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A civilização ocidental tem estado no centro de debates em que, quer os que se arvoram em seus paladinos, quer os que vêem nela o maior infortúnio que se abateu sobre o planeta, se referem a ela com uma ligeireza e uma assertividade que sugere que o conceito é imutável, sólido e de contornos perfeitamente definidos. Porém, as concepções de civilização ocidental que têm vindo a ser invocadas por diferentes pensadores e grupos políticos são tão diversas que permitem concluir que não há consenso sobre o seu real significado e amplitude. A definição providenciada pela Wikipedia – “as normas sociais, os valores éticos, os usos tradicionais, as crenças, os sistemas políticos, os artefactos e as tecnologias com raízes primariamente situadas nas histórias da Europa e do Mediterrâneo” – parece razoável, mas abre brechas com facilidade, sobretudo pelo lado do Mediterrâneo, cujas orlas meridional e oriental há muito deixaram de fazer parte do conceito corrente de Ocidente, excepto pela participação regular de Israel no Festival da Canção da Eurovisão e nas competições organizadas pela UEFA, que, num entendimento elástico do que é o continente europeu, também acolhe países com posicionamento geográfico ambíguo, como a Turquia e a Rússia, ou indubitavelmente asiático, como a Geórgia, a Arménia, o Azerbaijão e o Cazaquistão.

How the world made the West: A 4000-year history (2024), da historiadora britânica Josephine Quinn (n.1973) é um precioso contributo para a reflexão sobre o significado do conceito de civilização ocidental, ao mostrar como, ao longo de quatro milénios de história, o Ocidente foi ganhando forma através da sucessiva assimilação de elementos não-ocidentais. O livro, muito elogiado pelos media anglo-saxónicos, foi editada em Portugal, com louvável presteza, pela Temas & Debates, sob o título O mundo criou o Ocidente: Uma história com quatro mil anos e com tradução de Paulo Tavares & Sara M. Felício.

Temas e Debates

A capa de “O Mundo criou o Ocidente”, de Josephine Quinn (Temas & Debates)

Uma vez que a essência de O mundo criou o Ocidente foi explanada na entrevista concedida por Josephine Quinn ao Observador, conduzida por António Moura dos Santos, esta série de seis artigos irá focar-se nos aspectos discutíveis da obra, providenciar uma síntese da evolução histórica do conceito de civilização ocidental e reflectir sobre as fracturas que nela se tornaram evidentes no século XXI.

O símio nómada

Num tempo em que as migrações se tornaram num assunto crucial na Europa e nos EUA, surgindo em muitos inquéritos de opinião como a preocupação dominante e como o factor preponderante que leva os eleitores a votar num ou noutro partido político, Quinn lembra-nos que “os nossos antepassados viajavam com frequência, percorriam longas distâncias e encontravam frequentemente novas pessoas. A migração, a mobilidade e a mistura estão profundamente enraizadas na história humana” (pg. 24).

Se isto é verdade para o escopo cronológico de O mundo criou o Ocidente, que vai, aproximadamente, de 2000 a.C. a 1500 d.C., a verdade é que uma dezena de milhares de anos antes já o Homo sapiens se encontrava firmemente implantado em todos os continentes (com excepção da Antártida), dos climas mais tórridos aos mais glaciais, das florestas mais luxuriantes aos desertos mais áridos, feito que nenhum outro primata – nem nenhum outro mamífero – estivera perto de lograr e que atesta não só a invulgar capacidade de adaptação do Homo sapiens como a sua pulsão nómada.

O alastramento do Homo sapiens pelo mundo

A incessante movimentação do Homo sapiens tem sido acompanhada pela repetida mistura de material genético e de elementos culturais, o que leva Quinn a defender que o “pensamento civilizacional” – isto é, a ideia de que cada civilização é uma unidade homogénea e bem delimitada – “deturpa fundamentalmente a nossa história. Não são os povos que fazem a história, mas as pessoas e as ligações que criam umas com as outras” (pg. 24). O que Quinn se propõe contar neste livro é “uma história diferente [do Ocidente]: uma que não começa no Mediterrâneo greco-romano e depois ressurge na Itália renascentista, mas que traça as relações que constituíram o que hoje se chama o Ocidente desde a Idade do Bronze até à Era da Exploração (ou dos Descobrimentos), à medida que as sociedades se encontravam, interligavam e, por vezes, distanciavam. Em termos mais gerais, pretendo defender a ideia de que são as ligações, e não as civilizações, que impulsionam a mudança histórica” (pg. 17). A ênfase nas ligações conduz, inevitavelmente, à ênfase nas miscigenações: “Nestas páginas, defenderei que nunca existiu uma cultura ocidental ou europeia única e pura. Os chamados ‘valores ocidentais’ – liberdade, racionalidade, justiça e tolerância – não são apenas ou originalmente ocidentais e o próprio ‘Ocidente’ é, em grande medida, o resultado de ligações de longa data com uma rede muito mais vasta de sociedades” (pg. 24)

Ao longo das 450 páginas de texto de O mundo criou o Ocidente (há mais 150 páginas de notas e índice remissivo), Quinn faz desfilar argumentos persuasivos em favor desta perspectiva, num registo claro, conciso e acessível. Condensar num único volume alguns milhares de anos de história global é uma empresa árdua, mas Quinn tem sucesso onde Peter Frankopan e Martin Puchner, para mencionar dois autores de histórias globais recentemente publicadas em Portugal, obtiveram resultados decepcionantes, embora tenham recebido a aclamação unânime da crítica nacional e internacional (ver Uma história climática dos últimos 4500 milhões de anos e Martin Puchner: Uma nova história da cultura, mas muito remendada). Isto não significa que O mundo criou o Ocidente não faça afirmações levianas e não incorra em enviesamentos ideológicos, como se explanará em seguida.

Quem foi o primeiro a dobrar o Cabo da Boa Esperança?

Na pg. 442, no capítulo 29, que, entre outros assuntos, aborda as explorações marítimas europeias do século XV, escreve-se que, “em 1448, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo da Boa Esperança, 2000 anos depois de os marinheiros levantinos o terem feito na direcção oposta”. Os “marinheiros levantinos” a que Quinn aqui alude são, provavelmente, os marinheiros fenícios que surgem na pg. 235: “Necau II do Egipto (r.610-595 a.C.) estabeleceu que a África estava rodeada por mar, enviando marinheiros fenícios para circum-navegar o continente desde o mar Vermelho até aos pilares de Hércules”.

A circum-navegação de África pelos fenícios, que Quinn apresenta como facto, pode não passar de uma lenda, uma vez que Heródoto (c.484-c.425 a.C.), que é a única fonte desta informação e nasceu mais de um século depois desta hipotética viagem, não só não é fiável (era conhecido, já no seu tempo, como “o pai das mentiras”), como admitiu que soube desta expedição através da tradição oral. Não há qualquer registo independente, contemporâneo ou posterior, que aluda a esta viagem e não há qualquer vestígio material da mesma. Na verdade, os dados de que hoje dispomos dizem-nos que as navegações fenícias se circunscreveram, essencialmente, ao Mediterrâneo e tendiam a fazer-se à vista da costa. Os fenícios não se aventuraram para ocidente muito para lá do Estreito de Gibraltar e, embora comerciassem produtos originários da Península Arábica e da Índia, estas chegavam-lhes por terra e não há provas de que os seus navios tenham navegado no Mar Vermelho (e muito menos no Índico).

Colónias, feitorias e rotas comerciais fenícias

Plínio (c.23-79 d.C.) atribuiu a circum-navegação de África a um marinheiro cartaginês chamado Hanno ou Hannon (Hanão) que terá vivido no século V a.C. (mais de um século após a suposta exploração ordenada por Necao) e sobre o qual nada de concreto se sabe. Plínio parece misturar duas histórias numa só, pois os únicos documentos que mencionam Hannon atribuem-lhe, não a circum-navegação de África, mas a exploração da costa noroeste de África para lá das Colunas de Hércules. Não só não existem quaisquer vestígios materiais das explorações de Hannon, como as fontes sobre ele são tão nebulosas, insubstanciais e contraditórias que, no limite, tal figura pode nunca ter existido.

De qualquer modo, é duvidoso que um navio fenício, ou uma pequena frota, tivesse sido capaz, numa única viagem, de cobrir uma extensão da costa africana superior àquela que os portugueses, no século XV, com navios mais robustos e meios de navegação mais avançados, tiveram de desbravar por etapas incrementais, ao longo de 68 anos, entre a dobragem, em 1422 (1416, segundo outras fontes), do Cabo Não (hoje Cabo Chaunar, no sul de Marrocos) e a dobragem, em 1498, do Cabo da Boa Esperança.

A lenta progressão dos portugueses ao longo da costa ocidental de África (1416/22-1488), contrasta com a presteza com que foram do Cabo da Boa Esperança à China (1488-1513)

A dificuldade da circum-navegação de África é também atestada pelo facto de os marinheiros islâmicos, que deram bastas provas de proficiência e que, no Índico, navegavam regularmente até ao que hoje é a costa de Moçambique, não terem tentado a circum-navegação: o Cabo Não, que é usualmente tomado como ponto de partida da exploração portuguesa da costa atlântica de África, era, em 1422, o ponto mais meridional da navegação islâmica no Atlântico, embora o Islão dominasse o Norte de África desde o final do século VII.

É surpreendente que uma professora catedrática de história em Oxford e Cambridge dê mostras de não estar consciente de que os relatos dos proto-historiadores ou cronistas da Antiguidade Clássica não se regem pelos critérios de rigor dos historiadores modernos e apresente lendas e rumores como factos. Mas Quinn precisa, a todo o custo, de vender a sua “tese”, centrada na menorização do Ocidente, e a esta convém que o português Bartolomeu Dias seja representado como tendo chegado com 2000 anos de atraso onde os levantinos já tinham estado.

Interlúdio marítimo n.º 1: À volta de África

No nosso tempo, o aventureiro, marinheiro e empresário Philip Beale decidiu demonstrar a viabilidade da circum-navegação de África pelos fenícios e fez construir o Phoenicia, uma réplica moderna das embarcações fenícias do século VI a.C., deslocando 45 toneladas, com a qual partiu de Arwad, na Síria, em Agosto de 2008. Passou pelo Canal de Suez e atingiu o Yemen em Janeiro de 2009; em Agosto zarpou para sul, dobrou (com dificuldade) o Cabo da Boa Esperança e regressou ao Mediterrâneo pelo Estreito de Gibraltar, encerrando o périplo na Síria, em Outubro de 2010.

O Phoenicia, uma réplica moderna de um navio fenício, construída por Philip Beale

O sucesso da Phoenician Ship Expedition – assim designou Beale este empreendimento – é menos conclusivo do que pode parecer. O Phoenicia dispunha dos meios de navegação, dos meios de comunicação, dos mantimentos, dos confortos, da segurança e da assistência médica proporcionados pela tecnologia do século XXI: os seus tripulantes não corriam o risco de morrer de escorbuto ou de sede; o seu comandante conhecia, a cada momento, a posição exacta do navio e estava a par de todos os escolhos, baixios, correntes e ventos dominantes; a informação meteorológica constantemente actualizada permitia escolher a rota e o calendário mais favorável e procurar antecipadamente resguardo em caso de tempestade. Também não é despiciendo que, nas várias escalas que fez, o Phoenicia tenha encontrado sempre água, provisões, assistência e um acolhimento afável, enquanto em eras recuadas cada ida a terra envolvia um elevado risco de sucumbir a indígenas hostis, feras, criaturas e plantas venenosas, água inquinada e doenças desconhecidas.

O Phoenicia junto a Gibraltar, uma das antigas Colunas de Hércules

Acima de tudo há que considerar que a Phoenician Ship Expedition cumpriu uma rota pré-fixada e meticulosamente planeada, por mares sobejamente conhecidos, enquanto quem quisesse circum-navegar a África antes das expedições portuguesas avançaria na escuridão total. Confortavelmente sentados no topo da colossal pilha de conhecimento que a humanidade amealhou ao longo da sua história, tendemos a esquecer-nos de que a ignorância pode ser um obstáculo bem mais desafiante do que um furacão ou um rombo no casco. Mesmo que a embarcação e o percurso sejam os mesmos, circum-navegar África no século XXI é radicalmente diferente de fazê-lo no século VI a.C. Basta atentar na quantidade de navegadores solitários que, nos séculos XX e XXI, têm dado a volta ao mundo em cascas de noz – em 1998-99, Jesse Martin, um rapaz australiano de 18 anos, circum-navegou o planeta num modesto veleiro de 10 metros de comprimento, ao longo de 50.000 km, sem escalas e sem assistência, em apenas 11 meses, o que não apaga o mérito da Phoenician Ship Expedition, mas coloca-a em perspectiva.

O que o Ocidente deve à Idade de Ouro da ciência árabe

O capítulo 26 ocupa-se do fenómeno designado por “Movimento de Tradução”, que esteva ancorado na Casa da Sabedoria de Bagdad e envolveu a tradução para árabe, promovida pelos governantes do califado abássida, de textos científicos e filosóficos da Antiguidade Clássica. A designação “Movimento de Tradução” é enganadora, pois, como explica Quinn, “este movimento não “tratava essencialmente de tradução. Com efeito, fazia parte de um compromisso mais vasto dos académicos e líderes políticos islâmicos para com a investigação científica, compromisso que também levou os califas a financiar novas obras de ciência, geografia, poesia, história e medicina”. O “Movimento de Tradução”, também conhecido como “Idade de Ouro da ciência árabe”, teve lugar entre meados do século VII e o século XII e é hoje reconhecido como tendo sido decisivo na evolução da civilização ocidental: há quem lhe aponte como mérito maior ter preservado textos gregos da Antiguidade Clássica, a que a Europa da baixa Idade Média não dera a devida importância, e que tendo, depois, chegado ao conhecimento dos europeus através das traduções árabes terá contribuído para a eclosão do movimento renascentista na viragem dos séculos XV-XVI. A importância do Movimento de Tradução para a civilização ocidental é, há muito, reconhecido pelos historiadores ocidentais e contradiz, em parte, a visão da civilização islâmica como sendo estática e hostil à ciência e à filosofia, e nas últimas três décadas têm sido publicadas várias obras de divulgação sobre o tema – a última a chegar às livrarias portuguesas, em 2024, foi A Casa da Sabedoria, de Jim Al-Khalili, que foi pretexto para os artigos Como a Idade de Ouro da ciência árabe mudou o mundo pt.1: Ascensão, A Idade de Ouro da ciência árabe pt.2: Como um admirável progresso encontrou o declínio e A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono.

O filósofo grego Sócrates (Sughrat, para o mundo de língua árabe) em diálogo com discípulos, numa miniatura seljúcida do século XIII, preservada na biblioteca do Palácio Topkapi, em Istambul

Quinn diverge da visão dominante sobre o Movimento de Tradução ao sublinhar que o seu legado “não reside nas traduções propriamente ditas. A ideia de que os árabes ‘preservaram’ o saber grego antigo que, de outra forma, se teria perdido é, em grande medida, um mito. […] Há algumas obras gregas que sobrevivem apenas em tradução árabe, mas são mais curiosidades do que textos canónicos. […] O verdadeiro legado das traduções árabes é o impulso que deram à reflexão” (pg. 385). Com efeito, não ocorreu uma perda apocalíptica dos textos da Grécia Clássica no território europeu durante a Idade Média. É certo que alguns foram vítimas da incúria dos homens e do desgaste do tempo, outros até poderão ter sido deliberadamente destruída por fundamentalistas cristãos, apostados em suprimir qualquer ideia “herege”, mas a maioria ficou, simplesmente, a ganhar pó nas bibliotecas e nos arquivos. O que se perdeu, na Europa medieval, foi a capacidade de os ler, devido à queda da literacia em geral e, em particular, à literacia do grego clássico, que, durante a República e o Império Romano, fizera parte da educação dos aristocratas e do labor quotidiano dos eruditos e intelectuais romanos. É certo que a Igreja Católica era, em geral, hostil, a textos que propalassem ideias “pagãs” e mundividências contrárias à fixada nas Sagradas Escrituras, mas não promoveu uma purga generalizada de bibliotecas e arquivos. Ou seja, é possível que, mais tarde ou mais cedo, os europeus dotados de maior curiosidade intelectual acabassem por redescobrir os textos clássicos gregos, mesmo sem o contributo do Movimento de Tradução. Mas o entusiasmo islâmico pelo saber grego antigo teve o condão de despertar o interesse dos europeus pelo seu legado olvidado, levando-os a traduzir para latim – a língua franca da Europa medieval e, em particular dos seus eruditos – não só as traduções árabes dos originais gregos, como os originais gregos que subsistiam na Europa e no Império Bizantino. Não menos importante é o facto de a curiosidade dos eruditos europeus se ter estendido aos desenvolvimentos e reflexões que a “ciência árabe” produzira a partir do saber grego (e dos saberes persa e indiano), como Quinn refere na pg. 390.

Anatomia do olho, segundo Hunayn ibn Ishaq, reproduzida num manuscrito datado de c.1220. Hunayn ibn Ishaq (808-873), um cristão nestoriano, natural de al-Hirah (hoje no Iraque) e que viveu boa parte da vida em Bagdad, foi o mais prolífico tradutor de textos gregos do seu tempo e é visto como o “pai” da medicina islâmica

O que Quinn deixa de fora das suas considerações sobre as atitudes da civilização ocidental e da civilização islâmica face ao conhecimento é a diferença – crucial – de a curiosidade da segunda pelos saberes de outras culturas se ter extinguido nos séculos XII-XIII, embora se mantivesse atenta aos progressos europeus no domínio do material bélico e da medicina, uma vez que estes eram úteis às suas ambições imperiais, Em contraste, o Ocidente, sobretudo a partir do Renascimento, fez da curiosidade pelo resto do mundo um dos eixos principais da sua atitude intelectual (ver capítulo “Uma relação assimétrica” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono).

Parte do alheamento – e até desprezo sobranceiro – do Islão em relação às outras culturas resultou de um movimento de retorno à “pureza inicial” da fé islâmica (ver capítulo “Al-Ghazali e o regresso às raízes do Islão” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.2: Como um admirável progresso encontrou o declínio), enquanto a civilização ocidental se moveu em sentido oposto, na direcção da libertação do dogma religioso e da separação entre Estado e Igreja (ver capítulos “Ciência e religião na Cristandade” e “Está tudo no Corão” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono). Outro factor que explica a natureza episódica da Idade de Ouro da ciência árabe tem a ver com a natureza intrínseca da fé islâmica (ver capítulo “A verdade revelada vs. A verdade da ciência” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono). O rápido declínio da ciência árabe a partir dos séculos XII-XIII não foi o resultado de uma conjugação infortunada de factores – a Idade de Ouro da ciência árabe é que representa uma “anomalia” na história do Islão. Mortos ou depostos os califas dotados de espírito tolerante e invulgar curiosidade intelectual, tendo o muito respeitado al-Ghazali denunciado “os escritos dos antigos como ‘incoerentes’ por serem contrários à sabedoria revelada por Deus, fonte de toda a verdade” (citado por Anthony Pagden, in Mundos em guerra, 2008), e tendo os ulema (os peritos em lei islâmica) reassumido o controlo férreo da sociedade, a civilização islâmica estagnou.

Outro aspecto fundamental que Quinn não menciona no capítulo “O Movimento de Tradução”, é o facto de a “ciência árabe” ter tido uma natureza essencialmente especulativa (isto é, sem aplicação prática) e alheada da sociedade, ficado circunscrita à corte dos califas e outros mecenas e às instituições por eles apoiadas, não tendo tradução no mundo real (ver capítulos “A ciência na torre de marfim” e Está tudo no Corão” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono).

Mapa-mundo (numa cópia tardia) incluído na Tabula Rogeriana, um atlas encomendado pelo rei Rogério II da Sicília ao cartógrafo árabe Muhammad al-Idrisi e completado em 1154. O sul fica para cima, seguindo as convenções cartográficas islâmicas da época

O infante D. Henrique negro

No capítulo 28 de O mundo criou o Ocidente, Quinn refere a importância de Mansā Mūsā, governante do Império do Mali em c.1312-c.1337, como força proeminente, juntamente com o império mongol, de uma rede comercial afro-euro-asiática com um grau de interligação nunca visto, que se estendia da costa do Atlântico à costa do Pacífico. Se é hoje consensual que Mansā Mūsā foi uma das figuras mais poderosas e ricas do século XIV, já é difícil compreender que Quinn reproduza, sem rebuço, a tese de que o antecessor de Mūsā, Abu Bakr II, “abdicou da liderança para explorar o Atlântico, partindo com 2000 navios e nunca mais sendo visto” (pg. 418).

O Império do Mali, à data da morte de Mansā Mūsā, 1337

Esta história foi difundida por Ibn Fadlallah al-Umari (1301-1349), um historiador sírio que, nunca se tendo cruzado com Musā, obteve o essencial da sua informação sobre o imperador do Mali do emir Abu al-Hasan Hajib, que terá privado com Mūsā durante a estadia deste no Cairo, numa etapa da sua espalhafatosa peregrinação a Meca. Tratando-se de informação de segunda mão e que, provavelmente, teve ainda, quando das conversas entre Mūsā e Hajib, de ser intermediada por intérpretes, e não existindo quaisquer outras fontes ou vestígios materiais que permitam comprovar a exactidão do que al-Umari registou, seria recomendável que se usasse da prudência e não se aceitasse como facto comprovado o que pode não ser mais do que fábula ou equívoco. Todavia, Quinn reproduz acriticamente a versão de al-Umari sobre as (supostas) explorações atlânticas de Abu Bakr II, ainda que tal episódio seja altamente implausível, sendo até sugerido por alguns historiadores que tenha sido forjado pelo próprio Musā para ocultar uma ascensão ao trono por processos pouco legítimos – isto é, derrubando ou eliminando o seu antecessor.

Mansā Mūsā num mapa elaborado em 1339 pelo cartógrafo italo-maiorquino Angelino Dulcert

A expedição transatlântica de Abu Bakr II já aqui foi abordada a propósito do livro Origem: África: África, os africanos e a criação do mundo moderno (2021), cujo autor, Howard French não só a aceita como fidedigna, como a usa para menorizar os feitos dos navegadores europeus da Era dos Descobrimentos (ver capítulo “Navegar com as velas enfunadas pelo sonho” em O que o mundo moderno deve à exploração de África e dos africanos). Na verdade, Origem: África é um exemplo paradigmático do presente movimento revisionista que pretende atribuir aos povos africanos o papel preponderante na história global dos últimos milénios e French está disposto a descartar o mais elementar bom senso para provar que, “mais do que qualquer outra parte do mundo, África tem sido a peça-chave da máquina da modernidade”.

French não foi o primeiro a dar crédito a estas fabulosas navegações transatlânticas: o historiador maliano Gaoussou Diawara defendera, em 1992, no livro Abubakari II: Explorateur mandingue, que Abu Bakr II teria chegado ao continente americano antes dos europeus, e uma equipa de investigadores liderada por Tiemoko Konate até sugere ter encontrado provas da data e local do desembarque de Abu Bakr II no Novo Mundo: 1312, no Recife, no estado de Pernambuco. Este nome será, segundo Konate, uma corrupção de Boure Bambouk, o nome da colónia aí fundada pelos malianos, cujo significado, em mandinga, é “campos de ouro” (mesmo que esta etimologia tivesse alguma credibilidade, ficaria por explicar a razão da referência a jazidas de ouro num lugar, o litoral de Pernambuco, onde o ouro nunca abundou).

As fantasias erguidas em torno de Abu Bakr II são ainda mais frágeis por nem sequer se conhecer qualquer documento ou inscrição que mencione um governante maliano com este nome; mas a necessidade de compensar a modesta representação de africanos na galeria das grandes personagens da história impele os activistas do nosso tempo a esculpir um Infante D. Henrique negro a partir de um fantasma. O revisionismo febril de Konate vai ao ponto de encontrar nos relatos de Cristóvão Colombo menções a encontros com comerciantes de ouro africanos estabelecidos no Novo Mundo e de alegar que a análise química do ouro presente em pontas de lança trazidas por Colombo do Novo Mundo indica que o metal proveio da África Ocidental. É uma perspectiva que vira a História Universal pelo avesso e esvazia as recorrentes reclamações de alguns activistas brasileiros para que Portugal devolva o ouro que pilhou no Brasil: afinal, o ouro do Novo Mundo terá sido levado para lá pelos malianos.

Interlúdio marítimo n.º 2: Através do Atlântico

Após o sucesso da Phoenician Ship Expedition em torno de África, Philip Beale decidiu usar a mesma embarcação, o Phoenicia, para demonstrar a credibilidade de uma teoria ainda mais insubstancial: a que propõe que os fenícios terão chegado ao continente americano antes de Colombo, invocando como prova a existência de inscrições “fenícias” em Paraíba, no Brasil, e em Dighton Rock, no Massachusetts, e até mesmo as civilizações meso-americanas, ainda que não haja qualquer similitude da escrita, língua, religião, arquitectura ou qualquer outra característica cultural dos fenícios e as dos aztecas e maias. A Phoenicians Before Columbus Expedition também foi coroada de sucesso: em 2019, cobriu a distância entre Cartago, na Tunísia, e Santo Domingo, na República Dominicana, em 39 dias.

Rota da Phoenicians Before Columbus Expedition 2019

Haverá quem se interrogue por que razão não há quem se disponha a conferir credibilidade à lenda da viagem de Abu Bakr II, empreendendo a travessia do Atlântico numa réplica de uma embarcação maliana do século XIV. A resposta é simples: nem os malianos nem qualquer outro povo da África Ocidental possuíam vocação marítima e a sua “engenharia naval” nunca ultrapassou o estágio das pirogas e canoas rudimentares (ver capítulo “Navegar com as velas enfunadas pelo sonho” em O que o mundo moderno deve à exploração de África e dos africanos), pelo que uma hipotética Abu Bakr II Before Columbus Expedition soçobraria ainda com terra africana à vista. Porém, mesmo que, por absurdo, tal embarcação lograsse atravessar o Atlântico, nada provaria, tal como as duas viagens do Phoenicia nada provam e em nada mudam a percepção da história.

O Phoenicia chega a Santo Domingo, na ilha que Colombo baptizou como Hispaniola

Mesmo que, fortuitamente, um marinheiro fenício alguma vez tivesse circum-navegado África, ou, pelo menos, tivesse chegado ao Golfo da Guiné (vindo das Colunas de Hércules), ou tivesse dobrado o Cabo da Boa Esperança (vindo do Mar Vermelho), ou um marinheiro maliano tivesse atravessado o Atlântico, tal proeza teria sido pontual e sem qualquer consequência.

Ora, as consequências históricas de um acto são um factor essencial para ajuizar da sua relevância, como qualquer historiador deveria saber. Colombo poderá não ter sido o primeiro europeu a desembarcar no Novo Mundo, mas a sua expedição de 1492 é, indubitavelmente, um ponto de viragem na história, enquanto as viagens (comprovadas) de vikings e as viagens (hipotéticas) de monges irlandeses e de marinheiros e pescadores portugueses até ao Novo Mundo, não alteraram em nada o curso dos eventos (ver Quem anda a falsificar a História de Portugal?). O mesmo se passa com a dobragem do Cabo da Boa Esperança: a que foi realizada por Bartolomeu Dias inseria-se num plano dos monarcas portugueses para alterar o curso da História – e contribuiu, efectivamente, para esse desígnio – enquanto as explorações africanas dos fenícios e as explorações atlânticas dos malianos, a terem ocorrido (o que é duvidoso), nada mudaram. Os fenícios não estabeleceram feitorias em Moçambique ou no Benim, o Egipto não ergueu fortificações em Zanzibar nem pirâmides no reino do Congo, nem o faraó Necao nem os seus sucessores fizeram algo com a (suposta) informação, trazida (supostamente) pelos fenícios, de que era possível circum-navegar África, nem sequer se dando ao trabalho de deixar uma inscrição a mencioná-la. Os malianos não ergueram cidades muradas e mesquitas no estado de Pernambuco, nem introduziram no Novo Mundo o gado bovino, ovino e caprino que constituía a base da sua economia em África, e se hoje há 11% de genes africanos no genoma da população brasileira são devidos, não à expedição do fantasmagórico Abu Bakr II, mas ao tráfico negreiro transatlântico encetado, dois séculos depois, pelos portugueses.

A mesquita de Djinguereber, em Timbuktu, no Mali (aqui numa foto de c.1905) começou a ser construída em 1325, por ordem de Mansā Mūsā, e é um exemplar típico da arquitectura de adobe do Sahel Ocidental. Até à data, não se conhecem vestígios pré-cabralinos (ou pós-cabralinos) deste estilo arquitectónico no Brasil

Anacronismos, divagações, bizarrias e imprecisões

pg. 29: No capítulo I, ancorado no porto levantino de Biblos (hoje no Líbano), c.2000 a.C., quando Quinn descreva a rota terrestre, em lombo de burro, então praticada entre o dito porto e a Mesopotâmia menciona “a passagem de Akkar, então guardada pelo castelo cruzado de Krak des Chevaliers”. Ora, em 2000 a.C. ainda faltavam dois milénios para o nascimento de Cristo (eis uma afirmação digna do Sieur de La Palice) e teria de decorrer mais um milénio para que os cruzados se dispusessem a recuperar a Terra Santa e aí erguessem castelos. No caso específico do Krak des Chevaliers, situado na região de Akkar, perto do que é hoje a cidade de Homs, na Síria, a sua construção foi iniciada em 1142 pelos cruzados, no lugar de uma fortificação, mais rudimentar, erguida pelos curdos em 1031.

Krak des Chevaliers

pg. 58: No capítulo 3, centrado em Micenas, c.1650 a.C., menciona-se que o conteúdo dos túmulos micénicos na costa sul da Grécia dá testemunho das trocas comerciais da região com Creta, o Egipto, a Mesopotâmia, os Cárpatos e até com a Europa setentrional, estando esta última representada por “âmbar do Báltico, uma resina de laranjeira que brilha”. O âmbar não é uma resina mas o resultado da fossilização da resina; a resina que deu origem ao âmbar provém, quase exclusivamente, de coníferas que, no caso do âmbar do Báltico, terão vivido há cerca de 34-48 milhões de anos. Não só a laranjeira não é uma fonte de resina, como é uma espécie híbrida, de origem muito recente (na escala geológica), obtida a partir de cruzamentos de outras espécies de citrinos por intervenção humana. Sendo a laranjeira originária das regiões subtropicais e tropicais do Sudeste Asiático (Sul da China e Tailândia), a ideia de vastos laranjais a revestir as planícies costeiras do Báltico é francamente hilariante. A “resina de laranjeira” é, provavelmente, o resultado de um acidente de tradução, presumindo que no original estaria “orange resin”, aludindo à cor alaranjada do âmbar.

pg. 115: No capítulo 7, centrado em Lefkandi, na ilha grega de Eubeia, c.1000 a.C., sugere-se que a destruição da cidade poderá ter resultado de “catástrofes naturais: uma tempestade sísmica, talvez, ou alterações climáticas”. Se a classificação das alterações climáticas, um fenómeno gradual e que se manifesta no longo prazo, como “catástrofe”, que, por definição, é um evento abrupto, disruptivo, fulminante, é muito discutível, a “tempestade sísmica” é somente uma tolice bombástica.

pg. 146: No capítulo 9, ancorado em Huelva, c.875 a.C., ao tratar-se a actividade mineira dos fenícios na bacia no Rio Tinto, escreve-se que “não sabemos se os empresários tiroleses geriam eles próprios estas operações industriais”. A ideia de uma comunidade de “empresários” provenientes do Tirol, envergando lederhosen e devotando os tempos livres à prática do jodeln (canto tirolês) e da trompa alpina, na Andaluzia em 875 a.C. é divertida, mas estes “tiroleses” são, muito provavelmente, “tírios”, isto é, naturais do porto fenício de Tiro, termo que é, aliás, usado nas páginas seguintes.

Tiroleses em trajes tradicionais

pg. 276-77: O capítulo 19, tem foco na Crimeia, c.67 a.C. e nos esforços de Mitrídates VI (Mithridates VI Eupator) para preservar a independência do reino de Ponto e até dilatar o seu território (chegou a ocupar parte da moderna Turquia e da costa leste e norte do Mar Negro, incluindo a península da Crimeia), embora estivesse “entalado” entre duas superpotências, Roma a ocidente e o Império Selêucida a oriente. Incompreensivelmente, Quinn devota uma página inteira à sinopse do libreto de Mitridate, Re di Ponto (1770), uma ópera composta por Wolfgang Amadeus Mozart aos 14 anos.

A expansão do reino de Ponto: a roxo, território quando da subida ao trono de Mitrídates VI; a rosa-escuro, primeiras conquistas de Mitrídates VI; a cor-de-rosa, máxima extensão do reino durante as Guerras Mitridáticas (88-63 a.C.), antes de Roma derrotar finalmente Mitrídates VI

Acontece que o enredo do libreto desta ópera (cujo autor, Vittorio Amedeo Cigna-Santi, Quinn omite), que já tinha sido musicado em 1767 por Quirino Gasparini, pouco ou nada tem a ver com os factos históricos envolvendo Mitrídates VI (155-63 a.C.), sendo antes um dramalhão romântico genérico, protagonizado por uma mescla de personagens muito remotamente inspiradas em figuras históricas e de personagens completamente fantasiosas, como era usual na opera seria setecentista (ver capítulo “Germanico in Germania: O libreto” em Porpora: O mestre esquecido da ópera setecentista, capítulo “Um enredo telenovelesco” em Handel sabia: Os heróis por vezes são vilões e capítulo “O Arminio de Salvi” em Arminio: O mau destino da ópera esquecida de Handel). Entre os libretistas da opera seria era usual recorrer a episódios históricos da Antiguidade Clássica ou, não tão frequentemente, da Idade Média, e recriá-los radicalmente sob a forma de enredos estereotipados, protagonizados por “bons” e “vilões”, plenos de disputas dinásticas, paixões cruzadas, equívocos sentimentais e reviravoltas rocambolescas e implausíveis, e terminando invariavelmente num precipitado e inverosímil rearranjo dos pares amorosos de forma a propiciar o jubiloso anúncio de um ou dois matrimónios e o lieto fine (final feliz) exigido pelas convenções teatrais  de então.

Para que se tenha ideia da desconexão entre libreto e realidade histórica neste período da história da música, bastará considerar que, em 1732, Handel e um libretista não identificado transformaram, num ápice e com poucas mais alterações do que o título e os nomes das personagens, o libreto de Antonio Salvi intitulado Dionisio, Re di Portogallo, musicado em 1707 por Giacomo Antonio Perti, que abordava os conflitos entre Dinis de Portugal e o seu filho Afonso (futuro Afonso IV) e tinha Coimbra por palco, na ópera Sosarme, Re di Media, envolvendo um governante do Império Medo (que, nos séculos VII-VI a.C. dominou parte do que é hoje o Irão e o Iraque e foi sucedido pelo Império Aqueménida ou Persa) e tinha por cenário a cidade lídia de Sardis, na Ásia Menor (que nunca fez parte do Império Medo).

Além disso, o Mitridate do jovem Mozart é apenas uma entre duas dúzias de opere serie setecentistas inspiradas (remotamente) em Mitrídates VI – algumas musicadas por compositores famosos (no seu tempo), como Niccola Porpora ou Alessandro Scarlatti, e outras por compositores de segundo plano, como Quirino Gasparini – a partir de diversos libretos, todos eles fantasiosos e sem qualquer fidelidade aos factos. A ópera de Mozart, que transborda de vitalidade e invenção e é surpreendentemente madura para um rapaz de 14 anos, merece audição atenta, mas o destaque que lhe é dado no contexto de um livro com o escopo de O mundo criou o Ocidente é despropositado.

Mitrídates VI parte para a guerra, acompanhado por Hypsicratia (ou Hipsikrateia, a grafia tem numerosas variantes), uma concubina que se tornou na sexta e última esposa de Mitrídates (e que nem surge na ópera de Mozart, sendo substituída por uma “Aspasia” de que não reza a história). Quadro pintado c.1672 por Antoine Paillet para a antecâmara da rainha, no Palácio de Versailles

pg. 344: No capítulo 23, que trata da crescente pressão dos “bárbaros” sobre o Império Romano, durante o século V, Quinn, ao mencionar a Batalha de Adrianópolis, que teve lugar em 378, escreve que “grandes grupos de soldados góticos [godos?] frustrados […] destruíram dois terços de uma legião romana e mataram Valente, o Augusto no poder. Um historiador da época descreveu este acontecimento como a pior derrota romana desde a vitória de Aníbal em Canas, em 216 a.C.”. Não só a descrição da batalha é pouco rigorosa, como Quinn não faz qualquer comentário à afirmação do historiador, que é muito discutível.

Cena de batalha entre godos e romanos, relevo no sarcófago conhecido como “Grande Ludovisi”, datado de c.250-60 e encontrado em Roma

A Batalha de Adrianópolis (hoje Edirne, na parte europeia da Turquia), envolveu, não uma, mas sete legiões (uma legião em plena força tinha 4000-6000 homens), perfazendo c.30.000 homens e as estimativas das baixas romanas rondam as 10.000-20.000 (um a dois terços dos efectivos). Foi um rude golpe, sem dúvida, mas, entre 216 a.C. e 378 d.C., os romanos sofreram desaires comparáveis ou até maiores:

Noreia (hoje Neumarkt in Steiermark, na Áustria), 113 a.C.: uma força combinada de címbrios e teutões, perfazendo 70.000 combatentes, derrotou uma força romana de 30.000 legionários, matando 15.000 a 20.000.

Arausio (hoje Orange, na França), 105 a.C.: uma força combinada de címbrios e teutões, perfazendo 200.000 combatentes, derrotou uma força romana de 80.000 legionários e 40.000 auxiliares e exterminou-a até ao último homem.

Carras (Carrhae, perto do que é hoje Harran, na Turquia): um exército parto de 10.000 homens derrotou um exército romano de 36.000 a 43.000 homens, comandado por Marco Licínio Crasso, um dos homens mais ricos de Roma e membro – com Júlio César e Pompeu – do triunvirato que então presidia aos destinos da República Romana. A batalha resultou na morte de 20.000 romanos (incluindo Crasso) e no aprisionamento de 10.000.

Floresta de Teutoburg (perto do que é hoje Kalkriese, na Alemanha), 9 d.C.: uma coligação de tribos germânicas, reunindo 18.000 a 30.000 combatentes, derrotou três legiões, reforçadas por unidades de cavalaria e auxiliares, comandadas por Quintílio Varão (Quinctilius Varus), perfazendo c.20.000 combatentes, a maior parte dos quais foram mortos ou feitos prisioneiros (ver capítulo “Quintílio Varão, devolve-me as minhas legiões!” em Arminio: O mau destino da ópera esquecida de Handel).

Batalha de Abrittus (hoje Razgrad, na Bulgária), 251 d.C.: nesta batalha, também conhecida como Batalha do Fórum Terebrónio, um exército romano comandado pelos co-imperadores Décio e Herénio Etrusco (Herennius Etruscis, filho de Décio) e contando com três legiões foi derrotado por uma coligação de godos, citas e desertores romanos, com c.70.000 homens, de que resultou a morte de praticamente todos os romanos, incluindo Décio e Herénio.

Edessa (hoje Urfa, na Turquia), 260 d.C.: um exército sassânida, comandado pelo imperador Shapur I, derrotou um exército romano, comandado pelo imperador Valeriano e contando com c.70.000 homens; um primeiro recontro resultou em 10.000 mortos romanos; os sobreviventes refugiaram-se em Edessa, mas acabaram por render-se e foram feitos prisioneiros, o que significa que as perdas romanas foram totais (razão pela qual as informações sobre esta batalha são escassas e vagas: do lado romano não sobrou ninguém para contar). Entre os prisioneiros estava Valeriano, sobre cujo infortunado destino circulam diversas versões, nomeadamente a de que terá sido usado por Shapur como escabelo para montar a cavalo. Outras sugerem que Shapur o terá forçado a engolir ouro fundido ou que terá mandado esfolá-lo vivo.

A humilhação de Valeriano por Shapur I, segundo desenho de Hans Holbein o Jovem, c.1521

Próximo artigo da série: Civilização ocidental: Josephine Quinn desafia a visões tradicional da história?