mesmo sentido, que o país nórdico não investiu o suficiente para manter “as bases, as tropas e as pessoas da Gronelândia seguras” das “incursões agressivas da Rússia e da China” na região do Ártico. “Nos últimos 20 anos, a Dinamarca tem falhado“, criticou o número dois da administração Trump, comparando que a “área em redor está menos segura do que estava há 30 e 40 anos”.

"Alguns dos nossos aliados não mantiveram o ritmo, ao mesmo tempo que a China e a Rússia têm um grande interesse na Gronelândia e nas atividades dos valentes militares norte-americanos."
Vice-presidente norte-americano JD Vance

“Alguns dos nossos aliados não mantiveram o ritmo, ao mesmo tempo que a China e a Rússia têm um grande interesse na Gronelândia e nas atividades dos valentes militares norte-americanos”, prosseguiu JD Vance. A ideia central que a presidência dos Estados Unidos está a tentar vender é que têm de ser eles mesmos a gerir a ilha para evitar riscos de segurança que a Dinamarca não previne, em particular a base espacial Pituffik — gerida a meias partes entre Copenhaga e Washington.

Nenhum destes argumentos é particularmente novo. Em março de 2025, quando alguns membros da administração (como JD Vance ou o filho mais velho de Donald Trump) se deslocaram à Gronelândia, a justificação da segurança nacional era exatamente a mesma. Numa região cada vez mais competitiva — principalmente através de uma Rússia mais agressiva — os Estados Unidos pretendem aumentar a sua influência no Ártico. A maior ilha do mundo é particularmente importante no sistema de defesa antimíssil que os Estados Unidos desenvolveram.

Na Gronelândia, já existem radares de aviso precoce que detetam e acompanham potenciais lançamentos de mísseis balísticos em direção à América do Norte, nomeadamente na base militar Pituffik. Mas os Estados Unidos procuram modernizar esta tecnologia e integrá‑la num sistema de defesa antimíssil ainda mais sofisticado, o que alimenta a pressão para um controlo mais alargardo e efetivo da Gronelândia por parte de Washington. Ao mesmo tempo, a ilha oferece uma posição privilegiada para acompanhar a atividade russa e chinesa no Ártico.

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Base espacial de Pituffik, quando JD Vance visitou a ilha em março de 2025

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O que pode um enviado especial mudar? E quem é o combativo governador Jeff Landry?

Normalmente, um enviado especial tem sido usado pela administração Trump para gerir assuntos sensíveis ou conflitos, como a guerra na Ucrânia. Aqui é difícil prever como Jeff Landry vai agir. No primeiro mandato, Donald Trump sugeriu que os EUA podiam “comprar” a ilha. Quando regressou à Casa Branca, já falou numa “anexação” que poderá ocorrer com o recurso à “força” caso a Dinamarca não concordar. “Esta é uma ilha de que precisamos do ponto de vista defensivo e ofensivo. Não gosto de colocar as coisas desta forma. Mas vamos ter de a obter”, enfatizou o Presidente norte-americano em março deste ano.

Seria algo inédito que os Estados Unidos tentassem anexar um território que pertence a um aliado da NATO. Num país por agora focado na mudança de regime da Venezuela, país ao qual apreende petroleiros, nada indica que os EUA avancem com uma solução tão extremada já, uma vez que têm outro foco nas Caraíbas. À Al Jazeera, Marc Jacobsen, professor na Royal Danish Defence College, sublinhou que Donald Trump está a “claramente a falar a sério” sobre a Gronelândia, mas não deverá começar um conflito com a Dinamarca.

“Mas certamente veremos tentativas de ganhar influência através de outros canais, como investimentos estratégicos e a promoção de narrativas que retratam a Dinamarca como um mau parceiro”, prosseguiu Marc Jacobsen. Donald Trump e JD Vance já fizeram precisamente isso ao indicar que Copenhaga não investe o suficiente na defesa do território.

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Jeff Landry, o governador do Louisiana que agora é o enviado especial para a Gronelândia

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“A nomeação de Jeff Landry como enviado especial deve ser visto como um novo elemento na estratégia”, assinalou Marc Jacobsen. Porém, ainda não é claro de que forma o governador do Louisiana — com funções políticas exigentes no seu estado — vai desempenhar o cargo. O político republicano agradeceu a Donald Trump e salientou ser uma “honra servir” a administração “numa posição voluntária para tornar a Gronelândia parte dos EUA”. “Isso não afeta de forma nenhuma a minha posição como governador do Louisiana”, assegurou.

De que forma é que vai “tornar a Gronelândia parte dos EUA” é que ainda é uma incógnita. Na política externa, a experiência de Jeff Landry é bastante limitada, como nota o New York Times. Nunca desempenhou qualquer função diplomática, nem nunca trabalhou no Departamento de Estado. Além disso, não existe nenhum relacionamento entre o governador estado do Louisiana e a Dinamarca.

Por agora, nas redes sociais, Jeff Landry anunciou que vai à Gronelândia “falar com a população sobre a oportunidade” de o território “se juntar aos Estados Unidos”. “Vamos ter uma grande conversa com essas pessoas da Gronelândia e vamos levar comida boa”, adiantou, sem nunca mencionar se existe ou não um plano dos EUA para o futuro do território dinamarquês.

A falta de experiência em política externa não foi determinante para a escolha Jeff Landry, visto que o governador compensa com lealdade ao Presidente. O republicano é um dos mais vocais apoiantes de Donald Trump — chegou mesmo a pedir-lhe que enviasse agentes da Guarda Nacional à capital do estado, Nova Orleães, para prender milhares de imigrantes não documentados. É também profundamente conservador — defende as leis do aborto com unhas e dentes — é religioso, tendo assinado uma lei que obriga à exposição dos Dez Mandamentos nas escolas públicas.

Tendo estudado Direito na Universidade, Jeff Landry é também conhecido pelo seu estilo combativo. Por causa disso, ao longo da sua carreira política, o governador já usou várias vezes os tribunais para empreender batalhas legais para reverter as decisões do antecessor (o democrata John Bel Edwards) e até para contestar ordens federais, na altura em que o antigo Presidente, Joe Biden, estava na Casa Branca. É expectável que, enquanto enviado especial, mantenha essa vertente mais dura.

Gronelandeses voltam a rejeitar integração nos EUA. E Europa une-se em redor de Copenhaga

A notícia de que a presidência norte-americana elegerá um enviado especial abalou não apenas o poder político na Dinamarca. Também na Gronelândia, no governo autónomo da região, reagiu com preocupação à novidade. O primeiro-ministro Jens-Frederik Nielsen lamentou que Donald Trump a tenha reduzido a Gronelândia a uma “questão de segurança e poder”: “Somos um povo com uma longa história, uma cultura forte e uma democracia vibrante. Somos um país com responsabilidade pelo seu próprio território e pelo próprio futuro. A nossa integridade territorial e o nosso direito à autodeterminação estão enraizados no direito internacional e não podem simplesmente ser ignorados”.

"Somos um povo como uma longa história, uma cultura forte e uma democracia vibrante. Somos um país com responsabilidade pelo seu próprio território e pelo próprio futuro. A nossa integridade territorial e o nosso direito à autodeterminação estão enraizados no direito internacional e não podem simplesmente ser ignorados."
Primeiro-ministro da Gronelândia, Jens-Frederik Nielsen

A ideia de a Gronelândia se juntar aos Estados Unidos é, efetivamente, extremamente impopular entre a população da região dinamarquesa — uma sondagem de janeiro mostra que uma larga maioria de 85% estão contra a ideia. É improvável que, depois da nomeação de um enviado especial, isso vá mudar. Muitos gronelandeses desejam separar-se efetivamente da Dinamarca; mas gostavam de formar um Estado autónomo que protegesse especialmente os direitos dos inuítes, etnia a que corresponde 90% da população da maior ilha do mundo (isto porque a Austrália é reconhecida como um continente e não uma ilha).

Num comunicado emitido na segunda-feira, a ministra dos Negócios Estrangeiros da Gronelândia, Vivian Motzfeldt, expressou precisamente isso: “Nada mudou. O futuro do nosso país será determinado pelo povo gronelandês. Não somos dinamarqueses. Não somos norte-americanos e não nos queremos converter. Somos Inuiaat Kalaallit, somos o povo gronelandês. A nossa terra é nossa e outros não a controlarão e não vão tomar posse dela”. A diplomata concedeu que a Gronelândia e os Estados Unidos “precisam de cooperar em matéria de segurança e defesa” no Ártico, mas explicou os moldes em que isso deve acontecer: “Essa cooperação deve ocorrer pelo diálogo com respeito mútuo e em defesa do direito internacional e da democracia”.

A Europa também tem apoiado as autoridades da Gronelândia e solidariza-se com as mesmas, mencionando sempre as dinamarquesas. Num comunicado conjunto, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, realçaram que a “segurança do Ártico permanece uma prioridade chave para a União Europeia”, estando o bloco comunitário disposto a “trabalhar com aliados e parceiros”.

À semelhança do que fizeram também vários governos europeus, os dois líderes comunitários mandaram um recado à Casa Branca: “A integridade territorial e a soberania são princípios fundamentais do Direito Internacional. Esses princípios são essenciais não apenas na União Europeia, como para as nações de todo o mundo. Demonstramos total solidariedade com a Dinamarca e o povo da Gronelândia”.

Mas ainda antes do Natal, Donald Trump voltou a pressionar a Gronelândia. O assunto não foi abordado durante meses, mas ressurgiu agora pela mão de um enviado especial leal e totalmente alinhado com a mensagem da presidência. Os habitantes da ilha, os dinamarqueses e os europeus prometem permanecer ao lado da soberania da Gronelândia, mas preocupados com as ações da Casa Branca e com a possibilidade de terem de enfrentar o maior aliado desde o final da Segunda Guerra Mundial.

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