Sala cheia, maior comício da campanha. André Ventura está no Algarve, no bastião do Chega, no distrito que lhe deu a primeira vitória eleitoral em 2024. Passam dez minutos das 21h00 e o líder do Chega está a discursar atrás do púlpito transparente montado no palco. Pega no copo de água, dá vários golos seguidos. A plateia grita o nome do partido para a curta pausa. E Ventura retoma. Segundos depois, agarra-se ao peito e desliza a mão até à garganta enquanto se agacha. As pessoas parecem molas, levantam-se de imediato.
Ainda não chegou ao chão e já está a ser amparado por dois dos seguranças privados. “Tapa, tapa, tapa“, ouve-se da voz do responsável máximo pela segurança de Ventura. No fundo da sala — como se ainda não tivesse havido uma real perceção do que se está a passar — ainda se ensaia um grito de Ventura. Dura pouco ou nada. O silêncio fica ensurdecedor por segundos. Nesta altura, ao lado dos primeiros dois seguranças que agarram Ventura já está Luc Mombito, amigo pessoal e responsável por conduzir o carro de Ventura. Pareceu uma eternidade para os dirigentes do Chega, mas tudo aconteceu em segundos. Rapidamente os três levantam o presidente do Chega em braços para o exterior do Centro de Feiras e Exposições de Tavira, que estava cheio — o maior comício da campanha sentava cerca de 400 pessoas.
LUÍS FORRA/LUSA
O alerta é dado pouco depois. Do lado de fora do pavilhão, Ventura está deitado no asfalto, no meio da estrada. Muita gente à volta, praticamente todos os que fazem parte da comitiva mais próxima estão ali. Tenta-se (sem grande êxito) que as pessoas fiquem no interior e que não se cause um imenso aparato por ali. Abrem-se os portões que estavam entreabertos e aguarda-se a ambulância, já que não havia nenhuma no local. Um médico e uma enfermeira do Chega, que ali estavam para festejar, chegaram-se à frente para ajudar.
Ventura queixa-se de dores. Lá fora, apesar de confuso, está consciente. Esteve sempre durante todo o tempo. Quem ali estava ouvia a voz do presidente do Chega sem que se percebesse o que dizia. A primeira ambulância, dos Bombeiros Municipais de Tavira, chega às 21h22. Quando estaciona, Ventura tinha-se levantado há pouco tempo, amparado por quem estava à sua volta. Cinco minutos depois junta-se a uma segunda ambulância, do INEM. O procedimento é todo feito na primeira viatura, mesmo quando se junta à equipa a Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER).
Neste momento da noite já estava criado uma espécie de cordão de segurança com um dos carros dos seguranças atravessado de modo a não deixar ninguém passar. As movimentações não param. Figuras como os deputados Pedro Santos Frazão, Marta Trindade ou Patrícia Carvalho estão a assistir de tudo na primeira linha, à porta da ambulância. Os semblantes são pesados. Mas não dramáticos. Quem está do outro lado da ambulância sabe que Ventura aparenta estar estável.
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Ventura queixou-se de dores no peito e, como contou o Observador, fez um eletrocardiograma no local, que teve um resultado normal, sem registo de alterações. Depois disso, às 22h06, em marcha lenta, as três viaturas médias, escoltadas pelos seguranças de Ventura, abandonaram o recinto. Coube a Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega e cabeça de lista por Faro, dar notícias: “Como se aperceberam, o nosso líder teve um problema“, começou por dizer, sublinhando que “está em avaliações” e “foi para o hospital”. “Quero tranquilizar-vos e dizer que ele está bem, que está consciente, que esteve a falar connosco e disse-nos uma coisa muito importante: Não desistam que vamos ganhar as eleições do próximo dia 18 de maio”, afirmou, numa tentativa de descansar quem ali estava.
A chegada ao Hospital de Faro acontece às 22h40 e, algum tempo depois, é o próprio o médico Christian Chauvin, que viajou com Ventura na ambulância, que falou aos jornalistas para garantir que estava “tudo bem” com o líder do Chega, que o “socorro foi rápido” e que “correu tudo otimamente bem”. Mais tarde, seria confirmado que Ventura iria mesmo passar a noite no Hospital de Faro para observação.
Em Tavira, o jantar-comício prosseguia, mais ou menos dentro da normalidade. Mas antes, quando ainda Ventura estava a ser assistido, havia lágrimas e rezas. “Ai, meu Deus, ainda bem que marquei o hotel aqui. Eu sabia que não ia voltar para Albufeira hoje, sabia que tinha de estar aqui”, atirava uma militante, com as lágrimas a escorrer pelo rosto enquanto o grupo procurava imagens no momento nas redes sociais. Como é normal nestas alturas, todos têm uma tese e uma opinião. E com Ventura dentro da ambulância e sem grandes novidades, cá fora as conversas vão-se dividindo entre quem teoriza sobre a água que o presidente do Chega bebeu antes de se sentir mal ou se alguém lhe tentou fazer mal — nenhuma das duas parece estar em causa.
O Observador sabe que André Ventura, minutos depois do sucedido, e quando se sentiu melhor, quis regressar ao jantar-comício e não ir para o hospital. A equipa médica não permitiu e foi mesmo encaminhado para o Hospital de Faro, onde que ficará a dormir.
A agenda de campanha, revelou a comitiva do Chega, vai manter-se para a parte da tarde, com a única arruada que estava marcada para este dia, em Vila Nova de Mil Fontes. Uma outra ação de campanha que chegou a estar prevista, com a informação de que seria num “local a definir” às 11h00 simplesmente fica sem efeito. Nos últimos dias, a agenda de campanha do Chega acelerou, até com ações de campanha que não estavam previstas e foram anunciadas poucas horas antes de acontecerem. Ainda assim, durante as duas arruadas do dia, André Ventura não mostrou quaisquer sinais de cansaço — em campanha até já disse que era necessário um esforço para chegar ao máximo de pessoas possível. E na comitiva não tinham sido levantados sinais de alerta.
Reações dos líderes políticos não tardaram
Ainda André Ventura estava dentro da ambulância e já Luís Montenegro estava a reagir na rede social X. Foi informado do sucedido durante um jantar-comício e enviou “o desejo de rápido restabelecimento, esperando que não seja nada grave”.
Também o presidente da Iniciativa Liberal deixou desejos de “rápidas melhoras” a André Ventura, “esperando que não seja nada de grave”. O mesmo fez Nuno Melo, presidente do CDS-PP, que também recorreu às redes sociais para desejar as melhoras a André Ventura. “Acabo de tomar conhecimento de que André Ventura se sentiu mal durante uma iniciativa de campanha. Em nome do CDS desejo uma rápida recuperação”, escreveu Nuno Melo na rede social X. Nuno Melo que começou a discursar no comício da AD minutos antes da notícia circular e, sem saber que Ventura enfrentava problemas de saúde, atacou-o no palco, chamando-lhe inclusive “oportunista”.
À entrada do comício na Aula Magna, em Lisboa, o líder do PS também desejou que André Ventura “melhore rápido”.
Entretanto, com Ventura já no hospital, Pedro Pinto seguiu com o discurso no comício, agradeceu a preocupação de todos, com foco nas chamadas que recebeu de “todos os quadrantes políticos”. “Já recebemos chamadas de força. Isso significa que na política nós não temos de ser inimigos. Temos de respeitar as ideias, temos de saber que cada um tem a sua ideia”, referiu, sublinhando que “houve um respeito muito grande de todos os partidos políticos pelo nosso líder André Ventura.”