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Donald Trump chamou-lhe o “Dia da Libertação”. Para os mercados, a imposição de novas tarifas a 2 de abril pareceu mais uma revolução, com as bolsas a registarem perdas consideráveis. Mas a maioria dos norte-americanos comuns ainda não sabe bem o que pensar.
“Estamos a enfrentar a incerteza de como é que as tarifas de retaliação [dos outros países] vão afetar os nossos maiores custos, que são com a alimentação dos animais”, comentava há poucos dias Wendy Brugh, dona de uma quinta na Carolina do Norte, com a ABC. A agricultora não está otimista: “É como por sal numa ferida que só agora começava a sarar.”
Nem todos, porém, veem com maus olhos o anúncio do Presidente. Frank Parker comparou o momento em que Trump anunciou as tarifas ao de “ver o sol ao sair de um túnel”. Mariscador de camarão no Mississippi, há muito que se sentia esmagado pela concorrência do camarão vindo de países como o Vietname e a Indonésia, como contou ao New York Times. Agora tem esperança de que possa respirar e conseguir passar a vender mais ou a conseguir aumentar os preços.
▲ Donald Trump anunciou as novas tarifas a 2 de abril, no Rose Garden da Casa Branca
KENT NISHIMURA / POOL/EPA
Os norte-americanos estão ainda divididos sobre o que pensar em relação às tarifas anunciadas pelo seu chefe de Estado. Os economistas e os mercados alertam para tempos difíceis adiante, com uma possível recessão no horizonte. Poderá isso traduzir-se numa descida dos índices de popularidade de Donald Trump? A resposta dos especialistas ouvidos pelo Observador é de que não é assim tão simples. Tal como para os pequenos empresários, vai ser preciso esperar para ver.
O “benefício da dúvida” habitual e o “barulho sem grandes consequências”: como a taxa de aprovação de Trump pode não ser afetada pelas tarifas
Quando tomou posse, Trump gozava de uma taxa de aprovação positiva, com mais norte-americanos a manterem uma visão otimista face à sua presidência do que negativa. Em inícios de março, a taxa de aprovação começou a baixar. Poderá essa tendência acentuar-se com o impacto das novas tarifas?
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John Miles Coleman, um dos responsáveis da Sabato’s Crystal Ball (um dos centros de política e sondagens mais respeitados dos EUA, na Universidade da Virgínia), dá uma pista: “Um dos padrões que notei no que diz respeito às sondagens sobre Trump é que a sua taxa de aprovação geral é habitualmente mais alta do que a avaliação [dos eleitores] sobre a forma como lida com a economia”, nota o analista ao Observador.
“Isto é interessante, sobretudo porque a economia foi essencialmente o tema que o fez vencer as eleições. O que pode explicar esta diferença? Bem, creio que alguns dos eleitores continuam a dar-lhe ‘o benefício da dúvida’”, explica. “Pensam que ele é um homem de negócios e, portanto, sabe o que está a fazer neste tipo de questões, mesmo quando parece que não.”
Não é que a confiança dos eleitores nesta área seja muito positiva para Trump. Num dos estudos mais recentes, só 26% dos inquiridos considerava que o estado atual da economia americana é “excelente” ou “bom”. Já o índice de expectativas dos consumidores caiu mais de 30% desde a eleição.
E, no entanto, Coleman diz que não é possível dizer taxativamente que a opinião pública vai ficar desagradada com Trump depois do “Dia da Libertação”. Jon McHenry, vice-presidente da empresa de sondagens North Star Opinion Research, também diz ao Observador que “ainda é demasiado cedo” para perceber se as tarifas vão pesar negativamente na opinião sobre o Presidente. “As sondagens de qualidade só estarão disponíveis no final desta semana, na melhor das hipóteses”.
Russell Riley, especialista em História Presidencial nos EUA, também considera que é demasiado cedo — mas dá uma visão mais macro, não tão relacionada com os estudos de opinião: “Acho que o americano comum, que não tem muito conhecimento sobre História Económica, não sabe o que esperar das tarifas”, começa por dizer ao Observador o professor, que analisou em profundidade as presidências de Bill Clinton e George W. Bush.
“Com a agitação mediática em torno disto, não vai diferir muito de outros episódios de caos associados a esta Casa Branca, vai parecer mais do mesmo: barulho sem grandes consequências”, acrescenta. O que não significa que não venha a ter um efeito mais negativo para Trump no futuro, alerta: “O problema vai surgir quando os americanos perceberem o efeito das tarifas que a maioria dos economistas dizem que vai acontecer: um aumento de preços no supermercado ou no stand de automóveis. Se isso acontecer, vai inevitavelmente ter um efeito adverso na posição do Presidente.”
Wall Street em pânico, dúvidas na Casa Branca e um Presidente resoluto
Neste momento já existe um grupo a reagir muito negativamente ao anúncio das taxas: os milionários e investidores que já registaram perdas consideráveis desde o dia 2 de abril.
Bill Ackman, presidente da gestora Pershing Square e uma das vozes mais mediáticas de Wall Street, foi um dos mais críticos: “Não foi nisto que votámos. Na segunda-feira o Presidente teve a oportunidade de pedir uma pausa e ter tempo para resolver o injusto sistema de tarifas. Em vez disso, estamos a caminhar para um inverno económico nuclear, auto-infligido”, escreveu no X o milionário. “Espero que prevaleçam as cabeças frias.”
“Não foi nisto que votámos”. Multimilionários que apoiaram Trump estão a virar-se contra ele
Não foi o único. À agência Bloomberg, vários investidores ventilaram as suas críticas a esta política: “Acordo às quatro da manhã a pensar nisto”, disse o conselheiro de investimento Richard Steinberg, que classificou a política de tarifas como não tendo “sofisticação”. Já Jay Hatfield, CEO da Infrastructure Capital Advisors, foi ainda mais taxativo: “Isto é inequivocamente estúpido”, disse à agência, antes de apelidar o quadro apresentado por Trump no “Dia da Libertação” no Rose Garden da Casa Branca como “o quadro da morte”.
A reação dos mercados financeiros é de facto tremenda — não se registando quedas tão acentuadas nas bolsas mundiais desde 2020, altura da pandemia de Covid-19. Com uma nuance: “Normalmente, quando há uma queda terrível das bolsas, é porque um banco faliu ou há uma pandemia ou um furacão”, notou à CNN o antigo secretário do Tesouro Lawrence Summers. “Não costumamos ter estas respostas do mercado financeiro em reação a políticas das quais o Presidente dos Estados Unidos está orgulhoso.”
▲ A reação dos investidores e dos mercados às tarifas não tem sido positiva
SARAH YENESEL/EPA
Não há dúvidas de que Trump está orgulhoso. Na sua rede social, a Truth Social, escreveu: “ESTA É UMA REVOLUÇÃO ECONÓMICA E VAMOS VENCER. MANTENHAM-SE FIRMES, não vai ser fácil, mas o resultado vai ser histórico.” Questionado pelos jornalistas no Air Force One, já enquanto as bolsas caíam, o Presidente reforçou a mensagem: “Não quero que nada [como a bolsa] desça. Mas às vezes é preciso tomar um remédio para curar alguma coisa.”
Em público, o seu governo acompanhou a mensagem otimista: “Não vamos adiar nada. [As tarifas] vão continuar durante dias e semanas, é óbvio”, afirmou Howard Lutnick, secretário do Comércio, em entrevista no Face the Nation (CBS). Outros ministros, como o secretário do Tesouro Scott Bessent, introduziram alguma nuance, dizendo que os EUA estão abertos a negociar individualmente com cada país. Brooke Rollins, o responsável da Agricultura, garantiu até que isso já está a acontecer: “Temos 50 países a telefonar a toda a hora para a Casa Branca.”
Na equipa interna do Presidente, a estratégia é esperar que os mercados acalmem: “Isto é um detox, vai melhorar”, previu um conselheiro de Trump ao Axios. Mas, segundo o Politico, a Casa Branca não está tão unida como parece. O jornal cita fontes que garantem que, pouco antes do “Dia da Libertação”, o vice-presidente JD Vance, a chefe de gabinete Susie Wiles e alguns ministros continuavam com muitas dúvidas relativamente à decisão do Presidente. “Ninguém sabe o que raio se passa”, resumiu uma das fontes. “Vão taxar o quê? Quem? Com que taxas? Essas questões ainda não foram respondidas.”
Acabariam por sê-lo no discurso de Trump no Rose Garden, apesar das muitas dúvidas que surgiram mais tarde sobre os critérios aplicados. A reação dos mercados, contudo, pode estar a assustar membros da equipa presidencial. Stephanie Ruhle, jornalista da MSNBC, garante que o secretário do Tesouro, por exemplo, “está à procura de uma saída” e pode estar de olho num lugar na Reserva Federal.
Com as eleições intercalares ao virar da esquina, irão as tarifas dividir o Partido Republicano?
O receio estende-se ao resto do Partido Republicano. “Se as tarifas tiverem um impacto inflamatório — ou um impacto nas taxas de juro que provocaram a inflação e a economia passe a caminhar para uma recessão — isso seria muito mau”, avisou o senador republicano John Kennedy. “Isso levaria a presidência Trump de um mandato de quatro anos para um de dois, porque perderíamos as eleições intercalares”, avisou.
Kennedy não é o único senador com esse medo. Rand Paul sublinhou que, apesar de apoiar o Presidente, está descontente — “não quero viver sob estado de emergência”, disse. Ted Cruz afinou pelo mesmo tom: “Se estivermos no meio de uma recessão e as pessoas estiverem a sofrer, vão castigar o partido que está no poder.”
As críticas, porém, foram contidas. Jon McHenry acredita que, por enquanto, se manterão assim: “Os republicanos eleitos vão manter um discurso manso. Mas se surgirem consequências graves para a economia, aí vão gradualmente tornar-se mais vocais, sobretudo aqueles que vão a votos para o ano.”
Com as eleições intercalares marcadas para 2026, muitos congressistas olham com receio para esse cenário. Por agora, a Câmara dos Representantes parece estar solidamente com Trump, havendo movimentações apenas de alguns senadores — Chuck Grassley, por exemplo, apresentou uma proposta com a democrata Maria Cantwell para que o Congresso tenha controlo sobre as tarifas. Alguns colegas republicanos demonstraram apoio público à proposta; outros estão apenas a apoiar na sombra. “Alguns colegas republicanos dizem-nos à porta fechada ‘Continuem, continuem a fazer isto’”, comentou com o Politico a senadora democrata Amy Klobuchar.
Art Pope, um dos maiores financiadores do Partido Republicano, deixou claro ao Financial Times o seu descontentamento com a política de tarifas. “O Presidente Trump está errado”, disse. “O movimento conservador, o Partido Republicano, está a fraturar-se, a dividir-se entre conservadores tradicionais ‘à Reagan’, que acreditam na liberdade e em menos Estado, e os apoiantes nacionalistas e populistas de Trump, que acreditam que o governo deve usar o poder para impor a sua visão do que é melhor para a sociedade.”
▲ O senador Chuck Grassley (à direita) apresentou uma proposta de lei para o Congresso passar a ter controlo sobre a política de tarifas
Getty Images
Essa divisão pode existir internamente, mas o historiador Russell Riley concorda com McHenry: a posição dos congressistas do Partido Republicano mudará ou não consoante o cenário económico.
“O Presidente tem tido um apoio quase sem precedentes dos republicanos no Congresso que se pode manter intacto”, começa por reconhecer o professor. “Mas eles podem tirar conclusões da reação dos mercados e vê-la como um indicador. Se os mercados continuarem a cair, provavelmente [os congressistas] vão assinalar à Casa Branca que é preciso encontrar uma alternativa — algo que muitos dos maiores financiadores [do partido] já fizeram. Mas, mesmo que a Casa Branca faça ajustes, vai continuar a dizer que ‘Tudo fazia parte do plano’.”
Tarifas, uma “matéria de fé” para Trump que se foca na big picture
Investidores e congressistas republicanos podem estar descontentes com a política de tarifas de Trump. Mas voltemos à questão do início deste texto: e os eleitores?
Entre os especialistas, não há consenso. John Miles Coleman diz que até agora os norte-americanos deram ao Presidente “o benefício da dúvida”, mas isso pode mudar “se continuar a haver agitação nas bolsas ou se os eleitores começarem a ser atingidos por preços mais altos como resultado das tarifas”.
Já Adam Geller, estratega republicano, acredita que há um sentimento mais profundo de lealdade que se vai manter: “Os eleitores na América estão habituados a que os media proclamem que as políticas de Trump vão trazer a ruína”, nota ao Observador o analista político. “Os [americanos] trabalhadores aprovam as políticas do Presidente, porque sentem que ele está preocupado com os seus interesses, enquanto que os presidentes anteriores os ignoraram.”
▲ Donald Trump está confiante de que os eleitores irão esperar para ver os resultados a longo prazo da política de tarifas
YURI GRIPAS / POOL/EPA
Ideia partilhada pelo congressista republicano Blake Moore, que previu que, desde que os eleitores “vejam a big picture”, irão “continuar a apoiar” Trump. É essa a mensagem atual do Presidente, que continua a sublinhar que, mesmo que as tarifas causem dor num primeiro impacto, a longo prazo irão reforçar a produção de bens norte-americanos e acabar por ter reflexos positivos na economia.
Essa estratégia de convicção profunda e ideologia firme é, contudo, muito diferente do habitual em Donald Trump, como notou um dos seus conselheiros ao Axios: “Ele sempre foi totalmente pragmático — tudo podia ser negociado.” Desta vez, a questão das tarifas parece ser matéria de fé para Trump. “Acho que tentaram falar com ele, mas ele estava fixado nisto”, notou uma fonte da Casa Branca ao Politico. “É um verdadeiro crente.”
A tudo isto se soma um terceiro facto: sem possibilidade legal neste momento para concorrer a um terceiro mandato, Donald Trump pode estar focado mais no seu legado do que em eleitoralismo — que é como quem diz, pode nem sequer estar preocupado com as eleições intercalares, ao contrário dos congressistas republicanos.
Jon McHenry sublinha como a palavra-chave do momento é incerteza: “Se no verão as televisões e os smartphones custarem mais 25% do que custavam neste inverno e o preço dos automóveis aumentar, o Presidente Trump em particular e os republicanos em geral vão sofrer um duro golpe na sua popularidade”, avisa.
“Mas se houver novos acordos comerciais com a União Europeia e o Reino Unido e os preços não chegarem a subir, o Presidente será recompensado. A História sugere-nos que a economia vai sofrer; mas a abordagem de Trump é quase sempre uma que nunca existiu em qualquer grande democracia ocidental — uma abordagem sem precedentes.”