Em pólos opostos do espetro político, João Cotrim Figueiredo e Jorge Pinto têm pouco em comum nas propostas e formas de ver a Presidência da República. Mas deixaram evidente que há um eleitorado cruzado que nenhum dispensa. O candidato apoiado pela Iniciativa Liberal provocou o adversário ao dizer que recebe “muitas missivas de eleitores do Livre” a declarar-lhe apoio, Jorge Pinto riu e seguiu, com a esperança de que, depois do frente a frente desta noite, se faça um novo “balanço”.

Ainda no capítulo de eleitorados, Cotrim Figueiredo aproveitou uma declaração de Jorge Pinto — relembrando que disse que “não estava interessado em apoios de passistas porque já tinham desistido do país” — para piscar o olho a Passos Coelho. O ex-primeiro-ministro já garantiu não se sentir “obrigado” a apoiar Marques Mendes e Cotrim recorda que houve dois milhões de portugueses a votar nele, para concluir: “Não me importava que todos os que votaram em Passos Coelho votassem em mim, seria até com grande orgulho.”

No arranque do debate, os dois tinham esclarecimentos para prestar. Primeiro, Jorge Pinto tentou enterrar a teoria (confirmada pelo próprio em entrevista) de que poderia desistir a favor de António José Seguro, garantindo que esse é um “assunto de ontem” e que há necessidade de resolver os “assuntos de amanhã”. Pelo caminho, ainda criticou os adversários que, sublinha, “deturparam” as suas palavras.

Quanto a João Cotrim Figueiredo, poucas horas depois de Duarte Marques, diretor de campanha de Marques Mendes, ter exigido, em declarações ao Observador, que Cotrim revele quem o pressionou, acusando o liberal de “aproximação a técnicas do Chega” e frisando que “quando as insinuações não são concretizadas não passam de insinuações e são um ato de cobardia”. O candidato apoiado pela IL reiterou que houve pressões e diz que a “campanha [de Mendes] não soube explicar exatamente porque é que apoiantes seus se sentiram autorizados ou à vontade para pressionar a não avançar ou pensar em desistir a favor de Marques Mendes”.

“Não retiro uma vírgula do que disse”, realçou, assumindo que a pressão para desistir serviu para “intimidar”, mas dando o tema como resolvido: “Quando disse o que disse era para que essas pressões parassem e pararam, esse objetivo está atingido.”

Quanto ao tema da Saúde, em que não têm linhas comuns, Jorge Pinto sugeriu que é preciso convocar estados gerais para resolver os problemas do SNS caso o governo não desse solução para os problemas, realçando que “qualquer organização com a dimensão e o alcance do SNS vai ter alguns problemas” e que os exemplos dados por Cotrim são “episódicos”. A proposta dos estados gerais aqueceu o debate, com João Cotrim Figueiredo a considerar que se trataria de “intervencionismo” do Presidente da República e que “diminuiria a oposição” e o candidato apoiado pelo Livre a negar e a garantir que estaria a respeitar a Constituição.

A mesma Constituição viria novamente a debate quando João Cotrim Figueiredo acusou Jorge Pinto de estar a tentar referendar a Constituição: “Ouvi-o dizer que a revisão constitucional a acontecer e se chegasse ao Palácio de Belém com o Jorge Pinto como Presidente dissolveria a Assembleia se essa revisão fosse drástica. Era bom clarificar o que era drástica. E depois diz que basta consultar o Conselho de Estado e é uma coisa ligeira… Se convocar eleições na sequência dessa revisão constitucional e essa maioria for confirmada o que é que faz? Demite-se, não?”, questionou João Cotrim Figueiredo.

Jorge Pinto defendeu-se, dizendo levar “muito a sério” uma revisão constitucional e o juramento do Presidente da República. E seguiu ao ataque, para dizer que Cotrim, logo depois as eleições legislativas, “pediu que essa revisão fosse feita só à direita”. As palavras do candidato do Livre deixaram Cotrim chocado, que questionou várias vezes se Jorge Pinto se estava a referir a ele e acusou o adversário de desonestidade.

Jorge Pinto assegurou que uma dissolução da Assembleia da República “não é uma sanção a qualquer governo” e sim “uma mensagem que o Presidente da República dá aos portugueses”. “Está a tentar referendar a Constituição”, atirou o candidato liberal, com Pinto a negar consecutivamente.

Quanto à legislação laboral, Cotrim entendeu que não é o pacote “perfeito”, mas é uma “alteração necessária”, enquanto Jorge Pinto defendeu que “não há rigorosamente nada que indique que a legislação laboral” vá galvanizar a economia. o candidato apoiado pelo Livre atirou à direita para dizer que quer “transformar Portugal no Bangladesh, mas naquele Bangladesh do qual os próprios bangladeshis fogem, de contratos informais, de despedimento, de dificultar o direito à greve”. Cotrim contrariou o adversário dizendo que a lei em vigor não foi “menos rígida” e não surtiu os resultados esperados e garantiu que não é por “decreto” que se sobem salários.

De resto, quanto à questão da transição ecológica, Jorge Pinto considerou-a a “melhor oportunidade económica para o país” e elogiou a forma como a economia chinesa aproveitou a economia verde para crescer. A referência ao país levou Cotrim Figueiredo a sublinhar que as conquistas foram feitas à “custa dos maiores atentados ambientais” e de abusos de direitos humanos.

Para o liberal, o que deixou a Europa onde está foi a “desvalorização da inovação empresarial e científica” em detrimento de “regras”. Ainda assim, frisou: “Quando houver dilema entre bem-estar humano e metas ambientais mais estritas, é o bem-estar humano que deve prevalecer.” Jorge Pinto teve ainda tempo para criticar Cotrim de “falta de ambição”, dizendo que “não consegue separar o bem-estar humano do bem-estar do planeta”.

Diálogo revelador

João Cotrim Figueiredo: Ouvi o Jorge Pinto dizer que a revisão constitucional a acontecer — e se chegasse ao Palácio de Belém, algo que não vai evidentemente acontecer — que dissolveria a Assembleia se essa revisão fosse drástica…

Jorge Pinto: E se fosse apenas de um lado do espetro político.

João Cotrim Figueiredo: Não descreveu exatamente o que era [uma revisão] drástica.

Jorge Pinto: Disse, disse.

João Cotrim Figueiredo: Era bom clarificar durante esta campanha.

Jorge Pinto: Já o fiz aqui com o Vítor Gonçalves [moderador do debate na RTP].

João Cotrim Figueiredo: Depois, diz que basta consultar o Conselho de Estado [para dissolver a Assembleia]. Basta estar para aí virado nesse dia e é uma coisa completamente ligeira. Se convocar eleições depois de uma revisão constitucional e mesma maioria for confirmada, o que faz? Demite-se?

Jorge Pinto: Já respondi a isso. Eu levo muito a sério o juramento que um Presidente faz. Levo muito a sério uma eventual revisão constitucional. Percebo que João Cotrim de Figueiredo imediatamente depois destas eleições tenha pedido que essa revisão fosse feita só à direita.

João Cotrim Figueiredo: Eu?

Jorge Pinto: Disse-o, disse-o.

João Cotrim Figueiredo: Achava que vindo de Amarante [localidade natal de Jorge Pinto], terra de Agustina [Bessa-Luís] e de Amadeo [de Souza Cardoso] seria mais honesto. Eu falei de revisão constitucional?

Jorge Pinto: Eu disse com toda a clareza que uma dissolução da Assembleia não é nunca uma sanção a um qualquer Governo. É, na verdade, uma mensagem que o Presidente da República dá aos portugueses que o elegeram.

João Cotrim Figueiredo: Não, está a tentar referendar a Constituição, coisa que não é permitida. Referendar uma revisão constitucional não é permitido constitucionalmente.

Jorge Pinto: Não estou nada. Vai-me dizer a mim que não é? Acha que eu não sei?