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Javier Milei (à esquerda), Eduardo Bolsonaro (ao centro) e José Antonio Kast (à direita)
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▲Javier Milei (à esquerda), Eduardo Bolsonaro (ao centro) e José Antonio Kast (à direita)

▲Javier Milei (à esquerda), Eduardo Bolsonaro (ao centro) e José Antonio Kast (à direita)

Chile, Bolívia e Honduras: em 2025, a América Latina virou à direita com o apoio de Trump. Brasil e Colômbia vão seguir a tendência?

Sob a influência de Trump, vários partidos de direita — da mais moderada à radical — venceram as eleições na América Latina. Tendência vai repetir-se em 2026, ano de eleições no Brasil e Colômbia?

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“A esquerda retrocede. A liberdade avança!” Nas redes sociais, o Presidente argentino, Javier Milei, partilhou um mapa da América Latina que distingue os países em que governam partidos de esquerda e de direita. O líder da Argentina celebrava a viragem à direita de mais um governo da região, neste caso o do Chile, com a vitória de José Antonio Kast nas eleições presidenciais. Noutra publicação mais provocadora, que irritou os brasileiros, o chefe de Estado argentino chegou a partilhar uma América do Sul dividida entre favelas (onde se incluem o Brasil, a Colômbia, a Venezuela e o Uruguai, governados pela esquerda) e arranha-céus (como a Argentina, o Chile, o Peru e o Equador, governados à direita).

Em 2025, a tendência política na América Central e do Sul foi de clara viragem à direita — da mais moderada à mais radical. Os eleitores preferiram líderes daquele espectro político, derrotando os dos partidos de esquerda. Aconteceu no Chile, na Bolívia, no Equador, nas Honduras e até na Argentina — em que Javier Milei conquistou uma sólida vitória nas legislativas (apesar de ter perdido as eleições municipais na capital, Buenos Aires). Há um elo a ligá-los: muitos candidatos contaram com o apoio do Presidente norte-americano, Donald Trump.  

Há quatro anos, a tendência era a inversa: os partidos de esquerda progressista dominaram nas várias eleições na América Latina. Gabriel Boric tinha vencido as presidenciais no Chile, Gustavo Petro na Colômbia (um país tradicionalmente de direita e que elegeu pela primeira vez na História um Presidente assumidamente de esquerda), Lula da Silva no Brasil, Pedro Castillo no Peru e Xiomara Castro nas Honduras. Com a particularidade de todos eles substituírem lideranças mais à direita.

Vai esta viragem à direita prolongar-se no próximo ano? Há vários países com eleições importantes: há presidenciais no Peru, Colômbia e Brasil — os dois últimos potências regionais. Ao mesmo tempo, o regime venezuelano liderado por Nicolás Maduro continua a ser ameaçado pelos Estados Unidos da América (EUA), o que poderá alterar ainda mais o panorama, principalmente se María Corina Machado (assumidamente de direita) suceder ao atual Presidente.

O que explica a viragem à direita na América Latina?

Politicamente, a América Latina sempre funcionou por ondas e seguiu tendências de outras partes do globo. No início dos anos 90, vários países tiveram regimes neoliberais de direita — à semelhança do Reino Unido liderado pela ex-primeira-ministra Margaret Thachter, ou dos Estados Unidos, com o Presidente Ronald Reagan. No final da década e no início dos anos 2000, virou à esquerda, com Lula da Silva e Hugo Chávez (que representavam correntes diferentes) a serem os principais rostos dessa mudança.

A meio da última década, a tendência voltou a alterar-se com várias vitórias de líderes mais à direita: Sebastián Piñera no Chile, Mauricio Macri na Argentina e Jair Bolsonaro no Brasil. Em poucos anos, assistiu-se a mais uma viragem à esquerda, com o regresso ao poder de Lula da Silva, a vitória de Gabriel Boric no Chile e de Gustavo Petro na Colômbia.

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▲ Gabriel Boric, Lula da Silva, Xi Jinping e Gustavo Petro

POOL/AFP via Getty Images

A derrota de Donald Trump (que o atual Presidente nunca assumiu) em 2020 para Joe Biden e as imagens da invasão do Capitólio que se seguiu como contestação serviram para muitos políticos de esquerda na América Latina usarem o exemplo para apontarem uma deriva antidemocrática aos partidos de direita e aos riscos que acarretavam para a democracia. O guião repetiu-se praticamente se com o falhanço da reeleição de Jair Bolsonaro no Brasil, que levou à invasão da Praça dos Três Poderes em 2023.

No entanto, no final de 2023, a Argentina veio alterar novamente o jogo: elegeu um Presidente que se assumia anarcocapitalista, libertário e radical. Praticamente a solo neste espaço ideológico na América Latina, Javier Milei foi tentando angariar aliados na região. Esse esforço acabou por ganhar um grande impulso com a reeleição de Donald Trump nos Estados Unidos. E esta direita que foi ganhando eleições é mais conservadora e radical — e inspira-se fortemente no trumpismo.

Para Anabella Busso, professora de política internacional da Universidade Nacional de Rosario na Argentina, o que se passa em vários países da América Central e do Sul é uma “tendência no Ocidente que abarca não apenas a América Latina, mas também os Estados Unidos e os países europeus”. Em declarações à RTVE, a especialista explica que se atravessa uma “profunda crise da política e dos partidos tradicionais em todos os países”.

epaselect epa12485085 Argentine President Javier Milei celebrates after learning the results of the legislative elections in Buenos Aires, Argentina, 26 October 2025. La Libertad Avanza (LLA), the party of President Milei, won the legislative elections with 39 percent of the vote. In comparison, the Peronist Fuerza Patria party and its allies obtained 29.4 percent of the vote, according to official data.  EPA/JUAN IGNACIO RONCORONI

▲ Vitória Javier Milei nas eleições presidenciais argentinas de 2023 começou com a viragem à direita na América Latina

JUAN IGNACIO RONCORONI/EPA

Embora a viragem à direita seja global, na América Latina, existe, prossegue a mesma especialista, uma “forte insatisfação com cenários de violência e com a presença do crime organizado”: “Isso explica o triunfo da direita e a sua consolidação”. Neste contexto, o exemplo usado é o de El Salvador, liderado pelo Presidente Nayib Bukele, que, através das suas políticas, teve sucesso em diminuir a criminalidade no país da América Central. “É o caso mais típico”, afirma Anabella Busso.

Adicionalmente, muitos partidos mais progressistas de esquerda não foram capazes de, enquanto estiveram no poder, melhorar as condições de vida da população. “Não conseguiram levar a cabo e consolidar mudanças estruturais na região que permitissem a ascensão social”, opina a especialista, acrescentando que as “redes sociais” e alguns órgãos de comunicação social “estão a favor da direita mais radical na América Latina”.

Numa análise escrita para a revista Americas Quartely, o analista Michael Reid referiu precisamente que o “crime organizado” — com “assaltos violentos e extorsões” — aumentaram as preocupações dos eleitores, que preferiram votar em líderes mais à direita. De acordo com o especialista, a esquerda não tem conseguido apresentar soluções concretas para este problema: “Foca-se nas causas profundas do crime e aponta para a desigualdade e a pobreza. A não ser que [esta estratégia] seja apoiada por qualquer força dissuasora ou por sanções, não oferece alívio para quem vive com medo”.

Na América Latina, existe uma "forte insatisfação com cenários de violência e com a presença do crime organizado": "Isso explica o triunfo da direita e a sua consolidação."
Anabella Busso, professora de política internacional da Universidade Nacional de Rosario

Em simultâneo, o aumento de custo de vida continua a ser um problema que os partidos da esquerda na América Latina não conseguem solucionar, apesar de várias promessas. “Desde há uma década para cá, a América Latina registou um crescimento económico residual”, expôs Michael Reid.

Mas nem todos os países da América Latina são iguais. “Centrar todo o debate público na ideia de uma “onda de direita” e colocar todas as lideranças no mesmo saco esconde o facto de que existem reivindicações dos cidadãos com bases concretas”, aclarou a politóloga Yanina Welp, citada pela Deutsche Welle. Existem alguns fatores comuns, é certo, como o aumento da criminalidade e uma “tremenda insatisfação com o estado das coisas”, nomeadamente a “corrupção”.

Porém, há prioridades distintas e líderes com carisma diferente. A vitória de José Antonio Kast, no Chile, explica-se em particular pela “segurança e a imigração”; o Presidente eleito fez bandeira da diminuição do número de imigrantes (particularmente os venezuelanos) no país. Em comparação, frisa Yanina Welp, na Argentina o “triunfo de Milei explica-se muito mais por variáveis económicas e pela inflação”. O mesmo cenário aconteceu na Bolívia, com a vitória do candidato de direita moderada, Rodrigo Paz.

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▲ José Antonio Kast, o Presidente eleito do Chile

AFP via Getty Images

O efeito Trump na América Latina e o regresso da doutrina Monroe

A eleição de Donald Trump, em 2016, abriu caminho para muitos líderes de direita chegassem ao poder na América Latina. O exemplo mais paradigmático foi o de Jair Bolsonaro, um dos maiores aliados políticos durante o primeiro mandato do atual Presidente norte-americano. Quando o magnata perdeu as eleições, as forças políticas de direita voltaram a ressentir-se e ficaram sem inspiração ideológica — e os partidos de esquerda voltaram a dominar a cena política.

Neste segundo mandato, Donald Trump tem mais confiança e rodeou-se apenas de aliados para avançar com a sua agenda política. O Presidente norte-americano ganhou mais força —já influenciou eleições e até ameaça derrubar o regime venezuelano. Isso traz credibilidade a vários líderes do mesmo espaço ideológico na América Latina. “Trump tem sido um grande fator em legitimar figuras como Milei, Kast ou Bolsonaro que, noutras circunstâncias, poderiam ser vistos como fanáticos”, diz William A. Booth, especialista em história da América Latina na University College London’s à Anadolu Agency.

Se isso foi importante no primeiro mandato, no segundo ainda é mais. Isto porque Donald Trump já influenciou diretamente várias eleições. Na antecâmara das eleições legislativas argentinas — bastante importantes para Javier Milei —, o Presidente norte-americano concedeu um empréstimo de 20 mil milhões de dólares (cerca de 17 mil milhões de euros) à Argentina. Mais: o chefe de Estado ameaçou que essa verba teria de ser devolvida, caso um “socialista ou um comunista” ganhasse as eleições.

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▲ Empréstimo dos EUA à Argentina ajudou Javier Milei nas eleições legislativas de 2025

China News Service via Getty Ima

Nas Honduras, Donald Trump apoiou diretamente a candidatura de Tito Asfura, o candidato de direita radical. Nas redes sociais, o Presidente norte-americano defendeu que o candidato “estava a lutar contra Maduro” e para que os “narcoterroristas não controlassem mais um país”. “O único amigo verdadeiro da liberdade nas Honduras é Tito Asfura. Tito e eu podemos trabalhar juntos para lutar contra os narcoterroristas e trazer a ajuda necessária para o povo das Honduras”, escreveu o líder norte-americano, avisando  que “não podia trabalhar com comunistas”.

Ainda que tenha sido por uma margem estreita, Tito Asfura venceu as eleições presidenciais nas Honduras. Já Javier Milei obteve uma vitória convincente nas eleições legislativas argentinas, que lhe permitem ter o respaldo do Congresso para avançar com as suas políticas. Como consequência deste triunfo, na Argentina, o Orçamento do Estado para 2026 foi aprovado, sendo que antes — com o expressivo domínio das forças peronistas de esquerda — isso era praticamente impossível.

Na Venezuela, as ações contra o regime de Nicolás Maduro ainda têm sido mais agressivas. Ao longo dos últimos meses, os Estados Unidos lançaram vários ataques aéreos contra embarcações no Mar das Caraíbas, reforçaram a presença militar perto da costa venezuelana e até já levaram a cabo uma operação terrestre contra o que dizem ser uma instalação de droga. O objetivo desta ofensiva poderá ser a fuga da elite política venezuelana e a ascensão ao poder de figuras de oposição favoráveis a manterem boas relações com os EUA.

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▲ Regime de Nicolás Maduro continua sob ameaça de Donald Trump

Getty Images

Em novembro de 2025, os EUA desvendaram a sua Estratégia de Segurança Nacional. E o documento é claro sobre a política que o país vai seguir na América Latina: “Após anos de negligência, os Estados Unidos vão reafirmar e fazer cumprir a Doutrina Monroe e restaurar a proeminência no Hemisfério Ocidental e proteger a pátria”. O país pretende voltar a assumir a preponderância no continente americano — e não esconde que fará o que estiver ao seu alcance para concretizar essa finalidade.

Para tal, Washington indicou que vai recorrer a “aliados já estabelecidos no Hemisfério para conter a imigração, travar o fluxo de drogas e reforçar a estabilidade e segurança em terra e no mar” e também vai “expandir as ações, cultivar e reforçar novas parcerias, reforçando ao mesmo tempo a posição dos EUA como parceiro preferencial em termos económicos e segurança no Hemisfério”.

O que se espera para 2026 na América Latina?

A estratégia adotada pelos Estados Unidos deverá manter-se em 2026: vão apoiar candidatos do mesmo espaço ideológico que o de Donald Trump: Washington pretende manter ou ganhar aliados na região, num clima de competição com a China e a Rússia, que têm também tentado expandir a sua influência na América Latina. Nesta região, em 2026, há muito em jogo com várias eleições a ocorrer.

▲ Donald Trump e Jair Bolsonaro

MICHAEL REYNOLDS/EPA

Por aquilo que aconteceu no primeiro mandato, Donald Trump estará especialmente atento ao que se passa no Brasil, devido às suas ligações com o antigo Presidente. Lula da Silva já assumiu que se vai recandidatar a um quarto mandato e deverá ser o candidato da esquerda brasileira, apesar dos problemas de saúde e de já ter 80 anos. A direita ainda continua a ser uma incógnita em quem vai apostar. Jair Bolsonaro está impedido — e especula-se que poderá ser um dos seus filhos ou mesmo a mulher, Michelle, a suceder-lhe na corrida presidencial. Ao centro, também ainda não há uma figura unificadora.

William A. Booth preconiza que “Donald Trump vai sem dúvida tentar intervir contra Lula”, mesmo que as “últimas tentativas” não tenham tido grande sucesso. O Presidente norte-americano já tentou defender, nas redes sociais, o aliado Jair Bolsonaro (pediu para que o deixassem “em paz”) e até já impôs sanções ao juiz do Supremo Tribunal brasileiro, Alexandre de Moraes, entretanto levantadas. Em todo o caso, as ameaças e promessas de ajuda ao antigo líder do Brasil não funcionaram: Jair Bolsonaro foi mesmo condenado a 27 anos de prisão e impedido de se recandidatar.

Na Colômbia, outra potência regional que faz fronteira com a Venezuela, o atual Presidente Gustavo Petro não se pode recandidatar a um novo mandato. A esquerda está a procurar convergir em torno do senador Iván Cepeda, filósofo, que é conhecido pela sua oposição ao ex‑presidente de direita Álvaro Uribe. O centro e a direita moderada ainda estão a estudar os melhores candidatos para as eleições de maio, enquanto a direita mais radical deverá eleger Abelardo de la Espriella, um advogado que faz da luta contra a corrupção a sua principal bandeira.

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▲ Iván Cepeda, o candidato de esquerda nas próximas eleições presidenciais da Colômbia marcadas para maio de 2026

Bloomberg via Getty Images

Donald Trump já deixou várias ameaças a Gustavo Petro, dizendo que — depois de Nicolás Maduro — poderá ser o “próximo a cair” na região. No mesmo sentido, os Estados Unidos já aplicaram várias sanções contra o chefe de Estado colombiano por ter permitido que os “cartéis de droga floresçam” no país. Por sua vez, Abelardo de la Espriella já tentou piscar o olho ao líder dos EUA, garantindo que defende os “mesmos valores e princípios fundamentais que defende o governo de Donald Trump”.

E depois há a Venezuela, que continuará a ser um dos focos dos Estados Unidos na América Latina. Sendo considerado um regime que promove o “narcoterrorismo”, Washington vai continuar a pressionar Nicolás Maduro. “Os dias dele estão contados”, ameaçou já Donald Trump. No país, a líder da oposição está pronta para assumir o poder. María Corina Machado terá o apoio norte-americano numa eventual transição de poder.

No Hemisfério Ocidental, os Estados Unidos reforçaram a sua influência ao longo do último ano. A reeleição de Donald Trump impulsionou várias forças políticas e Washington conseguiu influenciar algumas eleições na região para ter o desfecho que desejava. Em 2026, os EUA não deverão ficar de braços cruzados na região do mundo que veem como a sua principal zona de influência.

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