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Pedro Duarte admite que ao início tinha um problema de notoriedade em comparação com o “repetente” do PS. Garante ser uma “pessoa moderada”, mas que não pode falar deixar de falar na insegurança que reina na cidade do Porto. Ainda não sabe se estará com Luís Montenegro na noite eleitoral, apesar de estarem na mesma cidade. Manuel Pizarro garante que ainda não precisou de utilizar o ChatGPT, que faz cerca de 10 quilómetros por dia e lamenta a “tentaçãozinha” do principal adversário de o estar sempre a atacar. Miguel Corte-Real foi pai já na fase final da campanha mas, como já é o quarto filho, diz estar mais “treinado” nas funções parentais do que como candidato ao Porto. Acusa ainda os adversários de estarem a jogar ao “Quem quer ser mais Moreira?”.
Filipe Araújo é atual vice-presidente de Rui Moreira e, apesar de já ter sido laranja, não tem “saudades nenhumas do PSD”. Conta que comeu uma “bela de uma cabidela” no fim de uma ação de campanha em que percorreu o Porto de lés-a-lés. Diana Ferreira, da CDU, começa a luta muito cedo, o que é habitual “quando se tem crianças pequenas”. Espera manter-se como vereadora e diz que a melhor francesinha do Porto é na sua casa. Sérgio Aires regista que Rui Moreira diminuiu as críticas ao Bloco de Esquerda no último mandato. Foi acompanhando a líder Mariana Mortágua na Flotilha através dos lives e vai ver a Garota Não no dia de reflexão. Hélder Sousa tem mais pena de não ter ido ao programa do Guilherme Geirinhas do que aos debates na SIC e na CNN e considera as sondagens (algumas até o dão empatado ou à frente de Filipe Araújo) são animadoras.
Estas são apenas algumas das confissões dos candidatos à câmara municipal do Porto nas últimas chamadas do dia. Os candidatos foram desafiados a atender um telefonema tardio a fechar o dia para o jornalista do Observador que está no terreno.
[Ouça aqui o compacto com excertos das últimas chamadas de Lisboa e Porto]
Pedro Duarte. O “sonho” que chegou mais cedo, as promessas de “moderação” e a corrida para ser mais conhecido
Ouça aqui a última chamada do dia com o candidato do PSD, CDS e IL, Pedro Duarte
“Quando anoitece no Porto, as mulheres têm medo de sair à rua”
– Boa noite, Pedro Duarte, é a Mariana, do Observador. Como está?
– Olá, Mariana. Muito bem.
– Já despachou a campanha por hoje?
– Sim, todas as ações de campanha estão concluídas por hoje. Ainda vamos ter umas reuniões mais à noite, mas já são reuniões internas da campanha.
– Já estivemos juntos de manhã na Ribeira, pareceu-me animado e já sei que já disse que sente um crescendo nas ruas. Queria perguntar-lhe se quando partiu para a campanha tinha algum receio em termos de notoriedade, por exemplo, já que ia concorrer contra o repetente Manuel Pizarro.
– Não diria receio, mas sentia que esse facto era uma fragilidade da candidatura, porque, naturalmente, estou a candidatar-me pela primeira vez contra um candidato repetente e que já exerceu funções de vereador na Câmara do Porto durante uns anos, e portanto é mais conhecido, ou era mais conhecido no início. Mas a campanha em si tem demonstrado que algum efeito novidade, de lufada de ar fresco, de alguém com ideias mais frescas, mais novas, tem tido adesão.
– Por isso é que os outdoors o apresentam como “o presidente novo”?
– Exatamente. A ideia que queremos passar é que há uma frescura diferente e uma energia diferente. Aquilo que à partida poderia ser uma fragilidade pode ser uma oportunidade.
– Tanto quanto sabemos, Montenegro deve estar consigo no Porto na noite eleitoral, o que mostra a importância que dá esta candidatura. Está a sentir essa pressão de ter nas mãos uma corrida tão decisiva para o PSD? Como se costuma dizer, no pressure, mas conforme o seu resultado vai poder dizer-se em grande parte se o PSD tem uma noite vitoriosa.
– Não, genuinamente não sinto, nem tenho a certeza que esteja com o Luís Montenegro nessa noite. Sei que ele estará no Porto, mas na sede do PSD; eu estarei na sede da candidatura, porque não está em causa a minha relação e ligação ao PSD, que é pública e notória, mas a partir do momento que eu assumi a candidatura à Câmara, a minha opção foi mesmo o Porto. No momento da minha candidatura disse que, a partir deste momento, o meu partido era o Porto. E é isso que sinto. Admito que, para quem faz análise política, isso [a leitura nacional] seja legítimo, mas confesso que hoje em dia, na minha cabeça, é completamente irrelevante. Estou focado só no futuro da cidade, e muito empenhado em ganhar a Câmara.
Depois de muitos meses de especulação sobre uma possível candidatura, em que Pedro Duarte ia dando sinais nesse sentido – admitia mesmo que esta seria a sua “cadeira de sonho” – mas sem confirmações oficiais, o candidato sabia que tinha de acelerar: o principal adversário é, para o bem e para o mal, um velho conhecido da cidade que não tem entre os seus problemas a falta de notoriedade. Os outdoors apresentam-no como “o novo presidente” e nas ações de rua os presidentes de junta vão uns passos à sua frente para explicar que este é “o candidato, o Pedro Duarte”, que vai distribuindo beijinhos a alta velocidade.
Esse esforço conta e muito para o resultado nacional do PSD, uma vez que a cidade é a grande autarquia em fim de ciclo mais desejada por partidos (sobretudo) e independentes. Mas, nesta conversa, Duarte afasta-se dessas contas: se candidatos como Filipe Araújo acusam os partidos de quererem conquistar o Porto para fazerem um brilharete no domingo, o social democrata jura que a sua cabeça está só no Porto. A do PSD, em boa parte, também, mas por motivos maiores: bastaria ganhar o Porto e segurar Lisboa para Montenegro poder cantar vitória.
– Tem tido um discurso sobre segurança que já fez adversários seus compararem-no ao discurso do Chega, dizendo que é um discurso extremista. Isso faz-lhe confusão, incomoda-o? Porque dentro mesmo do espectro do PSD sempre foi considerado uma pessoa moderada.
— Sim, mas eu continuo uma pessoa moderada.
– Ou seja, é um rótulo que o incomoda?
– Extremista sim, claramente. Sou uma pessoa moderada, mas uma pessoa moderada que conheça a realidade, que ande nas ruas, que fale com os moradores e comerciantes, percebe que muitas pessoas vivem até alarmadas; outras sentem-se suficientemente intranquilas e inseguras para terem a sua vida condicionada. Todas perceberão facilmente que alguém moderado que quer liderar a Câmara tem de tomar medidas. Uma cidade que aposta no bem estar não pode conviver com circunstâncias em que, a partir do momento em que anoitece, as mulheres têm medo de sair à rua. Os idosos não podem passear porque têm medo de serem assaltados. Os pais não deixam as crianças brincar nos jardins porque temem o que lhes possa acontecer. Isso não é uma vida em cidade. Para mim é uma prioridade absoluta repor a segurança, porque a ordem e a tranquilidade das pessoas nunca foi uma medida extremista. Muito mal estaremos se acharmos que alguém que defende o cumprimento da lei e a tranquilidade está a ser confundido com alguma política ou visão mais extremista.
– Acha que os seus adversários é que estão em negação em relação a esses temas, ou que têm pudor de falar neles mais a fundo?
– Sim, é o caso do candidato do PS, é absolutamente evidente. Ele foge desses temas de uma forma politicamente correta, mas civicamente desastrosa, porque está a fugir aos problemas. Não está a pensar nas pessoas, está a pensar noutra coisa qualquer. Porque para as pessoas é muito importante a questão da segurança. O PS está em negação. Isso vê-se nas matérias da segurança, do combate à toxicodependência, em que o candidato se orgulha de ter criado um organismo em Lisboa para resolver o problema da droga. Aqui no Porto sentimos todos os dias o efeito desse organismo, que é basicamente zero. E depois nega outros problemas, nomeadamente o problema da imigração. Não quero generalizar nem estigmatizar, mas temos problemas de insegurança que estão ligados a determinados grupos dentro de comunidades imigrantes que têm comportamentos absolutamente ilegais e são inaceitáveis. Em muitos casos para prejuízo dos próprios imigrantes. O PS prefere assobiar e dizer que não é um problema e não é tema.
É, a par da Habitação e da Mobilidade, um dos temas que dominam a campanha: o candidato tem feito da segurança a “prioridade das prioridades” e adotado um discurso “musculado” sobre o assunto, o que lhe vale acusações de radicalismo. Mas segue sem ceder. Isto porque a candidatura conduziu um estudo com focus groups muito detalhados em que concluiu que esta é a grande preocupação de grandes faixas da população, sobretudo mulheres e crianças. Por isso, Duarte continua convencido de que a aposta no discurso sobre estes temas vai fazer sentido para o eleitorado.
– Queria perguntar-lhe também sobre a sua dedicação à vida profissional. Custou-lhe abdicar dela para arriscar uma corrida em que a vitória não é certa? Tem dito que é candidato quase por razões emocionais, não é?
– É isso, exatamente. Às vezes temos de nos mover por causas em que acreditamos e por paixões.
– Era assim uma coisa que sempre pensou? “Um dia gostava de chegar a presidente da Câmara do Porto”?
– Sim, sim. Confesso que muitas vezes achei que iria ser numa fase mais para a frente da minha vida, e portanto como um culminar… seria o ponto alto da minha vida, não é? E que provavelmente ocorreria mais tarde. Mas também concluo que para ser um bom presidente de Câmara do Porto temos de estar no auge da nossa energia, da nossa vontade, da nossa determinação. Nesta altura tenho condições para ser um grande presidente da Câmara do Porto, porque tenho muita vontade, uma enorme paixão pela cidade e tenho a tal determinação de tomar decisões.Temos de ter a coragem de arriscar, de não ter receio, de não ponderar excessivamente o politicamente correto, temos de ir atrás daquilo em que acreditamos. E sinto-me absolutamente independente de tudo e de todos, com liberdade absoluta.
– Pode ter aqui um obstáculo, que é a direita estar um dividida. Não sei se é uma coisa que o preocupa nesta altura, no sentido em que à direita tem o Chega e tem também a candidatura de Filipe Araújo, que é provável que atraia alguns votos que poderiam ser do PSD e do CDS.
– Sim, isso é uma evidência e eu não posso esconder essa evidência. O que posso fazer é um apelo às pessoas que estão a pensar votar no Chega ou nas candidaturas independentes, nomeadamente na de Filipe Araújo, que pensem duas vezes na utilidade do seu voto. Temos dez candidatos a vereadores, mas só temos dois candidatos a presidente. Aquele que tiver mais um voto vai inevitavelmente ser o presidente da Câmara. Votar em candidaturas que não estas duas é um desperdício de voto na escolha do presidente. Aquelas pessoas que não quiserem o regresso do velho PS, que tão má memória traz à cidade do Porto, aqueles que não se revirem no projeto socialista, só têm uma opção de facto, que é votar nesta candidatura.
– Nuno Melo recomendava ontem umas ervinhas medicinais e uns chás para esta reta final. Acha que é preciso, para dar aqui força à sua campanha?
– Aceito a recomendação, porque me parece muito pertinente, mas genuinamente, acho que quem me conhece melhor sabe que não preciso. Tenho uma tranquilidade interior muito grande, sempre, e uma gestão de emoções também muito forte, e, portanto, estou muito tranquilo, muito calmo, muito confortável com a minha consciência de que estou a dar o meu melhor pela cidade e não me deixo perturbar, mesmo por aqueles que às vezes me tentam levar para outro tipo de conversas e discussões e de nível político.
Pedro Duarte tem insistido que esta candidatura é o seu “sonho” e que se candidata por razões “emocionais” e desta vez conta até que sempre pensou que chegaria a presidente da câmara do Porto, mas mais tarde. A oportunidade, com o fim do ciclo de Rui Moreira, chegou mais cedo do que contava, e assim decidiu não esperar mais. São juras que o eleitorado pode valorizar, tendo em conta que se há coisa que todos os candidatos têm presente é que o eleitorado do Porto dá valor à dedicação à cidade e à presença efetiva no Porto. Não falta quem se refira à assunção de cargos em Lisboa, por exemplo, como uma espécie de traição.
Nesta parte da conversa, o candidato faz o apelo ao voto seguindo a estrutura que construiu já desde o início da campanha: é um apelo ao voto útil puro e sem contemplações, sabendo que a campanha está renhida e que a mais recente sondagem divulgada pela CNN o coloca a duas décimas de Pizarro. Nos últimos dias, tem feito questão de polarizar a corrida ao máximo e fazer desta uma eleição a dois. No domingo se saberá se resultou.
Manuel Pizarro. Os 10 quilómetros por dia, o ChatGPT de Pedro Duarte e a “confiança” que se sente no ar
Ouça aqui a última chamada do dia com o candidato do PS, Manuel Pizarro
Boa noite, Manuel Pizarro. Daqui a Inês do Observador.
Já estava à espera da sua chamada.
Já acabou o dia de campanha, já está a descansar?
Por hoje acabou.
Esta campanha está mesmo a terminar. Já tem muitos quilómetros percorridos nas pernas, não tem parado, o cansaço já pesa?
Não, nem por isso. Apesar de tudo, eu estou mais ou menos bem preparado para fazer estes dez quilómetros diários de campanha.
Têm sido dez quilómetros?
Mais ou menos, uns dias oito, uns dias, 12, em média dez.
E já recorreu à ajuda do ChatGPT nesta campanha?
(risos) Ainda não precisei. Não posso garantir que ninguém da minha equipa o tenha feito, mas eu não.
Mas acusou o seu principal adversário de ter usado o ChatGPT em algumas propostas. Por que é que acha que Pedro Duarte o fez? Está a precisar de criatividade?
Algumas delas manifestam evidente desconhecimento sobre a realidade portuense e devem ter sido importadas de algum sítio. A mais notável é a ideia de que o Porto tem pessoas a mais. Em 1981, moravam 330 mil pessoas no Porto, agora moram 250 mil, como é que é possível que alguém possa afirmar que o Porto tem gente a mais? É de alguém que andou à procura no ChatGPT a experiência de outras cidades, não foi do Porto.
Manuel Pizarro é candidato à Câmara Municipal do Porto pela terceira vez e acredita que será desta que vai sentar-se na tão desejada cadeira. As sondagens têm apontado principalmente para empates técnicos (o que também aconteceu quando se candidatou contra Rui Moreira), umas vezes com o socialista à frente, outras vezes com o social-democrata. Mas com a experiência e comparação de anos anteriores, Pizarro encontra “diferenças gigantescas” entre esta ida às urnas e as outras vezes em que foi candidato — o que lhe traz ainda mais esperança. Nas ruas, caminha confiante, sempre com uma comitiva confortável e não falha um contacto. Não deixa uma única pessoa por cumprimentar. Agora que Rui Moreira deixa a autarquia, a notoriedade de Pizarro tem ajudado no processo e nunca se sentiu tão bem recebido.
Já fez duas campanhas perdedoras no passado, em que sondagens até chegaram a dá-lo como vitorioso. Desta vez sente um espírito de vitória nas ruas, o ambiente é diferente ou em campanha, quando se está nesta energia, é difícil fazer essa leitura?
É difícil fazer essa leitura. Exige um distanciamento de quem está no papel de candidato tem sempre a dificuldade de fazer de forma absoluta. Mas eu não tenho dúvida nenhuma de que há diferenças gigantescas em relação a tudo o que já fiz na política portuense. Sinto mesmo a confiança de quem vai ter a maioria dos votos dos portuenses.
Mas em que é que isso se traduz? O que é que desta vez se sente diferente?
Traduz-se primeiro no número de pessoas que se dirigem a mim, naquilo que as pessoas me dizem, na quantidade de pessoas que me dizem que nunca votaram em mim e nunca votaram no PS e que, desta vez, pela primeira vez, alguns ao fim de décadas de exercício do seu direito de voto, vão votar no PS para me ajudarem a ser presidente da Câmara. Eu estou muito confiante. Claro que não ignoro que é preciso ter uma atitude de humildade. Os portuenses são muito sagazes com o seu voto e, portanto, vão fazer a sua escolha e também querem que eu lhes peça votos.
Mas ignora as sondagens?
Não as ignoro, utilizo-as como um instrumento de trabalho como qualquer outro. Mas, como também se sabe, se fossem as sondagens a decidir as eleições, havia muitos resultados que não tinham sido o que foram.
Se calhar já teria sido presidente da Câmara.
Nunca estive confortavelmente à frente em nenhuma sondagem nas eleições anteriores, mas as coisas são o que são.
Mas é uma cadeira de sonho?
Trabalhar a favor do Porto é algo que me entusiasma muito e não vejo nenhum sítio onde se possa trabalhar mais pelo Porto e pelos portuenses que não seja no lugar de presidente da Câmara.
Por muito que diga que faz um “enorme esforço” para fazer uma campanha limpa e sem ataques aos adversários, Manuel Pizarro escuda-se na “tentaçãozinha” de Pedro Duarte em estar ao ataque e aproveita, aqui e ali, para também provocar Pedro Duarte. Nunca largou a ideia de que é um “delegado do Governo”, não deixando esquecer a confirmação de que seria candidato à Câmara Municipal do Porto quando o Conselho de Ministros se estava a reunir no Bolhão e, nos dias de campanha, foi atirando farpas.
A forma como mais se tem tentado diferenciar de Pedro Duarte é afirmando vezes sem conta que não é um “candidato de ocasião”, que sempre colocou o Porto em primeiro lugar e que concorre contra um “representando do Governo no Porto”, mas também lhe prescreveu Xanax porque “precisa de se acalmar” e acusou-o de tirar “ideias irrealistas” do ChatGPT. A luta de palavras foi aumentando de intensidade até porque Pedro Duarte, que passou dias em que o alvo preferencial era Filipe Araújo, acabou por perceber que o foco no principal adversário era mais relevante para a batalha eleitoral.
Tenho dito que não é um candidato de ocasião e acusa o seu principal adversário de ser o representante do Governo no Porto para alguém que foi ministro. Esta não é uma acusação um bocadinho arriscada?
O meu principal adversário escolheu apresentar-se como candidato à Câmara a meio de uma reunião do Conselho de Ministros. Até achei, para ser franco, uma coisa um bocadinho desavergonhada. Sair de uma reunião do Conselho de Ministros, apresentar-se como candidato à Câmara e voltar para a reunião do Conselho, se achar que isto é normal, eu aceito. Mas pessoalmente não acho isto normal.
Numa ação de campanha, chegou a dizer que receitaria Xanax a Pedro Duarte porque o seu adversário precisa “de se acalmar”. Esta prescrição é por causa do discurso mais endurecido na segurança ou tem outra razão de ser?
Tenho feito um enorme esforço, que vou manter até ao fim, para fazer uma campanha sem ataques aos meus adversários, uma campanha pela positiva, explicando as ideias que tenho para o Porto. Mas tenho verificado, da parte do meu principal adversário, uma certa tentaçãozinha de me estar sempre a atacar. Reajo a isto com bonomia e com tolerância, mas, com franqueza, acho que isso não ajuda ao debate democrático. As coisas pela positiva são melhores.
Pedro Duarte, no início da campanha, parece que estava mais focado no ataque a Filipe Araújo, mas nos últimos dias tem mudado um bocadinho a agulha para si. Já disse que está “desnorteado”, “desesperado” por usar Paris como exemplo para as políticas de habitação. Diz que esconde um “plano secreto”. Nuno Melo veio aqui apoiá-lo e acusou-o de ignorar o tema da imigração. Notou que o tom subiu de nível?
Sim, evidentemente. Interpreto, aliás, como um sinal de nervosismo o facto de preocuparem tanto em atacar-me em vez de discutirem quais são as propostas que têm para o Porto, que, aliás, são mesmo difíceis de perceber porque nem conheço nenhuma. A vinda do ministro Nuno Melo ao Porto apoiar o Pedro Duarte é mesmo a demonstração de que se trata de um candidato representante do Governo nas eleições.
Com Pedro Duarte a cavalgar o tema da insegurança e a endurecer o discurso, Manuel Pizarro vai dizendo que o principal problema está no tráfico e consumo de droga, direcionando para aí a necessidade de soluções para o Porto. Ainda assim, recorda que apresentou um programa para a segurança, assegurando que é uma “perceção errada” achar que não se importa com este assunto. Por outro lado, considera que os adversários tratam a segurança de forma “demagógica” e recusa ir pelo mesmo caminho. Mais do que isso, Pizarro acredita que tem sido capaz de marcar a agenda da campanha e considera que só as suas propostas estão em discussão na restante campanha eleitoral. Pelo caminho, acusa Pedro Duarte de ser incoerente e de não ter propostas concretas.
Não tem dado tanto valor ao tema da segurança como outros candidatos têm feito. Mas não é um problema no Porto ou é e deve ser tratado de outra forma?
Discordo em absoluto dessa ideia. Apresentei um programa coerente para a segurança, ainda durante o mês de julho, que tem quatro eixos principais: primeiro, aumentar a presença da polícia nas ruas, num policiamento de proximidade e com visibilidade; segundo, aumentar muito a videovigilância. Não temos, infelizmente, o número de recursos humanos de que necessitamos nos polícias, isso vai demorar tempo a resolver e temos que fazer uso de recursos tecnológicos, como a videovigilância. Em terceiro lugar, cuidar bem do espaço público, com melhor iluminação e com melhor limpeza e com melhor arranjo do espaço público também desencorajamos a criminalidade.
É um erro achar que não está preocupado com a segurança?
É mesmo uma uma perceção errada porque tenho tido muita atenção aos temas da segurança. Visitei todas as esquadras do Porto, reuni com o comando da GNR, Polícia Municipal e da PSP, reuni com a Associação dos Guardas Noturnos, com as associações de moradores que tomam conta das questões da segurança. Tenho prestado muita atenção ao tema da segurança. Agora, o que não ando é fazer um discurso demagógico sobre o assunto. Ando a propor medidas concretas para resolver o problema concreto que, no Porto, tem como principal foco o tema do tráfico e do consumo de droga. Isso faz com que a minha quarta medida, também muito relevante, seja um plano municipal para as dependências, porque é preciso reprimir o tráfico de droga, mas também é preciso tirar pessoas dessa vida. Se não fizermos um programa de apoio social e de saúde aos dependentes, não diminuímos a procura de droga e não vamos resolver o tema da insegurança associado ao tráfico e ao consumo de drogas.
Há críticas no sentido de Pedro Duarte estar a fazer um discurso mais perto do Chega. Diria que é isto que está a acontecer?
Para ser franco, não encontro no discurso do meu principal adversário nenhuma coerência.
Por que é que diz isso?
Porque não consigo perceber. Se me conseguir explicar quais são as medidas que ele propõe… Diga-me quais são, que eu não percebi nenhuma.
Mas na questão da segurança tem endurecido o discurso. Acha que há alguma razão especial para isso?
A única proposta que lhe ouvi em matéria de segurança foi reclamar mais 100 polícias para a Polícia Municipal do Porto. Estou de acordo com isso. O que me surpreende é alguém que saiu do Governo há umas semanas estar a reclamar. A reclamar junto de quem? Só se for junto da colega dele da Administração Interna. Eu não consigo perceber qual é a lógica desse discurso.
Também disse que Pedro Duarte tem alimentado uma “guerrilha partidária”. Isso não é normal em período de campanha?
Podia ser, se não fosse só isso. Também é preciso que cada um explique quais são as propostas que tem para o Porto. As minhas propostas são propostas claras, que as pessoas compreendem. E tenho visto, se quer saber com alguma satisfação, que todo o debate da campanha eleitoral é feito em torno das minhas propostas, uns concordam, uns concordam poucos, uns concordam mais, uns discordam, mas é tudo feito…
Tem conseguido marcar a agenda, é isso?
Porque não há nenhumas outras propostas para discutir. As propostas que discutem na campanha eleitoral são as que eu apresentei em matéria de habitação, em matéria de mobilidade e em matéria de segurança.
Se perder esta batalha, tem coragem de tentar uma quarta vez?
(risos) Eu estou concentrado no voto dos portugueses e há uma coisa que eu lhe vou dizer: o Porto será sempre a minha prioridade na vida e na política.
Muito obrigada, Manuel Pizarro. Continuação de uma boa campanha.
Foi um prazer. Boa noite. Obrigado.
Miguel Corte-Real. Pai em campanha, alvo nos “dois meios-irmãos da continuidade” e crença numa cidade difícil para o Chega
Ouça aqui a última chamada do dia com o candidato do Chega, Miguel Corte-Real
Boa noite, Miguel Corte-Real. Foi pai pela primeira vez quando faltava muito pouco tempo para o início da campanha oficial. O cansaço ainda aperta mais nesta reta final?
Pois, claro. Isto é um duplo desafio. É o desafio de ser pai, o desafio de ter uma campanha, é tudo ao mesmo tempo. Mas há aqui uma diferença: é a primeira vez que sou candidato à Câmara do Porto e é a quarta vez que sou pai. Portanto, estou mais treinado na função de pai.
O desafio é mais difícil como candidato?
É diferente. O desafio de ser pai é o melhor desafio do mundo e já é o quarto desafio que tenho e cada vez é melhor. O desafio de ser candidato é a primeira vez e está a ser muito bom também, muito agradável.
É candidato num dos locais do país em que o Chega tem tido mais dificuldade de afirmação, mas a receção nas ruas tem sido positiva, pelo que pudemos constatar nos últimos dias. Estas autárquicas podem ser a inversão deste fenómeno no Porto?
A inversão já aconteceu. Vemos que as pessoas na rua já não têm medo nem vergonha. E ter medo de ser um partido era uma coisa estranha, mas que acontecia, infelizmente. Hoje em dia acho que as pessoas já não têm medo e acho que a nossa campanha e o crescimento do partido fez com que as pessoas se sentissem mais à vontade. Há muita gente que [me] diz que antes não tinha coragem de dizer, mas hoje diz ‘sou do Chega e vou votar, conte com o meu apoio’. Temos visto isto a acontecer diariamente e isto é muito positivo. Também vemos muita gente a dizer que é a primeira vez que eu vai votar porque está farto de votar sempre nos mesmos e nada acontece.
O que é que pode ser considerado uma vitória?
Esta campanha nasceu com o objetivo claro de mudar a vida dos portugueses e para isso a grande vitória seria ganhar e ter ferramentas para mudar a vida dos portuenses. Mas se não ganharmos, também vamos mudar a vida dos portuenses com uma oposição a sério, uma oposição que que não existe no Porto. É muito importante que exista uma boa oposição e, no governo ou na oposição, vamos fazer um trabalho muito sério e que vai mudar a vida das pessoas do Porto.
O Porto foi, desde sempre, um dos locais do país em que o Chega teve mais dificuldade em afirmar-se. Em 2024, quando o partido passou de 12 para 50 deputados, foi neste concelho que obteve o resultado mais baixo do país, o único abaixo dos 10%. Nas eleições seguintes o partido recuperou um pouco, passou os 14,14%, ainda longe dos resultados da própria área metropolitana que ultrapassou os 20%. As teorias vão-se dividindo entre o tipo de eleitorado do Porto — aparentemente mais urbano e menos propício a votar num partido que se apresenta como antissistema e com posições mais radicais — e aquilo a que Diogo Pacheco Amorim chamou, nas últimas autárquicas, o “pecado capital” da colagem de André Ventura ao Benfica.
Posto isto, a imagem mais sóbria e menos agressiva de Miguel Corte-Real foi sendo notada ao longo da campanha eleitoral e dos debates e a própria equipa optou por aproveitá-la, crente de que pode agradar a quem vai votar — uma estratégia que se considerou ainda mais eficaz à medida que Pedro Duarte endureceu o discurso.
Considera que a sua imagem mais moderada tem ajudado a essa aceitação nas ruas? O facto de vir do PSD ajuda ou as pessoas não o reconhecem na rua como alguém que já está há muito tempo na política?
As pessoas não me reconhecem como alguém que está há muito tempo na política, reconhecem-me por ser do Porto e e isso é o mais e o mais valioso e por ser alguém que conhece os problemas da cidade do Porto e que vive. Mais importante que o conhecer, é viver os problemas e quem vive os problemas tem sempre a perspetiva certa sobre as coisas. Falo com as pessoas como portuense, como alguém que conhece os problemas que elas têm porque são os mesmos que eu tenho.
Mas essa moderação pode ajudar a que as pessoas o aceitem melhor nas ruas?
Digo as coisas com muita assertividade e às vezes bastante zangado, porque há coisas que nos incomodam a todos nós portuenses. A moderação é uma análise que fazem sobre o que eu digo e ainda bem que gostam da maneira que eu digo as coisas e da forma como como eu abordo os temas, mas não há nada de tático. É claramente a minha maneira de ser. Sou assim e acho que as pessoas… umas gostarão, outras não gostarão de mim. Mas acho que o mais valioso é exatamente as pessoas perceberem que eu conheço os problemas delas, que também são os meus e que, portanto, estamos a falar dos mesmos problemas e a trabalhar em conjunto para a resolver. Acho que essa ligação que as pessoas sentem, é isso que motiva as pessoas nesta candidatura.
Apostou num modelo de campanha focado em si. Pelo menos apresenta-se como “Miguel”, o que na verdade nem cola muito com a imagem do partido que representa, que normalmente é muito focado em André Ventura. Qual foi o objetivo dessa escolha de se apresentar como “Miguel”, de ter cartazes em que fala do “Miguel” e até um jornal de campanha que é o “jornal do Miguel”.
O André Ventura está presente em todos os nossos cartazes e até já houve algumas pessoas que fizeram críticas a isso. A estratégia foi clara e tinha que bater com o candidato: o candidato é o Miguel e o Miguel é uma pessoa de proximidade, que conhece os problemas e os quer resolver, uma pessoa comum e uma pessoa comum. A estratégia passou por demonstrar que é um de nós que vai resolver os nossos problemas. O Miguel é qualquer portuense, uns chamam-se Miguel, outros têm outros nomes. É um portuense comum.
A segurança tem marcado a campanha eleitoral no Porto, principalmente com o endurecimento do discurso de Pedro Duarte, que tem merecido críticas à direita e à esquerda. Miguel Corte-Real tem estado na linha da frente deste ataque, comparando até o seu discurso — ou o discurso habitualmente mais radical do Chega — com o do seu adversário do PSD e procurando mostrar que aumenta os decibéis sem necessidade e apenas porque chegou tarde a esta preocupação e precisou de correr atrás do prejuízo. Vai resumindo a ideia a um “não é preciso gritar”, mas sempre que pode atira farpas ao adversário.
Apesar de colocar a questão da segurança como uma das suas prioridades, tem optado por fazê-lo de forma mais sóbria do que o candidato da coligação PSD/IL/CDS, Pedro Duarte. Já disse que o seu adversário é um “exterminador implacável”. Considera que há um desespero pela conquista do eleitorado do Chega por parte do PSD?
Eu não preciso de gritar o discurso da segurança na cidade do Porto, porque eu já falo dele há muito tempo. O problema não nasceu agora porque existem eleições e tem vindo a aumentar ao longo dos últimos anos. É isso que tem [levado] a que associações de moradores tenham a necessidade de contratar guardas privados, etc. [Pedro Duarte] não tem que vir, à última hora, feito exterminador implacável ou algo do género, gritar o tema da segurança para as pessoas saberem que o PSD se preocupa com isso. Parece-me uma estratégia de marketing de última hora porque fizeram um focus group e [viram que] a segurança é importante e porque nunca, até à data, tínhamos falado sobre o tema.
Foi do PSD, conhecia este lado com um discurso mais musculado de Pedro Duarte?
Não conhecia e o Pedro Duarte nunca tinha feito um discurso destes. Aliás, no passado, tinha sido sempre crítico a este discurso por parte do Chega. Aliás, como ministro dos Assuntos Parlamentares, foi sempre muito crítico à postura de Chega, ao discurso do Chega, à forma como o Chega falava de temas como a segurança e a imigração. Mas, de repente, porque um focus group ou uma sondagem assim o disse, começou a gritar mais alto. Eu não conhecia este Pedro Duarte e acho que ele próprio também não o conhecia.
As quatro principais campanhas do Porto têm elementos ligados à era de Rui Moreira nas suas fileiras e há até orgulho nisso nas equipas de Manuel Pizarro, Pedro Duarte e Filipe Araújo. Ainda que Miguel Corte-Real tenha três pessoas de maior destaque nesta luta, não faz questão de o mostrar, até para poder acusar os adversários. Durante os últimos dias, tem construído a narrativa de que é a única alternativa possível no Porto, pelo que cola os três principais herdeiros de Moreira e acusa-os de serem a linha da continuidade. Agora, chega mesmo a dizer que as equipas devem ter focus groups também para perceber a importância da imagem de Moreira e quanto pode valer não usar esse ativo nas campanhas.
Mais do que isso, Miguel Corte-Real acusa tanto Manuel Pizarro como Pedro Duarte de terem estado em Governos nacionais e de não terem conseguido ajudar a cidade do Porto, desde logo num tema que tem sido tão caro em campanha como a segurança, acusando-os de agora prometerem mais polícias quando nunca chegaram e estavam prometidos, como tinha dado conta em entrevista ao Observador.
Tem focado as suas críticas principalmente em Pedro Duarte, muito mais do que em Manuel Pizarro ou em Filipe Araújo. Considera que a experiência governativa de ambos pode dar-lhes alguma vantagem nesta batalha eleitoral ou pode ser um peso em cima dos ombros deles?
Não vou julgar a experiência de cada um, mas o facto de eles terem estado em governos de uma forma sucessiva e, nessa função, pouco ou nada terem feito pelo Porto, acho que não os ajuda, quando tiveram uma oportunidade de estar no governo e fazer uma verdadeira mudança, não o fizeram. Estiveram os dois no governo e os polícias que agora querem onde é que estão? E a habitação que é tão importante, onde é que está?
Quando falava de experiência governativa era mais de Manuel Pizarro e Filipe Araújo aqui no Porto.
O que acontece aqui é muito simples: o Filipe Araújo é a candidatura oficial da continuidade, foi vice-presidente de Rui Moreira e, portanto, ele não esconde o que é. Depois existem aqui dois meios-irmãos da continuidade, que são o Pedro Duarte e o Manuel Pizarro, que têm as suas listas povoadas por pessoas que tiveram neste projeto. Mas agora, e sobretudo Pedro Duarte, diz que agora vai ser tudo diferente. As coisas não são diferentes porque queremos, são diferentes se tiverem pessoas e ideias para fazer diferente e há muita crítica aí. Para Manuel Pizarro há menos críticas porque optou por uma estratégia de campanha que é falar o menos possível, dizer o menos possível. Não dizendo muito e não dando muito a conhecer o que pensa, além de dar alguns de três ou quatro temas principais. Agora fala da habitação, fala das cinco mil casas, mas foi ele o vereador da habitação no primeiro mandato de Rui Moreira, no segundo mandato o vereador da habitação foi o número dois dele, Fernando Paulo… E onde é que estão as casas? Não estão. É estratégia: o Manuel Pizarro tem uma estratégia de ficar mais calado e Pedro Duarte tem uma estratégia de gritar mais alto.
Entende que os seus principais adversários tenham feito questão de mostrar que têm grande parte do Moreira nas equipas deles?
Este é o concurso do “Quem quer ser mais Moreira?” e estão todos a disputar isso. Dizem que está tudo mal, mas estão todos a disputar o concurso. Há aqui alguma confusão, devem ser também as sondagens ou os focus groups que dizem que ser herdeiro de Moreira é muito interessante. O que só prova uma coisa: se todos querem ser os herdeiros da continuidade, só há uma solução de mudança que somos nós. E é isso que nós sentimos no discurso, quando falamos com as pessoas, só nós é que somos uma solução de verdadeira mudança. Se quiserem continuidade, continuar com os mesmos problemas, têm três opções. Se quiserem a mudança, podem votar em nós.
Muito obrigada, Miguel Corte-Real. Continuação de boa campanha.
Muito obrigado, boa campanha também.
Filipe Araújo. As caminhadas, a cabidela e a desilusão com o PSD (e com Menezes)
Ouça aqui a última chamada do dia com o independente Filipe Araújo
– Olá, Mariana, tudo bem?
– Tudo. Já acabou a campanha por hoje?
– É verdade, hoje já está quase quase a acabar, se bem que ligaram-me agora a dizer que no mercado da Foz há um grupo de jovens que ainda gostavam de falar comigo, portanto acho que ainda vou ter aqui mais uns minutos de campanha.
– Então vou aproveitar estes minutos e começar por andar um bocadinho para trás no tempo e perguntar como é que tomou a decisão de ser candidato. Sabia que iria contra partidos, portanto não ia partir propriamente de uma posição de vantagem, em vários sentidos. Isso não o fez hesitar?
– Não, de todo. Nessa altura eram 11 anos a prestar um serviço público. Venho do setor privado e com muito gozo e satisfação a ver uma série de estratégias de medidas que vinha implementando a terem efeito na população, a melhorar a qualidade de vida das pessoas. Percebi que era preciso que o movimento independente que tem estes princípios tivesse uma continuidade. E foi isso que me levou a começar a pensar ser a candidato e a avançar com todo o processo, que é difícil porque os movimentos independentes, em termos de lei e das dificuldades postas pelos partidos, são várias. Portanto, também não foi por aí que me fez hesitar.
– Suponho que também precisasse de trabalhar a notoriedade, já que o vice não é a figura mais mediática da Câmara. Ainda no sábado foi correr a cidade a pé, fez 30 mil passos. O objetivo também era chegar a mais pessoas e convencê-las cara a cara?
– Sim, nós fazemos a campanha um bocadinho de forma diferente. O movimento independente não faz o típico dos partidos, com arruadas. Gostamos muito de fazer coisas com as pessoas e tivemos esta ideia de fazer um percurso de lés a lés da parte oriental à parte ocidental da cidade, quase uma coisa fora da caixa, quase impossível. Foi algo que nos deu um especial gozo. E tivemos muita gente ao longo do percurso.
– Inventou aqui uma nova maratona do Porto?
— Acho que sim. Foi uma meia maratona em termos de quilómetros. Mas foi uma meia maratona feita de uma forma muito especial, porque foi feita por os sítios fantásticos do Porto. Aliás, no final do caminho, com a chuva que apareceu, acabamos no Paraíso da Foz, a comer uma bela de uma cabidela. Portanto, acho que não podia ser melhor.
– Sente que há algum peso, alguma dificuldade na tentativa de suceder a Rui Moreira, que é uma figura tão carismática aqui no Porto?
– Como vice-presidente tive a possibilidade de fazer muitas coisas quando o presidente não poderia estar presente a representá-lo. E isso deu-me também a capacidade de perceber bem e de ir executando muitas daquelas que são as funções de um presidente de Câmara. Isso foi uma enorme oportunidade de ganhar esta experiência, esta capacidade, que é única entre os candidatos.
É uma campanha curiosa deste ponto de vista: Filipe Araújo é vice de Rui Moreira há oito anos e, coisa rara, integra uma corrida em que a maior parte dos candidatos quer mais associar-se ao legado do moreirismo do que afastar-se dele. A sua luta passa agora também por provar que é o verdadeiro herdeiro, numas eleições particularmente duras: depois de 12 anos da gestão de Moreira, os partidos veem aqui uma oportunidade para agarrar a autarquia do Porto e serem os protagonistas deste novo ciclo.
O desafio é, para Araújo, mais difícil: sem estruturas partidárias, agarrou no movimento cívico a que presidia, e que arrancara como apoio a Rui Moreira, e começou a percorrer as ruas do Porto – neste caso que conta de forma mais extrema, de uma ponta à outra da cidade – para se dar a conhecer. Na rua elenca não só o que a câmara fez, mas em particular o que fez como vice e vereador, nomeadamente na área do Ambiente. Quem sabe quantos portuenses isso convencerá, numa corrida que as sondagens indicam ser verdadeiramente renhida entre PS e PSD, mas não será por falta de idas ao terreno e trabalho de formiguinha que o vice não consegue um resultado satisfatório.
– Acha que vai receber alguma chamada de outra candidatura na noite de domingo? Estou a pôr o cenário de não ganhar, porque nesse caso, naturalmente, teria de receber chamadas para dar os parabéns.
– Era isso que eu ia responder.
– Eu antevi, por isso preparei a pergunta assim. Ou seja, se de facto não ganhar, acha que alguém lhe vai ligar, a precisar do seu apoio na Câmara?
– Neste momento, o objetivo é olhar para o dia 12 e acreditar que os portuenses vão perceber que o movimento independente cresceu tanto nos últimos doze anos e esta lógica desta independência é absolutamente importante para os próximos desafios que temos. Portanto, neste momento, estou focado nisso e em receber os parabéns de todos na noite eleitoral.
– Não quer pensar em chamadas nem de PS, nem de PSD?
– Neste momento, estou focado em que os portuenses vão às urnas e que escolham o melhor para o Porto. Temos o melhor projeto, a melhor equipa e somos fiéis aos nossos princípios, algo que não é comum..
– Essa lógica tem faltado noutras candidaturas?
— Esta lógica de independência é, de facto, importante: olhar para os problemas de uma forma que não esteja condicionada por partidos ou governos, de ministros que podem não gostar daquilo que nós decidimos, é algo que o Porto sempre foi, uma cidade da liberdade e da independência. Todos conhecemos o percurso histórico desta cidade e do seu povo. Acredito muito que aquele exemplo que demos há doze anos é para continuar porque, no final, o que interessa é que estamos a propiciar algo de positivo e de melhoria na qualidade de vida. E estou absolutamente convencido que estas premissas de independência são fulcrais na boa gestão da cidade.
É um dos grandes irritantes da campanha: tendo decidido avançar em nome do movimento independente que estava com Rui Moreira, Filipe Araújo partiu possíveis apoios à direita e o PSD não lhe perdoa, acusando-o de estar a funcionar como uma “bengala” para o PS. Na candidatura de Araújo, justifica-se que a verdadeira vantagem da candidatura – ser independente – acabaria diluída se Araújo se se tivesse integrado nas listas de PSD, CDS e IL.
Falta, assim, saber o que acontece no dia a seguir às eleições: se Pedro Duarte se desdobrou em convites para convencer Araújo a integrar as suas listas, não falta quem dentro do PS considere “natural” uma associação pós-eleitoral ao candidato independente. Mas, para já, Araújo foca-se no seu discurso: não quer colocar a sua candidatura num plano secundário e prefere lembrar que o Porto aprecia independência na gestão da autarquia, apontando vícios velhos e perigosos aos partidos.
– Vejo-o a falar da questão da independência e das suas vantagens e queria perguntar-lhe sobre o seu tempo no PSD. O que é que viu, no concreto, no PSD, numa estrutura partidária, que o desiludiu tanto?
– Acima de tudo, o PSD de hoje em dia não tem nada a ver com o PSD de Sá Carneiro. E isso é claro até nas propostas que estão a ser apresentadas nestas eleições. O que me aconteceu na altura, e já foi há 12 anos, foi uma desilusão com a posição do partido na altura. E, como em qualquer outra estrutura, lutei por mostrar que não era o caminho certo.
– Lembra-se de algum exemplo, de alguma medida que o tivesse espantado, que não seguisse os princípios do PSD em que acredita?
— A gestão que foi realizada pelo candidato que foi apresentado depois à Câmara Municipal do Porto [Luís Filipe Menezes] era uma gestão vinda de outra autarquia com a qual o Porto nem sequer se identificava. Portanto, acho que isso foi tão notório que gerou, de facto, que muitas pessoas não se identificassem com esse caminho. E acho que nessa altura foi a decisão certa. Estou hoje absolutamente convencido que foi.
– Nunca se arrependeu? Não tem saudades do PSD?
– Não tenho saudades do PSD. Não tenho nada contra partidos, atenção, nada me move contra partidos. São essenciais na democracia. Mas em termos de gestão da autarquia foi a decisão certa. E tanto foi certa que me leva a olhar para o futuro do Porto e achar que a decisão certa é continuar com essa independência. Os partidos hoje em dia perderam muito os valores e os princípios. Hoje são dominados por diretores partidários e todos centrados em Lisboa. O Porto precisa da sua independência, da sua liberdade. Os próprios portugueses olham para esta eleição a olhar para estes 12 anos e a perceber se foi um bom trabalho ou não. E sinto na rua que acham que foi um bom trabalho. Não fizemos tudo, como é óbvio. Mas fizemos muito mais coisas positivas do que aquelas em que deixámos de fazer. E eu sou o vice-presidente responsável por esses últimos anos também da cidade, obviamente com o Rui Moreira.
– Já o deixo ir ter com os jovens à Foz. Perguntava-lhe só se hoje ainda vai ler notícias, vai preparar coisas para amanhã ou aproveita para ter noites de sono completas e mais descansadas? Como é que costuma fazer?
– Ao final do dia não leio tantas notícias. Tento ter algum tempo para pelo menos ver os meus filhos, o que tem sido um bocado difícil. E a família, nem que seja por 5 minutos. E depois é descansar e no dia seguinte acordar cedo. E aí sim, ler notícias e fazer uma campanha animada, cheia de força, que é aquilo que nós temos feito e com alegria. Estamos a ser fiéis àquilo que dissemos desde o início: queremos uma campanha alegre, uma campanha feita para as pessoas, com as pessoas do Porto. E isso tem sido desde amanhã até à noite, com um sorriso e a ver sorrisos dos portuenses, que também é importante.
O passado na JSD e PSD do Porto une, na verdade, três candidatos: Filipe Araújo, Pedro Duarte e Miguel Côrte-Real. Mas os três seguiram caminhos separados e hoje Araújo mostra-se desiludido com as lógicas partidárias que testemunhou. Neste caso, dá o exemplo da candidatura de Luís Filipe Menezes ao Porto, há doze anos, quando estava a atingir o limite dos três mandatos na autarquia de Gaia – na altura, Menezes deixava uma dívida de 318 milhões na câmara, com o PS a acusá-lo de deixar como herança uma “ruína financeira” e o social democrata a lembrar que boa parte do dinheiro que gastou foi em investimento, cujos frutos se veem agora.
Ora Filipe Araújo apresenta-se como um homem de “contas certas” e não aprovou essa lógica, nem o “despesismo” que tem dito encontrar nas propostas atuais de PSD e PS à câmara, numa corrida para ganharem uma das autarquias mais disputadas destas eleições. A herança de contas certas de Rui Moreira continua a ser, acredita, um ativo eleitoral — promete mantê-lo, acusando os adversários de andarem a vender “fantasias” aos eleitores.
Diana Ferreira. A candidata que quer a CDU a manter a vereação — até a “reforçar o resultado” — e que faz francesinhas em casa
Ouça aqui a última chamada do dia com a candidata da CDU, Diana Ferreira
Boa noite, Diana, daqui o José Carlos Duarte. Vou fazer-lhe algumas perguntas.
Boa noite.
Como é que está a correr a campanha? Como tem sido a vossa agenda?
Está a correr bem. Estivemos reunidos com trabalhadores da cultura que estão no Cinema Batalha. Já tivemos ações de contacto com a população, nomeadamente na zona do Mercado da Foz, depois em Aldoar e no bairro da Fonte da Moura. Depois tivemos também um almoço convívio na zona de Campanhã e tivemos outras ações de contacto, terminando com a população na zona de Carvalhido, no Porto. Terminamos o dia a contactar novamente com os trabalhadores da cultura, do Centro Comercial Stop, também para conhecerem aquilo que é o Manifesto para a Cultura que a CDU propõe para a cidade do Porto.
Dá grande ênfase à cultura. Tem um papel importante para a campanha da CDU no Porto?
Sim, sim, a cultura é um pilar da democracia, é um direito constitucional. Entendemos que a política cultural da cidade deve ter um envolvimento e uma participação ativa daqueles que são os trabalhadores da cultura, os criadores e os artistas. Devem existir vários polos culturais distribuídos pela cidade e, nesse sentido, tendo feito o manifesto, subscrito por várias personalidades também ligadas à cultura, entendemos que era importante que os trabalhadores da cidade também conhecessem essas propostas.
Na segunda-feira houve a típica arruada, na Rua Santa Catarina, com o secretário-geral. Como é que correu? Como é que sentiu a população? O que trouxe Paulo Raimundo à campanha?
Foi uma arruada muito positiva, muito viva também, com pessoas que efetivamente se aproximaram de nós, reconhecendo o papel da CDU num conjunto de questões que foram sendo resolvidas também na cidade do Porto. A CDU tem representação autárquica desde 1976, teve sempre vereação na Câmara Municipal. Historicamente, até com vereadores que assumiram inclusive pelouros na cidade. Esse é um trabalho que é reconhecido pela população e que foi também reconhecido na arruada que fizemos em Santa Catarina. Naturalmente, é um elemento importante para nós, de reconhecimento do trabalho que temos desenvolvido ao longo de décadas, defendendo os trabalhadores e a população do Porto. Tem sido uma campanha intensa.
Com presença autárquica no Porto desde 1976, a CDU deseja repetir o feito e voltar a eleger. A coligação entre PCP e Verdes tem tentando fazer uma campanha de proximidade, contacto com a população e insistindo na importância da permanência do partido no executivo camarário. Depois de Ilda Figueiredo, que foi candidata à Câmara Municipal do Porto em 2017 e 2021, a ex-deputada na Assembleia da República Diana Ferreira espera manter-se nessa função e contrariar os resultados menos animadores da CDU nas sondagens não só no Porto, como também a nível nacional.
Como já descreveu, esteve em muitos sítios durante esta campanha e em vários pontos da cidade. Como é que lida com esta exigência de dias tão corridos e tão ocupados?
Tenho, naturalmente, às vezes, alguma dificuldade de gestão, diria assim, mas diria que lido, acima de tudo, com alegria e até com vontade de participar. Na CDU, as ações de campanha que fazemos é de contacto muito próximo com a população e com os comerciantes. É para nós importante conhecer os problemas concretos, aquilo que nos é contado pela população e pelos comerciantes. Tenho naturalmente momentos que podem ser mais corridos e de mais azáfama. Acima de tudo, é gratificante poder fazer este contacto de proximidade com os problemas das populações e dos comerciantes e dos trabalhadores da cidade.
A campanha de proximidade é uma das imagens de marca da CDU?
Sim, sim, sim. Não só em altura de campanha, já agora, mas também entre mandatos, tanto de um ponto de vista de visitas que fazemos nos mais diferentes pontos da cidade, por exemplo, neste mandato temos mais de 110 visitas feitas em diferentes pontos da cidade, mas também porque a CDU é a única força política que tem um gabinete aberto ao munícipe na Câmara Municipal do Porto. Neste mandato, recebemos mais de 700 munícipes que se dirigiram ao gabinete da CDU com problemas concretos, com problemas relacionados com a sua vida e que tiveram, naturalmente, intervenção por parte da vereadora da CDU na resolução desses mesmos problemas. E por isso esta proximidade — que é algo que efetivamente temos não só durante a campanha eleitoral, mas muito durante também o tempo que intermedeia estas campanhas eleitorais —, é um elemento de marca distintiva da CDU e que é também aquilo que nos permite depois ter um conjunto de propostas distintas. É a partir dos problemas concretos que nós apresentamos as propostas para os resolver.
Como é que lida com este stress, com esta pressão da campanha de proximidade? Tem alguma estratégia para relaxar quando chega à casa? O que é que faz para descontrair e descomprimir um bocadinho?
Acima de tudo, tento estar com a minha filha. Tenho uma filha pequenina de 3 anos e naturalmente que, acabando a campanha, a minha prioridade é poder estar também com ela e dedicar-lhe o tempo que não consigo dedicar na campanha. Agora é difícil estar com ela, acompanhá-la.
E quais são as suas expectativas para dia 12? Considera que a CDU vai ter um bom resultado? A manutenção do vereador é um objetivo?
Sim, naturalmente o nosso objetivo é o reforço da votação na CDU, da força da CDU e estamos disponíveis para todas as responsabilidades que os portuenses nos pretendam atribuir. Considerando que durante esta campanha temos tido o reconhecimento do trabalho que desenvolvemos, temos naturalmente confiança que vamos conseguir um grande resultado para a CDU, naturalmente, desde logo, a manutenção da vereação, num reforço da CDU do reconhecimento do trabalho que temos feito. Esse resultado positivo da CDU é também um resultado positivo para a cidade, para os trabalhadores e para a população. A CDU é uma força muito combativa, interventiva, que naturalmente denuncia os problemas, mas que apresenta soluções concretas para os resolver. E essa voz é uma voz muito importante, muitas vezes sendo a voz de quem não a tem e esse é um papel que nós não deixamos de desempenhar e naturalmente que estamos confiantes que isso terá também o seu resultado. Quem há quatro anos votou na CDU tem todos os motivos para voltar a votar, foi um voto que nunca foi traído, foi um voto que, pelo contrário, foi respeitado e honrado.
Apesar de as sondagens mostrarem um resultado nas ordem dos 3% das intenções de voto para a CDU, um cenário em que ainda não é claro se a coligação elegerá, Diana Ferreira mostra-se confiante de que vai reforçar a votação. Em termos nacionais, após os resultados menos positivos nas legislativas, os comunistas esperam manter a presença autárquica. Enquanto uma das maiores câmaras do país, o Porto não deixa de ter importância para a CDU, mas à esquerda há bastante concorrência, num cenário em que todos os partidos daquele espetro político (como o Bloco de Esquerda e o Livre) jogam a solo.
E como é que vê os mandatos de Rui Moreira, como é que vê o seu legado para a cidade do Porto, o que é que acha que mudou na cidade do Porto na sua opinião?
Olhe, são mandatos que são marcados por um conjunto de políticas com as quais a CDU esteve em muito profundo desacordo em diferentes momentos, num caminho de uma turistificação desenfreada da cidade, num caminho até de descaracterização da cidade em diferentes locais, num caminho que também no fundo afastou e expulsou moradores da cidade do Porto. Estamos a falar, havendo naturalmente responsabilidades nacionais de diferentes governos que nós não excluímos e não podemos de todo desresponsabilizar, de opções do Executivo Municipal fez, que também tem naturalmente essas responsabilidades. Mesmo em matérias de cultura, foi um conjunto de políticas culturais que confundem cultura com entretenimento. Nós não confundimos. Temos um distanciamento significativo de um conjunto de políticas neoliberais que foram sendo praticadas ao longo destes 12 anos, e por isso temos uma visão distinta de cidade. A CDU quando defende e quando se propõe a lutar por um Porto para todos é efetivamente para todos, em que todos — independentemente da sua condição económica, social ou cultural — tenham um lugar na cidade do Porto para morar, para trabalhar também, e uma visão de cidade que seja mais justa, mais solidária, mais inclusiva, e, acima de tudo, também haja uma visão da cidade em que todos tenham um pleno direito à cidade.
A que horas têm acordado normalmente na campanha?
Ah, bastante cedo, o que também é habitual quando se tem crianças pequenas… Normalmente, acordam cedo.
Mas depois deverá ir para a cama mais tarde?
Também, também, também, até além de um conjunto de preparação para as ações do dia seguinte, há também depois um conjunto de outras responsabilidades familiares que nesta fase acabam por ficar para horas mais tardias.
Qual é a sua zona de Porto favorita? O que é que gosta mais de fazer na cidade? Se pudesse escolher uma zona para levar alguém, onde é que levaria?
Olha, terei aqui uma resposta um bocadinho enviesada por força até da realidade familiar que tenho. Eu acho que o Porto, embora falte muitos espaços verdes e parques infantis distribuídos pela cidade, eu ultimamente tenho frequentado bastante o Parque do Covelo. É um parque infantil na cidade de Porto — que deveria aliás ser multiplicado em vários sítios —, que, por força da diversidade até de espaços que tem, dá para crianças e para adultos. Diria que seria um dos pontos. Mas é muito difícil escolher um ponto da cidade de Porto. O Porto tem muitos elementos atrativos, não só de um ponto de vista de edificado ou paisagístico, mas até das próprias pessoas e das gentes do Porto, aquelas que ainda vão resistindo. Por isso, não dá para escolher um ponto favorito, digamos assim, posso dizer aquele que tem sido o meu ponto mais frequente nos últimos tempos, por força destas dinâmicas familiares.
E onde se come a melhor francesinha?
Em minha casa!
São caseiras?
Sim, sim, já arriscámos fazer algumas vezes e correram muito bem e por isso acho que a resposta mais adequada é mesmo essa. A melhor francesinha é a que se come em minha casa.
Muito obrigado, Diana!
Obrigada!
Sérgio Aires. Ataques de Rui Moreira ao Bloco diminuíram este mandato, os lives da flotilha e o concerto da Garota Não no sábado
Ouça aqui a última chamada do dia com o candidato do BE, Sérgio Aires
Olá, boa noite, Sérgio Aires?
Sim, o próprio.
Daqui fala José Carlos Duarte, do Observador. Podemos começar?
Sim.
Como é que está a correr a campanha no Porto nos últimos dias?
O dia de hoje foi um dia dedicado à questão da gentrificação da cidade, e, enfim, particularmente no centro histórico. Temos muitos desafios, no que diz respeito à ocupação de espaço para o alojamento local. Uma enorme concentração de alojamento local e muito pouca oferta de habitação disponível para os habitantes e para aqueles que, entretanto, também vão ser expulsos da cidade.
A Habitação é uma das bandeiras do Bloco nestas eleições?
Sim, sim, sim. Habitação pública é a nossa bandeira. Na verdade, a nossa bandeira é o combate à pobreza. E dentro do combate à pobreza, naturalmente, a integração de muitas respostas, passando, em primeira instância, pela habitação, mas a habitação não são só casas. A habitação é também a ideia de nós termos uma capacidade de intervenção comunitária que faça uma plena integração das pessoas no território da cidade.
Além da habitação, que outros problemas considera que são fulcrais para resolver na cidade?
Sobretudo a resolução deste problema mais global, insisto nele, do combate à pobreza. Nós temos uma cidade muito dividida entre aquilo que é uma classe social mais favorecida — e que não é necessariamente a dominante —, e depois um conjunto muito alargado de pessoas que vivem situações de muita dificuldade, seja nos territórios mais periféricos da cidade, seja no próprio centro da cidade. Para nós, a primeira prioridade é, de facto, tudo que possa fazer ser feito ao nível local e com políticas locais para combater a pobreza, é essa a nossa linha de atuação. Dentro disso, evidentemente, temos as questões da habitação em primeiro lugar. Sem casa é que ninguém consegue viver, mas depois, sinceramente, também se só formos capazes de responder à questão da habitação sem a questão da saúde, sem a questão da educação, sem a questão da manutenção das pessoas no próprio território…. Temos, neste momento, um problema de fixação, por exemplo, dos estudantes universitários da cidade, que depois têm o impacto de eles próprios não frequentarem o ensino e abandonarem. Os desafios são muitos.
Durante a campanha, como é que mais ou menos um dia seu? Como é que se organiza?
A pergunta é se durmo e quando durmo. Claro, nesta altura, praticamente durante a campanha oficial, com o conjunto de iniciativas que estão planeadas, acordamos naturalmente muito cedo, até porque depois há muitas coisas paralelas. Há todo o trabalho de comunicação.
Por volta que é cedo, seis da manhã, sete?
Mais para a volta das sete. Mas sim, às sete horas, já estamos a falar todos uns com os outros. E, pronto, depois vamos planeando as coisas e fazemos trabalho ao longo do dia, porque há muita coisa que é visível, que é aquela parte em que nós vamos para a rua e que estamos com as pessoas e temos privilegiado muito isso.
Nas ruas, qual tem sido a resposta que tido à questão da flotilha humanitária?
Ao contrário daquilo que a gente vê, enfim, nos meios de comunicação social e não sociais — as redes sociais… Quando a gente está no terreno, o que as pessoas dizem ‘é que como foi possível fazer aquilo à Mariana, bandidos, não tem coração’. É curioso: se as pessoas se deixassem influenciar por aquilo que anda nas redes sociais, pensavam que, de facto, toda a gente achava que a Mariana fez uma grande porcaria. Na verdade, no terreno é diferente. As pessoas estão muito revoltadas com a maneira como isso foi tratado, não só com a Mariana, porque a Mariana era só uma pessoa, não é? No terreno, o que eu estou a sentir, e sim, isso deixa-me agradado, que as pessoas, apesar de tudo, ainda têm algum discernimento e estão a perceber o que é que se está a passar.
Foi um tópico que inevitavelmente entrou na campanha eleitoral destas eleições autárquicas: a ida da deputada única do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, na flotilha humanitária rumo à Faixa de Gaza, juntamente com mais três portugueses — Sofia Aparício, Miguel Duarte e Diogo Chaves. Sérgio Aires fez questão de destrinçar o que se lê nas redes sociais e a realidade que o candidato à Câmara do Porto encontra no terreno.
Se a iniciativa tem sido bastante criticada principalmente por vozes mais à direita, Sérgio Aires garante que existe “discernimento” e fica “agradado” com a resposta, sugerindo que a questão não é um ativo tóxico para o Bloco de Esquerda nestas eleições. Em Lisboa, por exemplo, Alexandra Leitão (que lidera uma coligação que conta com o Bloco de Esquerda) fez questão de reiterar que a Palestina não é um “tema” das autárquicas.
Foi falando com a Mariana durante a flotilha, foi trocando mensagens com ela?
Não, eu oficialmente não tinha contacto com elas. Tive contacto com pessoas que estavam em contacto com ela. Naquela altura, ela tinha dois ou três interlocutores só, porque também não podia estar a falar com mais gente, para além daquilo que ela fazia publicamente. Eu acompanhava todos os lives que ela fazia, mas não falei diretamente com ela, não.
Sobre Rui Moreira, o autarca foi atacando várias vezes o Bloco de Esquerda durante os mandatos, foi sempre uma espécie de alvo. Como é que responde e vê esses ataques?
Eu por acaso acho que, durante este mandato em particular — talvez que fosse o seu último e a primeira vez que ele teve o Bloco de Esquerda no executivo porque até aqui nunca tinha tido o Bloco de Esquerda no executivo com um vereador —, acho que as coisas até mudaram um bocadinho. A perceção que ele tinha do que seria o Bloco de Esquerda e do que seria a nossa forma de lidar num executivo [mudou]. Na verdade, tivemos uma postura democrática e, portanto, houve imensas, eu diria a maior parte inclusive das propostas que foram apresentadas no executivo, foram aprovadas por unanimidade. Ele nem sequer teve essa guerra permanente, de estarmos sempre do contra, nem pouco mais ou menos.
Desde 2017 que Rui Moreira foi fazendo do Bloco de Esquerda um alvo de várias críticas. Durante os dois primeiros mandatos do autarca, o partido não teve representação no executivo camarário, mas, mesmo assim, o autarca nunca poupou nos ataques aos bloquistas. Segundo Sérgio Aires, essa perceção mais negativa que Rui Moreira tinha do BE alterou-se ligeiramente desde 2021, ainda que o clima de animosidade se tenha sempre mantido em vários momentos.
Mesmo com as críticas, qual considera ter sido o legado de Rui Moreira no Porto?
O legado dele é um legado que evidentemente, como todos os governantes, tem coisas positivas. A verdade é que sempre estivemos do lado oposto daquilo que é a nossa visão da cidade. Para nós, evidentemente, que o legado da Rui Moreira é um legado que deixa a cidade com uma crise de habitação ainda pior que noutros territórios do país e do mundo, entrega uma economia praticamente de monocultura do turismo, que é uma economia perdedora do ponto de vista do trabalho, que é uma economia perdedora do ponto de vista da economia, porque não nos deixa recursos nenhum. Tantas vezes o disse a Rui Moreira, que acho que posso dizer também em público. Ele próprio no final deste mandato começou a reconhecer que esta coisa do turismo, de facto, ultrapassou todos os limites e, portanto, ele próprio já estaria preocupado que, se tivesse de estar mais quatro anos à frente da Câmara, iria ter que enfrentar as consequências da sua própria visão de cidade-negócio, Isto tem um limite, não é? E o limite é depois a descaracterização total da cidade, que já não tem interesse. Como disse algumas vezes nos debates, parece-me que só o Bloco de Esquerda é que realmente está a defender o turismo. Ou mudamos, ou nem o turismo continua aqui na cidade. Porque isto está a tornar-se desinteressante como cidade para a maior parte dos turistas. Aliás, já falámos com alguns também das ruas, há alguns que regressaram à cidade, já tinham cá estado há cinco, seis anos, dez, e que dizem que agora, o Porto, tirando as pessoas, lá está, o resto é exatamente como está em qualquer outro sítio. Só que as pessoas também estão a desaparecer, não é? E, portanto, corremos o risco de nem pessoas termos para ter algum interesse como cidade.
Qual é a expectativa do Bloco para domingo?
A nossa expectativa é que as pessoas consigam perceber o que fizemos ao longo destes quatro anos. Conseguimos ser um altifalante de muitas pessoas e de muitos interesses coletivos da cidade. Só no Executivo fizemos mais de 60 propostas e na Assembleia Municipal 100 e tal propostas, muitas delas obviamente chumbadas, com certeza, mas porque há uma maioria que tem uma divergência profunda com a nossa visão de cidade. Acho que nesse momento entenderão que é muito importante que a cidade continue a ter uma governação, que seja uma força de esquerda, que as represente, e que muitas vezes mesmo que não sendo essas pessoas de esquerda. Recebi muita gente ao longo deste mandato — que não era de esquerda, nem da CDU, nem de partido nenhum de esquerda — e que tinha um problema para resolver e queria que alguém o defendesse. Foi isso que fizemos muitas vezes.
Em 2021, o Bloco de Esquerda fez história ao eleger pela primeira vez para a Assembleia Municipal do Porto. Quatro anos depois, depois de se tornar um partido de uma só deputada, a conjuntura é diferente. Sérgio Aires espera ver que as iniciativas do Bloco na cidade sejam lembradas no momento do voto, mas não se compromete com nenhum resultado em concreto, nem mesmo a manutenção da vereação.
No Porto, o BE tem principalmente concorrência, à esquerda, do Livre. Nas sondagens, o candidato Hélder Sousa já aparece à frente do Bloco, tal como, aliás, aconteceu nas legislativas.
O que vai fazer para relaxar durante a campanha eleitoral?
Vou a Ermesinde ver um concerto da Garota Não. Já estava planeado, sábado à noite, estou a relaxar com o concerto da Garota Não. E basicamente é isso. O resto vou fazer o normal, reduzir a velocidade o mais possível, sendo que a adrenalina nunca baixa. Só vai baixar lá para terça ou quarta-feira, mas para já é isso, é isso que vou fazer.
Muito obrigado por esta última chamada, agradeço a colaboração e as respostas.
Nada, muito obrigado eu. Ah, muito obrigado.
Hélder Sousa. A estreia autárquica, a candidatura cultural e as sondagens promissoras
Ouça aqui a última chamada do dia com o candidato do Livre, Hélder Sousa
— Como é que está a correr a campanha, como é que tem sentido o ambiente no terreno?
Está a correr bem, intensa. Os dias têm sido bastante longos, mas diria que está-se muito bem. Na verdade, as nossas mensagens e as nossas reações são bem recebidas pela população.
— Já vai em uma semana de campanha. Já conseguiu criar alguma rotina ou os dias têm sido todos demasiado diferentes?
Nós, na verdade, já começámos este processo, fomos ensaiando já na pré-campanha. Começamos de manhã normalmente a ter reuniões ou a visitar alguma entidade, associações ou algum espaço e depois continuamos pela tarde a falar com as pessoas na rua. Normalmente terminamos o dia assim em algum sítio, hoje foi na Praça do Marquês. Montámos uma espécie de tenda e fazemos um pequeno comício, pequenas intervenções e falámos com a população. É uma rotina que temos tentado seguir também para conseguirmos que as pessoas se aproximem de nós em diferentes alturas do dia e em diferentes pontos da cidade e também nos permitir conhecer melhor o território, a cidade, falar com pessoas. Na verdade, temos ouvido mais do que o que temos falado, curiosamente. Achava que nestes contactos com a população íamos ter que explicar muito as nossas ideias e dizer o que vimos, mas por um lado as pessoas já conhecem o Livre e por outro as pessoas gostam muito mais de ouvir e estão à espera que os políticos as ouçam e que os escutem mais do que falem, acho eu.
— O Hélder já esteve a fazer campanha nas últimas duas eleições legislativas, portanto já tem algum andamento, mas quão diferente é fazer campanha enquanto quinto ou nono candidato como é o seu caso para agora ser cabeça de lista?
Pois, eu confesso, acho que essa tem sido uma das minhas maiores dificuldades. Porque eu nas outras eleições estava nas listas como candidato sim, mas assumi muito a função de coordenador no terreno da campanha, que eu sou produtor ainda por cima e tenho, por defeito profissional, tenho obsessão pela organização e pelo controlo da organização das coisas. E desta vez tenho-me desligado disso para ser só candidato, tem sido um processo difícil não controlar tudo o que acontece, mas por outro lado tem sido muito mais interessante também porque tenho tido muito mais tempo para falar com pessoas, para pensar na cidade e para interagir com as pessoas, isso foi uma coisa que eu não fiz tanto das outras vezes porque estava mais a preparar o terreno para os nossos candidatos e agora temos uma equipe a preparar o terreno para mim enquanto candidato e isso é muito bom, tem-me dado mais tempo também para pensar sobre a cidade.
— E, de uma forma geral, tendo a experiência enquanto programador, diria que é mais difícil planear uma campanha autárquica do que a agenda cultural de um teatro?
A campanha autárquica é mais intensa e imprevisível e como nós estamos um bocadinho condicionados pela agenda mediática, todos os dias há alguns sobressaltos a esse nível. Uma instituição cultural é planeada com muita antecedência, apesar de haver sempre imprevistos, principalmente nas artes performativas que é minha área, as artes ao vivo são sempre imprevistas, mas ainda assim as instituições planeiam com mais antecedência e é mais estável. Mas isto também é uma coisa muito boa das autárquicas, este entusiasmo que nós todos os dias temos porque podemos encontrar pessoas diferentes que nos vão abordar de maneira diferente, às vezes gostam, outras vezes não gostam de nós e isso também é importante às vezes ouvirmos coisas que não gostámos para nos conectar com a realidade, não estamos sempre na nossa bolha e não somos desafiados, por isso nesse aspeto também tem sido interessante.
É uma estreia em termos autárquicos, mas não é a primeira vez que Hélder Sousa participa numa campanha. Nas legislativas de 2024, o adjunto do diretor artístico do Teatro Nacional São João era, também, o nono candidato do Livre nas listas do Porto. Um ano depois, com a queda do primeiro Governo de Luís Montenegro, voltou a integrar os cartazes do partido, mas desta vez a ocupar o quinto lugar na lista.
Agora, Hélder Sousa é o cabeça de lista do Livre à autarquia do Porto e, apesar de se estar a candidatar à presidência da Câmara, Rui Tavares, o porta-voz do partido, diz que “o Porto merece ter um vereador como o Hélder Sousa”. O grande objetivo, para além de uma vitória improvável de acordo com sondagens — mas não impossível, como sublinha o candidato — é eleger e, nesse sentido, consideram que o Porto “tem tratado bem” o Livre.
Em 2024, a representação parlamentar do Livre deixou de ser apenas Rui Tavares, para passar a ser um verdadeiro grupo parlamentar de quatro elementos. Nestas eleições legislativas, os dois porta-vozes do partido foram eleitos pelo circulo da capital e Jorge Pinto entrou como candidato pelo Porto. Nas eleições seguintes, Filipa Pinto foi a segunda deputada do partido a ser eleita pelo circulo eleitoral da Invicta.
— Já tiveram a oportunidade de repetir algum lugar desde que começaram a sair à rua?
Já, já. Nós já demos três vezes a volta às freguesias e em algumas dessas vezes regressámos aos mesmos sítios, até porque gostámos de continuar os assuntos que deixámos. Eu sou muito de fazer campanha nos cafés, nas associações culturais, ao balcão da confeitaria e gosto de ir várias vezes ao mesmo sítio porque isso também permite que as pessoas não se esqueçam de nós e como nós não temos tantos cartazes na cidade como as outras candidaturas, a presença física compensa essa ausência de presença simbólica nos cartazes da cidade. Mas sim, já repetimos, inclusive, visitas às associações, porque achamos importante, as coisas também vão evoluindo e na pré-campanha falámos umas coisas, agora já temos mais dados, já temos mais informação, já temos propostas mais afinadas também.
— Sendo o único cabeça de lista com algum tipo de experiência no setor cultural, será que a sua candidatura acaba por ser mais para vereador com pelouro de cultura do que outra coisa?
Não, eu enquanto cabeça de lista a minha candidatura é para Presidente da Câmara, depois ficarei com o pelouro, ou nós ficaremos com os pelouros, de acordo com as votações, mas apesar da minha especialidade profissional ser área cultural, isto podemos encarar duas formas, a experiência cultural é tão transversal que me permite ter uma visão global da cidade e coordenar equipas e para isso nós estamos preparados, depois também quando elegemos uma pessoa do LIVRE elegemos uma equipa inteira, não é? Portanto, nunca fui Presidente da Câmara, se for agora, se o eleitorado nos der essa vitória, seguramente que eu, como todas as pessoas do LIVRE, e nós temos muitas e muito bem preparadas, mesmo as que não dão a cara, conseguiremos encontrar formas de assumir as responsabilidades, a direção da cultura do ponto de vista pessoal e profissional seria aquela mais se adaptaria ao meu percurso, mas enquanto LIVRE nós temos interesse em muitas outras variações, nomeadamente no espaço público, no urbanismo, na habitação que é uma das coisas mais prioritárias para nós e independentemente da pessoa que assuma a pasta, temos com certeza uma equipa muito, muito preparada para dar resposta a tudo isto, aliás basta ver o nosso programa para perceber que estamos bem preparados e conhecemos a cidade a todos os níveis, não só a nível cultural.
— Na última sondagem da RTP vemo-lo empatado com Filipe Araújo, outras sondagens dão-lhe o quarto lugar… Como é que lê estes “pré-resultados” que, apesar de não serem vinculativos, podem dar uma boa ideia do que pode vir a acontecer no domingo?
Sim, eu creio, as sondagens temos sempre que as relativizar. Ainda mais no Porto, mudanças de ciclo, porque o historial de sondagens no porto nestas mudanças de ciclo tem dado sempre errado. Ainda assim, as sondagens são animadoras porque refletem o crescimento que nós sentimos nas ruas e a aceitação que as nossas propostas têm tido. Agora, nós sabemos que tanto a nível nacional como a nível local e o Livre vai ser um partido autárquico, porque esta implementação local para um partido esquerda-verde como o nosso vai ser muito importante e as nossas políticas vão ser importantes para as cidades. Nós sabemos que o nosso lugar tem que ter mais relevo e não escondemos que o nosso objetivo é ser a terceira força política para sermos depois decididos no governo da cidade depois do dia 12 de outubro. Temos pouco tempo, mas é para isso que estamos a lutar agora e no futuro. Tencionamos ter uma palavra decisiva no governo da cidade do porto no futuro.
— E sente que esta validação dá uma maior legitimidade ao Livre pela escolha de se apresentarem numa candidatura sozinhos em vez do que acontece em Lisboa, por exemplo, com a coligação com o PS e o Bloco de Esquerda?
Não, nesta estratégia que o Livre adotou para estas autárquicas foi desta geometria variável, sendo sempre em conta que a nossa candidatura quer sempre ser progressista, quer sempre representar o campo da esquerda, quer sempre ter atenção à habitação, à mobilidade, à gestão de território. Nós aqui no Porto fomos sozinhos, porque depois de algumas rondas de conversações com os nossos potenciais parceiros, decidimos todos em conjunto que era melhor avançarmos cada um com o seu projeto, também para nos afirmarmos na cidade a médio prazo, sendo que obviamente que estamos disponíveis para depois das eleições dialogar com todos os partidos de esquerda que tenham assento no executivo e que queiram acolher as nossas propostas e que queiram implementá-las de alguma forma para a cidade. Nós estamos sempre a dizer que estamos aqui por duas razões fundamentais e talvez por uma terceira, a terceira é mais imediata, é tentar resolver alguns dos problemas urgentes da cidade, mas as outras é uma razão de longo prazo, estamos aqui para trabalhar para as gerações futuras e para transformar a cidade para que as gerações futuras possam ter melhor qualidade de vida no Porto, mas também estamos aqui para uma abordagem mais ampla à cidade, uma abordagem para além da circunvalação, que inclui políticas que queremos aplicar no Porto, em Matosinhos, em Gondomar, em Vila Nova de Gaia, são políticas transversais para soluções comuns, para problemas comuns de municípios, que principalmente têm a ver com a sustentabilidade do território e com a mobilidade. E por isso isto também nos distingue um bocadinho dos outros, esta visão intermunicipal e a visão para o futuro. Por isso o que acontecer depois de 12 de Outubro, estando sozinhos ou em coligação, o caminho será sempre o mesmo, será sempre pensar mais, pensar melhor, pensar em fazer mais propostas que possam melhorar a vida das pessoas todos os dias, em particular fora dos centralismos, ou seja aqui no Porto ter mais atenção às freguesias periféricas também, não tanto o centro, ter atenção também aos territórios rurais como as camaradas estão a ter aqui em Matosinhos, em Gondomar. Portanto é uma visão assim um bocadinho mais integrada e alargada e eu acho que isto nos está a distinguir dos outros, independentemente se vamos em coligação ou não, porque nas candidaturas onde estávamos coligados também é isto que nós trazemos para a candidatura.
O Livre apresentou candidaturas para um total de 49 autarquias. Na esmagadora maioria (34), o partido vai a jogo sozinho, com candidatos próprios à presidência de diferentes Câmaras municipais. Nas restantes e em alguns dos maiores polos urbanos, o Livre surge em coligação com o Partido Socialista ou com o Bloco de Esquerda. O caso mais notável é o de Lisboa, o concelho onde o partido tem os melhores resultados. O Livre, em conjunto com o Bloco de Esquerda, apoiam a candidatura da socialista Alexandra Leitão à Câmara da capital. Dentro do próprio distrito, em Cascais e Sintra, o Livre aparece em (pelo menos) segundo lugar nas listas, seja atrás do PS ou do Bloco.
À semelhança daquilo que fizeram em 2021, as realidades entre Lisboa e Porto são diferentes e, como tal, o partido decidiu apresentar uma candidatura isolada dos habituais parceiros de governação autárquica. O tema esteve em cima da mesa, mas um possível acordo acabou por nunca aconteces. Porém, a justificação foi simples: “os interesses não foram coincidentes”, explicou Hélder Sousa.
A poucos dias do derradeiro momento de tomada de decisões, o desfecho continua incerto. Está tudo em aberto, com as várias sondagens a dividirem-se entre Pedro Duarte e Manuel Pizarro para a liderança da autarquia do Porto. O empate técnico tem sido o habitual e, se for esse o caso, não será de descartar a possibilidade de serem feitos entendimentos entre partidos — seja durante a noite de domingo ou no decorrer da semana. Depois do Chega, os nomes que flutuam para o quarto lugar nas eleições autárquicas deste ano continuam por definir. De acordo com o inquérito feito para a RTP, Hélder Sousa surge à frente das outras opções à esquerda, seja o Bloco de Esquerda ou a CDU, e empatado com o atual vice-presidente da Câmara, com 6% das intenções de voto.
Apesar de os votos acabarem dispersos pelos diferentes partidos à esquerda, o candidato do Livre não exclui um acordo de governação depois de domingo, admitindo estar aberto para conversar e encontrar uma solução a posteriori.
— Já falámos há pouco sobre a questão da preparação para a campanha e eventos de campanha, mas também houve uma novidade para o Hélder neste seu percurso político: os debates. Apesar de não terem participado em todos, não por vossa escolha, recebeu algum feedback positivo?
Sim, recebemos bom feedback. Nós infelizmente não fomos nem ao da SIC, nem ao da CNN, que era onde estavam menos candidatos, logo cada um teve mais tempo. Nós participámos nos debates alargados, tivemos, é sempre pouco tempo com 13 candidatos é difícil em tão pouco tempo explicar algumas ideias, mas ainda assim eu creio que marcamos a nossa posição, distinguimos-nos por um lado destes candidatos que representam a continuidade e também nos distinguimos de alguma transformação proposta porque, como disse antes, nós estamos um bocadinho mais virados para o futuro e somos um partido mais aberto e mais interessado em promover a qualidade de vida das gerações futuras do que a generalidade das propostas, parece-me.
Mas o feedback que tivemos foi bom e eu, na verdade, estamos assim um bocadinho curiosos para saber se novas sondagens depois desses debates, porque os números que nós falámos, esses 6% que nos foram atribuídos na última sondagem da RTP, foi antes de todos os debates, na verdade. Por isso nós ainda não temos ideia do impacto que terão, mas em fim, sondagens são sondagens mais ou menos como as percepções, mas dão sempre algum ânimo, vamos ver. Mas até temos tido boas reações pessoais e assim, no circuito, pessoas que nos falam, que nos contactam no Instagram, as reações têm sido boas, sim.
— O que é que acha que teria tido um maior impacto, um convite para os debates da SIC e da CNN ou para o Bom Partido do Guilherme Geirinhas?
Eu confesso que, na verdade, não sei. Pessoalmente não sei, porque eu só vi o Geirinhas uma ou duas vezes, tenho ideia que aquilo tem muito alcance, mas não faço ideia do alcance que tem na cidade do Porto, por exemplo. Agora, eu confesso que eu gostaria muito mais de ir ao Geirinhas porque eu prefiro conversar com tempo, em um formato alargado e aquele tom, falar de coisas sérias, em tom de conversa informal, agrada-me mais do ponto de vista de comunicação. Os debates são sempre tensos, são sempre curtos e é isso, e eu na verdade preferia ter muito mais tempo para conversar, mas isso também deve vir da minha falta, da minha menor experiência política, que eu demoro mais tempo para dizer as coisas, gosto de falar calmamente, como já deve estar a reparar por esta conversa. Eu falo muito, gosto de explicar as coisas, às vezes perco-me, às vezes entro em narrativas paralelas, mas enfim, num podcast do Gerinhas ou noutra, foi alguns podcasts por acaso e gostei mais. Isto também porque eu já fiz rádio em tempos e agrada-me mais a questão do podcast do que propriamente a questão televisiva. Mas não sei se respondi à pergunta, respondi.
Nas últimas eleições autárquicas, o candidato do Livre à Câmara Municipal do Porto não foi convidado para participar num debate da TVI24 que reuniu sete dos 11 candidatos à autarquia e, como tal, o partido avançou com uma queixa à Comissão Nacional de Eleições alegando uma “clara violação da própria lei de cobertura jornalística”.
Quatro anos mais tarde, a história repetiu-se. Desta vez, os debates da SIC e da CNN não contaram com a presença de Hélder Sousa, mas Nuno Cardoso — candidato independente apoiado pelo Nós, Cidadãos! e pelo Partido Popular Monárquico — que não tem “qualquer representatividade atual na autarquia”, esteve presente. “Para o partido, este exemplo mostra que o alegado critério da ‘representação prévia’ não foi aplicado de forma consistente, transformando-se numa escolha subjetiva e injusta”, lê-se num comunicado enviado às redações. “A democracia não se faz com exclusões arbitrárias. O pluralismo e a igualdade de oportunidades não são apenas princípios constitucionais: são garantias para que cada eleitor do Porto possa ouvir todas as vozes e escolher em liberdade o futuro da sua cidade”, concluem.
Da mesma forma, a rubrica “Bom Partido”, do humorista Guilherme Geirinhas, tem sido utilizado como arma política ao longo das últimas eleições e, nestas autárquicas, Geirinhas reuniu-se com os principais candidatos de Lisboa, Porto, Oeiras (onde vota) e ainda em Vila do Corvo. Foram convidados Pedro Duarte e Manuel Pizarro, enquanto principais candidatos para suceder Rui Moreira, mas também Sérgio Aires, do Bloco de Esquerda, apesar de não ser tão popular como Hélder Sousa, de acordo com as últimas sondagens publicadas.
— Queria saber também quais é que são os planos para a noite eleitoral?
Nós, na noite eleitoral, ora bem, no dia eleitoral, por acaso eu ainda estava a falar isto aqui com a minha malta, eu vou votar de manhã que eu volto aqui ao pé de casa na escola das comunhas e depois vou ver se durmo uma bela sesta e vamos encontrar-nos todos na sede ao final do dia para jantar, uma espécie de petisco lá na sede e estar bastante ansioso à espera dos resultados e à espera que cheguem as nossas pessoas que foram para as mesas e é isso, vamos passar a noite ali na sede até termos os resultados das nossas eleições.
— Organizaram algum tipo de entretenimento inspirado nessa vossa veia cultural?
Não. Na festa sim, por acaso na festa de encerramento vamos ter uma performance e um concerto mais ou menos cénico, mas na noite eleitoral não, costumamos ter música e as pessoas levam fermentados para beberem se quiserem e estaremos pela sede. Temos um jardim na sede, se houver coragem talvez se façam um pequeno churrasco porque nós temos uma sede com um jardim aqui no centro da cidade e costumamos fazer alguns churrascos nestas alturas festivas, mas isso também depende dos ânimos e da… bem, pode ser uma noite de celebração, pode ser uma noite de celebração mais pequena, não sabemos.
— E para terminar, se tivesse de fazer uma recomendação para uma peça de teatro para as pessoas irem ver no dia de reflexão, o que diria?
Eu por acaso não tenho aqui a agenda cultural no dia da reflexão, mas olhe, assim de repente eu posso recomendar… eu trabalhei com um encenador muito, bastante conhecido, o Ricardo Pais, aqui no Teatro Nacional São João, e goste-se ou não goste do trabalho do Ricardo, ele foi muito importante para a minha geração na Cidade do Porco e vai fazer 80 anos. Eu não sei se é no fim de semana das eleições ou se é no fim de semana a seguir, mas assim de repente era esta a sugestão, porque é uma das coisas que eu queria ver, que é a celebração dos 80 anos do Ricardo com um espetáculo no Teatro Nacional São João e eu acho que vai valer a pena, quanto mais não seja para homenagear este grande senhor do Teatro do Porto, que nos trouxe um teatro nacional e que de alguma forma influenciou a minha geração de atores, produtores e encenadores. Do resto eu confesso que não tenho visto a agenda cultural para estes fins de semana porque a agenda tem sido basicamente campanha.
— Perfeito. Hélder, muito obrigado! Boa noite, bom resto de campanha.
Obrigado eu, boa noite!