Este domingo, em pleno horário de abertura, nove joias da coleção dedicada à última imperatriz de França foram roubadas do Museu do Louvre, em Paris. Quatro indivíduos partiram uma janela no primeiro piso do edifício histórico no coração da capital francesa e entraram na exposição vestidos de negro e com coletes amarelos. Em sete minutos, entraram e saíram antes da polícia chegar, deixando uma coroa pelo caminho. Além da identidade dos suspeitos, a questão que se coloca é: o que irá acontecer agora a estas peças estimadas em 88 milhões de euros pelo Museu mas de valor “inestimável”, como as descrevem os governantes franceses?
Dois dias depois do crime, ainda não existem respostas — e podem só chegar daqui a muitos anos, de acordo com especialistas consultados pelo Observador. Até lá, a grande maioria do que se disser será “pura especulação”. Christopher Marinello, advogado norte-americano especializado em peças de arte roubadas, arrisca: crê que as joias já foram delapidadas e os materiais estão prestes a ser vendidos.
De qualquer forma, e com a esperança de ainda vir a encontrá-las intactas, as oito joias já foram adicionadas à base de dados de Obras de Arte Roubadas da Interpol, “o único local a nível internacional com informação policial certificada sobre peças de arte roubadas ou desaparecidas”, lê-se em comunicado. A Organização Internacional de Polícia Criminal entrou em contacto com as forças policiais dos vários países — incluindo a Polícia Judiciária — que revelou à CNN Portugal estar agora “mais atenta às transações”, bem como a colocar-se no terreno para poder vir a “partilhar informação que possa parecer relevante”.
Isolar, montar o cerco, e evitar novas fraquezas. Os primeiros passos após um roubo de obras de arte
No Museu do Louvre, os assaltantes foram velozes — e as forças de segurança também se dirigiram logo ao local em busca de provas. “Trata-se de um crime de cenário. Num primeiro momento, são alertadas as autoridades, e a de proximidade procede ao isolamento da zona para recolher vestígios”, explica Pedro Silva, coordenador de investigação criminal da Polícia Judiciária na disponibilidade, ao Observador. “Depois do isolamento e de a zona ser vedada, é chamada a autoridade competente para investigação.”
Impressões digitais, ADN ou uma peça perdida — como a coroa encontrada em plena rua de Paris — podem ser elementos de prova importantes. Ao longo da sua carreira, Pedro Silva esteve envolvido na recuperação de várias obras de arte e na deteção de falsificações, e acredita que a “colaboração entre as várias autoridades, a monitorização de embarques nos aeroportos, os checkpoints nas estradas e a análise de imagens de videovigilância da zona” para identificar veículos usados na fuga e possíveis matrículas, também são importantes. Contudo, “acontece muito os suspeitos poderem mudar de veículo a meio do percurso”.
Sejam “amadores ou profissionais”, os autores do roubo “identificaram uma vulnerabilidade no museu”. “Isto acontece com regularidade. Mesmo em estruturas que têm grandes competências e esquemas de segurança, com um pequeno detalhe é possível ludibriar o sistema”, salienta Pedro Silva. De momento, crê que estejam a ser feitas diligências para perceber se houve um “colaborador interno”. Mas não é preciso ser um ladrão experiente para roubar um grande museu: “Se a fraqueza for ultrapassada por pessoas com baixas competências, qualquer pequeno ladrão poderá fazê-lo. Se requer habilidades específicas, haverá o recurso a pessoas mais entendidas.”
Peças desmanteladas, derretidas ou delapidadas: como os ladrões transformam as joias roubadas para não serem identificadas
Em 1792, as joias da coroa francesa foram roubadas. Num país em revolução, a prioridade não foi recuperar as pedras preciosas desaparecidas. A grande maioria até regressou aos armazéns onde estavam, passado mais ou menos tempo, mas um diamante único, grande e azul, teve uma história diferente.
O “Bleu de France”, uma peça célebre por ser vista ao pescoço do rei Luís XIV em cerimónias oficiais, era incomparável e, durante anos, os interessados em preservar os itens valiosos da monarquia perderam-lhe o rasto. Até que em 1812, um grande diamante azul foi documentado em Londres. Não era igual à joia francesa, mas quando se soube que existia uma pedra semelhante a circular no mercado britânico, levantou-se a possibilidade de ter sido delapidada para não gerar suspeitas.
Só em 2005 é que o Smithsonian Institute, em Washington, publicou os resultados de um estudo que confirmou o que muitos acreditavam. O “Hope Diamond”, como entretanto ficou conhecido, fora criado através do corte do “Bleu de France” roubado no final do século XVIII, em Paris.
▲ O "Bleu de France", um diamante único, grande e azul que foi roubado do tesouro francês no século XVIII, mas que apareceu modificado nos EUA em 2005
Bloomberg via Getty Images
O “Bleu de France” só voltou a Paris num leilão no início do século XX, quando foi leiloado e comprado por Pierre Cartier, o neto do fundador da joalharia homónima e responsável pela expansão do negócio da venda de joias para os Estados Unidos da América. Por sua vez, Cartier vendeu-o a uma colecionadora que vivia nos EUA e o diamante encontra-se agora no museu Smithsonian. Esta história, contada pelo gemólogo Rui Galopim de Carvalho, é um exemplo do que acontece às joias roubadas. “É um caso, já documentado, em que uma peça foi roubada, transformada e depois reapareceu no mercado de forma não rastreável”, explica o especialista ao Observador.
“As pedras normalmente são desmanteladas e vendidas individualmente”, continua, explicando que no caso das joias do Louvre, apesar de se tratarem de “lapidações muito antigas e incomuns no mercado”, é possível que sejam “relapidadas, repolidas e reformadas” para passarem a ser “coisas novas” a entrar em circulação, sem risco de serem associadas ao roubo inicial do museu em Paris.
Mesmo com alterações significativas da pedra original — resultando num material com uma dimensão e peso diferente —, em termos de valor de marcado, nada muda para os assaltantes. “Para eles, o custo foi zero. O custo foi apenas o da operação, aquilo que tiveram de gastar para poder executar o assalto”, acrescenta Rui Galopim de Carvalho.
Desfazer as peças do Louvre será o cenário mais provável, de acordo com o especialista em arte roubada Christopher Marinello. Para o advogado norte-americano e diretor da Art Recovery International, empresa que atua como intermediário entre os assaltantes e museus ou companhias de seguro, a realidade é muito diferente se forem roubados quadros ou joias, como é o caso. “Normalmente, encontramos os quadros à venda em casas de leilões ou galerias privadas. Com o mediatismo todo que se tem dado a este caso em particular, se quisessem vender as peças integralmente teria de ser a um russo duvidoso ou a um colecionador chinês“, refere.
“Uma joia, neste caso um conjunto delas conhecido e inventariado, nunca poderá entrar no seu estado original no mercado normal ou negro. Se a intenção for essa, podem nunca mais ser vistas por ninguém”, reforça Pedro Silva. “Há cerca de mil diamantes numa das coroas que levaram”, avisa Marinello, referindo que “muito provavelmente”, já retiraram os materiais para os cortar e, em breve, devem deslocar-se até “a Antuérpia, Telavive ou algures na Índia” — os principais locais onde existe mercado para a venda destas pedras preciosas —, para encontrar um “joalheiro suspeito” que os ajude. Quando forem transformados, será impossível imputar qualquer tipo de culpa aos assaltantes. “Eles não querem saber de mais nada sem ser o dinheiro”, atira.
O destino dos diamantes passará por “desmanchar e vender em separado”, lamenta Pedro Silva. “No ouro, acontece muito pessoas de grande valor estético serem derretidas para serem vendidas.”
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Os pedidos de resgate às seguradoras, os roubos “encomendados” para coleções privadas e as revendas no mercado
Quando a Mona Lisa foi roubada do Museu do Louvre em 1911, as autoridades e o público em geral imaginaram todos os cenários possíveis. No decorrer dos vários inquéritos avançados pelos investigadores franceses, o nome de Joseph Géry-Pieret foi um dos mencionados na longa lista de possíveis suspeitos do assalto. O belga já era conhecido por, alguns anos antes, ter roubado algumas estatuetas daquele mesmo museu. Nunca chegou a ser condenado por estes furtos prévios, mas era alguém na mira das autoridades.
Joseph Géry-Pieret aproveitou a oportunidade e, em diálogo com a polícia francesa, alegou ser o culpado do roubo do quadro pintado por Leonardo Da Vinci. Em troca, pedia uma larga quantia de dinheiro e claro, não ser julgado pelos seus crimes. As autoridades não acreditaram e, dois anos depois de ter desaparecido do Salon Carré do Louvre, a Mona Lisa foi encontrada em Florença, após o verdadeiro ladrão, Vincenzo Peruggia, ter cometido um deslize e tentado vender a obra a uma pessoa que o denunciou.
▲ O Museu do Louvre continua fechado depois do assalto no último domingo
Mohammed Badra/EPA
Para Pedro Silva, um erro cometido pelos ladrões é a melhor esperança para recuperar uma obra de arte roubada. No caso da Mona Lisa, foi uma tentativa de venda; às vezes, “são conversas que se têm com pessoas erradas”; mas as obras “podem nunca mais aparecer”. “Temos imensa pintura e estatuária de grande valor que nunca mais apareceram”, relata o coordenador de investigação. “Também pode haver arrependimento dos ladrões ou elementos que deem informação.”
Existem ainda casos de assaltantes que roubam peças artísticas sem esperar o retorno financeiro. Stéphane Breitwieser assaltou pelo menos 172 museus em toda a Europa num período de seis anos. Entre 1995 e 2001, o francês roubou mais de 200 obras. Não adotou a técnica dos pedidos de resgate nem da transformação dos itens para a venda do produto recondicionado. Em vez disso, Breiwieser mantinha uma grande coleção de arte privada, onde guardava todas estas peças que foi recolhendo dos demais museus europeus. “Existem pessoas disponíveis para comprar e que têm dinheiro”, confirma Pedro Silva. “Arriscam para, na reserva das suas casas, terem peças singulares.”
Agora, o trabalho das autoridades para investigar o que em Portugal seria um “furto qualificado pelo favor e pela forma de intrusão”, passa pela “monitorização de fontes abertas e de mercado negro, joalharias, ourivesarias, e difusões via Interpol e Europol”. Para acautelar a possível destruição da peça, são partilhados detalhes técnicos para permitir identificar partes da peça, como por exemplo o peso ou grau de pureza de diamantes.
“Quando os criminosos roubam um quadro, tentam vendê-lo a um dealer, alguém que o vá vender por eles. Muito raramente vão à Sotheby’s para vender uma coisa destas”, explica Christopher Marinello. Apesar de esta ser uma prática relativamente recorrente na história dos roubos de peças de arte, agora é “bem mais difícil”. “Desde que começaram a publicar os catálogos de venda na internet, não conseguem vender os quadros que roubaram. Por isso é que preferem ouro e joias, porque se quiserem podem só derreter ou delapidar e vender os materiais”, continua.
Em muitos dos casos de roubos de artigos expostos em museus, acaba-se por nunca mais se ouvir falar das obras. Porém, outros ladrões acabam por esperar até que o acontecimento deixe de ser notícia, para depois contactarem as seguradoras e exigirem um pagamento pela peça de arte que sempre tiveram em sua posse. Às vezes, funciona e as autoridades respondem aos pedidos dos assaltantes. Noutras ocasiões, acabam por montar armadilhas para deter os criminosos e devolver os itens preciosos ao seu local de origem.
Alguns acabam por nem contactar diretamente as seguradoras. Certos museus, no passado, adotaram a prática de introduzir uma recompensa — uma “boa prática se possível”, assinala Pedro Silva — para quem encontrar o ativo desaparecido. Até à data, o Louvre ainda não anunciou qualquer medida neste sentido. Mas quando é anunciado o valor, aí os assaltantes despertam e contactam o museu para entregar a peça, sem qualquer repercussão, e com o dinheiro legítimo da devolução: segundo Christopher Marinello, estes representam 80% dos casos de assaltos a quadros em museus.
E 23 anos depois, ainda estão por encontrar as joias da coroa portuguesa emprestadas pelo Palácio Nacional da Ajuda ao museu de Haia. “Eram de valor incalculável”, frisa Pedro Silva. Em 2002, foram roubadas de madrugada por ladrões que entraram pela janela. “Houve uma falta do cuidado do empréstimo das joias e não foram tomadas cautelas de avaliação do local, que não era adequado”, explica Pedro Silva. E nunca mais apareceram “nem desfeitas nem por inteiro”.