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“Eu quero que a Amazónia fale pro mundo”. O Presidente do Brasil, Lula da Silva, assumiu que este é o seu desejo para a 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que este ano decorre em Belém, cidade portuária do estado brasileiro do Pará que é conhecida como a porta de entrada da Amazónia. A cimeira anual surge num ano marcado por estimativas e indicadores pessimistas, como o de que a Terra deverá atingir este século valores entre 2,3 e 2,5 °C acima dos níveis da era pré-industrial se os países implementarem os planos climáticos previstos. Ultrapassaria, assim, o limite definido no Acordo de Paris, que celebra dez anos dentro de semanas.
As expectativas para o encontro anual são “moderadas”, assume Francisco Ferreira, presidente da associação Zero. “Deveríamos estar em 2025 a inverter [a situação] e sabemos já que este ano vai ser um recorde nas emissões“, diz ao Observador, sublinhando que “cada décima de grau conta”. É preciso que esta seja a COP da “implementação”, defende.
O Governo brasileiro defende que a COP não pode continuar a ser “uma exposição ou uma feira de produtos climáticos ideológicos” e em que “ninguém é obrigado a fazer nada para que as coisas aconteçam” — uma das críticas mais frequentes que recai sobre a cimeira. Resta saber se este apelo à concretização de medidas se vai materializar. Neste guia explicamos os temas chave que devem marcar o encontro e o que se espera da participação portuguesa.
O que é a COP 30?
A Conferência das Partes (COP) é uma cimeira anual da Organização das Nações Unidas. Vai buscar o seu nome (‘partes’) aos 197 países que assinaram em 1992 a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas. Todos os anos esses estados reúnem-se para atualizar e definir novas metas ambientais e para negociar e fechar novos acordos.
A primeira COP realizou-se na capital da Alemanha em março de 1995. Nos últimos anos, a cimeira tem sido marcada por negociações que se estendem para lá do prazo para tentar fechar acordos. Foi o caso da Conferência das Partes de 2024, em Baku, Azerbaijão, que se estendeu mais de 24 horas para lá do prazo definido. Acabou com um acordo tímido para o financiamento climático, que ficou muito aquém das expectativas dos países mais pobres.
A COP 30 vai decorrer no Brasil. As semanas que a antecederam foram marcadas por várias críticas ao Governo brasileiro, em particular ao anúncio da petrolífera estatal brasileira (Petrobras) sobre receber uma licença para procurar petróleo na foz do rio Amazonas. O líder brasileiro procurou afastar a questão, argumentando que não há uma contradição. “Enquanto o mundo precisar, o Brasil não vai jogar fora uma riqueza que pode melhorar a própria vida do povo brasileiro. Vamos continuar utilizando o dinheiro para que a gente faça cada vez mais e tenhamos condições de o Brasil se ver livre do combustível fóssil”, sublinhou.
Os últimos dias também têm sido marcados por apelos de líderes indígenas de uma participação real nas decisões da COP30. “O único que vamos pedir é respeitar os indígenas, respeitar as suas terras e regularizar as que faltam. Respeitar o direito ancestral à terra que ocupamos antes da chegada do europeu”, destacou o cacique Megaron Txucarramãe numa conferência de imprensa.
Porque vai o Brasil acolher a COP 30?
A COP 30 arranca no dia 10 de novembro, em Belém, no estado do Pará. Os líderes mundiais vão reunir-se ainda antes do início oficial da cimeira, para uma reunião preparatória já esta quinta e sexta-feira. Estão confirmados cerca de 60 chefes de Estado e de Governo, incluindo o primeiro-ministro português, Luís Montenegro. Vão discutir o combate às alterações climáticas e dar mostras do que estão compromissos que estão dispostos a fazer. Mas como foi o caminho de Baku a Belém?
▲ A cidade de Belém, no estado de Pará, vai acolher a COP 30
AFP via Getty Images
O interesse do Brasil em receber a COP remonta a 2022. Durante a cimeira desse ano, no Egito, o Presidente Lula da Silva deixou um pedido e convite aos Estados presentes: “Acho muito importante que as pessoas que defendem a Amazónia e que defendem o clima conheçam de perto o que é aquela região”.
A candidatura do Brasil só seria formalizada em janeiro de 2023 e a decisão conhecida no final desse ano, durante a COP28, no Dubai. O governo de Lula da Silva escolheu como cidade anfitriã Belém, a maior cidade do Pará e conhecida como uma porta de entrada para o Rio Amazonas. “Uma coisa é discutir a Amazónia no Egito; outra coisa é discutir a Amazónia em Berlim; outra coisa é discutir a Amazónia em Paris. Agora, não. Agora nós vamos discutir a importância da Amazónia dentro da Amazónia” destacou o Presidente.
A escolha, porém, trouxe desafios, particularmente de alojamento, numa cidade que conta habitualmente com cerca de 18 mil camas hoteleiras. Os preços dispararam, o que levou várias delegações a admitir que podiam não comparecer. Representantes de 25 países chegaram mesmo a assinar uma carta na qual sugeriam que o evento fosse realizado noutra cidade. O Governo viu-se obrigado a tomar várias medidas, incluindo a disponibilização de dois navios cruzeiro para acolher as delegações.
???? Reforço na hospedagem em Belém para a COP30!
???? Dois navios de cruzeiro chegam à capital paraense para fortalecer a acomodação dos representantes da ONU e dos países durante toda a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Ao todo, já são mais de 6 mil leitos. pic.twitter.com/ivctwZqX7p
— Ministério do Turismo (@MTurismo) November 4, 2025
A movimentação gerada pelo evento também fez subir os preços da alimentação. Segundo a BBC Brasil, o açaí, base da alimentação da população no Pará, ficou muito mais caro, o que teve impacto no consumo das famílias e de milhares de trabalhadores envolvidos na cadeia produtiva.
Que delegações vão marcar presença? E quais ficam em casa?
O Governo do Brasil revelou na sexta-feira que confirmaram a presença na Cimeira de Líderes 143 delegações e 57 chefes de Estado e de Governo. Entre os líderes que confirmaram publicamente a sua presença no encontro desta quinta e sexta-feira estão a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa; o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer e o príncipe William; o Presidente francês, Emmanuel Macron; e o primeiro-ministro português, Luís Montenegro. Em representação do Vaticano estará o secretário de Estado da Santa Sé, o cardeal Pietro Parolin. Para o período da COP são esperadas 170 delegações.
Há várias ausências a registar. Segundo o secretário do Clima do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Mauricio Lyrio, países como os Estados Unidos da América e a Argentina não confirmaram a participação. Os EUA tornaram público que o Presidente Donald Trump, que descreve as alterações climáticas como “a maior fraude de sempre”, e que no início do segundo mandato anunciou novamente a saída do país do Acordo de Paris, não estará presente.
Também se espera que os Presidentes da China, Xi Jinping, da Rússia, Vladimir Putin, da Indonésia, Prabowo Subianto, e a primeiro-ministro do Japão, Sanae Takaichi, fiquem em casa. A lista também inclui o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanes, apesar de os dois países estarem a lutar para acolher a COP 30.
Ao contrário desses países, os EUA anunciaram que também não serão enviados representantes de alto nível. No entanto, mais de 100 líderes estatais e locais — incluindo o governador da Califórnia, Gavin Newsom — vão marcar presença, confirmou a coligação America Is All In.
Quais serão os temas “em jogo”?
“Já não é tempo de negociações. É tempo de implementar, implementar, implementar“. As palavras são do secretário-geral da ONU, António Guterres, que discursou esta quinta-feira no arranque da Cimeira de Líderes. Uma palavra certeira para definir esta COP, considera o presidente da associação Zero, que define questões como o financiamento como um dos principais “aspetos em jogo” na cimeira em Belém.
Na COP 29, em Baku, definiu-se a implementação até 2035 de uma meta de financiamento anual de pelo menos 300 mil milhões de dólares para os países em desenvolvimento — oriundos, essencialmente, dos países mais desenvolvidos. O acordo representou um aumento face aos 100 mil milhões anuais previstos desde o Acordo de Paris, mas ficou longe de agradar às nações menos desenvolvidas, que defendiam um valor de 1,3 biliões. “É preciso operacionalizar o financiamento decidido no ano passado”, sublinha Francisco Ferreira.
Os seis eixos da Agenda de Ação da COP 30
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- Transição nos setores de energia, indústria e transporte;
- Gestão sustentável de florestas, oceanos e biodiversidade;
- Transformação da agricultura e sistemas alimentares, construção de resiliência em cidades, infraestruturas e água;
- Promoção do desenvolvimento humano e social; catalisadores e aceleradores, incluindo financiamento, tecnologia e capacitação.
Os olhares estarão também voltados para a proposta de criar o “Fundo de Florestas Tropicais para Sempre” (TFFF, na sigla em inglês), que será apresentada na Cimeira de Líderes. É a grande aposta do Brasil para incentivar a conservação ambiental. O objetivo é remunerar países pela conservação das florestas tropicais, prevendo-se que os países que receberem pagamentos reservem uma percentagem para apoiar povos indígenas e comunidades tradicionais (pelo menos 20%).
A ideia é juntar dinheiro de vários setores: Governos, empresas e fundações, para assegurar um financiamento estável e de longo prazo. “Não é doação, mas uma iniciativa que opera com lógica de mercado, alavancando recursos privados a partir de investimentos diversos. Para cada dólar aportado pelos países, espera-se mobilizar cerca de quatro dólares do setor privado, criando um fundo fiduciário permanente”, explicou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Brasil, Marina Silva.
“É algo que vale a pena perceber, que financiamentos existirão e em que é que se traduzirá esta ideia que junta um pagamento para que os países não destruam a biodiversidade e que o carbono continue a ser captado e armazenado nas florestas mais cruciais do planeta”, aponta Francisco Ferreira. Resta saber a adesão que o projeto terá. O Reino Unido, que apoiou o trabalho técnico para a criação do fundo, reconheceu que não vai investir. Já Portugal vai contribuir com um milhão de euros, anunciou o primeiro-ministro Luís Montenegro.
O que esperar da participação de Portugal?
O Presidente da Zero destaca a “relação particular” de Portugal com o Brasil. “Pode, por isso, ser aqui uma ponte entre a própria União Europeia e o Brasil. Esperamos que a própria ministra do Ambiente se possa envolver na negociação de alguns dossiês importantes”, afirma.
Francisco Ferreira considera que Portugal tem tido “ambição climática”, nomeadamente através da aposta nas energias renováveis, mas nota que continua a falhar em vários setores. “É absolutamente crucial que, para sermos coerentes, façamos de uma vez por todas investimentos coerentes em Portugal no que diz respeito ao transporte público, à redução das emissões de transporte rodoviário, ao fim dos subsídios aos combustíveis fósseis”, defende.