José Luís Carneiro juntou todo o tipo de “istas”: pedronunistas, costistas e seguristas. E até a mulher de António Costa, que no passado recente nunca teve iniciativa idêntica com o ex-líder, Pedro Nuno Santos. Pregou “unidade”, mas com avisos internos sérios para as “aspirações individuais próximas ou longínquas” (só faltou dizer os nomes) que possam querer fazer-lhe sombra.
Foi mais intenso aí do que no ataque ao Governo, a quem prometeu “consensos democráticos”, embora sem tibiezas quando estiverem em causa valores fundamentais para o PS. Na audiência tinha um pouco de tudo, do PS mais recente ao mais antigo — ainda que difícil de reconhecer, tendo em conta os bonés vermelhos e brancos distribuídos para proteger do sol intenso e que grande parte da assistência, no jardim da sede nacional do PS, teve de usar (nem Manuel Alegre foi poupado).
Na apresentação da sua candidatura (a única) ao PS, Carneiro quis traçar diferenças face ao passado recente — sobretudo na relação com o Governo –, mas também colocar um travão nas presidenciais e, assim, evitar mais um momento de atrito no curto prazo a interferir com as autárquicas.
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Avisos a opositores internos: sem “golpes”, “vedetismos” ou “ataques pessoais e superficiais”
A intervenção do futuro líder do PS teve mais avisos para dentro do que para o Governo. Carneiro sabe que avança para a liderança em tempos turbulentos para o partido e, por mais que pregue “unidade”, também conhece a sombra que paira sempre sobre qualquer líder da oposição — sobretudo de uma tão fragilizada como a do PS neste momento.
Avisou várias vezes, ao longo da intervenção, que ninguém “perdoará” o PS se ficar “agora a olhar para o umbigo ou se se entretiver a golpear reciprocamente a nossa credibilidade e as nossas qualidades”. Quer “reflexão”, mas que ela não seja confundida “com tentações de ajustes de contas internos ou com cedência a tentativas de aproveitamento por parte dos nossos principais opositores”.
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Foi muito concreto a direcionar os recados: “A quem sobreponha aspirações individuais próximas ou longínquas à defesa do interesse superior do grande partido do socialismo democrático que somos”. Que é como quem diz: aqueles que possam estar à espera que esta seja mesmo uma liderança de transição e que estejam a preparar-se, a médio prazo. Ou mais claro ainda: aqueles que, como Medina, Vieira da Silva e Duarte Cordeiro, ponderaram concorrer à liderança, pedindo tempo para reflexão interna no pós-legislativas, e que podem querer só avançar mais perto de legislativas.
Carneiro avisa que está disponível para refletir — uma exigência desses que ponderaram desafiá-lo — mas com um aviso direcionado a algum eventual “vedetismo”: “Análise e debate? Sim, ao máximo. Ataques pessoais e superficiais na praça pública? Não, nunca. Comigo não contam para isso”.
Avisos para fora: para o Governo e extrema-direita. “Consensos” mas sem ser “tíbio”
A única tirada mais dura para o Governo veio uns bons graus de intensidade abaixo da que usou para os críticos internos. Foi quando falou de economia e disse que “é bom que o Governo tenha atenção aos alertas sobre a situação económica”.
E isto porque, “derramar o saldo orçamental, legado pelos governos do PS, sobre os problemas que são estruturais pode comprar momentaneamente a paz social, mas não é a solução de fundo que o país precisa”, disse Carneiro para explicar o aviso.
De resto, em relação a Luís Montenegro ofereceu disponibilidade para cinco pactos (ler mais abaixo), ainda que avise que isso não quer dizer que será um socialista à disposição. Disse mesmo que não será “tíbio na oposição ao regresso das políticas que ponham em causa os valores e princípios fundamentais da esquerda democrática”.
No início da intervenção tinha já alertado que o PS estará atento aos que “serão deixados para trás por políticas neoliberais, aqueles que serão discriminados por políticas conservadoras, aqueles cuja qualidade de vida não melhorará porque as visões ideológicas da direita não conduzirão a melhores salários, a melhores serviços públicos, a mais bem-estar”.
Também houve uma achega para a extrema-direita, quando se referiu aos valores que o PS defende e declarou que “todos os que tentarem desvalorizar a grande obra da democracia serão sempre os nossos primeiros e maiores adversários”.
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Diferenças para Pedro Nuno
Se a proximidade admitida com a AD já marca uma diferença para Pedro Nuno Santos, houve outros pontos onde quis vincar essa separação.
Aproveitou a Saúde e a Educação ao comprometer-se com a “defesa intransigente do SNS”, mas assumindo logo de seguida que, do seu ponto de vista, “pode e deve ter complementaridades e cooperação com o sector social e privado”.
O mesmo quando falou na habitação, no âmbito da sua “agenda de futuro” (ler mais abaixo), e disse que em dez anos “todas as famílias devem ter acesso a uma habitação condigna, seja através do mercado público, seja através de incentivos à construção privada de casas a preços acessíveis”. Não que Pedro Nuno Santos não admitisse esta complementaridade, mas nunca à cabeça e sempre para fazer prova de cedência ao centro.
Consensos democráticos e agenda de prioridades
Na relação com o PSD, já se sabia que a intenção de Carneiro era a de cooperar. Na sua intervenção referiu os tais “consensos democráticos” que mais não são do que intenções de acordos em áreas concretas: política externa e europeia, defesa, segurança, justiça e organização e reforma do Estado.
Na Defesa, Carneiro defende a “capacitação militar-industrial”, articulando a economia e a ciência” e a “capacidade europeia e atlântica”. O que pretende é “um plano nacional de capacitação militar-industrial”, que envolva “vários ministérios, instituições do sistema científico nacional e do tecido empresarial”. A “prioridade” é honrar o compromisso de reforçar o investimento em segurança e defesa”, disse o socialista sobre a discussão que decorre nesta matéria.
Na Segurança, defende que seja “ainda mais eficaz e ao mesmo tempo humanista”, apontando à necessidade de “reforçar a política de patrulhamento e de proximidade”. Na Justiça, o candidato socialista quer “uma reflexão abrangente de todos os agentes” e isto “no quadro de um compromisso duradouro”. Na reforma do Estado, quer uma “reforma eleitoral a começar pelas autarquias, reformando o seu parlamentarismo e permitindo executivos mais funcionais”.
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Houve um momento curioso quando Carneiro saltou um parágrafo concreto desta parte da intervenção sobre a relação com a maioria no Parlamento: o dedicado à revisão constitucional. A explicação é prosaica e foi dada pelo próprio candidato ao Observador, que disse ter deixado cair o parágrafo porque a intervenção ia longa. Eram 32 páginas, ainda assim, só escolheu saltar esta, suficientemente delicada. Certo é que ia dizer exatamente o que já disse sobre este capítulo, reforçando a ideia (alinhada com Luís Montenegro) de que “não é uma prioridade”. Sobretudo “num quadro de fragmentação parlamentar e de crescimento do número de deputados que querem destruir princípios constitucionais”, escreveu — mas não leu.
Ainda definiu uma “agenda para o futuro”, que passa por aumentar o salário médio, garantir habitação para as famílias e autonomia na produção de energia no espaço de dez anos.
Explicou que quer o aumento de rendimentos, com os salários médios a alcançar o salário médio europeu em dez anos; nesse mesmo prazo quer ter “todas as famílias com acesso a uma habitação condigna, seja através do mercado público, seja através de incentivos à construção privada de casas a preços acessíveis”; garantir que “no máximo até 2035, Portugal seja capaz de se autoabastecer de eletricidade com recursos a fontes renováveis”.
Prioridade às autárquicas. Presidenciais? “Lá chegaremos”
Nesta altura, com António José Seguro já oficializado como candidato presidencial, o PS está em rebuliço sobre as Presidenciais. Mas Carneiro quis colocar um travão às conversas e desfiles de apoios ou críticas que correm nos últimos meses ao dizer que “a prioridade imediata são as autárquicas” e que elas são “um poderoso antídoto contra a progressão populista”.
Refere que o PS “procurará convergências progressistas onde se revelarem necessárias, sólidas e ganhadoras”. E pede “mais mulheres e jovens” nas listas do PS.
Quanto às presidenciais disse apenas: “Lá chegaremos. É o PS que define a sua agenda e é o PS que define a hierarquia das suas prioridades”. E fez mesmo o calendário para atirar as presidenciais para depois das autárquicas: “As autárquicas serão já em fins de setembro, princípio de outubro. As presidenciais serão só em 2026. Cada coisa a seu tempo”, afirma, garantindo saber qual o seu “dever na defesa da autonomia e unidade estratégica do PS”.
PS gere presidenciais com pinças com medo de divisões que comprometam autárquicas
Apoios: da mulher de Costa, aos pedronunistas, mas sem o apoiante Medina
Com um candidato único à liderança e depois de uma hecatombe eleitoral, José Luís Carneiro conseguiu encher o jardim da sede nacional do partido com representantes das várias alas socialistas, até daquela que combateu nas últimas diretas, a que era liderada por Pedro Nuno Santos. Ainda assim, não teve na plateia nem o seu apoiante nas últimas diretas, Fernando Medina, nem Mariana Vieira da Silva. Também não esteve Duarte Cordeiro. Dos nomes do chamado “núcleo de Lisboa”, que chegou a procurar uma alternativa à sua candidatura à liderança, Carneiro só contou com a presença de Ana Catarina Mendes.
Na sede nacional do PS, entre os primeiros a chegar e a ocupar a primeira fila de cadeiras dispostas no jardim estiveram Maria de Belém, Manuel Alegre e Vera Jardim. E a dada altura também a mulher de António Costa, Fernanda Tadeu, ocupou uma das cadeiras da frente. O antigo líder é agora presidente do Conselho Europeu e tem-se mantido afastado do contexto político-partidário, mas Fernanda Tadeu esteve presente — o que nunca tinha feito no tempo da anterior liderança do PS. E foi mesmo uma das quatro mulheres que, no final da intervenção, chamou ao palco para junto de si, ao lado da sua mulher, Goreti, Maria de Belém e a autarca Maria de Medeiros.
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Entre os apoiantes estavam ainda Carlos Zorrinho, André Moz Caldas (que tal como nas últimas diretas do PS volta a ser o coordenador da moção de Carneiro), Miguel Freitas, Rui Solheiro, Arons de Carvalho, Miguel Coelho, Capoulas Santos, Paulo Cafôfo, Eurico Brilhante Dias, Jamila Madeira e José Abrãao. Mas a lista foi muito além dos antigos apoiantes da sua candidatura de há ano e meio, quando concorreu contra Pedro Nuno Santos, tendo agora ao seu lado alguns elementos dessa frente, como Francisco César (presidente do PS Açores), Tiago Barbosa Ribeiro, João Torres e Pedro Delgado Alves (que é o líder parlamentar interino).
Marcos Perestrello, que será vice da Assembleia da República pelo PS, também marcou presença, bem como Sérgio Sousa Pinto, ou Pedro Silva Pereira. E também alguns destacados membros do último Governo de Costa, como António Mendonça Mendes, Ana Catarina Mendes, Nuno Fazenda, Ana Mendes Godinho ou Catarina Sarmento e Castro.
Enfim, houve costistas, pedronunistas e também muitos seguristas — alguns reaparecidos, com o antigo líder a atirar-se agora a Belém. Mas houve duas presenças que ainda há duas semanas estiveram diante de um palco não-socialista, o da apresentação da candidatura presidencial do almirante Gouveia e Melo à Presidência da República: Diogo Leão e Ricardo Pinheiro.