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Destroçada ou amaldiçoada? A história da família de Julen, o menino que morreu num poço em Málaga /premium

Ela é filha de pescador, ele de feirantes. José e Vicky construíram uma família com 2 filhos. Óliver morreu há 2 anos. Julen não sobreviveu à queda num poço a 13 de janeiro. Reportagem em Málaga.

Ninguém sabe precisar ao certo quando é que José e Vicky se conheceram. A pergunta é quase encarada como absurda pelos vizinhos. Lançam um sorriso envergonhado, encolhem os ombros e atiram: “Ó, então, desde sempre, claro!”. María, a vizinha da porta ao lado da do casal, desce o degrau de casa e vem para o meio da rua — ali não passam carros — para provar que diz a verdade. Agasalha-se com o casaco verde polar que leva pelas costas e aponta para as casas: “Ali, vivia a Vicky com os pais. O José vivia logo no outro lado da estrada”.

Os pais de Julen, o menino que caiu num poço na localidade de Totalán, no passado dia 13 de janeiro, cresceram em El Palo, um bairro residencial no extremo leste de Málaga. Ali, era quase impossível que os seus olhares não se tivessem cruzado. “Aqui conhecemo-nos todos”, explica Soledad, outra vizinha. As habitações coloridas estão coladas uma às outras e geometricamente organizadas. As longas fileiras de casas só são cortadas por ruas, ora pedonais, ora abertas ao trânsito — ainda que, mesmo essas, com poucos carros.

El Palo é um bairro no extremo este da cidade de Málaga, com fortes tradições piscatórias (Foto: OBSERVADOR)

OBSERVADOR

Era uma dessas estradas transitáveis que separava o casal. Eram vizinhos. Viviam os dois na rua Almagro y Cardenas — onde ainda vivem, embora noutra casa: Vicky de um lado da rua Padre Coloma, José do outro. Esse caminho não foi nenhum obstáculo: cresceram e brincaram juntos em pequenos. Já as famílias se conheciam — os vizinhos descrevem, aliás, o bairro como “uma só família”.

O pai de Vicky era pescador, conta ao Observador outro vizinho, Francis. Também a mãe, que estava em casa a tomar conta dos três filhos, rezava à Virgen del Carmen — a quem os vizinhos rezaram, dias inteiros, por Julen — para que o mar devolvesse o marido à terra, são e salvo. Vicky estudou no Colégio SAFA-ICET, uma escola católica situada no bairro de El Palo. Nessa altura, já namorava com José. Recorda a vizinha María: “Lá com 16 ou 17 anos, começaram a namorar”.

O triciclo de Julen ainda está à porta de casa. Os vizinhos rezam para que o venha buscar

Nunca mais saíram daquele bairro junto ao mar. Em 2005, com pouco mais de 19 anos, começaram a viver juntos, numa casa na mesma rua onde já viviam: agora, no número 44 da rua Almagro y Cardenas. Foi já depois de começarem a viver juntos que Vicky tirou um curso superior de hotelaria na Universidade de Málaga.

[Veja no vídeo a homenagem feita no bairro de Julen]

José teve um percurso diferente. Filho de feirantes, começou cedo a ajudar os pais nas feiras. Quando se reformaram, ficou-lhes com o negócio, embora tivesse outro irmão. Já Vicky começou a trabalhar no El Corte Inglés de Málaga, poucos anos depois de acabar o curso, em 2010.

Com a vida cada vez mais a estabilizar, era o momento de dar outro passo: ter um filho. Em 2014, nasceu Óliver. José acabou por deixar o negócio das feiras para estar mais presente na vida do filho. Ficou desempregado, mas foi arranjando uns trabalhos temporários aqui e ali para continuar a dar sustento à família. Poucos anos depois, quiseram dar um irmão a Óliver — o início de 2017 trouxe Julen. Tornavam-se, assim, uma família de quatro — e Óliver era o protetor do irmão. Ao pé dele, ninguém lhe podia fazer mal.

Óliver (à esquerda) era um protetor do irmão, Julen (Foto: FACEBOOK)

Na primavera que se seguiu, porém, o jovem casal levou um golpe. Poucos meses depois do nascimento do segundo filho, a família foi dar um passeio à praia. Óliver, que estava a brincar com a prima, começou a abrandar o ritmo. Sentou-se no chão e fechou os olhos, antes de acabar por cair, por completo, no chão. Não era a primeira vez que algo deste género tinha acontecido: Óliver já tinha caído algumas vezes, chegando até a bater com a cabeça, mas os médicos nunca diagnosticaram qualquer problema. “Pensavam que estava vivo. Chamaram a ambulância, assistiram Óliver, mas ele já estava morto”, recorda Lleliam, uma das vizinhas, ao Observador.

No bairro, entristecem-se ao recordar os tempos que se seguiram. “A família, aquela mãe… estavam desesperados”, conta Soledad. Como é que se sobrevive à morte de um filho?

Durante esse período, Julen passou algum tempo na casa dos avós, mas era pequeno demais para ter ainda alguma memória do irmão. O apoio veio também dos vizinhos. “Eles sabiam que nós estávamos aqui. Apoiámos toda a família. Ajudámos com o pequenino. Todos ajudaram a família, os avós, os vizinhos”, desabafa Francis ao Observador. Foi Julen que, sem saber que o estava a fazer, conseguiu reerguer os pais — podiam ter acabado de perder um filho, mas havia outro para cuidar.

A partir dali, a rotina mudou: todos os dias, desde então, José e Vicky passaram a ir ao cemitério visitar a campa onde o primeiro filho está enterrado.

Óliver morreu em abril de 2017, quando Julen tinha poucos meses de vida (Foto: FACEBOOK)

Meses mais tarde, Vicky, que tinha deixado o trabalho no El Corte Inglés, começou a trabalhar num restaurante. É descrita como trabalhadora pelos colegas, que recordam que Vicky estava sempre a falar dos filhos, quer de um, quer de outro. “Agora, estava um pouco melhor porque estava a trabalhar e estava a recuperar. Estavam a levantar-se agora”, conta Soledad ao Observador.

Julen tornou-se a alegria do bairro, tão abalada pela morte de Óliver. Estava sempre na rua a brincar, ou com o triciclo ou com a bola. “Ele está sempre a jogar à bola e depois chuta para dentro das nossas casas“, diz Soledad, enquanto tenta imitar os remates de Julen. No verão, conta a vizinha ao Observador, os pais costumavam até pôr uma “piscina pequena para ele brincar com a prima”. “Era uma alegria”, diz.

O menino, mesmo tão pequeno, costumava dizer que queria ser jogador de futebol. O pai jogava muitas vezes com ele. “Dão-se muito bem”, acrescenta Soledad. Numa entrevista ao Diario Sur, José chegou a falar da relação que tinha com Óliver e Julen: “Vivo para os meus filhos, passo a vida a trabalhar para lhes comprar as coisas que eles querem, como equipamentos de futebol e boa roupa. É algo que eu nunca tive, por isso queria que eles tivessem uma vida melhor”.

Os pais de Julen estiveram nas operações de resgate desde domingo, dia do acidente (Foto: sciab_es/Twitter)

Durante quase duas semanas, José e Vicky usaram, praticamente, a mesma roupa. Raramente saíram de perto das operações de buscas pelo filho desaparecido num poço de mais de 100 metros. Era naquele terreno que a tia de Julen, mãe da prima com que costumava brincar, ia começar a construir uma casa. Foi por isso que, naquele dia, a família se juntou ali. Acenderam uma fogueira para cozinhar a paella. Julen e a prima andavam por ali a brincar quando o acidente aconteceu. De repente, a criança foi engolida pelo chão. O pai, ao ver o filho a cair no poço, com cerca de 25 centímetros de diâmetro, ainda o tentou salvar. Conseguiu vê-lo a cerca de 10 ou 15 metros e ouviu-o a chorar. “Tem calma, o pai está aqui e o teu irmãozinho vai ajudar-nos”, disse. Mas, segundos depois, Julen afundou-se mais e desapareceu.

Também ali o casal pôde contar com o apoio dos vizinhos. Logo na quarta-feira após o acidente, vários moradores de El Palo fizeram uma vigília de apoio à família e aos profissionais envolvidos. Dezenas de pessoas juntaram-se no centro de Tótalan — algumas impulsionadas com a ajuda das redes sociais — para depois caminharem para perto do local das buscas. De crianças a idosos, várias pessoas seguravam cartazes com mensagens de força. “Toda a Espanha está convosco”, podia ler-se. Os cartazes foram depois entregues ao pai de Julen que saiu do carro onde o transportavam até às operações, para os poder receber. José só conseguiu dizer uma palavra: “Obrigado”.

Os pais de Julen receberam apoio de vizinhos e moradores, durante as semanas em que duraram as operações (Foto: JORGE GUERRERO / AFP)

JORGE GUERRERO/AFP/Getty Images

Raramente eram vistos. O pai chegou a falar aos jornalistas para contar o que se passou minutos antes do acidente, mas manteve-se sempre junto ao local das operações. O casal ficou numa moradia de um habitante de Tótalan — a cerca de 15 quilómetros de El Palo –, que disponibilizou a casa para que José e Vicky pudessem estar perto do poço onde estava Julen. Ali ficaram a espera de notícias que nem sempre eram as melhores: as operações tiveram vários imprevistos e recuos, que nem assim lhes tiraram a esperança.

No próprio dia, enquanto os pais recebiam apoio psicológico, as autoridades apressavam-se a unir esforços para retirar Julen do poço. Começaram por recorrer a uma câmara para perceber a localização da criança mas logo perceberam que o resgate não ia ser simples: Julen estava soterrado. Optaram por começar a extrair a terra mas ao fim de 30 centímetros depararam-se com uma dificuldade: a dureza do terreno. Passaram, então, para um plano B: escavar um túnel paralelo ao poço onde estava Julen. Mas o facto de o terreno ser demasiado rochoso não foi uma dificuldade só no início. Foi uma luta constante ao longo de toda as operações, que fez com que as escavações demorassem vários dias e que vários prazos (otimistas) estabelecidos não fossem cumpridos.

Mais de uma semana depois, na passada quinta-feira, vizinhos, amigos ou moradores juntaram-se novamente à família para lhes dar apoio, naquela que era a última fase mas também a mais difícil e perigosa: a entrada dos mineiros no túnel paralelo ao poço onde estava Julen. A noite já ia longa e os mineiros já estavam há várias horas a escavar a galeria em direção ao filho de José e Vicky, quando mais de 200 pessoas apareceram para uma vigília, numa tenda montada perto de uma casa funerária em Totalán.

Os pais de Julen mantiveram a esperança até à última hora das operações (Foto: JORGE GUERRERO / AFP)

AFP/Getty Images

O casal acabaria também por se juntar à população, pouco depois de o porta-voz da Guardia Civil ter vindo fazer declarações aos jornalistas em que pedia “paciência”, mas adiantava que havia “um grande otimismo e muita vontade para encontrar o lugar” onde estava o menino de dois anos. Enquanto os oito mineiros arriscavam a vida debaixo do solo para resgatar Julen e todos ansiavam por notícias, na vigília, faziam-se orações e cânticos para que tudo corresse bem. O padre Juan José Cortés também esteve presente na vigília. Falando em nome dos pais, disse: “Acreditamos que um milagre é possível”.

As operações de busca acabariam por confirmar o pior cenário. O corpo de Julen foi encontrado às 0h25 da madrugada deste sábado. Só começou a ser retirado depois das 4h00. “Outra vez, não! Outra vez, não!”. Os gritos de José e Vicky foram ouvidos no exterior da casa onde ficaram hospedados, em Tótalan, e onde aguardaram pelo corpo do filho. O milagre que ainda esperavam não aconteceu. Toda a Espanha fez um minuto de silêncio por Julen e pela família e a cidade de Málaga cumpre agora três dias de luto oficial.

Na passada quinta-feira, mais de 200 pessoas juntaram-se numa vigília para dar apoio aos pais (Foto: JORGE GUERRERO/AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Ao longo de quase duas semanas de espera, muitos mantiveram a esperança de que a criança fosse resgatada com vida, mas alguns jornais começaram a apelidar José e Vicky de “família amaldiçoada”. Os vizinhos não gostam da expressão e preferem chamar-lhes “família destroçada”. Em El Palo, agora em silêncio, todos acreditavam que Julen ia voltar a pegar no triciclo, deixado parado à porta de casa. Ninguém aceitava admitir a hipótese de já pouco haver a fazer, mesmo à medida que a passagem do tempo começava a indicar o contrário.

O caso comoveu Espanha, reuniu a ajuda de empresas e especialistas, até estrangeiros, e foi notícia em todos os jornais. Alheada de tudo estava, apenas, a bisavó de Julen, que também vive em El Palo, mas não sabia o que se passava. Tem 80 anos e não quiseram dizer-lhe nada, para não a preocupar. Para isso, mentiam-lhe: diziam-lhe que Julen estava na casa de uns primos e que não era ele o menino de que falavam na televisão.

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