Houve espaço para perceber o tempo naquele cubículo de elevador de hotel. Um tempo distante de fenómenos meteorológicos para entreter viagens de curta duração. Clara Ferreira Alves recorda o encontro em Castelo Branco com José Sócrates e percorre uma série de outras paragens na memória. Do “Soares New Look”, quando trabalhou a imagem do Partido Socialista, às redações, que nunca quis dirigir, sem esquecer o fim da amizade com Vasco Pulido Valente e a viciante relação com a Netflix, que a forçou a sair de casa para se aplicar no segundo romance. João Miguel Tavares recebe a sua última convidada no programa Artigo 38, uma entrevista à Rádio Observador para ouvir aqui na íntegra.

“Sempre mantive Sócrates à distância de um braço”

Já percorreu todos os géneros jornalísticos, já escreveu muita coisa e já leu muita coisa. Existe algum momento marcante na sua carreira ao ponto de ter dito que, a partir dali, nada voltou a ser igual — seja na forma como encarava o jornalismo, seja na maneira de ver o mundo?
Não, acho que não tenho esse momento. Tive grandes momentos, como todos os jornalistas, mas não identifico um em particular. Acho que a vida do Expresso, quando estávamos a fazer a revista nos anos 80, foi uma boa vida. Foi uma excelente vida. Houve um momento — mas que não foi determinante para a minha carreira, foi uma escolha que fiz, completamente racional mas também afetiva — em que houve uma cisão no Expresso e um grupo de jornalistas (com os quais até tinha conspirado, para dizer a verdade, mas sem me comprometer) saiu para fundar o Público. Eu optei por ficar no Expresso. Tinha dúvidas sobre a viabilidade de trabalhar num jornal diário. Já o tinha feito, em circunstâncias muito diferentes, no Correio da Manhã, quando ele era dirigido pelo grande Vítor Direito e era muito diferente do que é hoje. Era um tabloide muito politizado. Mais politizado do que dado ao crime, digamos assim. Era quase um tabloide intelectual, muito engraçado.

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