O PS vive um verdadeiro trauma eleitoral e cada passo é medido ao milímetro para evitar que contribua para novo desaire. As próximas eleições são as autárquicas e já serviram de argumento para uma corrida limitada à liderança do partido depois da demissão de Pedro Nuno Santos. Agora, no topo do PS, é o posicionamento do partido nas presidenciais que mais preocupa e o desejo é que se o capítulo não se resolver entretanto sozinho, que possa, pelo menos, ficar para depois das eleições locais.
“A prioridade são as autárquicas”, ouve-se repetidamente das várias vozes de topo quando surge qualquer pergunta sobre presidenciais. E o caso não é para menos. O PS pode estar à beira de viver uma nova cisão presidencial e isso é visto como tendo um potencial de “impacto brutal” nas autárquicas, pelas “clivagens” que pode criar entre as várias candidaturas.
José Luís Carneiro tem, por isso mesmo, pesado cada palavra e, esta semana, quando disse, na CNN Portugal, que o seu objetivo último seria sempre “salvaguardar a unidade do PS”, quis tentar apaziguar o ambiente interno. Horas antes, no mesmo canal, António José Seguro tinha acabado de dizer que ia mesmo candidatar-se a Belém e, como a sua proximidade com Carneiro é bem conhecida (fez parte da sua direção), existia a convicção de que o apoio do PS teria caminho aberto.
Foi também aí que disse que o processo seria fechado pelos órgãos do partido, tal como estava decidido pela Comissão Nacional de fevereiro. Até porque sabia que o avanço de Seguro não mudou muita coisa e um passo precipitado pode deitar a perder uma unidade colada à força no pós-hecatombe eleitoral. E ainda mais nas próximas autárquicas, onde já há altos quadros, dirigentes, líderes distritais e mesmo candidatos que se posicionaram para as presidenciais.
Seguro anuncia candidatura a Belém e defende que país “não coloque os ovos no mesmo cesto”
Ao contrário do que esperavam — até alguns do que aguardam por António Vitorino — a concretização de Seguro não teve a desistência do ex-ministro como efeito imediato. Vitorino continua o seu processo de reflexão e a “ouvir opiniões” que considera “relevantes”, segundo fonte próxima. E enquanto este nome não sai de cena, outros como o de Augusto Santos Silva e António Sampaio da Nóvoa também não se definem. Para o professor universitário que já se candidatou há dez anos (com apoio de figuras de peso do PS, incluindo Augusto Santos Silva), a lista de apoios disponível será fundamental, sendo certo que é difícil que se comprometam enquanto Vitorino estiver em jogo — sobretudo os que podem vir do PS.
Santos Silva mantém ao Observador que entre as candidaturas que já se conhecem nenhuma “cumpre ainda os requisitos” que se exige a um Presidente da República. A resposta foi dada na manhã seguinte ao anúncio de Seguro, a quem o ex-ministro socialista não tem poupado críticas. “António Vitorino deve candidatar-se. Não se pôs de fora e acredito que vai candidatar-se”, mantém. “Se não acontecer, pode ser preciso encontrar uma candidatura alternativa”, acrescenta. Se é a sua própria ou a de Nóvoa, Santos Silva não esclarece.
Apoiar nome de fora não anima (com um antigo líder em jogo)
Certo é que no topo do PS é visto como difícil que o partido possa vir a apoiar um candidato de fora, como Sampaio da Nóvoa. Sobretudo quando está em campo um antigo secretário-geral do partido. É um argumento frequentemente usado entre apoiantes de Seguro, para pressionar no sentido do antigo líder. Francisco Assis, ainda esta semana no canal Now, disse estar “convencido e até estranharia” se o PS não apoiasse Seguro. “Foi secretário-geral do PS, secretário-geral da JS, desempenhou as mais diversas funções no PS e no país” e “concita um grande apoio nas bases e simpatizantes do PS”, considerou Assis que pressiona: “Tendo [Seguro] uma relação tão íntima com o PS e tão profunda, até acaba por resolver algum problema que o PS tivesse”.
O que o PS desejava era que a situação pudesse resolver-se sem dramas, ou seja, não haver mais do que uma candidatura na sua área, tornando óbvia a decisão de apoio. Mas Seguro não tem gerado grande consenso e a pressão para uma alternativa mantém-se acesa. De qualquer forma, no partido a ordem é esperar o mais do que se conseguir, procurando que tudo possa estar mais claro na hora da decisão — pelo caminho haverá inclusivamente alguns elementos, como estudos de opinião, que podem também influenciar o processo.
Não está sequer fechado que, na altura, os órgãos próprios possam mesmo decidir que o PS afinal não apoia ninguém oficialmente e cada socialista ficará livre de escolher por si. A ideia começou a ganhar tração nas últimas semanas. Fernando Medina foi uma das vozes que se ouviu, também no Now, a lembrar que “a posição de apoio expresso a um candidato era uma decisão de Pedro Nuno Santos. Não quer dizer que seja a deliberação dos órgãos do PS“, defendeu.
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O anterior líder tinha marcado neste capítulo uma das grandes diferenças face à gestão da anterior direção. Nas duas presidenciais da era Costa, o PS manteve-se neutro e a convicção era de que isso acabaria por ajudar Marcelo Rebelo de Sousa. Dessa direção, Duarte Cordeiro continua vocal na necessidade de um Presidente que marque a diferença em relação a Marcelo, colocando mesmo essa como “uma das dimensões importantes” de um futuro candidato. “É importante uma leitura crítica face ao mandato do atual Presidente”, afirmou no seu espaço de comentário televisivo.
A convicção na ala que quer Vitorino é que se o antigo ministro não avançar “avança Sampaio da Nóvoa e dois terços dos dirigentes vão apoiá-lo. Logo, o PS não vai apoiar ninguém”, calcula um socialista desta frente. Tudo isso pode ser posto à consideração dos órgãos do partido e não apenas o apoio a um nome ou outro.
No partido há muitas críticas sobre “o lançamento precoce do processo”, como lhe chama Santos Silva, e a tentativa é pôr-lhe um travão. “Não é tarde”, diz Santos Silva sobre mais candidaturas que defende que apareçam: “Não estou inquieto quanto ao tempo”. No entanto, com Seguro oficializado, os apoios vão-se orientando e isso também encurta margem para quem mais quiser vir a posicionar-se.
O candidato presidencial parece — sem surpresa — pouco incomodado com o tempo. Esta quinta-feira também disse, na CNN Portugal, que o PS “tem todo o tempo do mundo para decidir o que deve fazer nestas eleições presidenciais.” Apresentou-se como um candidato desligado dos partidos, “sem amarras”, e garante colher apoios de “muita gente” dentro do PS, mas também noutros partidos e referiu mesmo estudos de opinião que apontam o seu potencial de penetração “em todos os eleitorados de todos os partidos”.
Seguro já tem ao seu lado Assis, mas também João Soares, alguns presidentes de federação (a Guarda já foi clara) e a lista vai crescer nos próximos dias, até à apresentação da candidatura, nas Caldas da Rainha no dia 15 deste mês. Também já sabe que conta com uma lista de opositores socialistas que têm repetido isso mesmo semana após semana, como é o caso de Mariana Vieira da Silva, Augusto Santos Silva ou até mesmo Duarte Cordeiro que, embora publicamente menos duro, disse esta semana que não lhe parece que Seguro “vá reunir unanimidade dentro do PS” — escuda-se na falta de informação sobre o que pensam os candidatos para não manifestar apoio a ninguém nesta fase.
A tensão no partido com este tema continua a ser enorme e o sonho é mesmo que tudo pudesse ficar para depois do processo eleitoral mais exigente para o partido. O PS é a maior força autárquica e depois da derrota pesada nas legislativas, teme perder também esse posto ao nível do poder local, onde tem como fasquia a manutenção da maioria das câmaras e das freguesias.