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Mais do que uma entrevista, a conversa com Rafaela Ferraz foi sobretudo um passeio guiado pelo Cemitério dos Prazeres, um dos mais conhecidos em Lisboa, o mais visitado e que está repleto de histórias (algumas delas incluídas neste novo livro)
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▲Mais do que uma entrevista, a conversa com Rafaela Ferraz foi sobretudo um passeio guiado pelo Cemitério dos Prazeres, um dos mais conhecidos em Lisboa, o mais visitado e que está repleto de histórias (algumas delas incluídas neste novo livro)

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲Mais do que uma entrevista, a conversa com Rafaela Ferraz foi sobretudo um passeio guiado pelo Cemitério dos Prazeres, um dos mais conhecidos em Lisboa, o mais visitado e que está repleto de histórias (algumas delas incluídas neste novo livro)

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Como é que lidamos com a morte e o que é que os cadáveres contam sobre quem fica? Rafaela Ferraz foi à procura de respostas

Criminóloga e mestre em Medicina Legal, Rafaela Ferraz é desde há muito fascinada por rituais fúnebres e histórias necrológicas. Em "Portugal de Morte a Sul" dá-lhes protagonismo. Falámos com ela.

Estamos no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, e esta entrevista segue por caminhos menos óbvios. “A vida começa aqui”, lê-se na inscrição de um dos jazigos da entrada e, embora essa afirmação possa ser questionável, embora o silêncio do espaço só se deixe perturbar pelo chilrear momentâneo dos pássaros, aqui podem contar-se as histórias de muitas vidas e as mesmas mortes.

É isso que Rafaela Ferraz faz em Portugal de Morte a Sul, livro acabado de editar pela Quetzal que guia o leitor por uma viagem com paragens em cemitérios, igrejas ou museus. A autora — licenciada em criminologia e mestre em medicina legal pela Universidade do Porto — escreve com humor, deixa perguntas no ar, mas nunca é desrespeitosa. Ao longo dos anos, foi-se deixando fascinar por inscrições pouco comuns em jazigos, um mito contado de boca em boca ou por restos mortais sem nome e foi à procura das histórias e das identidades que ficaram esquecidas no tempo.

Esta nunca poderia ter sido uma entrevista banal porque seria impossível ficar a ouvir histórias, sentadas num banco de madeira da entrada, com tantos elementos nas pedras, na decoração e nas inscrições, explicações ou suposições espalhados pelo cemitério. Rafaela Ferraz guia-nos pelo espaço e pelos relatos que deram origem ao livro, deixando, ainda assim, uma ressalva: “Independentemente do valor arquitetónico, do valor artístico, de todas estas coisas que eu estou aqui a debitar, este é um cemitério. É um espaço de luto para muita gente, é um espaço de emoções complicadas e também é um espaço de contacto com essa realidade do corpo que nós preferimos, muitas vezes, evitar”.

O conflito entre o que deve ser ou não explorado inquietou igualmente a autora nas suas pesquisas e é exatamente por aí que começamos.

▲ A capa de "Portugal de Morte a Sul", de Rafaela Ferraz (edição da Quetzal)

Visitou cemitérios, museus de anatomia e santuários. Sentiu reticências, suas ou de quem a recebeu, quase como se estivesse a coscuvilhar algo que não lhe dizia respeito?
Especialmente nos capítulos finais, quando falo de contextos museológicos e da presença do corpo humano em museus, questionei-me. Ninguém me fez sentir isso, mas eu senti, às vezes, que talvez não fosse o meu lugar falar sobre isto, não sabia se faria sentido um visitante ter tantas opiniões. Mas depois pensei no outro lado: OK, eu sou visitante, o museu é para mim, portanto a minha opinião algum valor terá.

No livro diz que as paredes da Capela dos Ossos não a perturbam, mas que corpos numa vitrine já a deixam desconfortável. Porquê? 
Numa Capela dos Ossos, estou em paz, digamos assim, com a racionalidade que leva à construção daquele espaço. É um monumento cuja primeira função é armazenar os ossos, porque eles têm de ser guardados em algum lado. É um monumento religioso com uma intenção, a de consciencializar a comunidade para o facto de que vamos todos morrer, no fundo seremos todos ossos. O que interessa no contexto católico, e temos noção disso se formos criados nesse contexto, não é esta vida terrena, é a vida que vem depois. Quando chegar o juízo final, queremos estar do lado dos que são salvos. Nesta vida terrena devemos seguir os preceitos da nossa fé e tentar ser boas pessoas. Não sou religiosa, mas estou em paz com essa intenção. Quando falamos de um museu de anatomia, de um museu de antropologia ou de história natural, onde existem remanescentes ou restos humanos, estou menos à vontade por causa da história ou do percurso que os leva até ali. Vamos imaginar que estamos no Museu Nacional de Arqueologia e que olhamos para as múmias, para os remanescentes de antigos egípcios, eu já não consigo descolar-me do que sei daquelas figuras. O que é que justifica, no fundo, que a Europa vá ao Egito exumar corpos, trazê-los para os nossos museus para serem exibidos, às vezes sem qualquer contexto, sem qualquer relação com a nossa história? Muitas vezes nem sabemos de que túmulos vieram os corpos, porque essa informação é completamente perdida.

Fala de memórias de infância, de visitar a Capela dos Ossos em Évora quando era muito pequena. Nessa altura, já sentia uma curiosidade pela história que tinha dado origem àqueles restos mortais?
Este fascínio foi-se construindo aos poucos. Nunca me foi barrado nenhum interesse na família. Diziam-me: “Se estás interessada em fantasmas, lê sobre isso. Se estás interessada em cemitérios, lê”. Acho que o interesse talvez já lá estivesse.

"O meu interesse é a morte numa perspetiva cultural e social. Como é que lidamos com ela, como é que a gerimos. Como é que estes espaços de morte, os cemitérios mas não só, refletem uma série de pressupostos culturais"

Depois foi estudar criminologia.
Sim, fui estudar criminologia e medicina legal e o interesse foi-se refinando. Diria que, neste momento, o meu interesse é a morte numa perspetiva cultural e social. Como é que lidamos com ela, como é que a gerimos. Como é que estes espaços de morte, os cemitérios mas não só, refletem uma série de pressupostos culturais. Por exemplo, esta questão de serem os homens a dar o nome ao jazigo [muitas vezes o jazigo tem um único nome, o do patriarca]. Quem é que está nas sepulturas perpétuas? Quem está nas temporárias? Como é que isto perpetua os nomes no tempo? Vamos por aqui, porque há aqui um jazigo com uma inscrição inusitada que quero mostrar-vos. Gosto de mostrar a toda a gente as últimas palavras da Dona Aida. [Na lápide lê-se: “As últimas palavras da Dona Aida: Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus”.]

Conseguiu descobrir a história da Dona Aida?
Nasceu em 1895 e morreu com quase 90 anos. Mas a única coisa que consegui perceber foi que o marido terá sido fundador de uma igreja evangélica. Neste momento, o jazigo está a cargo dessa igreja, o que também é muito comum. Apesar de não sabermos o motivo das palavras, ou o propósito de terem sido imortalizadas aqui, é um epitáfio que muita gente fotografa por ser caricato.

A Dona Aida está envolta em mistério e a história dela não está no livro. Como é que chegou às histórias que estão no livro?
Existem muitíssimos casos em que podemos encontrar, por exemplo, um elemento que nos inspire alguma curiosidade e podemos pesquisar o nome, como no caso da Dona Aida, e não conseguimos chegar a lado nenhum. E depois há outros casos, como o da Henriqueta [que surge logo no início de Portugal de Morte a Sul], que é uma figura muito conhecida no Porto. Nesse caso não tive de fazer investigação primária porque até existem trabalhos académicos sobre ela. Baseei-me no que já estava escrito sobre este episódio rocambolesco em que ela compra o terreno, manda exumar a amiga — ou talvez não amiga, talvez amante, talvez companheira, não sabemos. Até isso está por entender e continuará por entender porque as pessoas não se descreviam no século XIX como nós nos descrevemos hoje em dia. Portanto, não vamos encontrar um documento perfeitamente escrito que descreva a relação entre estas duas mulheres e esta ambiguidade faz parte de contar essas histórias.

▲ "Surgem muitos símbolos profissionais e há até talhões específicos para determinadas profissões: polícias, bombeiros, artistas, etc"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Por isso é que ela se tornou uma figura quase mitológica?
Sim, e continua a ser um jazigo muitíssimo visitado no Prado do Repouso. Tem sempre velas, flores e ofertas e está sinalizado pela própria Câmara Municipal do Porto como sendo um jazigo de interesse.

Nas pesquisas que fez para o livro, qual foi a história que a surpreendeu mais?
Há uma figura na qual penso muito que é o Vicente José de Carvalho, um médico da Faculdade de Medicina do Porto que dedicou a vida ao ensino da anatomia e à preservação de peças anatómicas. Quando morre, o coração dele é preservado e colocado no museu que o próprio criou. Há aqui quase uma circularidade que me fascina. No museu, o coração está exposto numa coluna que tem, no topo, um busto dele que é igual ao busto que está no jazigo, no cemitério do Prado do Repouso. O contexto médico e o contexto cemiterial são muito interessantes. Além do coração, está numa vitrinezinha, a curta distância, um feto de três meses dentro de um frasco. É uma coisa microscópica, de uma fragilidade imensa. Foi muito estranho para mim olhar para aquilo porque sabia que, atrás de mim, estava o coração da pessoa que preparou aquela figura, que é um feto de três meses colado na carta de um baralho, o que dá a noção da escala porque tomos sabemos exatamente o tamanho de uma carta. Aquela peça tem algum valor, digamos, histórico por ter sido preparada por quem foi. Mas depois chegamos à questão das motivações. Provavelmente ele argumentaria que montou aquela peça por curiosidade científica, médica, o que fosse. Mas para nós, hoje em dia, é complexo imaginar uma peça destas e ver ali valor científico.

E o que é que aconteceu para aquele feto ir ali parar?
Essa é outra das questões, é um novelo sem fim. Não tem nome, não nasceu, podemos questionar tanta coisa.

À medida que vamos descendo no cemitério, vemos que os jazigos são cada vez menos imponentes.
Os maiores jazigos estão normalmente na entrada. Aqui, e noutros cemitérios, constrói um jazigo gigantesco quem quer ser visto.

“O que interessa no contexto católico, e temos noção disso se formos criados nesse contexto, não é esta vida terrena, é a vida que vem depois. Quando chegar o juízo final, queremos estar do lado dos que são salvos. Nesta vida terrena devemos seguir os preceitos da nossa fé e tentar ser boas pessoas. Não sou religiosa, mas estou em paz com essa intenção.“

Este jazigo parece uma casa em miniatura.
Chama-se efetivamente jazigo Casa Portuguesa. Há muitos aqui em Lisboa, alguns no Porto e vão aparecendo noutros cemitérios. Têm uma tipologia muito característica, às vezes chegam a ter canteiros, azulejos ou um sininho, acaba por reproduzir o aspeto de uma habitação. A Gisela Monteiro, que trabalha aqui na divisão de gestão cemiterial e tem um blogue sobre arte funerária, tem como uma das especialidades este tipo de jazigo e ela desenvolve também a teoria de que o cemitério é uma cidade em miniatura. Reproduzem-se aqui uma série de características da cidade, das ruas, da arquitetura.

Em termos sociais também.
Absolutamente. Chegamos ao jazigo dos duques de Palmela, que é muitas vezes descrito como sendo o maior jazigo privado ou familiar da Europa.

Isto não é só um jazigo. Parece um cemitério privado dentro do cemitério.
É um pouco isso. Há uma escadaria que dá acesso ao espaço, que está vedado do resto. Tem o edifício, que está envolto em muitas teorias. Há quem diga que tem inspiração maçónica. Lá dentro está a família e existe um nível subterrâneo onde é possível circular. Aqui fora [numa espécie de jardim ou adro, com árvores, que dá acesso ao jazigo] estão enterrados outros membros da família ou pessoas que trabalhavam para a família.

Há elementos nos jazigos que podem não dizer nada à maioria das pessoas, mas alguns têm um significado específico. O que é que consegue reconhecer logo?
Quando uma pessoa morre muito jovem ou de forma trágica, é comum haver uma coluna arquitetónica quebrada a meio. Simboliza a interrupção precoce da vida. As esculturas de urnas estão associadas à Roma Antiga, onde se praticava a cremação. Nós não praticávamos a cremação no momento em que muitos destes jazigos foram construídos mas isto representa o contacto com o corpo sem ter de representar o corpo. Não vamos representar um corpo em decomposição, por exemplo, isso seria chocante, mas este vaso sabemos que representa um vaso de cinzas, representa os restos mortais de alguém, mas não é perturbador à vista. Surgem muitos símbolos profissionais e há até talhões específicos para determinadas profissões: polícias, bombeiros, artistas, etc.

▲ "Quem é que está nas sepulturas perpétuas? Quem está nas temporárias? Como é que isto perpetua os nomes no tempo?"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Mais à frente encontramos um jazigo que é literalmente a mesa de trabalho de um carpinteiro.
Sim, é feita em pedra, mas tem todos os elementos de uma bancada de carpinteiro. Agora está envolta em acrílico para a peça estar protegida, mas essa colocação também originou polémica porque o acrílico fazia com que a humidade fosse retida dentro da caixa.

Muitos jazigos estão identificados com o nome do patriarca apenas e mais nada. É o mais comum?
É relativamente comum que, se procurarmos uma pessoa que não seja a figura máxima da hierarquia familiar, não vamos conseguir encontrar essa informação no exterior. Quem era a mulher dele que também está aqui, quem era a família? Não sabemos. Alguns jazigos têm molduras para se irem acrescentado nomes, mas muitas não estão preenchidas.

No livro fala do caso da Carolina Beatriz Ângelo, primeira mulher cirurgiã e primeira mulher a votar em Portugal. Está aqui, mas num jazigo completamente descaracterizado.
Vamos à procura dela, ela merece [demoramos algum tempo, o acesso à rua 5A não é visível das vias principais]. Está aqui, número 6906 [no chão, uma pedra identifica o jazigo como um ponto de interesse, mas nada mais além disso denuncia a presença de Carolina Beatriz Ângelo]. “À memória de Afonso Luciano Barreto da Gama e Padre António Barreto” é a única coisa que podemos ler.

Neste cemitério ainda há espaço disponível?
Há jazigos que ficam disponíveis para compra se forem declarados como abandonados, mas esse processo é demorado. Dependendo se têm valor cultural ou não, alguns jazigos podem ser demolidos e substituídos por novos ou então têm de ser mantidos como estão. Não há um registo formal das visitas aos jazigos, mas alguns estão visivelmente em mau estado de conservação, às vezes há umas portas penduradas. Depois, nos registos, é possível perceber se o último sepultamento foi há muito tempo. De qualquer forma, as famílias são sempre notificadas para virem reclamar o jazigo ou a sepultura, mas nem sempre é possível fazer esse contacto. É um cemitério histórico, onde já não se fazem enterramentos temporários. Quase todas as secções são jazigos e sepulturas perpétuas. No site da Câmara Municipal de Lisboa existe um preçário disponível, mas na prática não quer dizer que realmente haja espaço.

“Tivemos uma vaga de mortes enorme, por Covid-19, e sabemos que nessa altura os corpos eram envoltos em plástico, havia caixões envoltos em plástico. Em que condições é que isso tudo estará? Não sabemos. É um tema que, certamente, levantará muitas questões nos próximos tempos.“

Estão aqui sepultadas figuras históricas também.
Antes de ser levada para o Panteão Nacional, estava aqui a Amália Rodrigues, num gavetão, e era muito visitada. Pelo que me disseram, ainda há quem venha à procura dela. Estão aqui muitos escultores, artistas. Está cá também o Cesário Verde e a Ofélia Queiroz [única namorada conhecida de Fernando Pessoa].

No livro optou por não abordar o tema das cremações. Porquê? Falta o corpo para fazer a ligação à história?
Foi um pouco isso, sim. É algo que não se materializa. Não digo que não haja histórias para contar, mas parecia-me deslocado do resto.

Também teve a oportunidade de corrigir a história de Diogo Alves. Contextualizando, há uma cabeça preservada em líquido no Instituto de Anatomia que se pensava ser de Diogo Alves, alegadamente um serial killer. Mas a história é outra.
Escrevi um primeiro artigo sobre o Diogo Alves, em 2017, para um site americano, o Atlas Obscura, e na altura reproduzi aquilo que achava que era informação, mas afinal era mito. O Diogo Alves teria sido um serial killer que matou cerca de 70 pessoas, atirando-as do Aqueduto das àguas Livres e a sua cabeça estaria preservada dentro de um frasco no Instituto de Anatomia. Já vimos essa imagem, está na internet, é a única cabeça preservada naquelas condições. Quando começamos a questionar um bocadinho mais o caso, pensamos que, se o mito diz que ela é um grande serial killer, que é condenado à morte, que é enforcado, então a cabeça é preservada para fins de investigação científica — na altura acreditava-se em teorias como a fronologia, que dizia que as saliências do crânio nos ajudavam a interpretar a personalidade ou o temperamento de uma pessoa. Mas o facto é que aquela cabeça dentro do frasco não está dissecada, não dá propriamente indício de que se tenha feito alguma coisa minimamente invasiva.

▲ "Este fascínio foi-se construindo aos poucos. Nunca me foi barrado nenhum interesse na família. Diziam-me: 'Se estás interessada em fantasmas, lê sobre isso. Se estás interessada em cemitérios, lê'"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Parece quase um troféu?
Quase. E portanto, este é o primeiro obstáculo a esta história. Depois, se formos ver o processo que efetivamente condena Diogo Alves à morte, concluímos que ele não é condenado por ter matado 70 pessoas, ele é condenado por um assalto em casa de um médico, que depois resulta numa série de mortes, e é isso que o leva à forca. E depois, quando começamos a investigar um bocadinho mais, percebemos que depois da morte de Diogo Alves continua a haver relatos de suicídios, ou de quedas, ou de mortes, de pessoas que caem do aqueduto. Sabemos que uns anos depois surge no Instituto de Anatomia, num inventário, um crânio ósseo que está identificado como pertencendo a Diogo Alves. Esse crânio faz parte de um conjunto de cinco, se não me engano, que pertencem a outros indivíduos, ou que estão identificados como pertencendo a indivíduos que também foram condenados à morte num período temporal mais ou menos próximo.

Portanto, a cabeça dentro do frasco não pertence a Diogo Alves.
Exato. A quem pertence a cabeça dentro do frasco então? Isso não sabemos dizer. É um mistério que perdura, mas talvez dê aqui pano para mangas para alguém que se queira dedicar academicamente a ele.

Nas várias histórias que estudou e que aborda, há muitos casos de exumações. Em alguns houve surpresas porque o corpo que devia estar decomposto, afinal não estava. Esse processo varia de local para local?
Prevê-se que, ao fim de cinco anos, um corpo esteja decomposto, mas nem sempre acontece. O que a lei nacional efetivamente diz é que não podemos exumar antes de três ou cinco anos, dependendo dos regulamentos. Há cemitérios que, por questões de falta de espaço, seguem isso à risca e de cinco em cinco anos são feitas as exumações. Há cemitérios, já vi alguns, em que temos secções temporárias que já têm 20 anos. Não foram exumadas porque não foi preciso libertar aquele espaço. Agora estamos perante uma situação nova: estamos em 2025, se recuarmos cinco anos, estamos na pandemia. Tivemos uma vaga de mortes enorme, por Covid-19, e sabemos que nessa altura os corpos eram envoltos em plástico, havia caixões envoltos em plástico. Em que condições é que isso tudo estará? Não sabemos. É um tema que, certamente, levantará muitas questões nos próximos tempos.

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