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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

De casa ao hospital e ao almoço de Natal atrasado, passámos a manhã com a primeira vacinada do Santa Maria /premium

Médica recebeu a vacina das mãos de uma enfermeira a quem, há meses, teve de dar a notícia da morte do pai por Covid-19. Depois foi de autocarro para casa da sua mãe, para o almoço de Natal atrasado.

Quando a médica Sandra Braz, 47 anos, arregaça a manga esquerda para receber a vacina que lhe será administrada por Liliana Catarino, ambas sabem que estão a protagonizar um momento histórico: é a primeira vacina contra a Covid-19 do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Mas, antes deste momento da História coletiva, ambas já tinham partilhado outro, que é da história pessoal e por isso mais trágico ainda. Há meses, coube à vacinada Sandra Braz dizer à vacinadora Liliana Catarino que o seu pai tinha morrido de Covid-19.

Talvez por isso, depois daquele momento, a enfermeira de 41 anos faça um esforço para segurar as lágrimas e seja curta nas palavras. “É um momento importante para o país”, diz. “E para mim.”

Ao contrário da enfermeira, que soube que seria a primeira a dar esta vacina no hospital momentos antes, Sandra Braz ficou a saber de véspera que seria a primeira vacinada. Estava em casa a dormir, depois de um banco de 24 horas em que pouco descansou. Quando acordou, viu que tinha três chamadas não atendidas do diretor clínico do hospital — o que raramente é bom sinal. Quando finalmente lhe devolveu a chamada, nem o deixou falar. “Desculpa, desculpa, desculpa!”, disse, já a adivinhar algum erro seu e as possíveis consequências dele. “Calma, isto é algo mais prosaico”, respondeu-lhe o diretor clínico.

A não ser que fosse ironia, “prosaico” não é provavelmente o termo mais adequado para o propósito daquela chamada: o de anunciar a Sandra Braz que iria ser ela a primeira pessoa a ser vacinada contra a Covid-19 no Hospital de Santa Maria. É um gesto simbólico, tudo porque esta médica tem a seu cargo 80 camas para doentes afetados por aquela doença, enquanto coordenadora da Unidade de Internamentos de Contingência de Infeção Viral Emergente. É para ali que vão os doentes que saem da enfermaria e é ali que se fazem os possíveis para que eles não precisem de ir para os cuidados intensivos. E é ali que Sandra Braz tem vivido a maior parte dos últimos nove meses.

Uma sala de espera feita de sorrisos de alívio

Quando ouviu falar pela primeira vez do “novo coronavírus”, Sandra Braz diz que teve uma reação “muito pouco inteligente”. Foi no final de 2019, conta, e na altura, ao ver nas notícias que a doença se cingia à China, pensou: “Uma coisa destas não vai chegar cá”. Mas chegou e, a 11 de março, teve a confirmação cabal disso mesmo no Hospital de Santa Maria, com dois casos. Dois dias mais tarde, começou a desenhar planos de contingência para fazer frente à pandemia. A 16 de março, já estavam em andamento. E, desde então, a vida mudou.

Sandra Braz, que tem carta mas fobia à condução, habituou-se sempre a ir de autocarro para o hospital e a voltar dele a pé. Com o início da pandemia, passou a fazer o percurso sempre de Uber, que chamava no seu telemóvel embrulhado em celofane. Sempre que saía do hospital, fechava-se em casa — os contactos com família e amigos ficavam sempre para um “depois” ainda distante.

Esse “depois” começa, timidamente, agora.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Este domingo, 27 de dezembro, saiu de casa às 9h00 para apanhar o autocarro — que voltou a frequentar, após vencer o medo inicial, em maio. É cedo e, para além de Sandra Braz, só há um passageiro. Sai em frente ao hospital e passa pelos vários jornalistas que estão à entrada, depois pelo segurança e só mais à frente chega à sua unidade. Está de folga, mas, ainda assim, faz questão de mudar para a roupa de serviço. Só depois chega ao 9.º e o último andar do hospital. Ali, por cima da ombreira da unidade, lê-se uma das combinações de palavras mais desejadas do ano: “Centro de Vacinação Covid-19”.

Talvez por isso, todos aqueles que se juntam naquela sala não deixam de ocultar um sorriso meio infantil, meio espantado e de alívio, na sua totalidade — pouco importam as máscaras, porque os olhos não enganam. São médicos e enfermeiros que lidam diretamente com doentes Covid-19 e aquela sala de espera é o seu enorme momento de catarse. Primeiro tiram a senha. Depois preenchem uma ficha de inscrição. Nela, Sandra Braz escreve que é alérgica a atum — de resto, nada é digno de nota naquela ficha, que a médica preenche contra uma máquina de venda de comida e com uma caneta emprestada. No final, passa-a por álcool-gel e devolve-a ao dono, manchando pelo caminho a sua ficha de vacinação com aquele líquido desinfetante.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Ao lado, vários profissionais de saúde preenchem o mesmo papel — a maior parte, encosta-o na palma da mão. Enquanto isso, alguns comentam a presença em massa dos media. Um médico em específico, que já esteve infetado, fala em voz alta sobre a doença. “Isto não é uma coisinha de nada, como diz o Bolso… o Bolsozero!”, diz, em alusão ao Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. “É esse e o Big Trump”, continua, arrancando algumas gargalhadas na sala de espera. Quando estas ainda ecoam, Sandra Braz é chamada para ser vacinada. Quando avança pelo corredor, os colegas seguem-na com os olhos e os jornalistas vão atrás, com passo apressado. Na terceira porta à direita está prestes a fazer-se História.

“Está tudo à espera que eu me vacine para saber se é seguro”

Quando a agulha lhe entra na carne do braço esquerdo, Sandra Braz faz questão de dizer perante as mais de dez câmaras que tem à frente que “não está a doer nada”. Di-lo num tom que procura que seja reconfortante, porque é essa a responsabilidade que sente naquele momento. No último mês, à medida que se tornou mais evidente que a vacina contra a Covid-19 estava mesmo por perto, tem recebido perguntas de pacientes e familiares — todos curiosos, alguns céticos e outros ainda assustados.

“Está tudo à espera que eu me vacine para saber se é seguro”, diz-nos uma hora antes de arregaçar a manga à frente da enfermeira Liliana Catarino. “As pessoas que mais me perguntam sobre a vacina até são as que já passaram pela doença. Por terem sofrido o impacto da doença na primeira pessoa, sabem o que ela custa. E por isso é que não querem de maneira alguma passar pelo mesmo ou que a doença chegue a pessoas de quem eles gostam.”

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Ao longo deste tempo, também teve de lidar com vários graus de negacionismo.

Ao início, ainda antes dos primeiros casos, eram as piadas nas redes sociais a dizer que a Covid-19 não chegava a Portugal de maneira alguma. “Eu sei que eram piadas, mas houve gente que chegou mesmo a acreditar que aquilo até podia ser verdade, que havia qualquer coisa nos portugueses que os impedia de sofrerem com isto”, explica.

Depois, quando a pandemia se instalou no país, o negacionismo chegou até de um paciente infetado. “Ele garantia que não, que não era Covid-19, que só podia ser outra coisa, e que isto era tudo uma conspiração dos médicos e das farmacêuticas”, recorda. E também as mezinhas tradicionais de que ia ouvindo falar de pessoas com quem cruzava e que lhe davam garantias de que a água de uma determinada vila alentejana curava a Covid-19 — isto quando ela própria nunca teve certezas absolutas quanto aos tratamentos que foi utilizando, da hidroxicloquina ao remdesivir, passando pela kaletra. Sobre os Médicos Pela Verdade, grupo de clínicos negacionistas da Covid-19, é parca em palavras: “Nem os considero colegas”.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Agora, tem receio das informações falsas e alarmistas que possam ser espalhadas a propósito das vacinas. “Por isso é que eu faço questão de ser a primeira vacinada, de aparecer e de dar a cara tantas vezes. Eu e estes médicos todos que aqui estão não tomaríamos esta vacina se achássemos que era perigosa, porque, caso contrário, o hospital parava”, diz a médica, cujo telemóvel não deixou de vibrar depois de ter aparecido na televisão a ser vacinada. “É uma esperança, é uma luz ao fundo do túnel”, diz ao telemóvel, interrompendo por breves instantes a nossa entrevista, respondendo a outro jornalista do lado de lá da linha.

Depois da vacina, o almoço de Natal com dois dias de atraso

Sandra Braz repete várias vezes a ideia: “É uma luz ao fundo do túnel”. Mas, para os muitos que ouvem essa expressão e só pensam na luz, esta médica faz questão de sublinhar que ainda está — e estamos — no túnel. “Ainda é cedo para sabermos a verdadeira eficácia desta vacina, quanto tempo é que ela protege quem a toma e também quando é que chegamos à imunidade de grupo”, refere, cautelosa. “Mas isso não deve impedir as pessoas de tomarem a vacina. Sim, pode haver reações graves, mas isso acontece assim com todas as vacinas e outros fármacos, quando são aplicados a milhões e milhões de pessoas. É normal que haja um caso.”

Por isso, a vida não muda já com a vacina. “Não mudou ainda, mas é o início da mudança”, diz. É uma previsão que faz de forma cautelosa, como quem caminha sobre uma fina camada de gelo. Porque, se é para falar de mudanças de vida daqui para a frente, Sandra Braz não esquece ainda a mudança de vida que a pandemia a obrigou a fazer e aos seus colegas todos.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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“É impossível trabalhar aqui nove meses e estar psicologicamente bem”, responde quando lhe perguntamos sobre o burnout entre os profissionais de saúde, particularmente sobrecarregados em altura de pandemia. “É impossível fazer isto, desta forma tão intensa, e não precisarmos de ajuda. Há aqui pessoas que já estão a precisar, disso não tenho a mínima dúvida.”

Entre as incertezas que a doença trouxe aos seus trabalhos, a frustração de ver doentes a morrerem apesar de todos os esforços e o medo de contrair a doença ou passá-la a familiares, foram muitos profissionais de saúde que chegaram a situações limite. “Há que explicar que é normal que não estejamos bem”, sublinha, perante todo este cenário. “Estamos cansados, não conseguimos fazer mais. Não conseguimos fazer melhor.”

Ao mesmo tempo, porém, sente que a equipa que tem ao seu lado está “mais motivada”. Ao início hesita em dizer que tem nos seus colegas “uma família” — “não gosto de falar nesses termos” —, mas, mais à frente, assume o termo de boa vontade e sem apartes. Acabou por ser com eles que passou o dia de Natal, 25 de dezembro, no hospital — soube apenas na véspera que teria de estar no serviço e, por isso, teve de adiar a ceia natalícia com a mãe.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Na unidade, acabou por ter aquilo que diz ter sido um “Natal feliz”. “Por muito estranho que pareça”, diz. Cada um levou comida de casa e a regra era andar de barrete de Pai Natal ou enfeites das respetivas renas enquanto não estavam a lidar diretamente com pacientes. No lugar da árvore de Natal com os ornamentos do costume — “sempre fui contra aquilo, porque só conseguia imaginar uma bola da árvore a cair em cima da cabeça de alguém doente”, recorda a médica — colou-se na parede um conjunto de fotografias de todos os funcionários. Todas juntas, imitavam o perfil de um pinheiro. Por baixo, no lugar das prendas, algumas notas escritas por familiares de doentes e também de doentes que tiveram alta. “Claro que gostaríamos de estar com as nossas famílias, mas também estamos com alguém que é muito importante para nós e com quem passamos muito tempo.”

Depois de ser vacinada, Sandra Braz ainda se predispôs a trabalhar — tudo isto apesar de estar de folga. “Eu já vinha para cá de qualquer das maneiras”, sublinha, antes de se inteirar com a equipa de enfermeiros sobre quem teve alta, quem melhorou, quem vai precisar de ainda mais cuidados. Uma mulher de 70 anos, cuja condição piorou nas últimas horas, precisou de ser transferida para os cuidados intensivos — um processo médico e logístico bem mais complexo do que simplesmente empurrar uma maca. “Eu trato disso”, assegurou Sandra Braz, com a folga a começar a fugir-lhe entre os dedos. No final, porém, não foi necessária a sua ajuda e a transferência foi assegurada por outros colegas.

A médica aceitou e foi finalmente trocar novamente de roupa, com o azul esverdeado da bata a dar lugar à malha preta e às calças de ganga. A máscara mantém-se na cara, sempre. É assim que sai do hospital, em direção à paragem onde apanha um autocarro em direção à casa mãe. Por ter estado a trabalhar no dia 25, ficaram com o habitual almoço de Natal adiado. No dia 26, Sandra Braz estava a recuperar das 24 horas de trabalho do dia anterior e, por isso, nem abriu a hipótese de conseguir aproveitar o almoço. E, assim, combinaram 27 de dezembro para celebrarem o Natal — um 27 de dezembro duplamente especial.

Quando chega à frente do prédio da mãe, procura na mala pelo porta-chaves. E é de lá que tira as chaves, presas a um coração almofadado onde se vê um arco-íris. É uma relíquia de outros tempos, em que a pandemia assustava, mas que, talvez por ser ainda pouco concreta na vida de todos os que por ela passaram, foram também tempos de algum otimismo ingénuo — tudo espalhado no chavão “vai ficar tudo bem”. Sandra Braz já esteve nesses tempos, já saiu deles e já bateu de frente com a dureza da pandemia. Mas, agora, no dia em que finalmente foi vacinada e em que também vai passar o Natal com a mãe, garante antes de abrir a porta do prédio: “Acredito mesmo que vai ficar tudo bem. E que vai ficar tudo melhor. Vamos ser melhores profissionais e melhores pessoas no final disto tudo. Acredito que sim”.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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