Serão sempre muitos mais os títulos a chegar às livrarias (físicas ou digitais) nos meses que aí vêm, mas esta é uma proposta de leituras que se pretende abrangente. Dois avisos antes da apresentação das escolhas: algumas capas aqui reveladas ainda são as das edições internacionais; e fica prometida para (muito) breve uma lista dedicada inteiramente à poesia que aí vem.
Coração sem Medo
Itamar Vieira Junior
(Dom Quixote, 20 de janeiro)
O mais recente romance de Itamar Vieira Junior — um dos mais consagrados escritores brasileiros da última década — acompanha a procura desesperada da sua protagonista, Rita Preta, pelo mais velho dos seus três filhos, desaparecido após uma discussão familiar e num contexto de violência entre os gangues de Salvador e a polícia. Trata-se de uma história de amor maternal e coragem, assim como de preconceito e injustiça social, demonstrando como o autor multipremiado continua a explorar estes temas inaugurados em Torto Arado e Salvar o Fogo, as duas outras obras nesta Trilogia do Fogo que agora encerra.
Cais do Sodré — Das tavernas de marinheiros à revolução Jamaica e Tokyo
Vários autores
(Tinta da China, 15 de janeiro)
Hoje é impossível entrarmos no Cais do Sodré e não vermos inúmeros locais e turistas ébrios de movida noturna, mas este famoso bairro de Lisboa já foi outrora um espaço para lá das muralhas da capital, onde pululavam operários navais, marinheiros e mercadores. Este livro, coordenado e escrito por João Macdonald e com textos também de Guiomar Belo Marques, traça essa história até aos nossos dias, mostrando como o Cais passou pela infâmia da marginalidade, o seu rejuvenescimento no final do século XX e a sua atual vida como ponto quente do turismo na cidade.
O Lugar da Incerteza
Patrícia Reis
(Companhia das Letras, 19 de janeiro)
Depois de se embrenhar na vida de Maria Teresa Horta para escrever a celebrada biografia A Desobediente, Patrícia Reis volta ao romance após Da Meia-noite às Seis e numa nova casa editorial. O epicentro desta história situa-se num consultório lisboeta de psiquiatria onde António tenta nortear os seus doentes enquanto combate os seus próprios demónios familiares e pessoais. No rol de pacientes constam Eduardo, um padre em crise de fé, e Simone, uma mulher a braços com uma família em colapso e uma carreira igualmente em queda.
Partida
Julian Barnes
(Quetzal, 22 de janeiro)
Ao longo da sua extensa carreira literária, Julian Barnes habituou-nos a um legado de excelência com obras como O Papagaio de Flaubert, O Sentido do Fim (que lhe valeu o prémio Booker), O Ruído do Tempo, A Única História ou O Homem do Casaco Vermelho. Tudo, no entanto, tem um fim, e o autor britânico anunciou que este seu 15.º romance será o último, lançado quando faz 80 anos. Apesar de ser ficção, tem cariz autobiográfico, e retrata um ex-casal que se reencontra passados 40 anos e tenta reatar. Abordado o envelhecimento, a memória e a possibilidade da felicidade, tem sido descrito como uma derradeira conversa de Barnes com os seus leitores.
Foi o Preto
Ângelo Delgado
(Oficina do Livro, 27 de janeiro)
Num caso clássico de estar no sítio errado à hora errada, José Lima vê-se acusado de uma tentativa de homicídio por ter estado nas imediações de um estádio de futebol onde se deram desacatos, levando-o a uma espiral que resulta na sua prisão. A que se deveu a acusação? Basta ler o título deste romance de estreia do ex-jornalista e atual publicitário Ângelo Delgado, que procura abordar não só o tema do racismo, mas também das feridas coloniais e da realidade da comunidade cabo-verdiana em Portugal, situando a história nos anos 90.
Reconciliação
Juan Carlos I
(Planeta, 27 de janeiro)
“Os Reis não se confessam publicamente. Porque desobedeço? Porque me roubam a minha história”. Foi desta forma que Juan Carlos I justificou a publicação deste seu livro de memórias — algo inédito para um monarca espanhol — considerando-o uma forma de reclamar a sua versão dos factos depois de abdicar da coroa em prol do filho devido à onda de escândalos que o afetou. Editado em 2025, perto da data em que se assinalaram 50 anos desde que subiu ao trono no pós-franquismo, o livro não trata de assuntos de estado, mas sim da sua vida pessoal enquanto monarca, antes, durante e depois do seu reinado, não deixando todavia de abordar as polémicas que ainda hoje o perseguem.
João Maria Matilde
Marcela Dantés
(Lingua Mátria, janeiro)
Aos 40 anos de idade, a brasileira Matilde recebe uma notícia que abala por completo a vida que, com esforço, construíra até aqui. O seu pai, até então incógnito, trata-se do português João Maria, que lhe deixou uma herança. Da mãe, afetada por alzheimer, poderá obter poucas respostas, pelo que atravessa o Atlântico para descobrir um lado da sua vida oculto e que a desestabiliza psicologicamente. Este trata-se do primeiro romance de Marcela Dantés a ser editado no nosso país, não obstante o facto da belo-horizontina ter começado a escrevê-lo numa residência no FOLIO de Óbidos, em 2016. Chega através da Língua Mátria, recém-criada com o desígnio de dar-nos a conhecer mais autores de língua portuguesa.
Refém
Eli Sharabi
(Guerra e Paz, 27 de janeiro)
Eli Sharabi estava no kibutz de Be’eri com a mulher Lianne e as filhas adolescentes Noiya e Yahel quando, a 7 de outubro de 2023, foram atacados pelos elementos do Hamas que entraram pelo território de Israel e mataram indiscriminadamente centenas de civis e raptaram 251 pessoas. Sharabi foi uma delas, permanecendo em cativeiro durante 491 dias até ser libertado na primeira de várias operações de libertação de reféns. Este é o seu relato da vida nos túneis de Gaza, entre o desespero e o instinto de sobrevivência.
Rosa — História de uma cor
Michel Pastoureau
(Orfeu Negro, janeiro)
O verão da Barbie não foi assim há tanto tempo para que nos esqueçamos da profusão de tons rosa que invadiu o nosso quotidiano devido ao filme dedicado à boneca mais famosa do mundo. Muitos de nós terão adorado, outros tantos terão odiado, tal é o seu cariz divisivo, como defende Michel Pastoureau no seu novo volume dedicado à história das cores. Desenterrando a saga desta cor ao longo da história europeia, o historiador francês mostra como, por exemplo, foi associada no século XVIII à masculinidade antes de passar a ser a cor mais conotada com o género feminino, sendo associada ao romantismo e a sentimentos agradáveis, mas também a mau gosto e vulgaridade.
Flores Bravias e Outras Histórias
Erskine Caldwell
(Snob, 1 de fevereiro)
Pode não parecê-lo aos nossos olhos, dada a míngua de obras suas disponíveis por cá, mas Erskine Caldwell é um dos grandes escritores norte-americanos do século XX, particularmente famoso pelos relatos pungentes da pobreza e da discriminação no sul dos EUA em obras como A jeira de Deus ou A estrada do tabaco. Este volume de 30 contos, selecionados e traduzidos por José Luís Almeida, é um contributo para pôr fim a esse estado de obscuridade, retratando uma América da Depressão de profunda miséria e fome, onde as suas personagens, mais do heroísmo, demonstram vontade de sobreviver.
Tudo na natureza apenas continua
Yiyun Li
(Alfaguara, 16 de fevereiro)
Que nenhum de nós tenha de passar por aquilo que Yiyun Li — autora de romances celebrados como Where Reasons End ou The Book of Goose — teve de sofrer. No espaço de sete anos, a escritora chinesa radicada nos EUA perdeu ambos os filhos, que se suicidaram. Este livro de memórias — que marca a sua estreia em Portugal e foi finalista da edição de 2025 do National Book Award — é a sua tentativa de tentar dar sentido a tão inqualificável dor, olhando de frente para o abismo. Como o título sugere, mais do que chorar a perda, é uma obra que pretende manter a memória viva.
As Meninas do Laranjal
Gabriela Cabezón Cámara
(Elsinore, 16 de fevereiro)
Pedro de Orive, Alonso Díaz, Ramírez de Guzmán… Catalina de Erauso foi conhecida por muitos nomes masculinos ao longo da sua lendária vida. Terá sido uma pessoa não-binária, uma mulher lésbica a abraçar uma identidade que lhe era negada à partida ou apenas alguém de matreirice superior? Não sabemos, apenas que, escapando a um futuro de recato, a “freira alferes” fugiu para as Américas passando-se por homem, tornando-se numa das mais icónicas figuras do “século de ouro” espanhol. A escritora argentina Gabriela Cabezón Cámara, reconhecida pela toada queer e feminista dos seus romances, reconta a história de Erauso nas aventuras que protagonizou da Venezuela ao Chile, num romance que venceu o Premio Ciutat de Barcelona 2024 e o National Book Award 2025 na categoria de melhor livro traduzido.
Treze — Uma Antologia
Vários Autores
(Editorial Divergência, 19 de fevereiro)
Não é preciso explicar qual a tradicional simbologia associada ao 13, mas essa não é a razão pela qual a Editorial Divergência o escolheu como mote para esta coletânea de contos inéditos: é porque assinala 13 anos enquanto um dos selos editoriais mais dedicados à ficção especulativa, seja terror, sci-fi ou fantasia. Foi essa a proposta feita tanto a escritores experimentados como David Soares e Bruno Martins Soares, como a vozes mais recentes como as de Laura Vasques de Sousa, Raquel Fontão ou Carlos Aleluia: criar uma história a partir deste famoso número.
Quando o Mundo Dorme — Histórias, palavras e feridas da Palestina
Francesca Albanese
(Antígona, 23 de fevereiro)
Uma das figuras mais polarizantes da política internacional, a relatora especial da ONU para os territórios palestinianos ocupados tanto é descrita como uma voz de denúncia no seio das relações internacionais para as violações dos direitos humanos na Palestina como uma representante com viés anti-israelita, o que a levou inclusive a ser alvo de sanções por parte dos EUA. Neste livro, todavia, o foco não está em Francesca Albanese mas nas histórias de pessoas que conheceu nestes últimos anos no contexto do conflito israelo-palestiniano, pretendendo humanizar pessoas muitas vezes reduzidas a um número ou a um argumento moral.
Crânios Crepitantes
Roger van de Velde
(VS Editores, fevereiro)
Flagelado por crónicos problemas de estômago que o levaram a ser várias vezes operado, o escritor neerlandês Roger van de Velde acabou por tornar-se viciado no analgésico Palfium — de tal forma que chegou a forjar prescrições. Foi devido a esta dependência que foi várias vezes internado em instituições psiquiátricas, nas quais escreveu às escondidas. Foi de um desses internamentos que resultou este livro de contos, publicado em 1969, um ano antes da sua morte prematura. Tratam-se de 20 histórias que acompanham outros pacientes, desde um que fuma cigarros ininterruptamente por acreditar que foi ordenado por Prometeu até ao colega que decidiu matar o seu gato e cozinhá-lo, juntando humor a empatia e denunciando um sistema de saúde mais concentrado em controlar e punir que curar.
Máfia: Uma História Global
Ryan Gingeras
(Casa das Letras, fevereiro)
De todas as mudanças civilizacionais a que o mundo assistiu na passagem do século XIX para o século XX, uma das mais insidiosas foi o fim do banditismo e a chegada de formas de crime organizado tão sofisticadas quanto perigosas, fruto do crescimento explosivo dos grandes centros urbanos. Gingeras — professor no Departamento de Segurança Nacional da Universidade Naval da Califórnia — faz essa história desde as suas origens até aos tempos que correm, em que os cartéis sul-americanos, a Yakuza, a máfia russa ou as famílias do crime nos EUA continuam a adaptar-se ao mundo contemporâneo. Pelo meio, não se esquece nem da forma como estes grupos têm sido retratados pela cultura, nem das formas como afetaram e se infiltraram em empresas, instituições e até estados.
HP
Guido Buzzelli
(Escorpião Azul, fevereiro)
Apesar de ser considerado um dos mestres da banda desenhada italiana — tanto pelo cariz contracultural da sua obra como pelo facto de ser um dos pais da novela gráfica no país —, pouco ou nada há de Guido Buzzelli editado em Portugal. Esse estado de coisas termina com este álbum, original de 1974, que nos leva para um mundo pós-apocalíptico onde grupos de sobreviventes rebeldes vivem do saque aos destroços da guerra atómica que findou e que têm como adversário uma cidade ultra-desenvolvida, liderada por uma oligarquia de militares e cientistas.
O Artista
Lucy Steeds
(Alma dos Livros, fevereiro)
O Artista foi uma das maiores histórias de sucesso do Reino Unido em 2025: não só foi alvo de uma guerra pelos direitos da sua publicação, como valeu a Lucy Steeds o prémio Waterstones Book of the Year e a nomeação para o Women’s Prize for Fiction, o que é tanto mais impressionante se tivermos em conta que é uma obra de estreia. Trata-se de um romance histórico que acompanha a ida de um jornalista britânico em 1920 à região francesa de Provença para tentar entrevistar o pintor Edouard Tartuffe, tão genial quanto reclusivo. Além destas duas figuras, surge ainda a sobrinha de Tartuffe, Ettie, resultando numa história descrita como tendo tanto de psicodrama como de imersão no mundo da criação artística.
Gente como nós
Miguel Herdade
(Ideias de Ler, fevereiro)
▲ Retrato do autor, capa ainda em execução
Nos últimos anos, Miguel Herdade veio a afirmar-se como uma das jovens figuras de proa do nosso país na investigação académica e na criação de projetos de integração social e de combate à desigualdade educativa. Mesmo que de momento viva no Reino Unido — onde é diretor da ONG The Access Project UK e parte da direção de uma escola primária em Londres —, a distância não fê-lo desfocar da nossa realidade, como esta obra demonstra. Descrito como um livro que alia as sensibilidades sociais da escritora Rita Ferro às do sociólogo britânico Anthony Giddens, é um trabalho que pretende demonstrar como a geografia e a classe em que se nasce determinam a vida e a liberdade de cada um e como muitas vezes o sistema educativo e o estado social se limitam a reproduzir as desigualdades do berço. Para Herdade, a solução passa pela mistura, pela integração e pela abertura à imigração.
Compromisso de Long Island
Taffy Brodesser-Akner
(ASA, fevereiro)
Em 1974, Jack Teich — membro de uma família judia dona de uma importante metalúrgica — foi raptado à porta de casa num bairro afluente de Long Island. O seu resgate custou 750 mil dólares (o que hoje equivale a 4,78 milhões) e apenas um dos autores foi apanhado e condenado, fazendo deste um dos sequestros mais infames e lucrativos da história dos EUA. O caso foi particularmente duro para a jornalista e escritora Taffy Brodesser-Akner, cuja família era amiga dos Teich — de tal forma que a levou a publicar uma extensa peça no The New York Times e inspiraria o seu segundo romance, que inaugura a Escolha da Editora, uma nova coleção da ASA. Também aqui ocorre o rapto de um milionário, Carl Fletcher, mas a trama foca-se sobretudo no rescaldo do sequestro décadas depois, da forma como o trauma se enraizou numa família que se achava superada do susto. Altamente celebrado aquando do seu lançamento, sucedeu a Fleishman Is In Trouble, que por sua vez foi adaptado a uma série televisiva premiada.
OLGA Salva o Mundo
Rui Zink
(Porto Editora, fevereiro)
Arredado do romance há quase 10 anos — é preciso regressar a O livro sagrado da Factologia, de 2017 — Rui Zink parece querer recuperar o tempo perdido com uma obra tão atual quanto possível. Esta sua nova narrativa segue uma inspetora, Judite Furriel, com a responsabilidade de investigar um conjunto de linchamentos públicos em Lisboa, cometidos por cidadãos comuns que acreditam estar a fazer justiça, apesar das vítimas serem inocentes. Ao mesmo tempo, começa ser publicado num jornal tabloide um folhetim escrito com recurso a inteligência artificial e que pretende alimentar o ódio e a raiva que têm causado estes incidentes. É, portanto, uma história policial com sátira à mistura e que aborda temas como os avanços tecnológicos desregrados e desregulados e a desinformação.
Kiki de Montparnasse
Catel & Bocquet
(Devir, fevereiro)
O seu nome civil era Alice Prin, mas toda a Paris dos anos 20 ficou a conhecê-la como Kiki de Montparnasse. Modelo, cantora e pintora, fez da sua criatividade e corpo ferramentas para fugir a uma vida de precariedade, tornando-se musa de artistas como Tsuguharu Foujita, Constant Detré, Fernand Léger e, principalmente, Man Ray, com quem manteve um relacionamento amoroso. Este romance gráfico — escrito por José-Louis Bocquet e ilustrado por Catel Muller — procurou captar a ousadia desta mulher, tendo sido recompensado com o Prémio “Essencial” Angoulême de 2008.
Girl on Girl — Como a cultura pop levou uma geração de mulheres a voltarem-se contra si próprias
Sophie Gilbert
(Penguin, 2 de março)
Numa pequena revolução interna, a Penguin Random House descontinuou algumas das suas chancelas e criou um novo selo homónimo onde concentra ficção e não-ficção. Uma das suas apostas mais significativas para este semestre é esta obra de crítica cultural por parte de Sophie Gilbert. A redatora da revista The Atlantic defende que, ao contrário do que a geração millennial possa acreditar, as décadas em que cresceu — na viragem do milénio — não representaram avanços no feminismo e no desempoeiramento cultural, mas sim numa cultura tablóide sexista e hiperobjetificada, marcada também pelo advento da pornografia cada vez mais facilmente disponível.
Venetian Vespers (título original)
John Banville
(Minotauro, março)
Lançando romances ao ritmo de um por ano e aliando a isso uma produção prodigiosa de artigos e críticas literárias, o irlandês John Banville não parece ter grande vontade de parar, não obstante ter celebrado 80 anos em 2025. Mais importante ainda é que o vencedor do Booker tem mantido a vitalidade criativa, com este mais recente livro a ser exemplo disso, a avaliar pela receção da imprensa. Voltando a uma palete noir, mas não ao universo do seu investigador Quirke, este é um mistério histórico situado na Veneza do final do século XIX, onde um escritor inglês passa de estar numa lua de mel desastrosa em que se vê a perder a futura herança da sua nova esposa a uma teia de conspirações e assassinatos.
Como Caminhar num Pântano
Marta Pais Oliveira
(Gradiva, março)
Gradiva
Desde que se estreou a publicar romances, Marta Pais Oliveira tem vindo a colecionar distinções. A sua estreia, Escavadoras, foi o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís, e o seguinte Faina esteve entre os finalistas do Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz. Este novo livro também já foi distinguido mesmo antes de sair, recebendo o Prémio Literário Maria Amália Vaz de Carvalho. No cerne da trama está uma mulher que rouba outras mulheres e perde as suas próprias possessões, sendo que o livro consiste nas suas 39 anotações. De acordo com a editora, é um romance que se propõe a “dançar sobre a incomunicabilidade e o desejo de sermos amados”.
O Espião no Arquivo — O homem que tentou destruir o KGB
Gordon Corera
(Bertrand, março)
▲ Capa da edição norte-americana
Não há falta de histórias reais dos tempos da Guerra Fria que podiam dar um filme — muitas já foram adaptadas, inclusive. A de Vasili Mitrokhin, todavia, faltava contar. Os milhares de documentos que conseguiu surripiar dos arquivos do KGB já foram publicados, sim, mas não a biografia de como passou de militante crente no projeto soviético a dissidente horrorizado por descobrir a extensão da repressão que existia à sua volta. Gordon Corera, jornalista correspondente da BBC na área de segurança e espionagem, procurou então fazer-lhe jus.
O Romance Não Escrito — Contos Completos
Virginia Woolf
(E-Primatur, março)
A própria noção de um cânone literário ocidental é altamente discutível, tanto por quem inclui ou exclui, como pela mera ideia de haver quem se arrogue ao direito de criá-lo. No entanto, em aceitando-o, Virginia Woolf é claramente uma figura impossível de manter de fora, pela força de livros como Mrs. Dalloway, Orlando ou Um Quarto Só Seu. Uma das mais marcantes escritoras do século XX e do modernismo, a sua ficção curta está espalhada em diferentes livros e coletâneas, mas, como já fez com outros gigantes das letras, a E-Primatur reúne aqui toda sua prodigiosa obra num único volume.
The Serviceberry (título original)
Robin Wall Kimmerer
(Clube do Autor, março)
Investigadora na Universidade Estatal de Nova Iorque e cientista botânica, Robin Wall Kimmerer junta às suas pesquisas os saberes dos Potawatomi, tribo nativo-americana de que faz parte. É dessa forma que se inspira nas bagas silvestres enquanto modelos de interligação e reciprocidade, que sob as condições certas geram abundância, como antídoto aos atuais modelos económicos que pressupõem a criação de lucro a partir da escassez, da competição e da acumulação de recursos. Juntando um pendor ambientalista e de reflexão filosófica às memórias acumuladas ao longo de uma vida que decide partilhar, Kimmerer quer desafiar-nos a encarar o mundo de outra forma.
Costa Sombria e Selvagem
Charlotte McConaghy
(Cultura Editora, março)
A ilha (ficcional) de Shearwater, no remoto sul do globo, junto à Antártida, foi outrora um buliçoso centro de investigação científica. Hoje, permanece em abandono, zelada pelos Salts, apesar de ser o maior banco de sementes do mundo. Uma enorme tempestade traz às suas margens Rowan, uma mulher misteriosa, que a família trata de cuidar. Todas as partes têm segredos incómodos, todas as partes têm de confiar nas outras para sobreviver à intempérie e garantir que as sementes não se perdem. São estes os ingredientes confecionados pela australiana Charlotte McConaghy, quem com este eco-thriller, conseguiu reunir apreço da crítica tanto quanto tornar-se um fenómeno de leitura.
Um Pequeno Romance Lúmpen
Roberto Bolaño
(Cavalo de Ferro, 13 de abril)
▲ Capa da edição norte-americana
Num dos mais surpreendentes desenvolvimentos do mundo editorial deste ano, os direitos de publicação do chileno Roberto Bolaño em Portugal passaram para a égide da Penguin. O grupo já garantiu que vai tomar a oportunidade para um extenso calendário de publicações, sendo que a que mais se destaca, para já, é o deste romance inédito no nosso país, a última obra publicada em vida. A ação decorre em Roma e segue um par de irmãos que, como o título sugere, vivem em desespero e indigência depois da morte dos pais num acidente — ela abandona a escola e ganha sustento como cabeleireira, ele trabalha num ginásio mal frequentado. É quando surgem dois homens com a proposta de cometerem um crime que pode salvá-los das dificuldades financeiras.
Os Bastardos de Hayek — As Raízes Neoliberais da Direita Populista
Quinn Slobodian
(Edições 70, abril)
Professor e investigador na Universidade de Boston, Quinn Slobodian propõe uma outra tese quanto à ascensão da extrema-direita nas últimas décadas. Pela sua análise, a vitória do neoliberalismo na Guerra Fria apenas significou a necessidade de encontrar novos adversários que não o comunismo, como as reivindicações feministas ou ambientalistas. É a partir desta lente que o canadiano procura demonstrar que os atuais intelectuais da direita radical serviram-se das obras de Friedrich Hayek ou Ludwig von Mises (muitas vezes de forma abusiva) para justificar as suas políticas de combate ao progressivismo.
Debaixo de Água
Tara Menon
(Livros do Brasil, abril)
▲ Capa da edição norte-americana
Um dos romances de estreia mais esperados do ano, vai ter um lançamento com um mês de diferença entre o mercado britânico e o português. Esta é a história de uma menina de cinco anos, Marissa, que vai viver com o pai para uma pequena ilha tailandesa e conhece a melhor amiga, Arielle, com quem faz mergulho. Este idílio é brutalmente interrompido pelo tsunami de 26 de dezembro de 2004 e Marissa nunca mais volta a vê-la. Oito anos depois, a viver em Nova Iorque, a aproximação de uma tempestade leva-a de volta a esse tempo de luto e dor. A sua autora, Tara Menon, nasceu na Índia, cresceu em Singapura e trabalha nos EUA, onde além de escrever para várias publicações literárias, é coeditora da secção de ficção da revista Public Books.
Linea Nigra (título original)
Jazmina Barrera
(Limoeiro Real, abril)
▲ Capa da edição mexicana
Decorrendo do processo de gestação, a “linea nigra” é uma linha que surge na barriga das mulheres numa fase já avançada da gravidez, fruto de uma hormona que estimula os melanócitos. É também o título do livro de memórias da autora mexicana Jazmina Barrera, servindo como ponto de partida para as suas reflexões sobre a maternidade e os seus efeitos no corpo das mães, comparando-os a um terramoto, servindo-se também das ideias de gigantes intelectuais como Louise Bourgeois e Ursula K. Le Guin. Esta é a mais recente incursão editorial da revista literária Limoeiro Real, de Tavira, também responsável pela edição em Portugal de vozes emergentes como a galega Berta Dávila ou o chileno Diego Zúñiga.
Flesh (Carne)
David Szalay
(Relógio d’Água, maio)
▲ Capa da edição norte-americana
Apesar de ter vindo a trilhar um reconhecido percurso literário, o anglo-húngaro David Szalay estava longe de ser um dos finalistas favoritos a vencer o Prémio Booker 2025, mas foi precisamente isso o que aconteceu. Tal feito veio reacender o atual debate sobre a crise da masculinidade, entre o que se considera ser uma epidemia de solidão e de que forma comportamentos tóxicos continuam a reproduzir-se e reafirmar-se entre jovens rapazes. Isso deve-se ao facto da história ter como protagonista István, um adolescente de 15 anos inadaptado e isolado que vive com a mãe na Hungria e que acaba a criar uma relação clandestina com uma vizinha casada que se descontrola e que vai levá-lo, inclusive, a emigrar para Londres, onde enriquece, apesar da autodestruição estar sempre à espreita.
Caminhando Com os Mortos
Micheliny Verunschk
(Laika Edições, maio)
▲ Capa da edição brasileira
Depois de vencer o Jabuti em 2022 com O Som do Rugido da Onça, a escritora recifense Micheliny Verunschk manteve a senda vitoriosa neste segundo romance da sua “Tetralogia do Mato” a ser agraciada com o Oceanos em 2024. Invetiva contra o extremismo religioso e a intolerância que gera, tem no seu coração um acontecimento horroroso numa pequena cidade no interior do Brasil, quando uma mulher é queimada viva num suposto ritual de purificação. O crime acontece na sequência de uma comunidade evangélica ter-se instalado nesta localidade, convidando o leitor a seguir as pistas para perceber o que se passou. Tal como o livro anterior, esta obra chega-nos por meio da Laika Edições, outra pequena editora independente recém-criada e apostada a preencher lacunas do mercado editorial português.
A Boa Vontade
Ingmar Bergman
(Dois Dias, junho)
▲ Capa da edição norte-americana
É muito provável que não saiba que, além de um dos mais brilhantes cineastas da histórias, Ingmar Bergman não só foi também um escritor com três romances publicados, como um deles foi mesmo editado em Portugal: Filhos de domingo, pela Difel. A Dois Dias continua esse trabalho ao trazer o primeiro volume dessa série autobiográfica, que com o devido distanciamento — muda os nomes, mas não os apelidos — retrata a infância do sueco e o casamento conturbado dos seus pais. Baseando-se em apontamentos e conversas que teve com os progenitores, Bergman retrata o período namoro e os primeiros anos de casamento com a sensibilidade que o notabilizou.
O Primeiro Fascista
Sergio Luzzato
(Zigurate, sem data ainda)
▲ Capa da edição britânica
Antes de Rosenberg e Hitler, de Gentile e Mussolini, de Franco, de Maurras ou de Salazar, havia o Marquês de Morés, para muitos — inclusive o autor desta biografia — o primeiro líder abertamente antissemita e autoritário que inauguraria o que hoje definimos como fascismo. Sergio Luzzatto, investigador da Universidade do Connecticut, dedicou-se a desvendar a vida deste francês que esteve envolvido no infame caso Dreyfuss, chegou a ser um fazendeiro durante a conquista do Oeste americano e a investir na ferrovia da Indochina e acabou por regressar a França onde criou um violento grupo miliciano e acabou morto por Tuaregues na Argélia.
Guapa
Saleem Haddad
(Vírgula de Interrogação, sem data ainda)
▲ Capa da edição norte-americana
Nascido no Kuwait, com infância passada em Amman e Londres e atualmente a viver em Lisboa quando não faz trabalho humanitário pelos Médicos sem Fronteiras no Iémen ou no Iraque, Saleem Haddad é a verdadeira definição de cosmopolitismo árabe. Abertamente homossexual, o escritor quis ver representada uma faceta tantas vezes ausente das representações do Médio Oriente. Em Guapa, acompanhamos as 24 horas de Rasa, um jovem homem gay que atinge a maioridade num país árabe não identificado enquanto tenta ganhar a vida e fruir do amor enquanto sobrevive às turbulências políticas e sociais que o rodeiam. Enorme sucesso aquando da sua publicação em 2008, chega por fim a Portugal através da Vírgula de Interrogação, uma ainda jovem editora independente sediada no Algarve.
Song of Solomon (título original)
Toni Morrison
(Editorial Presença, sem data ainda)
▲ Capa da edição norte-americana
Parece impossível que uma das obras mais populares e celebradas de uma Nobel da Literatura como Toni Morrison — continuamente lida e ainda atual — nunca tenha sido editada no nosso país. No entanto, não obstante Beloved, Amor ou A Dádiva já terem sido alvo até de reedições, Song of Solomon nunca foi alvo de uma tradução e edição em Portugal, lacuna que a Editorial Presença corrige agora, tal como já havia feito com O olhar mais azul. Aqui acompanha-se a jornada de autodescoberta de Milkman Dead à medida que tenta traçar o seu caminho enquanto homem afro-americano no sul do país.
O Eternauta
Héctor Germán Oesterheld e Francisco Solano López
(Ala dos Livros, sem data ainda)
O nome correu mundo devido a uma adaptação bem sucedida da Netflix a uma série televisiva, mas a Ala dos Livros finalmente faz jus a esta obra de culto da banda desenhada com uma edição completa em Portugal. É o magnum opus de Héctor Germán Oesterheld e Francisco Solano López, que com ele — retratando um futuro pós-apocalíptico onde a Argentina foi devastada por uma invasão alienígena mortal — desafiou a ditadura militar na Argentina. Oesterheld, que surge como protagonista da história ao ser a figura avisada por um viajante do tempo que o cataclismo estaria iminente, acabou mesmo por ser vítima dos “desaparecimentos forçados” a que eram sujeitos os opositores do regime. O seu corpo nunca foi encontrado, mas a sua memória vive nesta obra.