“O mais Velho” morreu. António Mota era já o Mota “mais velho”. Já não estava na presidência executiva do grupo Mota-Engil desde que com pouco mais de 50 anos decidiu apostar num gestor de fora da família. Escolheu, em 2008, Jorge Coelho, o ex-ministro socialista. Deixou a presidência executiva, mas não a empresa, fundada pelo pai, transformada pelo filho que a tornou na maior construtora portuguesa.
Manteve-se na administração até abril deste ano. Preparou em vida a sucessão. Em setembro deste ano, deixou também a administração da empresa familiar, MGP (Mota Gestão e Participações), e doou as suas ações aos quatro filhos — Manuel António, Maria Sílvia, Maria Inês e Maria Luísa. À frente do grupo de construção colocou, no entanto, e desde 2023, o sobrinho. Carlos Mota Santos acumula a função não executiva com o cargo mais alto na comissão executiva — é o CEO da Mota-Engil.
“Uma empresa familiar define-se por haver referências”, declarou António Mota numa entrevista ao Negócios em 2014, acrescentando: “Aqui há uma muito forte, a do fundador”. Manuel António Mota foi a sua referência. Mas hoje não há dúvidas de que é António Mota a referência na Mota, tornada Mota-Engil no seu reinado, no qual também ganhou maiores asas internacionais.
António Mota morreu este domingo aos 71 anos. “A Mota-Engil perde uma figura marcante na sua história a quem muito deve o que é hoje, um Grupo Multinacional, reconhecido pela qualidade de Engenharia, e sob uma gestão com elevada compromisso com cada cliente e parceiro, em que a palavra bastava para honrar os seus compromissos, numa liderança em muito suportada em valores que a todos transmitiu e a que teremos de saber honrar e dar a devida continuidade”, escreveu o grupo Mota numa mensagem enviada às redações, anunciando o falecimento do Mota “mais Velho”.
“Líder carismático, empresário visionário e Homem de enorme humanidade”. É assim que é definido António Mota, nascido em Amarante — que foi a sua primeira morada e será a última (ficará sepultado no jazigo da família no cemitério da terra).
Uma construtora fundada pelo pai Manuel António, a quem António Mota sucedeu
Assumiu ter sido um dos momentos mais difíceis da sua vida, aquele dia em que se mudou para o gabinete que tinha sido ocupado pelo seu pai na construtora Mota. “O momento mais difícil da minha vida foi ter de vir para este escritório”, descreveu na referida entrevista. Era ali, nos escritórios no Porto, que o pai liderava a empresa e na sua morte coube ao filho ocupar a mesma secretária, o mesmo gabinete. Demorou três meses a mudar.
O pai, Manuel António, que dá nome à Fundação constituída pelo filho, criou a construtora em 1946, oito anos antes do nascimento do filho António. No ano a seguir ao fim da Segunda Guerra Mundial, nascia a Mota & Companhia, no mesmo ano da Construtora do Tâmega. Os sócios eram duas famílias, Mota e Fonseca. A Construtora do Tâmega fazia obras públicas, a Mota madeiras. A primeira trabalhava em Portugal, a segundo em Angola.
Manuel António Mota, nascido em 1913 em Codeçoso, concelho de Celorico de Basto, vinha de uma família de agricultores. Teve de trabalhar cedo nas terras da família, por causa da doença do pai, mas a profissão levou-o à produção de ferramentas e a apontador numa empresa de construção. Nos anos da guerra convenceu o cunhado, Joaquim da Fonseca, e o empresário Joaquim Pereira da Silva a comprar uma serração em Amarante, criando a Indústrias Reunidas do Tâmega. No final da guerra levaram essa parceria para a construção, com a criação das tais duas empresas — Construtora do Tâmega e Mota & Companhia.
Angola entrou no seu caminho. E foi aí que a Mota & Companhia passou, também ela, a ser uma construtora. “O meu pai era um engenheiro de altíssimo gabarito, sem nenhum estudo”, descreveria mais tarde o filho António, o menino entre três irmãs. Manuel António casou, em 1948, com Maria Amália Guedes Queiroz de Vasconcelos, 13 anos mais nova. Tiveram quatro filhos – Maria Manuela, Maria Teresa, António e Maria Paula.
António Mota nasceu em 1954. Em Amarante, onde ficou até aos 15 anos. A Regularização do Baixo Mondego, concurso ganho em 1977 pela Mota (o primeiro de obras públicas em Portugal, depois dos conturbados anos da guerra colonial que levou instabilidade a Angola, de onde a Mota, no entanto, nunca saiu), marcou o início da carreira de António.
“Acabei de me formar com 23 anos, e depois tive que andar muito depressa”, afirmou na mesma entrevista, na qual confessou que tinha sido sempre “bom aluno”. “Desde o primeiro ano, porque estudava, e porque não era burro de todo, estive sempre no quadro de honra. Tinha pouco jeito para desenho e não gostava de francês. Houve um ano em que devo ter-me distraído… e não fiquei no quadro de honra. Fui aprender a escrever à máquina para o escritório, as férias todas”. A exigência do pai a isso determinou. Formou-se em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Cedo percebeu que queria ser engenheiro, apesar de em pequeno dizer que queria ser polícia, porque eram os únicos que não tinham medo dos ladrões.
Na Mota & Companhia passou por várias áreas, até à vice presidência, onde estava quando o pai morreu, em 1995. Foi nesse ano que António Mota — que recebeu sempre uma mesada do pai — chegou à presidência da empresa. O pai tinha-o deixado com mais ações individualmente do que o que entregou a cada uma das irmãs, mas como explicou: “No dia em que as três estiverem contra ti, já perdeste”.
A fusão com a Engil
Antes de assumir a presidência já a Mota & Companhia estava em bolsa (desde 1987), tinha formado a Lusoponte (em 1994 para construir a Ponte Vasco da Gama), cimentava as operações nacionais, na Europa central (entrou na Polónia em 1996 e daí partiu para Hungria e República Checa) e chegou à América Latina (só em 2007 viria a entrar no México).
Mas foi em 1999 que a vida (e o nome) da Mota & Companhia haveria de mudar. Uma OPA (oferta pública de aquisição) a outra construtora, Engil, foi um marco. Uma operação pensada para ser amigável, através de uma fusão, e que acabou hostil. O confronto entre as famílias Valadas Fernandes e Mota pelo controlo da Engil terminou em 2000 com António Mota a conseguir ficar com a maioria do capital da Engil (75%, com a maioria dos restantes 25% a ficar nas mãos de Belmiro de Azevedo), pagando 25 milhões de contos (cerca de 125 milhões de euros). “Vamos agora recomeçar o processo de concentração entre a Engil e a Mota & Companhia, que dará origem ao maior grupo de construção nacional, capaz de discutir de igual para igual com os seus congéneres estrangeiros”, atirou, então, António Mota.
Da fusão resultou a Mota-Engil. O grupo mudou. Mas nunca mais largou a marca Engil, nem quando os chineses da China Communications Construction ficaram com uma participação relevante, de 32,41%, na empresa (entraram em 2021).
A Mota & Companhia estava transformada na maior construtora de Portugal, pela mão de António Mota. Os anos seguintes viriam a torná-lo arguido por causa da Operação Furacão. As buscas na Mota-Engil aconteceram em 2006, mas António Mota só em 2009 foi constituído arguido e ouvido pelo Ministério Público. Foram precisos sete anos para ficar concluída a investigação sobre o alegado envolvimento no esquema de fraude fiscal na origem da Operação Furacão, depois do pagamento de 6,1 milhões de euros para não haver acusação. Não sem declarar que “embora a empresa e os seus consultores e advogados considerem não se verificar fraude fiscal nas operações objeto da investigação, a empresa tomou ela própria a iniciativa de regularizar a situação segundo os critérios definidos pelo Ministério Público para a suspensão do processo, de harmonia com a prática que vem sendo seguida com a generalidade das empresas envolvidas na mesma investigação”.
Mota-Engil pagou 6 milhões de euros para não ser acusada de fraude fiscal qualificada
A passagem para a gestão profissional e a escolha polémica
Já estava em vários negócios, da construção, às concessões rodoviárias, até às concessões portuárias. E já estava espalhada pelo mundo. António Mota viu chegado o momento. Tinha de passar a gestão. E escolheu, em 2008, alguém fora da família. António Mota tinha pouco mais de 50 anos, mas justificou: “Comecei muito cedo. Atingi a vice-presidência executiva deste grupo em 1987”. Muitos anos como primeiro executivo operacional do grupo. “Achei que era preciso incorporar novas ideias. Nós crescemos muito. Diversificámos muito. Era preciso fazer uma remodelação. Corrigir os erros. Era mais difícil, a quem os cometeu, corrigi-los, do que vir alguém de fora fazer isso. Em boa hora o fizemos. Crescemos muito significativamente”.
▲ António Mota com Jorge Coelho que escolheu para a presidência do seu grupo.
LUSA
Jorge Coelho, o socialista que tinha sido ministro das Infraestruturas, foi o escolhido. E isso valeu-lhe críticas, mas não teve dúvidas. Contou a Fernando Esteves para o livro “Jorge Coelho, o Todo-o-Poderoso”: “Quando o convidei fi-lo com uma enorme naturalidade. Já era nosso consultor, tinha elaborado o nosso plano estratégico e possuía qualidades que encaixavam totalmente no perfil que pretendíamos”. Jorge Coelho, diz-se ainda no livro, pensou muito antes de aceitar, mas aceitou.
Ao aceitar a missão Jorge Coelho avisou Mota: “Sabe que está a contratar um tipo cuja cara transforma coisas simples em acontecimentos mediáticos, não sabe?”. Na resposta o líder da construtora encerrava o assunto: “Quem manda na Mota são os acionistas, não são os jornais”.
Chegou a uma empresa com mais de 100 empresas, 16 mil trabalhadores e presente em 19 países. Expandiu ainda mais essa presença. Mas as pressões mediáticas continuaram e as viagens eram muitas. Jorge Coelho começou a ficar cansado e deu o alerta a António Mota, que resistiu à saída. “Achei que podia continuar. Ele conseguiu, de um momento para o outro, transformar-se em alguém da casa e trouxe consigo uma independência na gestão da terceira geração familiar. Durante os cinco anos e meio em que esteve como CEO houve a chegada de diversas pessoas da terceira geração e isso são marcas que deixou”.
Recusou sempre que tenha escolhido Jorge Coelho pelos contactos políticos. Aliás, ao longo dos anos a Mota foi sendo ligada quer a partidos de direita, quer de esquerda. A família Mota financiou tanto PS, como PSD e CDS (mais tarde Paulo Portas iria juntar-se à Mota). Recordou, recentemente, que o primeiro ministro que cumprimentou na vida era engenheiro na Mota e tinha caído ao rio Mondego. “Tive de cumprir o senhor ministro todo molhado, cheio de lama”.
Jorge Coelho deixou a presidência executiva, mas a Mota não deixou de fazer parte da sua vida. António Mota manteve a liderança da gestão fora da família. Gonçalo Moura Martins, da “casa”, foi o senhor que se seguiu. Ficou na presidência entre 2013 e 2023, quando a terceira geração da família Mota chegou à liderança. Desde então Carlos Mota Santos, sobrinho de António Mota, é o CEO (presidente executivo) da Mota-Engil. E assim deu-se o início “a um processo de mudança geracional e de renovação da alta gestão do grupo”. Mas com o tio sempre ao seu lado. Até este ano.
Em junho, Marcelo Rebelo de Sousa condecorou António Mota com com as insígnias da Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique.
Terceira geração da Mota-Engil assume liderança da construtora
Agora, na evocação a António Mota, o Presidente da República realçou que o empresário “juntou a liderança à empatia, a humanidade ao dinamismo, a simplicidade à eficácia. Sem ele as últimas décadas da nossa economia teriam sido diferentes”. E, acrescentou na mensagem, “soube preparar a tempo a sua sucessão. Assim, as jovens gerações saibam corresponder à visão do seu antepassado”.
Mesmo na entrada da empresa chinesa, António Mota quis deixar “uma coisa muito clara: a Mota-Engil vai continuar a ser aquilo que sempre foi, uma empresa familiar, portuguesa, europeia, com sede em Lisboa”, declarou ao Expresso, em 2020, ainda presidente do conselho de administração, e no qual garantia: “A família Mota vai continuar no grupo por muitos anos. Já vamos na terceira geração.” Nesse ano, Carlos Mota Santos era vice-presidente do grupo e o seu filho Manuel Mota era presidente executivo de África e da Europa.
A Mota-Engil de hoje é a construtora da terceira geração. “O mais velho” morreu. Mas antes, na entrevista ao Negócios, tinha deixado a promessa: “O meu pai dizia que não nos deixava muito dinheiro: deixava-nos muito trabalho. Muito trabalho para fazer. O que as minhas irmãs e eu pensamos é deixar aos nossos filhos (entre nós temos dez) tanto trabalho quanto o pai nos deixou a nós”.