António Mota, um nome histórico da construção portuguesa, renunciou ao cargo de vice-presidente do conselho de administração da empresa que tem o nome da família.
O engenheiro e empresário esteve à frente da Mota-Engil, a maior construtora portuguesa, ao longo de 30 anos, ainda que já tivesse cedido o cargo de presidente (chairman) como parte de um processo de transição geracional que teve um passo decisivo em 2023. Nesse ano, a presidência executiva e não executiva do grupo foi assumida por um dos sobrinhos, Carlos Mota Santos que continua no cargo.
A renúncia de António Mota antes do fim do mandato (que ia até 2026) foi comunicada esta terça-feira ao mercado, na sequência de cartas enviadas ao presidente do conselho de administração. É acompanhada pelas saídas de Ana Paula Sá Ribeiro, administradora não executiva independente, de João Pedro Dinis Parreira, administrador não executivo, e de mais dois gestores chineses, Vai Tac Leong e Feng Tian. Li Guangming é o único nome proposto para a administração.
Desde 2020 que o grupo cedeu 30% do capital a uma construtora pública chinesa, a China Communications Construction Company (CCCC).
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Na administração da Mota-Engil mantém-se o anterior CEO, Gonçalo Moura Martins, como vice-presidente — cargo que era o mesmo do desempenhado por António Mota —, e nomes como o do ex-ministro e ex-presidente do CDS-PP Paulo Portas, que em 2023 foi eleito administrador não executivo, e o de Francisco Seixas da Costa, embaixador e antigo secretário de Estado do PS.
Apesar de alguma controvérsia pública, António Mota nunca teve receio de escolher ex-políticos para a administração da construtora. A sua contratação mais famosa foi a do histórico dirigente socialista, Jorge Coelho, que abandonou a primeira linha da política quando se demitiu do cargo de ministro com a tutela da construção após a queda da ponte de Entre-os-Rios em 2001. Jorge Coelho foi nomeado presidente executivo da Mota-Engil em 2008, cargo que ocupou até 2013, tendo mantido uma forte ligação à construtora até à sua morte em 2021.
Foi ainda com Jorge Coelho que a Mota-Engil começou a atravessar a maior crise de sempre que afetou a construção portuguesa e à qual muitas empresas históricas — como a Soares da Costa e a Edifer — não resistiram. A Mota-Engil aguentou a falta de obras em Portugal com a expansão em vários mercados internacionais, em particular nos países emergentes da América Latina e de África.
Ao longo deste caminho, teve de vender alguns dos mais importantes anéis, sobretudo quando em 2014 perdeu o seu principal aliado financeiro e sócio em alguns negócios — o grupo e o Banco Espírito Santo. Nos dois anos seguintes, alienou a concessionária de autoestradas Ascendi e a maior concessionária portuária portuguesa aos turcos da Ylport. Já em 2020, cedeu uma participação de 30% no capital da própria holding.
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A Mota-Engil continua a ser maior construtora nacional, sendo presença incontornável nos principais concursos de obras públicas. Exemplo recente disso é o projeto de alta velocidade ferroviária. A Lusolav, consórcio de empresas portuguesas que lidera, ganhou o primeiro concurso para o troço Porto – Oiã (foi a única candidatura validada). E só não ganhou o segundo concurso da linha entre Lisboa e Porto, ao qual voltou a ser o único concorrente, porque foi anulado.
A liderança do mercado nacional foi alcançada na viragem para este milénio quando em 2000 a Mota & Companhia, já liderada por António Mota, se funde com a Engil, dando lugar à Mota-Engil, sociedade com capital aberto à negociação na bolsa de Lisboa. Licenciado em engenharia pela Facultade de Engenharia da Universidade do Porto, António Mota fez toda a sua carreita na empresa fundada pelo pai, então designada Mota & Companhia, com sede em Amarante. Deixa agora de ter quaisquer funções na administração, aos 70 anos.
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