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Coreia de Norte. Do milagre à miséria no Paralelo 38 /premium

A norte do paralelo 38, o mais recluso dos regimes sobrevive há quase 70 anos debaixo de constantes prognósticos de colapso, sucessivas crises económicas e mais de 18 milhões de pessoas afetadas.

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Um dos últimos resquícios da Guerra Fria, o regime da família Kim, tem sobrevivido contra todas as expectativas devido a três razões principais. A capacidade de manipular os seus próprios aliados — extraindo deles apoio económico e militar —, a visão de longo prazo e aparente infinita capacidade de adaptação, e a um esquema criminoso montado, desenvolvido e levado a cabo pelo regime, como em nenhum outro país do mundo.

A Coreia do Norte pode ser o regime mais fechado do planeta, mas está longe de ser um país isolado. Ao longo de mais de meio século, Pyongyang estabeleceu relações com regimes e grupos criminosos que permitiram estabelecer e expandir um império que mantém vivo o regime, financiando a sua elite e um programa nuclear que está a deixar a comunidade internacional de cabelos em pé, usando as suas relações diplomáticas para levar vários crimes, desde a venda de armas ao tráfico de droga.

Os tentáculos do polvo norte-coreano vão muito além da península norte-coreana. Do tráfico de droga na Ásia, à venda de mísseis e tecnologia nuclear ao Médio Oriente, passando pelo treino militar e venda de armas em África, ao apoio a grupos terroristas em várias partes do mundo, até ao uso de trabalho quase escravo em países da União Europeia. O regime tem contornado as sanções, financiado as suas ambições nucleares e mantido o nível de vida luxuoso do seu líder e das elites, enquanto mais de dois terços da população vive em dificuldades.

Este é o primeiro de uma série de trabalhos num momento em que a tensão entre Coreia do Norte e EUA está no auge que mostra como o regime norte-coreano tem sobrevivido contra tudo e todos graças em parte a este império que criou, e como tem deixado a sua marca, muitas vezes sangrenta, na História. Para isso, foram consultadas investigações judiciais, acusações em tribunal, documentos desclassificados pelos serviços de informação de países em quatro continentes, recolhidos testemunhos — alguns diretos outros indiretos — de responsáveis governamentais, dos serviços de informação, das autoridades policiais e financeiras em várias partes do mundo, académicos e outros especialistas.

Nesta primeira parte estão os eventos da história da Coreia do Norte que levaram o país à aposta militar em detrimento de uma economia que estava a crescer; como as políticas do regime colocaram Pyongyang em isolamento; a sua complicada relação com os principais aliados; e como as mudanças no panorama geopolítico internacional levaram o regime a suportar sanções internacionais, ao mesmo tempo que desenvolvia um império assente em negócios ilegais dignos de um filme de Hollywood.

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A guerra que ninguém começou

“A 25 de junho, o exército do governo marioneta do traidor Syngman Rhee lançou uma forte ofensiva ao longo do paralelo 38 contra a metade norte da Coreia. As corajosas Forças de Segurança da República, lutando batalhas ferozes para impedir a invasão inimiga, frustraram os avanços do exército de Syngman Rhee. (…) O grupo do traidor Syngman Rhee lançou uma guerra fratricida apesar de todo o povo patriótico do nosso país ter feito todos os esforços para reunificar o nosso país de forma pacífica”.

As palavras são de Kim Il-sung, o guerrilheiro de origem coreana que durante anos combateu na Manchúria a opressão japonesa na península da Coreia, empossado pela União Soviética em 1948 como líder do território do Norte — ainda não um país —, um dia depois do início da Guerra da Coreia.

“A 25 de junho, o exército do governo marioneta do traidor Syngman Rhee lançou uma forte ofensiva ao longo do paralelo 38 contra a metade norte da Coreia. As corajosas Forças de Segurança da República, lutando batalhas ferozes para impedir a invasão inimiga, frustraram os avanços do exército de Syngman Rhee. (…) O grupo do traidor Syngman Rhee lançou uma guerra fratricida apesar de todo o povo patriótico do nosso país ter feito todos os esforços para reunificar o nosso país de forma pacifica”.
Kim Il-sung, comunicação ao povo norte-coreano a 26 de junho de 1950, um dia depois de começar a Guerra da Coreia

Kim Il-sung acusava o Sul de tentar invadir o Norte. O Sul acusava o Norte de ter começado a guerra. Os Estados Unidos viam o ataque como um plano do Bloco Soviético para expandir o comunismo e tentar invadir o mundo livre, numa altura em que a Guerra Fria dava os primeiros passos. A União Soviética culpava os americanos e os seus clientes da outra Coreia de começarem a guerra e avisava os americanos de que o conflito não lhes dizia respeito, por ser uma guerra civil. A China dizia que o ataque era parte do plano americano para estender a sua presença em território continental asiático.

Em três dias, as forças do Norte tomaram o Sul e rapidamente controlaram a sua capital, Seoul. A propaganda proclamava uma ofensiva para libertar o sul da opressão de um regime quen diziam corrupto e pela unificação da pátria.

Durante três meses, a Coreia do Norte ocupou Seoul e grande parte do Sul. Nesse período, os que resistiram à ocupação eram considerados traidores da Coreia – em especial os antigos colaboradores dos japoneses ou membros do regime – e foram punidos de forma severa. Mas a violência que o Ocidente esperava não aconteceu no imediato.

Um grupo de sociologistas norte-americanos enviado pela Força Aérea dos EUA para o território para avaliar o impacto da governação comunista na população, descreveu um regime a tentar replicar-se no Sul, que tratava as pessoas com respeito e com ordens para não violar os seus direitos. Segundo os norte-americanos, a maior parte dos trabalhadores sul-coreanos apoiava o regime do Norte, juntamente com dois terços dos estudantes – incluindo mulheres.

Tudo mudou quando as forças americanas, juntamente com as Nações Unidas, decidiram entrar na Guerra. Kim Il-sung esteve um ano a tentar convencer Estaline a apoiar uma ofensiva contra o Sul e conseguiu-o com a promessa de uma vitória fácil, de um forte apoio a Sul ao regime do Norte e, especialmente, com a garantia que os Estados Unidos nunca entrariam na guerra. Por essa razão, a União Soviética foi sempre um parceiro relutante: deu apoio técnico e militar, mas não enviou tropas e só destacou parte da força aérea depois de os norte-americanos terem tomarem o controlo do Norte.

“De forma a que as decisões das Nações Unidas possam ser implementadas com o mínimo de perdas de vida e de destruição de propriedade, eu, como comandante-supremo das Nações Unidas, insto pela última vez a si e às forças às suas ordens na parte da Coreia onde estiverem a pousarem as armas e suspender as hostilidades. E insto todos os norte-coreanos a cooperar por completo com as Nações Unidas na criação de um governo unificado, independente e democrático para a toda a Coreia, garantindo que serão tratados de forma justa e que as Nações Unidas irão atuar na reabilitação e apoio a todas as partes de uma Coreia unificada. Caso não seja dada uma resposta imediata, tomarei de imediato todas as ações necessárias para implementar os decretos das Nações Unidas”. Este foi o ultimato do general Douglas MacArthur ignorado por Kim Il-sung.

O impacto da ofensiva foi devastador. A destruição causada pelos americanos deixaria marcas que ainda hoje perduram no regime norte-coreano. Sem capacidade para contrariar o poderio militar dos EUA, os norte-coreanos bateram em retirada, deixando o rasto da passagem na Coreia do Sul.

Já os Estados Unidos, que lideravam a ofensiva das Nações Unidas, arrasaram quase por completo as principais cidades do Norte. Segundo as forças armadas norte-americanas, a destruição da Coreia do Norte foi superior, em proporção, à do Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Foram lançadas mais bombas e Napalm do que na Guerra do Pacífico. O resultado foram três milhões de mortos, feridos e desaparecidos. A Coreia do Norte terá perdido entre 12% a 15% da sua população.

Com as principais cidades norte-coreanas completamente destruídas, os norte-americanos bombardearam sistemas de irrigação e campos de arroz. Segundo a Coreia do Norte, depois do ataque norte-americano só restaram dois edifícios modernos em Pyongyang.

Bombardeiros B-29 da Força Aérea dos Estados Unidos largam bombas na Coreia do Norte em 1950. A devastação provocada pelos ataques aéreos norte-coreanos deixou marcas profundas no regime norte-coreano

Getty Images

Como as Nações Unidas só tinham acordado um mandato para defender o Sul, nunca houve um plano para tomar o Norte, apesar das palavras do general MacArthur e de os sul-coreanos, à revelia dos seus parceiros, terem assumido de imediato o controlo das principais cidades e províncias do Norte.

Só a intervenção chinesa, que Kim Il-sung, relutante, acabou por pedir depois de Estaline ter rejeitado entrar num conflito direto com os norte-americanos, conseguiu fazer mover as forças ocidentais para a fronteira original.

A guerra deixaria marcas profundas na forma de pensar do regime e no que viria a ser a Coreia do Norte nas décadas que se seguiram. Quando os japoneses abandonaram a península da Coreia, o Norte tinha uma grande vantagem económica sobre o Sul, porque era lá que estavam localizadas todas as indústrias e os principais portos. A economia crescia em Pyongyang, ao contrário de Seoul, e muitos sul-coreanos fugiam para o Norte, em busca de emprego e para fugir ao seu governo corrupto.

A destruição causada pelo ataque norte-americano acabou com essa vantagem. Mais de três milhões fugiram para o Sul, a União Soviética começava a não parecer um parceiro tão fiável e o poderio da aviação norte-americana era incomparável. A lição nunca foi esquecida: a Coreia do Norte não poderia voltar a estar numa posição de tamanha vulnerabilidade.

Nas décadas que se seguiram ao armistício assinado três anos depois de a Guerra começar, Pyongyang investiu em força na construção de defesas antiaéreas, instalações subterrâneas e eventualmente até armas nucleares. A sensação de vulnerabilidade face aos americanos e a incerteza relativamente ao apoio dos aliados, acabou por levar à criação do que seria o mantra do regime até aos dias de hoje: independência, autossuficiência e sobrevivência, acima de tudo e todos, a qualquer custo.

À velocidade de Pyongyang

O período que seguiu à Guerra da Coreia é de uma intensa transformação na sociedade, na economia e no regime norte-coreanos. Mais destruída do que a sua metade a Sul, sem a vantagem do apoio americano e das Nações Unidas e com uma população cada vez menor, a Coreia do Norte iniciou uma reconstrução sem precedentes, com o apoio indispensável do Bloco Soviético e… grande sacrifício da sua população.

No final da Guerra, de acordo com as estimativas da União Soviética, a produção industrial e a produção de bens de consumo tinham caído cerca de 40%, a produção agrícola e de eletricidade à volta de 26%, 70% dos comboios e 85% dos navios tinham sido destruídos, tal como quase três quartos da habitação e centenas de milhares de hectares de terrenos agrícolas. A Coreia do Norte foi completamente arrasada.

O que se seguiu foi um esforço conjunto – que não se repetiria – da União Soviética, da China e dos países comunistas para ajudar a reconstruir o Norte. A União Soviética foi quem mais contribuiu com dinheiro e apoio técnico. A China cancelou as dívidas da Coreia do Norte e deixou o seu exército para trás para ajudar a reconstrução, um apoio fundamental num país com uma população reduzida depois da Guerra. A Alemanha de Leste ajudou a voltar a pôr de pé a segunda maior cidade, Hamhung, quase de raiz. Polónia, Checoslováquia, Roménia, Hungria, Bulgária, Albânia, Mongólia e até o Vietname do Norte também ajudaram.

A reconstrução foi toda ela centrada na rápida industrialização da economia. As necessidades da população ficaram para segundo plano. Apesar da resistência dentro do partido às prioridades decididas pela liderança de Kim Il-sung – e da União Soviética, o principal patrono –, o plano avançou e em poucos anos a produção industrial quase triplicou, a produção agrícola mais que duplicou, foram construídos quase uma centena de novos complexos industriais, centenas de escolas, hospitais, cinemas e teatros. O milagre económico, em nome da “transformação socialista”, ficou todo ele nas mãos do Estado.

Esta “heroica nova era” anunciada pela propaganda norte-coreana foi acompanhada de clamores do ocidente sobre o sucesso inesperado de Pyongyang, que olhavam para a recuperação como uma “teoria alternativa de desenvolvimento que vira do avesso todas as premissas do pensamento económico ocidental”.

As duas maiores cidades, Pyongyang e Hamhung, eram os expoentes máximos desta recuperação. A reconstrução foi designada pelo regime de esforço patriótico e todas as pessoas capazes foram mobilizadas para este esforço, como se de uma campanha militar se tratasse.

Mito ou realidade, as autoridades anunciavam que tinham sido construídas habitações para 17 mil famílias em apenas doze dias. Os materiais pré-fabricados, a falta de qualidade, a reduzida dimensão – doze famílias partilhavam uma cozinha e uma casa de banho, de acordo com relatos de técnicos da Alemanha de Leste – , os telhados que deixavam passar água e a eletricidade com constantes falhas, permitiam a expressão “à velocidade de Pyongyang”.

Em Hamhung, a segunda maior cidade e hoje a base para a construção de submarinos e armamento nuclear, os técnicos da Alemanha de Leste que ajudaram na reconstrução assistiram a essa pressa para acabar os planos de construção, que estava acima de qualquer outra prioridade, mesmo a de segurança. Mas o esforço deu frutos. Em 1960, a imprensa da Alemanha de Leste chamava-lhe o “milagre económico do Oriente”.

O fim de Estaline, o início de Kim

A morte de Estaline foi o catalisador do primeiro grande passo em direção à visão de Kim Il-sung de uma nova Coreia do Norte. O apoio do Bloco Soviético e da China na reconstrução depois da Guerra da Coreia foi fundamental para a recuperação e para o crescimento económico que se seguiu, mas aos poucos o país começou a fechar-se. A propaganda intensificava os esforços para a propagação do Juche e as referências ao “apoio fraternal” dos países do bloco soviético desvaneciam nos discursos oficiais, nos jornais norte-coreanos e até na História oficial do regime.

A mudança chegou com o discurso de Nikita Khrushchev no Vigésimo Congresso do Partido Comunista Soviético, em fevereiro de 1956. O novo líder do bloco soviético atacou os “crimes” de Estaline e o culto de personalidade que este tinha criado à sua volta. Kim Il-sung, que considerava Estaline um amigo e um modelo a seguir, acusou o toque e começou a olhar para a União Soviética com uma desconfiança crescente.

A situação deteriorou-se quando Khrushchev o chamou para lhe dar um raspanete e tentar metê-lo em linha com os objetivos da URSS, criticando o que considerava ser uma agenda doméstica radical, um modelo económico que não servia os objetivos da comunidade comunista e o seu cada vez maior culto da personalidade.

“As coisas começaram a correr mal depois de Khrushchev chegar ao poder. O revisionismo moderno surgiu no Partido Soviético, e o povo soviético começou a sofrer de maleitas ideológicas”, dizia Kim Il-sung, de acordo com o oitavo volume da sua autobiografia. Khrushchev, dizia, começou a “vilificar Estaline com a desculpa do culto da personalidade”. Kim Il-sung respondeu com uma das primeiras purgas. Os norte-coreanos já estavam a receber ordens para não terem contacto com estrangeiros, as delegações dos partidos soviéticos – antes recebidas com entusiasmo e depois de todo o apoio financeiro e técnico na reconstrução – estavam cada vez mais isoladas e desconfiavam que os norte-coreanos estavam a esconder o jogo. Kim começou a afastar das estruturas do partido todos os aliados da União Soviética e da China, a favor dos seu aliados dos tempos da guerrilha na Manchúria.

Numa fase inicial, a União Soviética e a China ainda tentaram impedir os tiques ditatoriais do Presidente da Coreia do Norte. Mas depois de Kim condenar à morte o principal aliado da China dentro do Partido – por alegada espionagem para os norte-americanos – e de tentar fazer o mesmo ao principal aliado soviético, com acusações semelhantes, um grupo de opositores do Comandante Supremo tentou organizar uma revolta no congresso do Partido em 1956, com o apoio da União Soviética e da China.

O resultado não foi o melhor e os opositores foram silenciados durante o Congresso, expulsos e mais tarde detidos. Foi então que Khrushchev enviou a Pyongyang o seu número dois, Anastas Mikoyan, juntamente com o antigo líder das forças chinesas na Coreia do Norte durante a Guerra, Peng Dehuai. “Peng Dehuai e eu próprio decidimos tentar convencer o Comandante Kim Il-sung nesta conversa que os nossos dois partidos tinham o firme objetivo de não enfraquecer a atual liderança do Partido dos Trabalhadores da Coreia e do Comandante Kim Il-sung pessoalmente, que todos conhecemos e muito estimamos. Mas não podemos de forma alguma tolerar os métodos de liderança do Partido que estão a ser usados na Coreia”, explicava Anastas Mikoyan num telegrama secreto enviado ao Partido Comunista da União Soviética.

"Peng Dehuai e eu próprio decidimos tentar convencer o Comandante Kim Il-Sung nesta conversa que os nossos dois partidos tinham o firme objetivo de não enfraquecer a atual liderança do Partido dos Trabalhadores da Coreia e do Comandante Kim Il-sung pessoalmente, que todos conhecemos e muito estimamos. Mas não podemos de forma alguma tolerar os métodos de liderança do Partido que estão a ser usados na Coreia".
Anastas Mikoyan num telegrama secreto enviado ao Partido Comunista da União Soviética.

A mensagem era clara. Não havia qualquer interesse em retirar Kim Il-sung da liderança da Coreia do Norte, mas o Comandante Supremo tinha de começar a entrar na linha. A intervenção sino-soviética ficou encravada na garganta de Kim como uma espinha. O líder da Coreia do Norte percebeu a mensagem e aceitou a reintegração no partido dos seus críticos. Mas a situação duraria pouco. Uma nova purga chegou e todos os seus opositores foram afastados. Uns desapareceram sem deixar rasto, outros foram enviados para campos de trabalhos forçados. Os mais importantes foram executados depois de serem acusados de serem espiões americanos ou japoneses.

O poder de Kim Il-sung estava consolidado no Partido e nunca mais houve quem ousasse criticá-lo nesse fórum. Na sociedade norte-coreana, o Juche tornou-se política oficial do Estado, a propaganda avançou em força e a referência a qualquer influência estrangeira na história do sucesso do Grande Líder desaparecia. O Comandante era cada vez mais supremo, o povo estava cada vez mais isolado e a Coreia do Norte estava cada vez mais fechada sobre si mesma.

“Há quem defenda o caminho soviético e outros o caminho chinês, mas não será altura de encontrarmos o nosso próprio caminho?”, defendia Kim Il-sung num discurso em dezembro de 1955, quando começou a explicar a ideologia do Juche aos camaradas do Partido.

Entre Moscovo e Pequim

Com o fim do Estalinismo na União Soviética e o início de um novo período de contenção com os Estados Unidos, um outro conflito, que por pouco não se tornou numa guerra, começou dentro do mundo comunista.

Mao Zedong viu em si o natural sucessor da liderança do movimento comunista e revolucionário e atacou a liderança de Moscovo, quando esta tentou dar ordens à China para criar uma frota naval comum nos portos chineses sob as ordens da União Soviética. Mao não gostou de ver a China ser tratada como uma colónia sob as ordens de Moscovo.

O mau estar, juntamente com a falta de apoio da União Soviética no conflito entre a China e a Índia, complicou ainda mais as relações entre as duas potências. Pyongyang viu nesta divergência uma oportunidade e durante três décadas explorou este conflito com engenho, manipulando as duas superpotências a seu favor.

Kim Il-sung estava cada vez mais próximo da China em termos ideológicos devido às reformas que Khrushchev tentava implementar, mas a aliança nunca foi perfeita e por mais que uma vez Kim Il-sung expressou o seu desagrado com Mao. Além disso, a China não tinha a capacidade para ajudar Pyongyang em termos financeiros e militares que a União Soviética tinha.

Mao Zedong dizia que a relação entre a China e Coreia do Norte era próxima como "unha e carne", mas em muitas ocasiões funcionou mais como uma unha encravada.

AFP/Getty Images

Como a União Soviética não estava disposta a perder um aliado estratégico para a China num território tão sensível, ou arriscar o avanço das forças norte-americanas, Kim Il-sung conseguiu manter o apoio económico e militar da União Soviética, mas limitado, porque Moscovo não queria também arriscar um conflito com os Estados Unidos.

Kim il-Sung conseguiu extrair um tratado de cooperação com a União Soviética em 1961 e no regresso, sem avisar Moscovo, passou por Pequim e assinou outro com a China. A irritação de Khrushchev não impediu a continuação do apoio militar e económico.

A política da União Soviética de coexistência pacífica com os Estados Unidos deixou marcas fortes. Nikita Khrushchev cancelou uma visita a Pyongyang à última hora para não complicar as relações com os Estados Unidos, o que Kim Il-sung considerou uma afronta.

O pior chegaria em outubro de 1962, com a crise dos misseis de Cuba. Para Kim Il-sung, a forma como o diferendo com os EUA foi resolvido demonstrou que Khrushchev estava disposto a sacrificar os seus aliados mais pequenos para coexistir pacificamente com os Estados Unidos. Conclusão de Kim: a Coreia do Norte não podia contar com ninguém.

Nos anos que se seguiram, a aposta na auto-suficiência militar virou um desígnio nacional. Entre 1964 e 1967, a Coreia do Norte passou de usar 6% dos seus gastos totais a cada ano em investimento na capacidade militar do país para 30%. O desvio de uma parte tão grande recursos norte-coreanos tornariam as forças armadas da Coreia do Norte as quartas maiores do mundo, relativamente à população de cada país. Mas os seus efeitos na economia também seriam duradouros e acabariam por destruir o milagre económico que os economistas da Alemanha de Leste proclamavam até então.

A aproximação da China aos Estados Unidos de Nixon e Kissinger, a morte de Mao Zedong e a abertura económica promovida por Deng Xiaoping na década de 70 deixaram a Coreia do Norte mais uma vez de costas semi-voltadas com um dos seus principais aliados.

Pyongyang continuava a necessitar de apoio económico e militar das duas potências, mas estas estavam cada vez menos interessadas em contribuir mais que o necessário para manter apoio e o regime numa zona nevrálgica para conter os avanços norte-americanos na Ásia. Já a Coreia do Norte estava cada vez mais fechada e até os diplomatas do bloco soviético e dos países que ajudaram na reconstrução e que apoiaram a Coreia do Norte contra os Estados Unidos durante mais de uma década sentiram os ares a mudar. “Estou a notar que nos últimos tempos todos os responsáveis coreanos, a começar na sua mais alta liderança, viraram meteorologistas. Não conseguem encontrar outro tema para falar que não seja o tempo”, confidenciou o embaixador da União Soviética na Coreia do Norte, Vasily Moskovsky, no seu diário em setembro de 1963.

"Estou a notar que nos últimos tempos todos os responsáveis Coreanos, a começar na sua mais alta liderança, viraram meteorologistas. Não conseguem encontrar outro tema para falar que não seja o tempo".
Embaixador da União Soviética na Coreia do Norte, Vasily Moskovsky, no seu diário em setembro de 1963.

Expansão da influência e a reclusão do regime

As mudanças geopolíticas forçaram uma expansão norte-coreana para outros territórios. A Coreia do Norte juntou-se ao Movimento dos Não-Alinhados, que Kim Il-sung tentou liderar, e começou a expandir-se.

Ainda sem reconhecimento nas Nações Unidas, Pyongyang viu nos países que lutavam pela independência, especialmente em África, um veículo para obter o seu reconhecimento, fomentar o movimento revolucionário e expandir as suas relações económicas e militares. Numa fase inicial, tentou exportar a ideologia do Juche e criar um movimento assente na versão mais Estalinista do comunismo, com um toque norte-coreano.

Mas a ideologia só não chegava, e Pyongyang não tinha os recursos financeiros da outra Coreia. Já com a União Soviética e a China a procurarem entendimentos com os Estados Unidos e a reduzirem o apoio financeiro ao regime de Kim Il-sung, os norte-coreanos exportavam algo de maior interesse para estes países: treino e apoio militar, armas, e em alguns casos até soldados para combater os colonizadores. Isto aconteceu no início dos anos 70 em vários países africanos, como Angola e Moçambique.

Pyongyang deu ainda apoio a movimentos na Rodésia (hoje Zimbabué), no Uganda, na Namíbia, Serra Leoa, Guiné-Equatorial, Nigéria, Congo, Somália, Sudão e Tanzânia, entre outros, relações que lhe vieram a permitir o reconhecimento nas Nações Unidas e que ainda hoje são um mercado para os produtos norte-coreanos, e para as suas atividades ilícitas. O apoio norte-coreano chegou ainda ao Médio Oriente, com venda de armamento ao Egito e à Síria, e até ao envio de pilotos norte-coreanos para combaterem na ofensiva árabe contra Israel na Guerra dos Seis Dias em 1967 e na Guerra do Yom Kippur em 1973, vendendo armas e dando apoio militar nas décadas seguintes a países como o Irão, Iémen, Emirados Árabes Unidos e Líbia.

A abertura chegou à Europa e até ao Japão, inimigo de longa data. Depois de a Coreia do Sul ter terminado a sua política de ter relações apenas com países que não reconhecessem a Coreia do Norte, Pyongyang expandiu a sua influência em África e começou a testar as águas na Europa, onde iniciou relações diplomáticas com vários países da Europa, como foi o caso de Portugal em 1975.

A busca desesperada por dinheiro

Mas a Coreia do Norte entrou em incumprimento da sua dívida e os aliados começaram a exigir o pagamento em dinheiro vivo com moeda estrangeira por todos os produtos comprados. A União Soviética também cada vez contribuía menos. A bonança inicial nas relações com o Ocidente acabou depressa.

Com uma economia cada vez mais débil e o regime a precisar de dinheiro para sobreviver, teve início uma nova política do regime para conseguir dinheiro a qualquer custo. Era já liderada por Kim jong-Il, filho do líder e já apontado no início da década de 80 como o sucessor da dinastia norte-coreana. Foi aqui que começaram asurgir os primeiros casos de tráfico de droga e contrabando por diplomatas em países tão distantes como a Noruega, a Venezuela ou a Índia.

No final da década de 80 e início da década de 90, com a desagregação da União Soviética, a aposta militar do regime e as más condições meteorológicas que afetaram a produção agrícola, a economia ficou numa situação ainda mais delicada e a necessidade de conseguir dinheiro vivo tornou-se ainda mais urgente.

Sob orientações do futuro líder, parte da produção agrícola começou a ser desviada para a produção de papoilas com o objetivo de produzir heroína para venda no estrangeiro, e parte do complexo industrial, nomeadamente em Hamhung, passou a ser usada para a produção de metanfetaminas. “A Coreia do Norte começou a produzir drogas secretamente no final dos anos 70 nas províncias montanhosas de Hamkyung e Yangkang. A Coreia do Norte começou a produzir e e a vender drogas de forma mais intensa no final dos anos 90, e foi nessa altura que Kim Il-sung fez uma visita à província de Hamkyung-Bukdo e determinou que área em redor da cidade de Yonsah na província de Hamkyung seria usada para criar uma plantação de ópio. Era sabido que o governo colonial do Japão também tinha usado a zona para cultivar ópio, e Kim Il-sung disse às pessoas que para conseguir dinheiro vivo cultivando e vendendo ópio porque precisava de dinheiro”, explicou um desertor do regime, num testemunho perante o Congresso dos Estados Unidos.

Kim Il-sung (esquerda) inspecciona um estádio de futebol em Pyongyang em conjunto com o seu filho e sucessor, Kim Jong-il (direita), líder das atividades criminosas do regime.

AFP/Getty Images

Desde então, as apreensões de droga, contrabando de tabaco e álcool, chifres de rinoceronte, barras de ouro, notas falsificadas, viagra produzido na Coreia do Norte e armas têm sido registadas um pouco por todo o mundo.

Sob a orientação de um gabinete ministerial do regime, o Gabinete 39, com o apoio de grupos criminosos em várias partes do mundo, com recurso ao pessoal diplomático e com a conivência de muitos países, a Coreia do Norte montou um esquema global que tem permitido ao regime sobreviver e financiar as suas ambições militares.

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