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A procura pelas águas do interior é uma tendência deste verão

PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

A procura pelas águas do interior é uma tendência deste verão

PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA

Cidades desertas e oásis do interior "lotados". O turismo a duas velocidades no primeiro verão da pandemia /premium

O medo da pandemia tirou os turistas das ruas nas grandes cidades, mas há regiões no país onde o verão “pode superar 2019”. O novo turismo da era Covid-19 passa pelo interior.

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A água é a nossa galinha dos ovos de ouro”. Nunca, como agora, quando o país sofre com os efeitos económicos da pandemia, esta frase foi tão verdadeira para os operadores turísticos nas margens do Zêzere. Poderiam ser tempos de penúria, mas o mesmo medo que está a contribuir para afundar a economia do país este ano é a tábua de salvação para quem pode garantir espaço, natureza e um “pedaço” de água aos turistas portugueses.

Em torno da barragem de Castelo de Bode, Jorge Rodrigues, empresário e líder de uma associação de turismo local, reduziu para metade a lotação do hotel que dirige, mas – ainda assim – o negócio está mais rentável. E Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro, confirma que há “uma fortíssima afluência do mercado nacional” nos vários concelhos influenciados pela barragem, entre os distritos de Santarém e Castelo Branco.

Este é apenas um de vários casos no país em que a procura dos portugueses pelo isolamento está a trazer uma certa normalidade turística a algumas regiões, face à quebra do exterior. São oásis num panorama que se avizinha bastante problemático um pouco por todo o território nacional.

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Ainda não há números oficiais do turismo a partir de junho, mas as praias do Algarve e de outras regiões são, por estes dias, uma versão pálida do que foram no passado; Lisboa regressou aos tempos em que não era necessário reservar restaurantes, nem ficar na fila para ver monumentos; e cidades como Porto e Braga, que concentravam 75% dos turistas no Norte, têm uma taxa de ocupação hoteleira que não passa agora dos 30%.

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É neste cenário que o interior e a “fuga” de portugueses das cidades podem suavizar o tombo do turismo português. Resta saber quanto.

O verão “está mais forte do que no ano passado” em Castelo de Bode

Um lago grande, com 60 km de comprimento — não contando com os braços do rio Zêzere — tem “muito espaço, tranquilidade e segurança”. Jorge Rodrigues, presidente da Associação dos Empresários de Turismo do Castelo de Bode, já previa, por isso, que a procura de turistas por este território do interior pudesse ser interessante no verão, tendo em conta a pandemia. Mas talvez não esperasse tanto. “Eu diria que está mais forte do que no ano passado”, diz ao Observador o empresário.

Em junho e julho, os alojamentos têm estado, por regra, “cheios ao fim de semana” e aos dias úteis, apesar de haver “um pouco menos” de afluência, há “muito boa procura”. A dinâmica já vinha de trás, nota Jorge Rodrigues — e a pandemia não trocou as voltas aos empresários da região. No caso dos restaurantes, a situação não é tão favorável, porque têm de respeitar as restrições de capacidade impostas pelas autoridades de saúde, mas também “têm procura”.

A barragem de Castelo de Bode está a atrair muitos turistas portugueses este ano

PAULO CUNHA/LUSA

Uma das grandes atrações, além da própria barragem e da paisagem que a envolve, são as praias fluviais que acompanham a bacia do rio Zêzere. Nos últimos anos, várias dessas praias — em Abrantes, Ferreira do Zêzere, Vila de Rei, Sertã e Tomar — habituaram-se à presença de turistas. E o negócio foi florescendo não só na hotelaria e na restauração, mas também na animação turística e nos desportos náuticos.

Com a queda de turistas estrangeiros em todo o país, são os portugueses que seguram o barco por estas paragens. Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro, confirma que em julho houve “uma fortíssima afluência do mercado nacional” na zona de Castelo de Bode, estando “já quase a ultrapassar o mesmo período do ano passado”. Acredita, por isso, que este verão “pode superar 2019” — até porque há em agosto “a chegada dos emigrantes”, ainda que em menor número do que o habitual.

“Reduzimos a lotação para metade, mas o volume de negócios é maior”

“O feriado de 10 de junho foi a alavanca” em que os portugueses começaram a procurar Castelo de Bode, conta Jorge Rodrigues, que também gere um “hostel de charme” na zona de influência da barragem. O Villa Nova Nautic and Nature, na Serra de Tomar, está a aproveitar bem o momento, fazendo menos com mais — “reduziu a lotação para metade, mas o volume de negócios é maior”.

Em tempos de pandemia, o empresário abdicou das camaratas — que não eram a principal fonte de rendimento —, restringiu a reserva a um mínimo de duas noites e criou pacotes de uma semana. Os quartos são, por isso, usados durante mais tempo. E o rendimento subiu. Apontando para um público-alvo “médio-alto”, garante que manteve a generalidade dos preços, embora reconheça que há um aumento nos fins-de-semana de agosto. O perfil dos clientes também mudou: “Tivemos 11 nacionalidades diferentes no ano passado, mas este ano apenas duas ou três”.

O verão está praticamente todo garantido para muitos. “Em agosto, a ocupação está já muito perto de 100%” em várias unidades da região. Por exemplo, a Casa do Avô, no concelho de Abrantes, “já só tem vaga para 28 de agosto”. E, fora da hotelaria, a empresa Barcaça, na Serra de Tomar, “nunca viu uma pressão tão grande de procura” pelos barcos e pelas atividades náuticas, assegura Jorge Rodrigues.

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E para o próximo ano, será que a tendência continua? Jorge Rodrigues admite que a procura de portugueses pelo interior possa cair, mas ainda com “grande procura”. E antevê um aumento do investimento na animação turística.

O que não deverá acontecer é mais construção, porque há um plano de ordenamento que o impede, e o empresário concorda que haja “contenção”. É verdade que não há sal nem ondas por estas bandas, mas a água “é de qualidade, com 28 graus”,  deve ser preservada: “A água é a nossa galinha de ovos de ouro”.

Maioria dos alojamentos das Aldeias do Xisto estão “lotados até final de agosto”

Estávamos à espera de um decréscimo” no número de turistas, reconhece Rui Simão, coordenador da Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto (ADXTUR), que lidera uma rede de desenvolvimento sustentável para proteger o património natural, arquitetónico e cultural da região, em parceria com 21 autarquias e mais de 100 operadores.

Rui Simão indica que “junho foi o melhor de sempre, não apenas em termos de dormidas, mas também porque houve mais rejeições [de clientes], por falta de disponibilidade”. “Em junho do ano passado não estava assim cheio e havia mais estrangeiros”.

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Mas não foi só junho. Os dois meses seguintes estão a ser “equiparáveis a 2019”, com a maioria dos 100 alojamentos disponíveis na região “lotados até final de agosto” — sobretudo no turismo rural. “A procura nacional compensou” e o valor por reserva aumentou, porque “o tempo das estadias passou de duas noites para cinco a sete noites”, mas Rui Simão garante que não houve alteração nos preços das 27 aldeias abrangidas pela rede.

Em setembro, no entanto, as reservas “caem de forma abrupta”. “É surpreendente — a queda em setembro foi muito maior do que noutros anos”. As reservas estão a ser feitas “com muito menos antecedência do que o habitual”, o que, para Rui Simão, pode ajudar a explicar o fenómeno.

São as “famílias mais alargadas” — que querem “segurança e até isolamento” — quem mais procuram alojamento nas Aldeias do Xisto. Sobretudo “casas inteiras, que tenham piscina, churrasqueira e sejam abrangidas por serviços take-away”. As cerca de 20 casas que têm estas valências “estão praticamente cheias” todo o verão.

“O medo e o desconhecimento levam as pessoas a fazerem este tipo de escolhas” pelo interior, considera Rui Simões. E a pandemia “veio valorizar os atributos que as Aldeias de Xisto já ofereciam” — incluindo uma vasta paisagem de montanhas de xisto, 50 praias (mais de 30 com bandeira azul) e percursos pedestres e de BTT.

O turismo por aqui “não é tão cómodo para quem apenas se quer dar ao ócio”, avisa o coordenador da ADXTUR, mas é “urbano e cosmopolita”.

Nas aldeias de Xisto (na foto, Janeiro de Cima) “junho foi o melhor de sempre"

Mafalda Pombo Lopes

Para o futuro, Rui Simão, formado em planeamento regional e urbano, deixa a certeza de que as aldeias “nunca terão um turismo de massas”. E acredita que este pico de procura “não vai ser circunstancial”, porque muitos dos turistas deste verão já as conheciam.

Se 2020 não estragar as expectativas da agência, deve avançar ainda neste semestre com “uma bolsa imobiliária” que permita aproveitar casas que não estão a ser usadas, garantindo mais oferta e maior diversificação nas aldeias.

O outro Centro está em dificuldades

Apesar do bom momento que se vive nas Aldeias do Xisto, nem todos estão a colher os mesmos frutos. Os hotéis — que representam uma fatia menor nos cerca de mil quartos disponíveis na região —, “não estão a 100%”, segundo o coordenador da ADXTUR.

E os operadores turísticos que dependem de estrangeiros “demoraram mais a retomar”, bem como os restaurantes e as empresas de animação, que têm quebras no negócio. Este ano será mais difícil ter concertos de jazz ou fado e outras atividades. “Mas há adaptação de programas, mais ligados à água e a passeios”, garante Rui Simão.

Este tipo de discrepâncias são também visíveis à escala do Centro, que abrange quase um terço do território nacional e perto de 2,4 milhões de habitantes. A região está a sentir dificuldades junto ao Atlântico (nas regiões que incluem Aveiro, Coimbra, Leiria e a região do Oeste) e o presidente do Turismo do Centro revela mesmo que a média “vai ser inferior a 2019 por causa da quebra no litoral”.

Atividade turística na região Centro "vai ser inferior a 2019 por causa da quebra no litoral”, diz o presidente do Turismo do Centro, Pedro Machado

CARLOS BARROSO/LUSA

Apesar de ainda não ter números fechados destes meses, Pedro Machado consegue identificar algumas tendências, concluindo que as unidades hoteleiras em centros urbanos “estão a ser prejudicadas pela falta de eventos, como casamentos e batizados”. Por exemplo, a Quinta das Lágrimas, em Coimbra, que visitou recentemente, tem menos visitantes, com os casamentos e batizados a não terem, por regra, mais do que 20 ou 25 pessoas. Por vezes, a taxa de ocupação até atinge os 100%, como é o caso deste fim-de-semana (em que Coimbra recebeu o Benfica-Porto), mas, em geral, “o rendimento é muito inferior”.

O contraste é evidente com as zonas interiores. “A procura por espaços rurais no interior está a ter, pelo menos, valores iguais ou mesmo superiores aos do ano passado” no Centro. A procura pelo interior “vem para ficar”, acredita Pedro Machado.

Turistas “refugiam-se” nos alojamentos. “Ficam ali, como se fosse uma casa fora de casa”

O negócio de turismo rural de Ana Pedrosa e do marido, António Sá, no Parque Natural de Montesinho (Bragança), ia lançado no início de março, numa espécie de estágio para o primeiro verão. “Nós apercebemo-nos de que ia começar a correr bem na Páscoa, já tínhamos várias reservas para essa altura”, conta a proprietária ao Observador. Só que a pandemia chegou, os turistas assustaram-se e os cancelamentos começaram a surgir.

Apenas com o desconfinamento, em meados de maio, é que a Bétula Studios voltou à vida — ainda que muito timidamente. Junho passou com metade das quatro casas ocupadas — “não sei se tanto” —, mas foi em julho que, graças às reservas de última hora, a ocupação chegou “praticamente” a 100%.

Só não atingiu esse valor porque Ana e António não quiseram — cada casa fica uma noite livre entre duas reservas para garantir a limpeza do espaço. Agosto também já está “cheio”. “Só temos duas noites disponíveis no final do mês”, diz Ana Pedrosa.

Bragança está com menos emigrantes portugueses do que em anos anteriores

JOSÉ COELHO/LUSA

O negócio corre agora “muito bem, sobretudo com os portugueses”. Em Bragança, os espanhóis foram aparecendo, aos poucos, desde a reabertura da fronteira, no início de julho. Os emigrantes nem tanto. “Na nossa aldeia, notávamos que, em julho e sobretudo agosto, já havia muitos emigrantes, de França, da Bélgica. Tenho impressão que não vai acontecer, ou pelo menos na mesma quantidade.”

Os hóspedes estão também com mais cautela e muitos preferem mesmo “refugiar-se” dentro das casas de turismo rural. “Alguns não querem ir a restaurantes nem nada, ficam ali, como se fosse uma casa fora de casa, num ambiente natural”, conta. Se o turismo está a mudar, para Ana, é cedo aferir.

“O que posso dizer é que as pessoas ficam muito surpreendidas, sobretudo as do Sul, que se calhar tinham mais tendência para ir para a costa, para o Algarve e estão a gostar muito. Dizem que vão voltar noutra época do ano. A nossa perspetiva é que as pessoas estão a descobrir Portugal, a ficar surpreendidos e a querer voltar.”

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O Alentejo está “com excelentes taxas de ocupação”

Toda a cautela é pouca para o presidente do Turismo do Alentejo na hora de falar sobre os números da região na época alta —numa altura em que ainda só há dados do Instituto Nacional de Estatística até maio. Nesse mês, o Alentejo registou uma quebra de 84,3% face ao mesmo mês do ano anterior, ainda assim, a região com menores quebras — Açores (-99,7%) e Madeira (-99,5%) lideraram o tombo.

Mas essa cautela não retira a António Ceia Silva uma certeza, das conversas que tem mantido com o setor no terreno: “Está a ser um verão muito interessante para o Alentejo em relação às perspetivas”. O presidente do Turismo do Alentejo fala mesmo, sem querer adiantar estimativas, em “excelentes taxas de ocupação”. Dito isto, sublinhe-se, “face às perspetivas”, porquenão é melhor” do que no ano passado. “Não é uma questão de procura, mas porque há regras da Direção-Geral de Saúde para cumprir” e, por isso, “a capacidade de oferta não é a mesma”.

Há ainda outras boas notícias para os agentes turísticos do Alentejo: “A taxa de permanência média aumentou e “o rendimento médio por quarto é superior face ao ano passado”, revela.

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Junto à fronteira com Espanha, no pequeno concelho do Alandroal, com menos de 2 mil habitantes, Magno Casimiro gere o Hotel Rural Nova Terra numa herdade de 100 hectares, que detém há três décadas. E como é que vai o negócio? “Está pior, naturalmente”, diz ao Observador. Mas confirma a ideia de que a procura está elevada — teria, se quisesse, “clientes para encher o hotel”.

Só não é o caso porque Magno Casimiro — que montou o negócio de turismo rural há 10 anos — prefere não deixar chegar aos limites da capacidade, “para que as pessoas estejam tranquilas”. A taxa de ocupação fica “entre 30 a 40%”. 

“Vamos vivendo e procurando resolver os problemas dia-a-dia. Aceitamos o que vem — se é pouco é pouco, se é muito é muito”, diz Magno Casimiro, resignado.

O êxodo urbano que despiu Lisboa e Porto

Para descrever as novas tendências de turismo, António Condé Pinto, presidente da Associação Portuguesa de Hotelaria, Restauração e Turismo (APHORT), diz que o território nacional pode ser dividido nestas férias em duas áreas — “de um lado as cidades, grandes e médias; do outro lado, o território que é geralmente menos frequentado, seja o interior seja o litoral. São dois mundos diferentes nesta altura”. Até porque “o turismo de cidades é praticamente inexistente.”

Quem, por estes dias, em anos anteriores, passasse pelo Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, pela Torre dos Clérigos, no Porto, ou noutros pontos turísticos das duas cidades, ouviria com muito maior frequência diferentes línguas nas longas filas para entrar. Hoje, a realidade é diferente, e os números ajudam a pintar o retrato das mudanças nas cidades.

Em junho — cuja segunda quinzena é já considerada de época alta — a ocupação dos alojamentos disponíveis na capital foi de 12,2%, uma queda de 85,9% face ao mesmo período de 2019, segundo dados do Turismo de Lisboa. O valor está muito longe dos 55,2% de ocupação em janeiro ou dos 60,4% de fevereiro — meses de época baixa.

A quebra foi maior em abril, o primeiro mês completo de confinamento. E em maio, quando o país começou a reabrir, houve uma pequena melhoria, que continuou em junho, mas Lisboa ainda teve perdas acima dos 80% face ao mesmo período do ano anterior.

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Os números do turismo em Lisboa parecem ter correspondência com o andamento económico do país, que apresentou em junho uma “ligeiríssima recuperação“, segundo o ministro da Economia. Pedro Siza Vieira entende que a maior intensidade da contração económica já passou, mas admite que muitas empresas não sobrevivam ao impacto da crise.

Luís Pedro Martins, presidente da Turismo do Porto e Norte de Portugal concorda: “A minha dúvida é se, quando a pandemia terminar, temos ou não as empresas para poder voltar a receber os turistas, e se as temos num nível de qualidade de serviço que tínhamos”, afirma ao Observador.

No Porto e nas maiores cidades do Norte, a realidade não está a ser mais positiva do que em Lisboa. Luís Pedro Martins identifica várias velocidades no turismo da região. Até à pandemia, as cidades concentravam 75% dos turistas que ali chegavam. Agora? “Há uma inversão“. Os visitantes preferem rumar ao interior, onde sabem que mais facilmente fogem de grandes aglomerados e onde procuram casas com espaços ao ar livre (mais do que os hotéis).

Os turistas fogem para o Minho, Douro e Trás-os-Montes, que têm taxas de ocupação “na ordem dos 80%” da oferta disponível. “Procuram segurança e, à partida, essa perceção de segurança existe em territórios com menor densidade populacional, mais próximos da natureza — essa tem sido a tendência”, refere Luís Pedro Martins. Em cidades como Porto e Braga, por outro lado, a ocupação não passa dos 30%, quando “costumava ser mais de 80%“.

O responsável prevê um ano “bastante duro” para as empresas, mas agarra-se à “grande procura” de voos para o Porto a partir do Rio de Janeiro ou de São Paulo. E já pediu um reforço à TAP.

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A procura fora das grandes cidades até “está bastante mais significativa” na região, diz António Condé Pinto, da APHORT, embora não o suficiente para equilibrar as perdas dos destinos mais típicos. Este ano “haverá mais locais e empresas a atingir os 100% de ocupação do que habitualmente”, o que não se repercutirá necessariamente nos dados globais do país, por serem terras mais pequenas, com menos camas disponíveis. “Quando fazemos contas ao turismo nacional, estes números, que são ótimos para aquelas localidades, não são expressivos a nível nacional.”

Além de mudarem o destino, os turistas alteraram também as caraterísticas dos alojamentos escolhidos. “Não é tanto  turismo de habitação ou turismo rural versus hotel. É mais entre ter espaços de lazer como piscinas e espaço exterior“, explica António Condé Pinto, acrescentando que os restaurantes estão a apostar nos serviços de take-away, cujos pedidos têm “aumentado significativamente”. Um balão de oxigénio no meio da tempestade.

Muitos dos turistas que rumam a localidades mais pequenas “estariam no Algarve” em condições normais. “As pessoas fugiram das praias, para o interior, para estarem mais à vontade“.

Nem o Algarve escapa à crise

Apesar de terem uma afluência “moderada, razoável”, as praias do Algarve estão com “taxa de ocupação muito inferior ao ano passado”, indica Fernando Rocha Pacheco, chefe de Departamento Marítimo do Sul, ao Observador. As grandes praias até podem atingir os dois terços de ocupação aos fins-de-semana, mas, na maior parte das vezes, não chegam a um terço.

Tal como em Lisboa ou nas cidades do Norte, a tendência de fuga das grandes cidades para outras regiões do país mantém-se. E Albufeira “é um dos concelhos mais afetados”, diz ao Observador João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve. Além da falta de estrangeiros, a região ressentiu-se pela falta de animação noturna, encerrada por lei. A pandemia bloqueou na região o aumento que se fez sentir nos dois primeiros meses do ano — de 14,6% nas dormidas face ao mesmo período do ano anterior.

“Tudo incluído” cresce no Algarve

São as localidades mais pequenas como Aljezur, Vila do Bispo e Tavira que têm “procuras muito interessantes”. Mas que não chegam para compensar as perdas dos destinos mais escolhidos, como Albufeira.

As repercussões da pandemia começaram a notar-se logo em março, que já teve “metade” da procura do mês homólogo de 2019. Abril e maio foram meses “praticamente de inatividade total“, apenas “a restar” vários estrangeiros que estavam na região quando a pandemia chegou ao país e que decidiram ficar, “sobretudo em moradias e apartamentos”.

As miniférias que abrangeram os feriados de 10 e 11 de junho permitiram chegar aos 30% de ocupação, mas o total do mês não se ficou pelos “10 a 15%”. Em anos anteriores, chegava aos 80%.

Portugueses que rumam ao Algarve escolhem cidades mais pequenas, como Vila do Bispo

LUIS FORRA/LUSA

Julho é, para já, uma “folha em branco“. “A expectativa é que tenhamos chegado ao fim do mês com valores próximos dos 30 a 40% de taxas de ocupação, mas é tudo ainda uma incógnita” e longe dos normais 80 a 90%. Para agosto, as expetativas são mais otimistas, embora não o suficiente para ultrapassar os habituais 90%. A redução de voos do Reino Unido — o principal mercado — e a taxa de ocupação dos aviões inferior à habitual contribuíram para esses números.

Também no Algarve se nota a preferência por casas sem partilha de espaços. Mas os hotéis souberam dar luta, com a opção de “tudo incluído”, estilo resort, de onde não é preciso sair para comer, apanhar sol e dar mergulhos. Há, assim, “realidade atípicas” — “como um resort com quase 500 quartos que tem taxas de ocupação superiores a 80% porque a tipologia da oferta era de all inclusive [tudo incluído]”, explica João Fernandes. É uma das boias de salvação que ainda restam ao turismo português, no meio da incerteza e instabilidade.

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