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A febre da passagem da tour mundial de Taylor Swift pelo Reino Unido estava em alta quando a professora de dança Leanne Lucas anunciou um workshop de ioga e dança temático para crianças dedicado à cantora norte-americana. Divulgou o evento a 7 de julho de 2024, no Instagram e, dez dias depois, todas as vagas estavam ocupadas. A oito quilómetros do estúdio onde a aula ia decorrer — o The Hart Space — Axel Rudakubana, com 17 anos e a viver na casa dos pais, dava de caras com o anúncio do evento por razões bem diferentes: queria matar e o seu alvo eram crianças do sexo feminino.
No dia em que tirou a vida a três crianças que participavam nessa aula, o jovem britânico saiu de casa a pé, por volta das 11h10 da manhã, para depois apanhar um táxi. Consigo levava uma faca de cozinha com uma lâmina de 20 centímetros de comprimento, uma de duas que tinha comprado online através da Amazon, no dia 13 de julho de 2024. Para o fazer, como descreveu a procuradora responsável pelo caso na leitura da sentença desta quinta-feira, utilizou uma Rede Privada Virtual (VPN), para que a compra não pudesse ser rastreada até ele.
As provas obtidas no seu computador portátil mostram que, pouco antes de partir, apagou o histórico de navegação na internet. Imaginar que estava a ser vigiado não era descabido. Aos 17 anos, já tinha sido sinalizado três vezes por dar sinais de instabilidade psicológica e de obsessão por ataques terroristas e massacres em escolas. Também se identificava com a comunidade “Incel” — homens que odeiam mulheres — e até já tinha levado a cabo um ataque com recurso a um taco de hóquei na sua antiga escola. Foi expulso quando tinha apenas 13 anos porque andava com uma lâmina. Os alertas não serviram, no entanto, de prevenção para a tragédia que ocorreu a 29 de julho e gerou protestos e motins por todo o Reino Unido sob o falso pretexto de que Rudakubana era um imigrante muçulmano, quando na verdade não passava de um jovem de 17 anos britânico.
Esta quinta-feira, Axel Rudakubana, que já fez 18 anos sob custódia, foi condenado a prisão perpétua com uma pena mínima de 52 anos pelos homicídios da lusodescendente Alice da Silva Aguiar, de nove anos, Bebe King, de seis, e Elsie Dot Stancombe, de sete. O juiz disse ser muito “improvável que ele alguma vez deixe a prisão”.
Estava planeado um julgamento de quatro semanas, mas uma vez que o arguido se declarou culpado esta segunda-feira dos 16 crimes pelos quais estava acusado — que iam de homicídio a posse de material terrorista — todas as alegações, testemunhos e a decisão da pena tiveram lugar já esta quinta-feira.
A sala de tribunal foi palco de uma reconstituição da tragédia.
O que as câmaras de videovigilância não mostram, as professoras de dança recordam “sem parar”
As imagens de videovigilância que foram exibidas esta quinta-feira no Tribunal Penal de Liverpool, durante a audiência da leitura da sentença de Rudakubana, eram gráficas ao ponto de o juiz ter decidido fazer uma pausa prévia para que os presentes na sala, nos quais se contavam alguns familiares das vítimas — incluindo os dois madeirenses pais de Alice — pudessem sair, se assim o entendessem, como descreveu a BBC.
Nas imagens inéditas, Rudakubana surge com uma camisola com capuz verde e uma máscara cirúrgica, primeiro no táxi em que se deslocou até ao estúdio de dança em Southport e, depois, já a executar o ataque com a faca. A câmara mostra o jovem a sair do táxi, sem pagar a deslocação, e a tentar entrar no edifício onde decorre a aula por uma porta no rés do chão. Não tem sucesso, mas depois encontra uma porta adjacente aberta para as escadas que davam acesso ao local onde estavam as crianças, num piso superior.
???? NEW: The taxi that took Axel Rudakubana to carry out the Southport murders
Rudakubana is heard asking where to find 34a Hart Street, where the Taylor Swift dance class was held, before leaving without paying pic.twitter.com/FTGUdp7OkD
— Politics UK (@PolitlcsUK) January 23, 2025
O que se passou dentro da sala não foi gravado, mas as duas professoras de dança que conduziam a aula garantem que os minutos do ataque surgem “repetidos vezes e vezes sem conta na sua memória“. Heidi Liddle, uma delas, não esteve presente em tribunal, mas foi lida uma declaração em seu nome.
Diz que nunca mais se sentiu segura desde o ataque, nem na sua própria casa, e que se debate mentalmente com o facto de não ter ficado fisicamente ferida e de se sentir culpada por isso, tendo em conta a morte das três crianças. As imagens recolhidas por câmaras de videovigilância da rua mostraram ainda uma criança, que acabou por sobreviver, a tentar sair do edifício e a ser puxada de volta para dentro por Rudakubana.
O testemunho de Leanne Lucas, a instrutora de dança que anunciou o evento, foi recordado por Deanna Heer, a procuradora do caso. Ela não se apercebeu de imediato que Rudakubana estava armado.
“Sem dizer uma palavra, ele agarrou a criança mais próxima dele por trás e pôs o braço à volta dela”, contou ao tribunal a procuradora. No início, a instrutora pensou que o jovem estava ali para levar a menina em que pegou, mas depois passou “para uma segunda criança e depois para uma terceira, Alice da Silva Aguiar”, afirmou, descrevendo a rapidez com que o homem se moveu pela sala e feriu as crianças e as adultas presentes.
Leanne Lucas só se apercebeu exatamente do que estava a passar quando o atacante a alcançou e ela sentiu uma faca nas costas. A mulher de 36 anos foi esfaqueada cinco vezes e ficou em estado crítico, mas sobreviveu depois de passar por diversas cirurgias e de ter estado internada três vezes nos últimos meses.
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“Não quero brincar”. Crianças acharam que atacante lhes estava a pregar uma partida
Para lá das sequelas físicas que carrega, Leanne Lucas, que fez uma declaração emocionada em tribunal, referiu o trauma “horrível” com que vive. Diz estar constantemente atormentada com a imagem de tudo o que passou no dia 29 de julho e ter dificuldade em confiar nos outros e até em si mesma.
“Como uma mulher de 36 anos, não consigo andar pela rua sem suster a respiração enquanto passo por uma pessoa e depois olho para trás para ver se ela tentou esfaquear-me”, afirmou durante a leitura da sentença.
A sua entrada em locais públicos também passou a ser marcada pelo pensamento obsessivo de como poderá sair em caso de emergência. E, tal como Heidi Liddle, a colega com quem estava a dar a aula de dança naquele dia, tem tido dificuldade em ter “compaixão” por si mesma.
“Como posso viver sabendo que sobrevivi quando crianças morreram?”, questionou. Concluiu sua declaração a dizer que é “por Alice, Elsie, Bebe, Heidi e as meninas sobreviventes”, que está a sobreviver.
Getty Images
O testemunho dos pais de duas irmãs que sobreviveram ao ataque levantou a ponta do véu para o pânico permanente com que estas crianças vivem. “Foi o pior dia das nossas vidas. As nossas duas filhas sofreram ferimentos horríveis, elas são fortes, mas os ferimentos que sofreram ainda as afetam”, recordaram.
Revelaram que, desde o incidente, as raparigas — cujas idades rondam os 6 e os 11 anos — não conseguem estar sozinhas. Não dormem sozinhas, não saem do carro se estiver escuro lá fora, alarmam-se com qualquer ruído e passaram a ter dificuldades em realizar tarefas básicas, como tomar duche ou lavar os dentes. “É como ter bebés outra vez”, contaram.
Em tribunal foi ainda lido o testemunho de uma menina sobrevivente que, à semelhança do que aconteceu com a professora de dança, diz não ter percebido de imediato a ameaça que estava a enfrentar naquela manhã. “Primeiro pensei que o homem que me esfaqueou era um empregado de limpeza e quando o vi e o que estava a acontecer pensei que era uma partida”, revelou a criança que não foi identificada em tribunal para proteção da sua identidade.
“Apercebi-me de que não era uma partida quando vi sangue a sair de mim“, acrescentou ainda, lembrando que só pensava: “Não quero morrer, tenho de sair daqui.”
Outra mãe de uma das crianças revelou em tribunal o que a filha lhe contou depois do ataque. A menina também achou que era uma “partida” e que quando o agressor se aproximou dela com a faca lhe disse que “não queria brincar”. “O nosso mundo desmoronou-se naquele momento e ainda estamos a tentar reconstruí-lo”, confessou a familiar desta sobrevivente.
“Estamos presos num filme de terror”. O testemunho dos pais de Alice da Silva Aguiar, a menina lusodescendente que não resistiu
Os pais de Alice da Silva Aguiar, de 9 anos, que foi morta no ataque de Axel Rudakubana, estiveram presentes na leitura da sentença que determinou a prisão perpétua para o jovem de 18 anos. Leram uma declaração em que recordaram a filha e admitiram que estão “presos num filme de terror”. “O que é que fazemos agora?”, questionaram-se.
“A Alice foi sempre muito simpática. Tinha um mundo de possibilidades à sua espera. Era uma rapariga bonita. Era uma pré-adolescente forte e confiante, com um mundo de sonhos”, descreveram, lembrando que, naquele dia de verão, a menina estava “muito entusiasmada por ir ao workshop de dança”.
Elsie Dot Stancombe, Bebe King e Alice Dasilva Aguiar. Imagens divulgadas pela polícia de Merseyside
“Numa questão de minutos, as nossas vidas foram destruídas e viradas do avesso. Mantivemos a esperança em cada segundo da sua luta de 14 horas, mas quando ela perdeu a sua luta, nós perdemos as nossas vidas. A nossa alma ficou destroçada”, recordaram.
Sobre a agressão, foi conhecido o testemunho da professora que estava a dar a aula e que identificou Alice como a terceira criança a ser esfaqueada por Rudakubana no momento em que o jovem entrou pela sala armado. A lusodescendente também é mencionada no relato de duas pessoas que passavam na rua e que lhe prestaram assistência ainda antes de chegarem os meios de socorro.
Viram Leanne Lucas, coberta de sangue, a gritar que alguém estava a esfaquear crianças e perceberam que tinha conseguido trazer Alice para a rua. O seu estado era crítico, foi transportada para o hospital mas acabou por morrer na manhã seguinte.
“Parece que estamos presos num filme de terror 5D com imagens em movimento e momentos a serem revividos. Não conseguimos sair. Alguns momentos são mais fáceis do que outros, mas todos os dias são iguais. A Alice não está cá quando acordamos e nunca estará”, afirmaram os pais da criança, de origem madeirense.
Ataque premeditado ficou provado. Rudakubana disse estar “feliz” por ter conseguido matar três crianças
As imagens de videovigilância, que esta quinta-feira foram divulgadas em tribunal, mostram um Axel Rudakubana calmo e focado nos momentos que antecederam o crime que cometeu. Dentro do táxi onde se deslocou não estava agitado e foi com serenidade que se deparou com a porta fechada para logo depois encontrar uma alternativa para a entrada no edifício onde decorria a aula de dança em que tinha planeado atacar.
Em tribunal, o ataque com faca ficou estabelecido como premeditado. Mesmo sem provas de que o jovem estivesse afeto a uma ideologia política e/ou religiosa que o tivesse motivado a praticar o ato, foi assente que a sua obsessão em consumir conteúdo sobre massacres e ataques terroristas definiu os crimes que colocou em prática.
“O seu único objetivo era matar e visava os mais jovens e os mais vulneráveis, a fim de espalhar o maior nível de medo e de indignação, o que conseguiu fazer”, afirmou a procuradora em tribunal. Acrescentou ainda que, já depois de ser detido, Rudakubana foi ouvido a dizer: “Ainda bem que aquelas crianças estão mortas, estou tão contente, tão feliz.”
Ao ser questionado pelas autoridades, já sob custódia, em relação ao seu estado de espírito sobre os crimes que tinha acabado de cometer disse: “Não quero saber, estou a sentir-me neutro.”
“Literalmente, ainda bem que aqueles miúdos estão mortos, com 6 anos. Tão felizes, com 6 anos. É bom que estejam mortos, sim”, foi ainda citado em tribunal.