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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Desde o vizinho que abriu a porta ao assassino até ao taxista que o transportou. Quatro testemunhos que ajudam a perceber o crime do Seixal /premium

  • Texto de Carolina Branco, João Porfírio e Observador, fotografia de Diogo Ventura

O vizinho que ouviu Helena a ser assassinada. O primo que sabia das ameaças de Pedro Henriques. A empregada que lhe serviu uma cerveja. E o taxista que o levou ao local onde se iria suicidar.

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O corpo de Pedro Henriques, o homem que terá assassinado a sogra e a filha de 2 anos no Seixal, foi encontrado esta terça-feira de manhã a 250 km do local dos crimes, por um funcionário da Câmara de Castanheira de Pêra, no distrito de Leiria. Quando viu o cadáver no meio da estrada, avisou a autarquia. Vereadores, a GNR e o coveiro deslocaram-se logo ao local. Cerca de 24 horas depois de alegadamente ter cometido o primeiro homicídio, o suspeito tinha-se suicidado com uma caçadeira que foi buscar ali perto, a casa dos pais.

Neste especial, o Observador reúne quatro depoimentos que ajudam a compreender o que terá acontecido. O vizinho que, sem saber, lhe abriu a porta do prédio e acabou por ser uma das testemunhas do primeiro crime, o esfaqueamento mortal da mãe da ex-mulher. Um primo da ex-mulher, que recorda as ameaças que o suspeito fazia. E duas pessoas que contactaram com o suspeito sem saber que ele estava em fuga, que era o alegado autor de um duplo homicídio e que também iria pôr fim à sua vida: a empregada que o serviu na segunda-feira à noite; e o taxista que o levou até ao pinhal onde apareceu morto.

A testemunha. Abriu a porta do prédio ao suspeito e ouviu o homicídio

Eram 8h15 de segunda-feira quando Mário Marques ouviu a campainha da porta do prédio onde vive, na Cruz de Pau, Seixal. Pensou que fosse um familiar e abriu a porta, mas rapidamente percebeu que afinal a visita inesperada não era para si. Era para a vizinha, Helena Cabrita. “Só ouvi um grito e depois uma pancada seca”, explica Mário Marques ao Observador.

Depois dos primeiros indícios de violência, este empregado de mesa saiu do seu apartamento e desceu ao átrio do 1.º andar, onde vivia Helena, a ex-sogra de Pedro Henriques. No local estavam ainda outros vizinhos que tentaram bater na porta para acudir a avó de Lara, numa tentativa fracassada. De repente, o ex-genro saiu da casa, fechou a porta, e foi-se embora devagar, menos de dez minutos depois de ter chegado.

O homicídio da sogra foi cometido na sua casa, no Seixal (Foto: JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Nesse mesmo momento, os vizinhos perceberam que a menina de dois anos não estava com o pai, mas sim no carro. Ou seja, durante o momento do crime, a filha do suspeito nunca saiu da viatura dele. Pedro Henriques entrou no veículo e fugiu com a criança, que estaria encostada ao vidro do carro. Os vizinhos decidiram de seguida alertar as autoridades para um possível caso de violência doméstica. Mas Mário Marques nunca pensou que a história ainda tivesse mais uma vítima: “Da maneira que o vi sair, nunca pensei que ele fosse fazer aquilo”.

O marido da primeira vítima, Rui Cabrita, teve conhecimento da morte da mulher quando os vizinhos o foram chamar ao café do casal, a Pastelaria Orly, e o avisaram do que tinha acontecido. Quando entrou em casa, já Helena estava morta, depois de ter sido esfaqueada por Pedro Henriques.

O homem que abriu a porta do prédio na Cruz de Pau, no Seixal, ao assassino lembra-se do crime ao detalhe (Foto: JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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O primo de Sandra. Três anos de ameaças e violência

“Fugir e levar a menina”. Ou “matar a Sandra [ex-mulher] e matar a Helena [sogra]”. Presencialmente ou por telefone, estas foram algumas das ameaças que Pedro Henriques terá feito à ex-mulher — e que agora terão sido concretizadas. O alegado assassino terá mantido um clima de medo e perseguição constante durante dois anos, segundo o relato dado ao Observador por Bruno da Silva Sousa, primo de Sandra Cabrita, filha e mãe das vítimas e ex-mulher do suspeito. Além das ameaças, Pedro Henriques terá chegado a agredir fisicamente Sandra “mais do que uma vez” durante o período do divórcio. A violência doméstica, aliás, terá sido um dos fatores determinantes para o fim da relação, acredita Bruno.

Em outubro, a ex-mulher do suspeito contactou a página de Facebook intitulada: "Terapia Familiar e Mediação de Conflitos". Ao Observador, a psicóloga Eunice Ramos Correia, gestora da página, avança que Sandra Cabrita terá colocado "perguntas genéricas" sobre os serviços prestados, "não se tendo no entanto chegado a concretizar qualquer seguimento", nem manifestado queixas específicas.

O crime, diz o primo, terá sido premeditado, por ocorrer no dia em que “tudo seria resolvido perante a lei”. Na segunda-feira, o casal seria ouvido em tribunal para se decidir a custódia da filha. Nessa manhã, Pedro terá discutido publicamente com o sogro, na pastelaria gerida por este e pela mulher. Dias antes, Pedro Henriques, citado pelo primo de Sandra, deixara a ameaça clara: “Se a menina não for minha, não será de mais ninguém”.

Na pastelaria de Helena, foram colocadas flores como forma de apoio à família (Foto: JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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A relação com Sandra teria parecido estável — até ao momento do divórcio. “Ele enganou todos com a cara de santo, mas era um lobo em pele de cordeiro“, afirma Bruno da Silva Sousa. “A minha prima foi vítima de um cobarde sem alma. Nem a própria filha escapou das garras desse ser odioso”. Da mesma forma, o relacionamento com a família da ex-mulher, incluindo com a sogra, não sugeriria inicialmente um desfecho violento. Deram-se bem até ao começo das agressões. “Como todas as mães, tomou as dores da filha e passou a não gostar mais dele”, justifica o primo.

Prédio onde vivia a sogra de Pedro Henriques refletido num carro do INEM estacionado à sua porta durante toda a manhã desta terça-feira, dia seguinte ao seu homicídio (Foto: JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Sandra chegou a apresentar queixa à PSP de Setúbal de alegadas agressões por parte de Pedro. O processo foi tratado como um crime de coação e ameaça no Tribunal do Seixal, sendo depois arquivado por “desistência de queixa da ofendida”, segundo o Ministério Público. O primo das vítimas afirma que a queixa só poderá ter sido retirada por Sandra temer mais agressões por parte do alegado assassino: “Ele ameaçava constantemente a Sandra e até mesmo os meus tios. Foram dois anos a sofrer ameaças psicológicas”. A violência psicológica terá durado até muito depois do divórcio, chegando aos dias que precederam o crime.

Carmina estava longe de adivinhar que tinha o alegado autor do crime à sua frente. O suspeito disfarçou. "Estava normal. Muito arranjado, com o cabelinho todo puxado para trás. Parecia que tinha gel"

Já durante este período de violência, a 25 de outubro de 2018, Sandra contactou a página de Facebook intitulada: “Terapia Familiar e Mediação de Conflitos”. Ao Observador, a psicóloga Eunice Ramos Correia, gestora da página, avança que Sandra Cabrita terá colocado “perguntas genéricas” sobre os serviços prestados, “não se tendo no entanto chegado a concretizar qualquer seguimento”, nem manifestado queixas específicas.

A empregada. Viu-o chegar a Pombal e vendeu-lhe uma cerveja

Pedro terá chegado a Pombal na noite de segunda-feira. Estava em fuga desde que tinha alegadamente matado a sogra — o único crime que,  àquela hora, era conhecido. Embora não se saiba, para já, a hora do óbito, a filha de dois anos já estaria morta quando Pedro chegou àquela cidade. “Veio de comboio, chegou aqui dentro e disse que queria uma cerveja”, recorda Carmina, que trabalha no café da estação de comboios há quatro anos.

Carmina, de 57 anos, é empregada do café da estação de comboios de Pombal (Foto: DIOGO VENTURA/OBSERVADOR)

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O cliente agarrou na garrafa de vidro e saiu. Carmina, de 57 anos, repete agora ao Observador o pedido que lhe fez: “Olhe que essa cerveja não é tara perdida. Tem de ma entregar“. Pedro terá respondido: “Não se preocupe”. Àquela hora já passava na televisão do café a notícia de que uma mulher tinha sido esfaqueada pelo genro, no Seixal. Mas Carmina estava longe de adivinhar que tinha o alegado autor do crime à sua frente. O suspeito disfarçou. “Estava normal. Muito arranjado, com o cabelinho todo puxado para trás. Parecia que tinha gel”, conta a empregada, passando a mão pelo seu próprio cabelo.

Carmina recorda que o cliente foi beber a cerveja para junto da linha ferroviária, mas devolveu-lhe a garrafa antes de abandonar o local. Nunca mais o viu. Como sai do trabalho tarde, tem por hábito olhar para a rua pela porta antes de sair do café para ver se não há “ninguém estranho por ali”: “Mas nada!”, disse.

O taxista. Sem querer, ficou com a chave do carro onde estava o corpo da filha

O taxista Marco Martins, 41 anos, estava no café em Pombal quando Pedro Henriques entrou, na segunda-feira à noite. Reparou nele. Mais propriamente no seu “cabedal”. Também ele não pensou que tivesse à sua frente o homem que tinha acabado de esfaquear a sogra nem que alguma vez o voltasse a ver. Mas, no dia seguinte, às “sete e tal da manhã”, o suspeito entrou no seu táxi, estacionado na praça junto à estação de comboios. Não se sabe, para já, onde é que o suspeito pernoitou, mas o motorista acredita que deve ter dormido “em algum canto” — porque tinha as calças sujas de terra.

Pedro Henriques chegou de comboio, ainda na noite de segunda-feira, à estação de Pombal (Foto: DIOGO VENTURA/OBSERVADOR)

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Disse que tinha o carro avariado e pediu ao taxista que o levasse até Castanheira de Pera. “Fomos sempre a falar. Estava muito calmo, até. Parecia que a gente já se conhecia há muito tempo. Disse que era de Santiago do Cacém. Falámos de seguranças”, recorda ao Observador. Chegados ao destino — “lá para as 8h10” –, Pedro Henriques pediu ao condutor que o deixasse junto a um pinhal e esperasse por ele. Explicou-lhe que precisava de ir a uma casa ali perto buscar algo, mas que voltava. Queria que o taxista ainda o levasse a Ansião, um concelho vizinho, onde o suspeito tinha “um irmão que era madeireiro”.

Colocou a chave do carro — onde, sabe-se agora, tinha deixado o corpo da filha –, no tablier do táxi, como prova de que voltaria.  Saiu do táxi, em direção ao mato. “Venho já”. Mas não voltou. “Eu esperei por ele de boa fé. Mas esperei uns dez minutos. Tive um pressentimento de que ele já não voltava. Ainda saí do carro, para ver se o via”, conta o taxista.

Marco Martins, de 41 anos, é taxista há 19. Levou o suspeito até Castanheira de Pera (Foto: DIOGO VENTURA/OBSERVADOR)

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Só quando regressou a Pombal é que se apercebeu de quem tinha acabado de transportar. Até ali, tinha sido apenas um cliente que o enganara. “Lembrei-me que havia um gajo que tinha matado a sogra. Pesquisei na internet e vi quem era”, conta. Àquela hora, já se saberia que Pedro era o alegado autor de outro crime: o homicídio da filha. Às 8h25, tinha ligado para o INEM a dar a localização do carro onde a menina de dois foi encontrada já morta.“Disse ao meu pai para ir à GNR para dizer que o tinha levado. Até porque tinha as chaves dele”, recorda Marco, acrescentando: “Depois, o meu pai ligou-me e disse-me: ‘O homem que tu levaste já não te vai pagar'”.

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