Ninguém sabe como vão acabar, mas todos têm uma certeza: as eleições presidenciais para eleger o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa vão ser decididas a duas voltas, cenário que baralha todas as contas, que obriga a ponderar todas as hipóteses e que tem o potencial de transformar vitórias em derrotas e derrotas em vitórias. Sobretudo numa altura em que o grande favorito — André Ventura — é também aquele que tem maiores índices de rejeição. Este paradoxo faz com que os adversários diretos do líder do Chega compitam entre si e se concentrem, essencialmente, em passar à segunda volta. Depois, tudo pode acontecer.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
André Ventura. Passar à segunda volta e ser o centro do regime
Derrota: Ficar pela primeira volta
Mínimos olímpicos: Passar à segunda volta
Vitória: Vencer a primeira volta
Para André Ventura, é inevitável comparar o resultado histórico que o partido teve nas últimas legislativas e a prestação que vai ter nestas eleições presidenciais. Neste caso, a aritmética joga a favor do líder do Chega: se conseguir garantir a fidelidade dos eleitores do Chega, e as sondagens apontam nesse sentido, André Ventura tem tudo para ficar perto dos quase 23% que conseguiu nas últimas eleições e vencer a primeira volta das presidenciais.
É este, pelo menos, o cenário-base em que vai trabalhando Ventura. Pelas mesmas razões, e tendo em conta a enorme fragmentação de candidaturas que competem entre si e parecem não conseguir afetar o núcleo duro de eleitores do Chega, o mínimo olímpico desta candidatura é mesmo garantir a passagem à segunda volta. Não sendo o brilharete que André Ventura persegue, não deixaria de ser um resultado impressionante quando comparado com aquele que o mesmo André Ventura teve há cinco anos, em que foi ‘apenas’ o terceiro candidato mais votado, com 11,90% e cerca de 500 mil votos.
De resto, o líder do Chega parte para estas eleições numa situação atípica: passar à segunda volta seria ótimo; ganhar as presidenciais nem por isso, uma vez que o afastaria do lugar que verdadeiramente ambiciona, o de primeiro-ministro. Tendo em conta os níveis de rejeição que apresenta, esse cenário parece afastado à partida, pelo que Ventura está particularmente confortável nesta eleição. Tem tudo para abanar o sistema e reclamar esse mérito, dizer que todos os outros se uniram para o derrotar na segunda volta, voltar a vestir o fato de líder de oposição com a autoridade reforçada de quem ficou à frente dos candidatos de PS e PSD e insuflar a ambição de chegar a primeiro-ministro.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Luís Marques Mendes. A pensar na vitória final
Derrota: Não passar à segunda volta
Mínimos olímpicos: Passar à segunda volta
Vitória: Ser Presidente da República
Foi há mais de dois anos, em agosto de 2023, que Marques Mendes admitiu pela primeira vez em público a possibilidade de se candidatar à Presidência da República. Antes disso, já trilhava há mais de uma década o caminho como comentador televisivo, que lhe trouxera uma enorme notoriedade. Mas o arranque como candidato acabaria por ser morno: as sondagens, hiperfavoráveis ao almirante, indiciavam que Mendes não convencia nem o próprio partido na totalidade.
Os ventos foram mudando, Mendes foi subindo a pouco e pouco nas sondagens – enquanto via Gouveia e Melo, indiscutível nos primeiros estudos de opinião, em queda livre – e encontra-se agora em posição de discutir o primeiro lugar nestas eleições. No radar das sondagens publicado pelo Observador, que soma os resultados dos últimos estudos de opinião, consegue 20,18% das intenções de voto, ficando a uma décima de André Ventura.
Assegurar que fica em primeiro lugar na primeira volta seria um bom desfecho. Mas Mendes tem aqui uma dupla responsabilidade: além de ser o único, aparentemente, em condições reais de disputar o primeiro lugar com Ventura, tem também apoio da AD e de toda a máquina do Governo, incluindo o do primeiro-ministro, numa fórmula que já garantiu três vitórias em quatro eleições possíveis. Ora, e até pelo que se disse acima sobre as taxas de rejeição de Ventura, Marques Mendes tem, neste momento, condições excecionais para ser o próximo Presidente da República — mais do que qualquer outro candidato.
Num cuidadoso processo de gestão de expectativas, Mendes não se tem cansado de dizer e repetir que tem todos os motivos para estar “tranquilo” e otimista com as sondagens porque estas colocam-no na segunda volta – e, numa corrida tão dividida como esta, é isso que verdadeiramente interessa. Mendes tem ganhado muito terreno nas sondagens, mas não com margem suficiente para excluir realisticamente a hipótese de ficar em segundo lugar.
Já se ficar abaixo do segundo lugar na primeira volta não haverá forma de vender o resultado como outra coisa que não uma colossal derrota. Afinal, trata-se do candidato com o mais vasto currículo político, antigo líder do PSD, apoiado pelo partido do Governo e com uma ampla notoriedade no país, ingredientes que teoricamente lhe poderiam garantir um bom avanço.
Desde que a tendência de vitória de Gouveia e Melo se inverteu nas sondagens que Mendes vai garantindo que os adversários se sentem ameaçados e por isso resolvem atacá-lo, revelando mesmo um certo “desespero”. A verdade é que o social democrata tem sido o alvo preferido de vários concorrentes a Belém e sabe que, numa altura em que o sentimento anti-políticos ganha força e em que é visto como um candidato do “sistema”, as acusações e insinuações lançadas contra a sua carreira como consultor (ou “facilitador”, segundo o almirante) podem prejudicá-lo. É importante não cometer erros nas próximas semanas e manter a tendência favorável mostrada pelas sondagens, sob pena de, numa corrida tão concorrida, tropeçar e cair para o terceiro lugar.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
António José Seguro. Reeditar a história e repetir Soares
Derrota: Não passar à segunda volta
Mínimos olímpicos: Passar à segunda volta
Vitória: Vencer a primeira volta
O regresso à política passados dez anos de ausência e logo para um palco principal é um passo ambicioso mesmo para alguém experimentado na matéria como é o socialista António José Seguro. Já foi quase tudo na vida política nacional (deputado, eurodeputado, governante, líder de partido), mas nunca chegou a concorrer como cabeça de cartaz — foi deposto como líder do PS mesmo antes de conseguir candidatar-se em legislativas. Regressa com um quadro político muito distante daquele que deixou em 2014 e com sondagens que, na sua maioria, são pouco animadoras.
Ainda que pareça ter recuperado na reta final de uma pré-campanha que se arrastou durante largos meses — é neste momento terceiro na média ponderada de todas as sondagens, o ponto de partida não é o melhor. Apesar de tudo, a candidatura do socialista segue de olhos postos nos 8% com que Mário Soares partiu nas eleições de 1986, que acabou por vencer. Mesmo que em condições muito diferentes, um candidato apoiado pelo PS tem, por natureza, a fasquia elevada e não conseguir repetir o feito do fundador em 86 será uma derrota.
A passagem à segunda volta é o mínimo que Seguro pode ambicionar nestas presidenciais. Afinal, as tais “condições muito diferentes” que traz em relação a Soares jogam a seu favor. Não tem o histórico de uma governação atribulada (com o FMI e austeridade) que o fundador do partido trazia naquela altura, nem mesmo uma divisão fratricida no partido com outro socialista concorrente. Ainda assim, para a passagem à segunda volta vai ter de fazer a esquerda esquecer alguma passividade na relação com Pedro Passos Coelho e a consequente desconfiança que levantou no seu próprio partido (onde ainda resistem alguns anticorpos à sua candidatura).
As condições gerais tornam uma miragem a vitória à primeira volta, mas quem se mete com o PS leva com as fasquias que se exigem ao partido em qualquer eleição. E os socialistas precisam de boas notícias, o pior que lhes podia acontecer era verem André Ventura voltar a ultrapassá-los e a consolidar o seu lugar de líder da oposição. Seguro quer ser um candidato suprapartidário e convencer todos de alguma virgindade política, mas leva todas estas dores e fasquias partidárias às costas.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Gouveia e Melo. Rumar contra a maré e garantir lugar na finalíssima
Derrota: Ficar abaixo do segundo lugar
Mínimo olímpico: Passar à segunda volta
Vitória: Vencer a primeira volta
Apesar de Gouveia e Melo ser um challenger num mundo de partidos, desde muito cedo se percebeu que o almirante seria mais que um mero independente ou uma espécie de reencarnação de Fernando Nobre. Desde logo, tinha a notoriedade (atingida na pandemia), uma rede de apoios de autarcas, construída durante o processo de vacinação, e uma imagem pública de autoridade e retidão que aparentemente correspondiam à mudança de ciclo pela qual os portugueses pareciam suspirar depois de dez anos de um afetuoso, mas omnipresente Marcelo. As sondagens — liderou quase sempre até novembro de 2025 — deram-lhe o lastro que faltava.
Os últimos meses mostraram, no entanto, que Henrique Gouveia e Melo podia, afinal, personificar o retrato queirosiano de Gonçalo Mendes Ramires, citado na mensagem de Ano Novo do ainda Presidente da República: “fogacho e entusiasmo” que “acaba logo em fumo”. A queda nas sondagens foi a pique, a aura esfumou-se, mas a estrutura de campanha de Gouveia e Melo trabalha para passar à segunda volta (contra Ventura ou Mendes) e, depois disso, ser eleito Presidente da República.
Por toda a expectativa, por ainda estar no pelotão da frente e nas margens de erro para ir para a fase seguinte, qualquer cenário que não seja a passagem à segunda volta será uma derrota — que provavelmente ditará o fim da sua aventura política. Essa derrota pode ser mais ou menos honrosa: mais trágica se vier a ficar em quarto ou em quinto, mais honrosa se ficar em terceiro próximo dos adversários que passaram à segunda volta.
O mínimo olímpico para o almirante será, assim, passar à segunda volta. Tendo em conta as más prestações nos debates e em algumas das entrevistas, conseguir ir disputar a eleição na ronda seguinte será o mínimo para fazer dele mais que uma nota de rodapé na história da política portuguesa contemporânea. Embora não dependa dele diretamente, passar em segundo lugar com André Ventura em primeiro seria um resultado razoável que podia impulsionar um resultado extraordinário.
É aí que chega ao cenário de vitória. Olhando a todo o histórico desta eleição, Gouveia e Melo só poderá considerar-se verdadeiramente um vencedor se estiver à altura das expectativas que ele próprio criou — no debate com Seguro, reclamou para si a representação do PS; no frente a frente com Mendes, chegou a mesmo a dizer que estava nesta eleição também para o derrotar. Será a diferença entre entrar na História de Portugal como sucessor na chefia de Estado do longínquo do D. João II — com quem se chegou a comparar — e não como um Fernando Nobre II.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Cotrim de Figueiredo. Nadar na piscina dos grandes
Derrota: Ficar abaixo de 9,09%
Mínimos Olímpicos: 12% e ficar mais perto dos quatro da frente
Vitória: Entrar no top 4
Ainda faltam duas semanas para se saber o resultado da primeira volta, mas João Cotrim de Figueiredo já garantiu duas vitórias políticas nesta pré-campanha. A primeira foi passar a nadar na piscina dos grandes: furou a barreira que o separava dos quatro candidatos da frente (Ventura, Marques Mendes, Seguro e Gouveia e Melo), aparecendo mesmo numa sondagem a ultrapassar Seguro e noutra em empate técnico com quem pode seguir para a segunda volta. A outra vitória é a liderança no voto jovem, sublinhada também pelos estudos sobre intenções de voto, que resultará do discurso, mas também da força e inovação da campanha nas redes sociais.
A única forma de não ser esmagado pelo voto útil é continuar a vender com convicção a esperança de que pode passar à segunda volta. Ao fazer subir as expectativas desta forma, até parece que será uma grande derrota se não conseguir, mas é difícil escrever isso depois de recordar os números que lhe servem de ponto de partida.
João Cotrim de Figueiredo é o ex-líder de um partido que teve 5,36% dos votos nas últimas legislativas, o que levou até o seu sucessor (Rui Rocha) a demitir-se da liderança, por não ter conseguido crescer mais. A Iniciativa Liberal é o quarto partido mais votado, mas é também ainda o primeiro dos pequenos, tão grande é a diferença para AD, Chega e PS (e tão reduzida tem sido a sua margem de manobra para influenciar as grandes decisões do país).
Nas europeias de 2024, com Cotrim como cabeça de lista, a IL tinha conseguido 9,08%, pelo que qualquer resultado inferior, tendo em conta as expectativas que estão a ser geradas, poderá ser considerado uma derrota. Neste momento parece improvável segundo as sondagens, mas caso a pressão do voto útil o viesse a colocar abaixo dos 5,36% da IL nas legislativas, mais do que uma derrota seria o embaraçoso fim do mito de que Cotrim vale mais do que o partido.
Os mínimos olímpicos passam então por acrescentar eleitores à votação máxima da IL, passando para a casa das dezenas, e ficando mais perto do pelotão dos quatro da frente (mesmo que surja em 5.º lugar) do que dos restantes candidatos que eventualmente ficarem atrás de si, nomeadamente o trio da esquerda. Uns 12% podem ser suficientes para garantir esse objetivo.
Conseguir passar à segunda volta seria épico, claro. Mas nem precisa de tanto para ser considerado um dos vencedores políticos da noite de 18 de janeiro. Entrar no top dos quatro candidatos mais votados e ultrapassar qualquer um entre Ventura, Marques Mendes, Seguro ou Gouveia e Melo já seria um feito político assinalável, além de um bom negócio para a companhia aérea que teria de o trazer mais vezes de Bruxelas a Lisboa — até ficar de vez para voltar a assumir os destinos da IL em próximas campanhas.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Catarina Martins. Contrariar as notícias da morte do Bloco
Derrota: Ficar atrás de Jorge Pinto ou de António Filipe
Mínimos olímpicos: Melhorar a votação que teve como cabeça de lista às europeias
Vitória: Liderar a esquerda à esquerda de Seguro
Catarina Martins já disse que “lutará para estar na segunda volta”, mas não existe qualquer elemento que aponte sequer esse cenário como vagamente provável, pelo que é justo dizer que a verdadeira ambição da bloquista é outra: relançar o partido e, com isso, liderar o espaço à esquerda do PS, coisa que hoje em dia não acontece.
Se ficar à frente de Jorge Pinto ou de António Filipe, Catarina Martins cumpre as expectativas que o Bloco de Esquerda pode ter para esta eleição. Tudo o que não seja este resultado, seria uma derrota para ela e para a força que representa: é que os seus adversários diretos não têm metade da sua notoriedade, lastro político e peso institucional nos respetivos partidos.
A eurodeputada terá uma vitória pessoal se, além de liderar o pelotão da esquerda, conseguir melhorar a votação que teve como cabeça de lista às europeias de 2024 (4,25%) e do resultado que teve nas legislativas de 2022 (4,40%). Para o Bloco de Esquerda, seria um alívio perceber que existe alguma margem para acreditar em tempos menos sombrios.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
António Filipe. Reforçar o PCP na resistência
Derrota: Ficar atrás de Jorge Pinto ou de Catarina Martins
Mínimos olímpicos: Fazer melhor do que João Ferreira
Vitória: Liderar a esquerda à esquerda de Seguro
Numa eleição em que praticamente todos os partidos com representação parlamentar avançaram com um nome para a corrida a Belém, é difícil não confundir os objetivos de cada candidato com os da força política que representam. E isso aplica-se também a António Filipe: acabar atrás de Jorge Pinto e de Catarina Martins (ou, claro, de ambos) seria uma inequívoca derrota para o comunista.
Nas últimas cinco vezes em que o país foi chamado às urnas, os comunistas não foram além dos 5%, e nem o resultado de João Ferreira nas presidenciais de 2021 (4,32% dos votos) permite pôr a bitola muito alta. Vencer o campeonato à esquerda de Seguro, mesmo sendo o mínimo aceitável, já daria para encarar a noite como satisfatória. Ter uma percentagem de votos acima da conseguida por João Ferreira há quatro anos seria uma excelente notícia para o partido.
Mesmo que o PCP vá celebrando a “resistência” quando muitos lhe vão ditando a morte, não será fácil chegar à noite de 18 de janeiro e encontrar mais do que um sorriso amarelo na cara de António Filipe e Paulo Raimundo. É que se é verdade que o comunista até pode sair beneficiado por uma eventual rejeição de António José Seguro por parte dos eleitores da esquerda, isso significaria que esse espaço político não chega à segunda volta e continua afastado do Palácio de Belém, de onde saiu há 20 anos e não mais voltou.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Jorge Pinto. Comprovar a força da marca
Derrota: Ficar atrás de António Filipe e Catarina Martins
Mínimos olímpicos: Liderar a esquerda à esquerda de Seguro
Vitória: Conseguir mais do que Rui Tavares
Há pouco mais de um mês, Jorge Pinto era praticamente um desconhecido do grande público — aliás, a sua candidatura só foi lançada a 1 de novembro de 2025. Mas Jorge Pinto representa uma marca — o Livre — em franca expansão no campeonato da esquerda. Não só é o partido com mais deputados no Parlamento, como tem sondagens que o dão muito perto da Iniciativa Liberal e na iminência de se transformar na quarta força mais votada.
Ou seja, tendo em conta o atual equilíbrio de forças à esquerda, Jorge Pinto tem, em teoria, condições para ficar à frente de António Filipe e de Catarina Martins. Acontece que as sondagens não apontam nesse sentido, o que, a confirmar-se, pode significar uma derrota perfeitamente dispensável para o partido liderado por Rui Tavares. Pelas mesmas razões, o mínimo olímpico é mesmo manter a hierarquia à esquerda e superar os seus dois rivais diretos, liderando o espaço à esquerda do PS e de António José Seguro.
Atendendo aos estudos de opinião, seria uma vitória assinalável se Jorge Pinto conseguisse manter a base eleitoral das últimas eleições legislativas e conseguir superar o resultado de Rui Tavares (4,07%), de longe uma figura mais conhecida dos eleitores e com anos de exposição mediática. Para o candidato, seria um sinal encorajador para o futuro; para o partido, seria a prova de que a marca ‘Livre’ está bem e recomenda-se.