Título: Da Meia-noite às Seis
Autora: Patrícia Reis
Editora: D. Quixote
Páginas: 192
Preço: 15,90€

O timing é o de um tempo de dentro a olhar para si. Se o mundo vive neste limbo entre o durante e o pós-covid, vive com os olhos no futuro. O novo romance de Patrícia Reis ficcionaliza para lá da marca temporal – se acerta ou não, não lhe compete. Será essa hipótese o condão da literatura.

Claro que, desde que palavras como “confinamento” e “pandemia” começaram a fazer parte do vocabulário quotidiano, começou também a cogitar-se sobre qual seria o efeito do novo status quo – na vida, na saúde, nas formas de relação, na arte. Creio que, em Portugal, esta é a segunda obra de ficção a surgir tendo explicitamente este contexto (Paulo Faria publicou Em Todas as Ruas te Encontro, pelas Edições Minotauro). O primeiro ponto será, por isso, o de referir não exatamente a pertinência do romance, mas a desfaçatez de ter sido escrito num cenário em aberto.

O grande mérito de Da Meia-noite às Seis será o estado onírico que cria a priori: o leitor mete lá a cabeça e o que está lá dentro é igual ao que está fora. Partindo daí, a autora foi ao micro.

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Susana Ribeiro de Andrade perde o marido, António Ribeiro de Andrade, em 2022. É sempre um risco fazer uma hipótese com alcance no futuro, mas a suspensão da realidade também é exigida aquando da leitura de um romance. E a autora lavou as mãos de qualquer pretensão sociológica ao usar a covid como pano de fundo sem nunca a tornar num elemento constitutivo da narrativa, antes possibilitando-a. Há passagens como “O vírus mudou toda a sua atividade, a sua rotina, o seu rendimento, e estava conformado, o vírus não iria desaparecer tão cedo, mas não se sentia destruído e tão-pouco pensara que adoecer fosse uma hipótese, aquilo não o atacaria” (p. 13), mas os cenários traçados são os da intimidade das personagens – a doença, o luto, o passado –, não os das implicações a uma escala macro. Ou seja, não se pode dizer que o livro seja sobre a pandemia, embora esta exista como pano de fundo. A doença que rouba uma vida podia ser outra qualquer para os propósitos deste romance em que o zeitgeist não funda a narrativa. E, dentro disto, se assim fosse, pouco se perderia além de umas descrições da Lisboa coetânea:

“Lisboa finara-se. As crianças desta geração, além de não aprenderem a andar de bicicleta na rua, talvez não venham a conhecer os jardins da Gulbenkian, a ouvir o coro de São Carlos ao vivo (…)” (p. 56)

Assim como assim, o pontapé de partida é o de uma vida conjugal calma rompida por uma morte:

“Não negavam o que estava para trás, paixões, sexo, loucuras, vontades, outros homens, outras mulheres, o deles era um passado composto de muitas histórias, algumas comuns, outras realmente originais. Nenhum deles estava contaminado com esse mal designado por ciúmes. Sabiam um do outro, dos anos em que a vida os mantivera afastados, do que correra bem, menos bem e verdadeiramente mal. Nenhum imaginava o outro na cama com um terceiro, não se perdiam em cenários de tortura” (p. 15).

E, dentro disto, também não chega a ser um romance sobre o luto, já que as descrições são mais biográficas do que psicológicas, mais factuais do que emocionais, numa tentativa de blindar o presente e de corporizar as personagens. Assim, as suas descrições têm alcance no passado e, no que vai ao âmago das relações interpessoais, convém sublinhar que o romance não naturaliza as opressões. Parece escusado – anacrónico? – voltarmos a isto em 2021, mas a tradição literária tem sido outra coisa. Contra isso, a autora optou por mostrar em vez de doutrinar e ver uma situação em que não há uma relação de alteridade criada à cabeça sobre uma das personagens dá o espaço de manobra para que se tirem ilações. O olhar crítico fica evidente, o não querer ensinar também.

A prosa explicativa chega a ter alguma literariedade artificial, mas cumpre o propósito de veicular um sentido. A escrita é bem comportada, sem solavancos e, sobretudo, funcional. Escorreita e limpa, não dá espaço a grandes manigâncias – e ainda bem.

Além de ter pegado num cenário em aberto, Patrícia Reis ainda usou as referências voltadas para o presente, o que poderá apresentar perigos de inteligibilidade em breve, já que as referências deixarão de ter quem as entenda, reconsidere e enquadre. Assim, as passagens que sabem a crónica, em que a voz autoral fala para o seu tempo, poderão correr o risco de datar o livro, ainda que não seja de somenos que se registe uma voz que fala do seu tempo ao mesmo tempo que fornece uma hipótese do futuro imediato. Tendo esta hipótese em conta, talvez possa encarar-se o romance como obra com pretensão de falar a direito para o seu tempo.

De resto, as personagens são urbanas e cultas, e são referenciais para leitores urbanos e cultos, ou seja, a obra fala de uma classe para essa classe. Por vezes, na tentativa de análise micro, pode sentir-se que o drama não mói (quão fácil será entrar na espiral do outro?). Outras, cogita-se que talvez a primeira pessoa reduzisse a distância, que se adensa com a opção da autora de usar os nomes completos das personagens.

Estas personagens, com alguns factos descritos, parecem muitas vezes veículos de posições. Por vezes, são bandeiras e não gente, já que as descrições mostram mas não aumentam a sua complexidade psicológica. Por exemplo:

“(…) a defender uma política cultural consequente, em que os artistas teriam um estatuto, não seriam os eternos pedintes ou considerados como tal. As ideias precisas que tinha sobre o assunto permitiam-lhe fazer ligações, dava o exemplo francês, enaltecia-lhes o sentido de identidade que advinha da cultura, a única forma de teres identidade, de te distinguires, é teres a tua cultura e saberes que essa tem valor, precisa de ser acarinhada, não precisa de linhas de apoio, com textos longos e letras muito pequenas, que salvaguardam sempre a possibilidade de fazerem com que a cultura seja, exista, brilhe. Só isso. Ele queria que a cultura fosse. E fosse nos teatros, claro, mas nas artes em geral, na criação. Não temos um por cento do orçamento de [sic] Estado, e esse nós, escondido na frase, era uma maneira de dizer que também ele era cultura e que se as pessoas, os políticos, não ligavam, então estavam também a descurá-lo.” (p. 78/79).

A segunda parte do romance dá uma guinada em termos de temas e personagens, havendo uma ligação ténue entre elas e, grosso modo, mantendo o estilo da primeira.

Focando-se inicialmente no drama de uma personagem resultante da covid, a covid é afinal pano de fundo, uma desculpa para criar a narrativa. Assim sendo, não é necessário à obra: não é um elemento que a constitui, antes o permite. Fazer do social um elemento externo e não interno é sempre mais fácil do ponto de vista da criação, mas limita a receção. Sendo a opção o micro, a autora foi competente no seu propósito.