1248,2kWh poupados 1248,2 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

As acusações de maus tratos, as assinaturas e a multidão no aeroporto. Como foi o regresso dos quatro ativistas portugueses da flotilha

Três dias após serem detidos, os 4 portugueses que seguiam na flotilha voltaram ao país. Denunciam maus-tratos, acusam Israel de falsificar as suas assinaturas e apontam o dedo ao Governo português.

    Índice

    Índice

Mariana Mortágua, Sofia Aparício, Miguel Duarte e Diogo Chaves já estão de volta a Portugal. Os ativistas portugueses detidos por Israel quando seguiam numa flotilha até Gaza regressaram a casa este domingo, depois de uma detenção de três dias. O grupo foi recebido por uma multidão no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, por volta da meia-noite e admitiu estar orgulhoso da mobilização e da receção que tinham recebido. Os ativistas denunciaram ainda terem sido mal-tratados por Israel e acusaram o país de forjar a sua assinatura em documentos nos quais reconhecem ter entrado ilegalmente em águas israelitas.

A expectativa era elevada. Desde as 12h que se esperava que o grupo de quatro portugueses voltasse para casa, depois de, no sábado, Israel ter começado a expulsar algumas das pessoas detidas na flotilha de outras nacionalidades. Pouco depois, pelas 17h, o Ministério dos Negócios Estrangeiros confirmava: o grupo chegaria ao aeroporto de Lisboa pelas 22h40 e seria recebido pelo secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa.

Pelo menos 443 ativistas detidos e 42 navios intercetados da flotilha para Gaza. E agora? Os próximos passos em seis pontos

A chegada aconteceu dentro da hora prevista e por essa altura uma grande multidão já se tinha formado na zona das chegadas. Ouviam-se cânticos de apoio à Palestina e contra Israel. Depois de aterrarem, os quatro portugueses foram levados da pista num “transporte especial pedido pelo cônsul”, avançou a CNN. Este acompanhou-os durante a viagem, mas terá sido impedido na chegada à Madrid “de continuar ao pé dos quatro portugueses”. Já em Portugal, as primeiras pessoas a reunir-se com os ativistas foram os familiares, numa sala privada.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Foi por volta da meia-noite que Mariana, Sofia, Miguel e Diogo apareceram junto da multidão, a acenar. Surgiram com uma t-shirt branca, com calças cinzentas e de chinelos e ténis. Segundo o jornal El Mundo, que cita alguns dos ativistas espanhóis, Israel não os deixou voltar a mudar de roupa. “Estamos vestidos assim [camisolas, calças e sandálias] porque não nos deixaram trocar de roupa”. “E tiraram-nos os nossos objetos pessoais”, acusaram os ativistas espanhóis.

À espera dos quatro portugueses no aeroporto, além de inúmeros apoiantes (entre os quais os membros do Bloco de Esquerda Francisco Louçã, Luís Fazenda e Andreia Galvão), estava também um cordão policial, que não foi suficientemente forte para segurar o avanço da multidão. Os empurrões entre os agentes da autoridade e alguns jornalistas e apoiantes tornaram-se tão fortes que acabaram por afastar os ativistas, levando Mariana Mortágua a pedir repetidamente “tenham calma”.

Já com a situação mais controlada, a líder do Bloco de Esquerda tomou a palavra. “Esta manhã quando saímos de Israel não fazíamos ideia do que se passava no mundo, estivemos incontactáveis durante vários dias. Poder perceber que a flotilha criou esta mobilização tão grande, perceber que há no mundo — em tanta cidades — quem se esteja a mobilizar contra o genocídio na Palestina é um orgulho”, disse.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Algemados, colocados em jaulas, sem comer nem beber. As denúncias de maus-tratos

Questionada sobre a forma como foram tratados pelas forças israelitas, a bloquista afirmou ter visto “camaradas a serem espancados e levados”. Os ativistas ficaram também “várias horas algemados”, continuou, destacando que foram “provocados por um ministro israelita”. Mortágua referia-se ao vídeo publicado pelo ministro da Segurança Nacional Itamar Ben-Gvir, membro de um dos partidos de extrema-direita que apoia o Governo de Benjamin Netanyahu.

Durante uma visita à prisão, o ministro Ben-Gvir chamou terroristas aos ativistas enquanto estes estavam ajoelhados e eram filmados. Questionado se se sentiu envergonhado nesse momento, Miguel Duarte foi claro: “Não me senti envergonhado, senti-me dignificado, porque de uma pessoa que comete genocídio não queremos nada senão desprezo”, disse, descrevendo o momento como “uma operação fotográfica”.

O ativista denunciou depois os maus-tratos a que foram sujeitos, dizendo que “todos” passaram “fome e sede”, informação que já tinha sido partilhada por Mortágua na carta que escreveu à sua mãe quando estava em cativeiro. “Fomos algemados, vendados e postos dentro de autocarros-prisão. As celas estavam absolutamente sobrelotadas. Alguns de nós estiveram mais de 24h, outros 48h [sem comer]. Houve algumas pessoas com doenças crónicas, como diabetes, que estiveram 3 dias sem receber insulina”, continuou Miguel Duarte.

As primeiras denúncias de maus-tratos já tinham surgido no aeroporto de Madrid, onde o avião em que seguia o grupo português fez escala. Na capital espanhola ficaram 21 ativistas espanhóis. E foram esses os primeiros a dizer que as forças israelitas os agrediram: “Bateram-nos, arrastaram-nos pelo chão, amarraram-nos as mãos e os pés, colocaram-nos em jaulas, insultaram-nos, impediram-nos de dormir, negaram-nos assistência médica.”

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

O grupo, citado pelo jornal El País, disse não ter tido “acesso a água potável em nenhum momento” e que a pouca comida que lhes era dada estava fora do prazo de validade. Além disto, alguns guardas israelitas entraram no “módulo dos homens várias vezes com armas e apontaram-nas para partes vitais, como a cabeça ou o coração”.

Poucas horas depois, vieram as denúncias iguais por parte dos quatro portugueses. “Não existem direitos nas prisões israelitas”, salientou Miguel Duarte. E acrescentou: “Se tivemos alguma proteção foi porque somos europeus e temos mobilizações pelo mundo inteiro em apoio à flotilha.”

Também Mariana Mortágua admitiu que percebeu “a diferença, naquela prisão, entre ser europeu e ser palestiniano”. “Por muito que tenha havido abusos — e houve, muitos – isso deu-nos uma ideia do grau de impunidade das forças israelitas contra palestinianos”. Ainda assim, “claro que valeu a pena” pena integrar a flotilha da Global Sumud, afirmou a líder do Bloco de Esquerda.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Ativistas portugueses e espanhóis acusam Israel de falsificar assinaturas

Os quatro ativistas sublinharam depois várias vezes que se recusaram a assinar os documentos onde se dizia que tinham sido deportados por terem entrado ilegalmente em Israel — “Obviamente que não assinámos”, disse Sofia Aparício. Horas antes, em Madrid, enquanto corria para o voo de ligação com Lisboa, Mortágua também afirmava não ter assinado nada.

Os documentos em questão são um acordo de expulsão voluntária onde quem os assina reconhece ter cometido uma ilegalidade, merecendo, por isso, ser expulso do país. Caso o acordo de expulsão voluntária não seja assinado, a expulsão tem de ser feita por via judicial. Miguel Duarte relatou que durante o transporte da prisão para o aeroporto, na carrinha onde seguia com “alguns camaradas espanhóis”, lhes foram entregues documentos para assinar.

Os papéis “diziam que nós aceitávamos que Israel nos tinha capturado e trazido para Israel de forma legal”, contou, enquanto a multidão vaiava. “Recusámo-nos a assinar e vimos um soldado israelita com os nossos passaportes a falsificar as nossas assinaturas para mostrar que nós aceitámos”, disse. “É preciso ser claro: fomos raptados em águas internacionais e trazidos ilegalmente e contra a nossa vontade para Israel.”

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Declarações semelhantes fizeram os ativistas espanhóis, citados pelo jornal El País: “Assinaram, em nosso nome, uma declaração em que afirmávamos ter entrado ilegalmente em Israel e ser capitães de um barco, quando somos pessoas sem qualquer formação marítima. Colocaram documentos em hebraico à nossa frente, negando-nos o direito a um intérprete. E não tivemos assistência consular porque não permitiram que o cônsul entrasse no porto de Ashdod.”

No total, seguiam na flotilha para Gaza 49 ativistas espanhóis, mas só 21 (os que alegadamente assinaram o acordo) voltaram este domingo para o seu país. Entre os que ficaram estão membros de partidos espanhóis como o Podemos e a CUP. Há alguma confusão sobre qual foi a distinção entre os ativistas que foram deportados e os que ficaram, a não ser que aparentemente os primeiros terão assinado o documento ou alguém o terá assinado por eles.

Na rede social X, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel escreveu que “Israel está ansioso para que todos os participantes desta provocação sejam deportados o mais rápido possível”. No entanto, “alguns deles escolheram deliberadamente prolongar o processo legal de deportação, preferindo permanecer em Israel”, acusa o país, referindo-se a todos os espanhóis que recusaram assinar os documentos (e cuja assinatura não terá sido falsificada).

“Todos os direitos legais dos participantes desta ação de relações públicas são totalmente respeitados. Não acreditem nas notícias falsas que estão a espalhar”, escreve ainda o MNE israelita.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Nós não somos heróis, somos pessoas a fazer aquilo que os nossos governos não estão a fazer”. As críticas aos governos europeus — incluindo o português

Questionados sobre como é serem vistos como heróis pela multidão que enchia o aeroporto Humberto Delgado, Mortágua tomou depois a palavra. “Nós não somos heróis, somos pessoas a fazer aquilo que os nossos governos não estão a fazer”, disse, originando fortes aplausos.

“Quem devia estar a furar o cerco humanitário e a proteger a lei internacional são os governos dos nossos países que se dizem democracias. E porque eles não fizeram isso, cidadãos de todo o mundo organizaram-se para fazer o que os governos não estão a fazer: abrir um corredor humanitário até Gaza”, continuou.

“Isto não é sobre nós”, disse Mortágua, elogiando no entanto o apoio consular dados aos portugueses. Antes da chegada de Mortágua e dos outros três ativistas, Francisco Louçã também tinha elogiado a atuação da embaixadora portuguesa Helena Paiva e do Ministério dos Negócios Estrangeiros. “O Governo fez o que tinha de fazer nos últimos dias [e] o primeiro-ministro não tinha de estar aqui, porque é representado por estes milhares de pessoas”, disse. Contudo, deixou uma crítica a “um ministro, que é contra o reconhecimento do Estado da Palestina, que quis ajudar Netanyahu com uma acusação imbecil de que se tratam de terroristas”.

Louçã referia-se às declarações do ministro da Defesa Nuno Melo, que comparou os ativistas a terroristas do Hamas. Nos últimos dias, Melo também tem estado debaixo de fogo por causa da notícia de que caças F-35 norte-americanos com destino a Israel terão feito escala na Base das Lajes. Informação que Mariana Mortágua terá obtido entretanto, já que no aeroporto criticou o Governo português “que não aplica sanções a Israel, que permite aviões militares passarem por território português e que é cúmplice do genocídio.”

Enquanto Mortágua tecia críticas ao Executivo, a multidão entoava um cântico direcionado ao ministro dos Negócios Estrangeiros. Ouvia-se “Paulo Rangel é um pau mandado do Estado de Israel”.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Para Miguel Duarte, as medidas que alguns países europeus (incluindo Portugal) tomam — como o reconhecimento do Estado da Palestina — são “míseros passos simbólicos” dos governos e que “só aconteceram por causa da mobilização dos movimentos sociais”. “O que isso nos mostra é que os governos são sensíveis à nossa pressão. As mudanças vão deixar de ser simbólicas e vão ser materiais”, sublinhou.

Enquanto os cânticos de apoio à Palestina continuavam, Mortágua pediu depois a palavra, dizendo que enquanto esteve detida especulava muito sobre qual seria “a mobilização em Portugal”. “Falávamos como é que cada país estaria a reagir à flotilha e ao facto de um dos barcos ter conseguido chegar até água palestiniana… Não sabíamos que receção teríamos e queremos agradecer-vos e dizer que estamos juntos e vamos continuar esta mobilização. Palestina livre”, rematou. Falando depois diretamente aos jornalistas, a bloquista garantiu que nos próximos dias os quatro ativistas vão responder a todas as questões, mas que não iriam prestar mais declarações este domingo.

Esta segunda-feira, no Egito, as negociações para a paz irão recomeçar. Estará presente uma delegação de Israel, do Hamas e também dos Estados Unidos da América.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.