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António Moura garante que o hospital esgotou a capacidade dedicada ao SNS, tendo 57 idosos internados atualmente

Octavio Passos/Observador

António Moura garante que o hospital esgotou a capacidade dedicada ao SNS, tendo 57 idosos internados atualmente

Octavio Passos/Observador

António Moura, subdiretor do Hospital das Forças Armadas no Porto: “O Hospital tem um limite, não conseguimos dilatar paredes”

Podia internar 45 doentes do SNS, mas numa semana recebeu 57 idosos vindos de três lares e assim esgotou a sua capacidade. Seis já morreram. Como o Hospital das Forças Armadas se adaptou ao vírus.

Quando o novo coronavírus começou a ganhar força, o Hospital das Forças Armadas no Porto disponibilizou 45 camas ao Serviço Nacional de Saúde, para que este pudesse libertar camas para internar doentes infetados. A primeira intenção passou por acolher os portugueses que regressaram de Wuhan e necessitavam de isolamento profilático — o que acabou por não acontecer, uma vez que todos ficaram em Lisboa. Mas na madrugada do dia 23 de março tudo mudou.

“Recebemos uma ordem superior para acolher 29 idosos de um lar em Vila Nova de Famalicão, mas ainda não sabíamos se estavam positivos ou negativos”, conta António Moura, subdiretor do Hospital das Forças Armadas no Porto. Com o resultado dos testes na mão, não havia dúvidas: a maioria estava infetada, com 18 casos positivos. Nessa mesma semana chegaram 11 de um lar de Vila Real e mais 17 de um lar em Albergaria-a-Velha, todos infetados com o novo coronavírus. “Tivemos que nos adaptar” — e isso passou por abrir enfermarias, fechar serviços, adaptar equipas e reorganizar turnos de trabalho.

Sem cuidados intensivos, o hospital já viu morrer seis idosos com mais de 80 anos e várias doenças associadas. Decidiu não transferir nenhum doente para outra unidade: “Não vale a pena irem para os cuidados intensivos, não vão beneficiar com isso, não vamos estar a agredi-los ainda mais.”

A 14 de abril, o hospital recebeu seis idosos infetados provenientes do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos. Foram encaminhados para as enfermarias duplas de isolamento. Nos últimos pisos dos dois edifícios principais estão atualmente 57 idosos internados, todos “clinicamente estáveis”. Dez estão negativos, mas que ainda não podem regressar ao lar de onde vieram. “Dizem que não têm condições para os receber.” O hospital garante já ter esgotado a sua capacidade dedicada ao SNS, mas tudo depende da evolução da pandemia. “Se a nível nacional exigirem mais espaço, vamos ter que nos reinventar.”

Há apenas uma entrada a funcionar no hospital com dois circuitos diferentes: um para colaboradores e outro para pacientes

Octavio Passos/Observador

Como veio parar a este hospital?
Sou natural de Chaves, mas sempre vivi no Porto. Entrei em 1992 para o exército e fui colocado aqui. Tirei o curso de Medicina fora da academia, na Faculdade do Porto, e fiz o internato e a especialidade em cirurgia geral no Hospital de São João. Na minha vida militar, estive 14 meses em Évora, nove meses no Kosovo e depois numa companhia sanitária no Campo Militar de Santa Margarida. Instalei-me aqui no Hospital das Forças Armadas em 2004, fui chefe de cirurgia, diretor clínico e agora subdiretor do hospital.

Qual é a missão de um hospital como este?
É apoiar toda a família militar. O Estado Maior General das Forças Armadas tem dois polos, este no Porto e outro maior em Lisboa, ambos ativos e a funcionar. Temos vários acordos, um deles com o Serviço Nacional de Saúde (SNS), que normalmente fica com a capacidade sobrante que temos.

De que forma se preparam para esta pandemia?
Fizemos um planeamento e reativámos uma ala inteira de enfermarias, num total de 45 camas, para oferecer ao SNS. Partimos do pressuposto de que iríamos receber doentes do SNS para desocupar as camas dos hospitais centrais, de forma a estes poderem internar doentes com a Covid-19. Sabíamos que em princípio íamos precisar de ser ativados, mas não sabíamos quais eram os moldes dessa ativação. Preparámo-nos inicialmente para receber alguns portugueses que regressaram de Wuhan e necessitavam de fazer isolamento profilático, mas acabou por não ser necessário, uma vez que ficaram todos em Lisboa.

Como é feita essa ativação dos serviços que têm disponíveis?
Nós damos apoio à Autoridade de Emergência e Proteção Civil, normalmente representada pelo Governo ou pelas autarquias, que quando tem casos em que necessita da nossa ajuda comunica às Forças Armadas. Aí, o almirante pergunta o que temos disponível para trabalhar e nós dizemos o que temos planeado. Há uma cadeia hierárquica para as coisas avançarem.

"Não vale a pena irem para os cuidados intensivos, não vão beneficiar com isso, não vamos estar a agredi-los ainda mais. Ainda não tivemos que transferir nenhum doente e não estamos à espera de transferir ninguém, antes pelo contrário, queremos é começar a dar altas."

Ao contrário do que tinham previsto inicialmente, foram ativados para receberem idosos vindos de lares. Como é que isso aconteceu?
Sim, estávamos preparados, mas não sabíamos que íamos ser ativados, porque a ativação é à hora. A pedido da Proteção Civil, o almirante mandou a ordem de que teríamos que receber 29 idosos de um lar em Vila Nova de Famalicão, que na altura não sabíamos ainda se eram positivos ou negativos, pois tinham acabado de ser testados. Recebemos o pedido dez minutos antes de eles chegarem nas ambulâncias. No dia seguinte, ficámos a saber que 11 eram negativos e os restantes 18 testaram positivo, ficando isolados em quartos duplos nessa ala que tínhamos disponibilizado.

Do que se lembra dessa noite?
Trabalhámos durante toda a madrugada. Chegaram muitos idosos com mobilidade reduzida e quase todos com demências. De repente, saem do seu ambiente habitual e começam a ver autênticos astronautas à sua volta, que querem tratar deles, mas que só mostram os olhos. Foi complicado, tivemos descompensações, pessoas que ficaram muito ansiosas e agitadas. Colocamos a nossa equipa de psiquiatria toda a funcionar. Estamos a falar de uma média etária de 82 anos, não é fácil.

O hospital conta com 400 colaboradores, entre médicos, enfermeiros, pessoal na cozinha e na segurança

Octavio Passos/Observador

Três dias depois, voltaram a receber idosos?
Sim, a 25 de março recebemos mais 11 de um lar de Vila Real, todos positivos. E a 29 de março mais 17, também positivos, de um lar de Albergaria-a-Velha. Aí tivemos que nos reinventar, transformámos espaços comuns, como salas de convívio e de refeições, em enfermarias de duas camas que já estavam preparadas com bocas de oxigénio e rampas. Fechei um serviço que neste momento não estava a funcionar, dedicado à reabilitação de militares com fraturas ou que necessitam de fisioterapia intensiva. Os 11 casos negativos de Famalicão foram para outra ala do hospital, obrigando a um circuito diferente, passados 14 dias foram testados novamente e mantêm-se negativos. Entretanto, no passado dia 14 de abril recebemos seis idosos positivos, vindos do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos.

Já registaram mortes?
Até agora, faleceram seis, três do lar de Albergaria, um de Vila de Real e dois de Famalicão — um deles não tinha a Covid-19. Muitos destes óbitos tinham várias doenças associadas e patologias já muito avançadas. Não temos muitas mortes, estávamos à espera de mais. É uma percentagem de 7% para esta faixa etária. Os 57 idosos que temos internados estão bem, ou seja, estáveis clinicamente.

Têm serviços de cuidados intensivos?
Não, temos cuidados intermédios.

O que fazem nos casos mais grave?
Avaliamos para perceber se têm condições para entrarem nos cuidados intensivos. Estamos a falar de uma faixa etária elevada, de pessoas com mais de 80 anos que podem não ter capacidade para serem ventiladas ou até ter uma capacidade muito baixa. Até agora, em nenhuma situação tivemos ainda que decidir se eles deveriam ou não ser ventilados, mas eventualmente chegaremos a um momento em que teremos que optar entre intervir do ponto de vista de intubação ou adotar medidas de conforto e ver a evolução do caso. Nestes seis casos em concreto era um desfecho inevitável, pois a partir do momento em que o doente começa a evoluir de uma forma mais galopante já sabemos o que acontece. Não vale a pena irem para os cuidados intensivos, não vão beneficiar com isso, não vamos estar a agredi-los ainda mais. Ainda não tivemos que transferir nenhum doente e não estamos à espera de transferir ninguém, antes pelo contrário, queremos é começar a dar altas.

Não há necessidade de colocar nenhum doente num quarto isolado?
Para já não, estão todos em enfermarias duplas. Se houver, temos condições para o fazer.

Os casos negativos vão poder regressar ao lar de Famalicão em breve?
O lar já foi desinfetado, mas diz que não tem condições para os receber. Os trabalhadores não foram ainda todos testados e não há forma de garantir a alimentação. Não dizem que não os recebem, dizem que neste momento não têm condições para o fazer, por isso, temos de continuar aqui com eles. Os idosos aqui internados não podem receber visitas, por isso também garantimos o contacto direto com os familiares. Há uma equipa responsável por todos os dias os informar do seu estado clínico.

António Moura chegou ao Hospital das Forças Armadas no Porto em 2004

Octavio Passos/Observador

Com 57 idosos internados neste momento, atingiram a capacidade máxima dedicada ao SNS?
Sim, temos que manter a reserva para os nossos militares. Há 28 camas disponíveis para militares que possam ser positivos e uma enfermaria com 24 camas para militares que não tenham a Covid-19.

Consideram aumentar essa capacidade?
O hospital tem um limite, não conseguimos dilatar paredes. Quase que duplicámos a nossa capacidade de internamento. Hipoteticamente temos esta capacidade, se houver necessidade a nível nacional de expandir vamos ter que nos reinventar.

Em que moldes é que o hospital continua a funcionar?
Não está a funcionar em pleno, como acontece com quase todos os hospitais. O que podemos adiar adiamos, fazemos as coisas mais urgentes, como algumas cirurgias e tratamentos oncológicos. As consultas programadas estão a ser feitas essencialmente por telefone e as presenciais apenas em casos necessários.

"Trabalhamos durante toda a madrugada. Chegaram muitos idosos com mobilidade reduzida e quase todos com demências. De repente, saem do seu ambiente habitual e começam a ver autênticos astronautas à sua volta, que querem tratar deles, mas que só mostram os olhos."

Há gente suficiente para trabalhar?
Sim, a nossa rede militar está a funcionar em pleno, a cumprir o que precisamos. Existem pessoas que estão a vir de outras unidades, onde já não são necessárias, e isso obrigou-nos a reestruturar todo o quadro de trabalho. Antes, por exemplo, servíamos 70 refeições, hoje estamos a servir 400. O hospital tem cerca de 400 colaboradores, entre médicos, enfermeiros, auxiliares, pessoal da cozinha e segurança. Tínhamos apenas cinco internistas, neste momento temos cirurgiões vasculares e plásticos a operar, fizemos equipas mistas que são orientadas pela especialidade que trata mais a Covid-19.

Têm colaboradores infetados?
Ainda não. Temos casos positivos em militares, sim, mas nenhum foi internado ou inspira cuidados maiores. Estão em casa em isolamento e mantemos um contacto diário com eles. Provavelmente apanharam no exterior e não no hospital, até porque todas as pessoas que apresentem sintomas são testadas.

Além do apoio psicológico prestado aos doentes, existe algo do género direcionado para os profissionais?
Temos uma equipa de psicólogos e psiquiatras a acompanhar os idosos e a dar apoio para evitar o burnout dentro do hospital. Sabemos que isso pode acontecer, não temos casos identificados, mas é uma medida de prevenção. Só para ter uma ideia, é duro ter que vestir um equipamento de proteção individual durante seis horas e nessas seis horas não poder urinar ou beber água. Ainda ontem tive que operar e aquilo é atroz, olhe que estou habituado a andar diariamente de máscara a na cara. A viseira embacia, a pele começa a escamar, é tudo muito desconfortável e limitador.

Há testes e material de proteção disponíveis?
Sim, para já temos material para todos. Relativamente aos testes, como não os fazemos de uma forma massificada, mas apenas a quem apresente sintomas, temos ainda suficientes.

No exterior do hospital há duas tendas, um de triagem e outra de isolamento, para pessoas que apresentem sintomas ligeiros, suspeito da Covid-19

Octavio Passos/Observador

Como funcionam as duas tendas no exterior?
Uma é a tenda de triagem, toda a gente que entra no hospital passa por ali. Além de desinfetar as mãos, oferecemos uma máscara cirúrgica, medimos a temperatura e fazemos um inquérito sobre quais os sintomas da pessoa, se esteve em contacto com alguém infetado ou o que veio fazer. Se o paciente apresentar sintomas graves segue diretamente para um circuito especial no serviço de urgência, caso os sintomas sejam ligeiros aguarda numa outra tenda que temos preparada para o isolamento. Lá existem oito poltronas onde o doente espera que um médico o venha examinar e, se for necessário, realiza o teste de despiste.

O que é mais difícil neste processo?
É tudo. Nós, militares, estamos habituados a atuar em situações crise e estamos a levar isto bastante bem, na minha opinião, mas há sempre muita ansiedade entre as pessoas, estão preocupadas e têm bastante receio, incluindo os profissionais, que por terem família têm sempre a interrogação se voltam ou não para casa. Temos colaboradores que nos pedem alojamento e já estamos a proporcionar isso num centro de acolhimento militar.

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