Luís Montenegro sentiu a necessidade de explicar de forma muito detalhada o porquê de ter decidido renovar a aposta em Hernâni Dias como cabeça de lista pelo círculo eleitoral de Bragança. Antecipando as críticas que a escolha iria merecer, o primeiro-ministro aproveitou a reunião da Comissão Política Nacional do PSD, órgão de direção alargada do partido, para justificar a opção e antecipar argumentos: o ex-secretário de Estado não cometeu qualquer ilegalidade, não é suspeito, nem arguido, além de ser uma figura respeitada na região.
Segundo apurou o Observador, nessa reunião da Comissão Política Nacional, que antecedeu, como é habitual, o Conselho Nacional do partido, Luís Montenegro terá mesmo demorado largos minutos a justificar o porquê desta escolha. Para o líder social-democrata, a questão está perfeitamente ultrapassada, o antigo secretário de Estado tem todas as condições políticas para se sujeitar ao escrutínio eleitoral e Hernâni Dias é uma mais-valia eleitoral — Bragança foi o único distrito onde o Chega não conseguiu eleger nas últimas legislativas.
Sobre o ruído que a escolha poderá ou não provocar, Montenegro também fez questão de deixar um recado claro: não são os jornalistas e os comentadores que condicionam a seleção de deputados do PSD. Acontece que, como era previsível, a escolha de Hernâni Dias como cabeça de lista por Bragança está a ser interpretada por muitos no partido como uma provocação desnecessária e um fator que provocará um ruído que era perfeitamente dispensável numa campanha eleitoral onde se joga o tudo ou nada.
Há igualmente uma leitura que pode ser retirada desta decisão de Luís Montenegro. O primeiro-ministro parte para estas eleições legislativas depois de ele próprio ter reconhecido que não foi a “melhor opção” ter transmitido as quotas da Spinumviva para a mulher em julho de 2022, quando se tornou líder do PSD. Deixar cair Hernâni Dias por causa de uma “imprudência” seria o mesmo que reconhecer que, por ter tomado uma decisão pouco avisada no passado, não deveria ser candidato a primeiro-ministro. Com as devidas distâncias, as circunstâncias de Hernâni Dias e de Montenegro não são assim tão diferentes.
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Recentemente, em conversa com Manuel Luís Goucha, na TVI, o primeiro-ministro admitiu que talvez se pudesse ter “lembrado” do facto de estar casado em comunhão de adquiridos, pelo que poderia ter transmitido diretamente a empresa para os filhos e afastar, assim, qualquer suspeita de que estaria a beneficiar, mesmo que indiretamente, da empresa que fundou. “Talvez pudesse ter sido a melhor opção. Mas achei isto tudo perfeitamente normal.”
Recorde-se que Hernâni Dias se demitiu depois de ter criado duas imobiliárias já estando em funções e num momento em que começava a ser discutida a chamada “Lei dos Solos”, desenhada pelo Ministério de que fazia parte. Na altura, Luís Montenegro, mesmo tendo elogiado muito o trabalho de Hernâni Dias, reconheceu que o seu secretário de Estado cometera uma “imprudência”. O social-democrata voltaria ao Parlamento, assumindo o lugar de deputado. Ironicamente, foi precisamente a polémica em torno de Hernâni Dias que provocou a sequência de eventos que levou à queda de Luís Montenegro.
Só que o caso Hernâni Dias não se esgota apenas na questão das duas imobiliárias que criou. O ex-secretário de Estado está a ser investigado pela Procuradoria Europeia, órgão que investiga casos que coloquem em causa os interesses financeiros da União, e há suspeitas da alegada prática de crimes de prevaricação, fraude na obtenção de subsídio e corrupção passiva. Não foi, até ao momento, constituído arguido.
Partido sacrificado em nome do Governo
De resto, a renovada aposta em Hernâni Dias não foi a única decisão a motivar algum desconforto e apreensão no partido. A escolha de vários ministros como cabeças de lista ao Parlamento e a colocação de outros governantes em lugares elegíveis acabou por fazer com que, naturalmente, alguns dos atuais deputados descessem na numeração das listas e que outros tenham ficado em posições de difícil eleição.
Ora, isto não tem grande drama se a Aliança Democrática vencer as próximas eleições legislativas. Consequentemente, os candidatos-governantes vão transitar para o Executivo, libertando as vagas ocupadas temporariamente no Parlamento. E foi esse o racional que levou a atual direção do PSD a desenhar a equipa desta forma.
Agora, se as coisas correrem mal, muito dos atuais deputados que deram a cara pelo partido nas últimas legislativas e ao longo dos últimos meses no Parlamento ficarão sem espaço — a bancada social-democrata seria um repositório de ex-governantes. “Isto é tudo muito bonito se vencermos. Se perdermos, ficam lá os membros do Governo a fazer o combate político”, comenta, com alguma ironia, um dos atuais deputados que ficou neste limbo eleitoral.
Durante a sua intervenção inicial no Conselho Nacional, Montenegro justificou a assim a governamentalização das listas: “Mobilizámos para este combate o melhor que temos na nossa estrutura e o melhor que temos na nossa estrutura está muito no nosso Governo. Se há coisa que nós vamos fazer nesta campanha eleitoral é prestar contas do que fizemos e é explicar o que vamos fazer. E nada melhor do que os protagonistas que fizeram e que, se espera, continuem a fazer para poder explicar isso às pessoas”.
Ainda que poucos contestem este argumento — os elementos do Executivo, até pela notoriedade que conquistaram ao longo do último ano, são mais-valias eleitorais, pelo que a aposta de Montenegro surge como natural neste contexto — a verdade é que os elementos que fazem o combate diário em nome do partido acabaram por ser relegados para posições mais secundárias. E isso causa sempre dissabores.
Tal como causou dissabor a saída de Telmo Faria, que, há um ano, foi cabeça de lista pela AD por Leiria, e que agora deixou de ser opção. Segundo apurou o Observador, o antigo presidente da Câmara de Óbidos, uma figura muito querida e respeitada no grupo parlamentar do PSD, até admitia a hipótese de ser segundo na lista por Leiria, atrás da ministra Margarida Balseiro Lopes, mas entendeu que seria uma despromoção ficar atrás de Hugo Oliveira, líder da distrital do partido e número dois na atual lista. Não tendo sido possível chegar a um entendimento entre as partes, Telmo Faria preferiu não ser candidato.
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