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CAROLINA BRANCO/OBSERVADOR

CAROLINA BRANCO/OBSERVADOR

O triciclo de Julen ainda está à porta de casa. Os vizinhos rezam para que o venha buscar /premium

Está ali, parado, há demasiado tempo. Ninguém quis tirá-lo do sítio onde Julen o deixou. É um símbolo da esperança. O Observador esteve no bairro da família do menino que caiu num poço em Málaga.

É à Virgen del Carmen que os vizinhos do pequeno Julen pedem que “tire o menino dali”, nas palavras de um deles. É a padroeira dos marinheiros, conhecida como a “estrela dos mares” — embora El Palo, o bairro onde vive a família de Julen, seja padroado por Nuestra Señora del Rosario. Talvez seja pelas fortes tradições piscatórias daquele bairro. Talvez seja porque muitos deles são netos e filhos de pescadores. Não conseguem bem explicar porquê, mas é à Virgen del Carmen que imploram que o menino de dois anos que caiu num poço de 100 metros no passado domingo saia de lá são e salvo.

Sabem que seria preciso um “milagre”. “Peço à Virgen que olhe por ele. Deus queira que haja um milagre!”, diz uma das vizinhas, Vitória, ao Observador. Cabelos curtos e brancos, rugas vincadas, olhos azuis e chorosos, pousa a vassoura com que varre o quintal para levar as mãos ao alto. Pede à padroeira e a Deus e novamente à padroeira por esse milagre. Os moradores querem que as suas preces sejam ouvidas, seja por quem for. Ainda esta quarta-feira, juntaram-se na igreja de Nuestra Señora de las Angustias, ali perto, para rezarem por Julen. 

El Palo é um bairro no extremo este da cidade de Málaga, com fortes tradições piscatórias (Foto: OBSERVADOR)

Numa altura em que são cada vez mais as evidências de que tudo pode acabar da pior forma, os vizinhos repetem insistentemente a palavra esperança. Não lhes é roubada nem pelo pano de fundo daquele bairro: a serra onde se encontra Totalán, onde pequeno Julen está desaparecido, num poço, há quatro dias. “Todos, aqui no bairro, temos esperança. Nós sentimos que ele está vivo. Julen está vivo e está a lutar com toda força que tem“, conta María, a vizinha da porta ao lado da de José e Vicky, pais de Julen.

"Todos, aqui no bairro, temos esperança. Nós sentimos que ele está vivo. Julen está vivo e está a lutar com toda força que tem"
Vizinha de Julen

Logo nos primeiros minutos de conversa, María convida o Observador a entrar na casa. Explica que ali é mesmo assim. O bairro é cheio de vida, garantem os moradores, embora agora reconheçam que não é o mesmo. “Pela manhã, passamos pelo bairro e as pessoas estão todas apagadas“, conta Lleliam, a nora de María. Julen, descrito como um menino “encantador”, era um dos que mais contribuía para essa vida. No verão, com o calor, “estava sempre na rua, a brincar com os primos, a brincar com a bola” — conta María que o pequeno Julen é um fanático pelo futebol — “ou com o triciclo, aquele verde“, acrescenta Lleliam.

[Veja no vídeo como são complexas as três vias para resgatar Julen]

Esse triciclo ainda continua à porta do número 44 da rua Almagro y Cardenas: a casa de José e Vicky — que também cresceram e se conheceram naquele bairro. É ali que Julen costuma guardar o seu triciclo ou a sua mota, como o apelida. Fica sempre ali parado. Agora, está parado há demasiado tempo. Continua ali. Ninguém o quis retirar. Os vizinhos olham para o triciclo e sorriem, como se Julen lá estivesse empoleirado. Apontam para o brinquedo e fazem questão de dizer que é dele. O triciclo quase se tornou um símbolo de esperança. “Em El Palo, está tudo cabisbaixo, mas há tanta esperança”, diz Lleiliam ao Observador.

Dezenas de pessoas juntaram-se no centro de Totalán, para fazer uma vigília de apoio à família (Foto: JORGE GUERRERO/AFP/Getty Images)

JORGE GUERRERO/AFP/Getty Images

Foi daquele bairro que, esta quarta-feira, partiram juntos vários moradores rumo a Totalán, onde decorrem as operações de busca e resgate de Julen, para fazer uma vigília de apoio à família e aos profissionais envolvidos. Dezenas de pessoas juntaram-se no centro da localidade — algumas impulsionadas com a ajuda das redes sociais — para depois caminharem para perto do local das buscas. De crianças a idosos, várias pessoas seguravam cartazes com mensagens de força, que foram depois entregues ao pai de Julen.

A padroeira, o anjo e o irmão de Julen que “está presente”

A proteger Julen não está só a padroeira, mas também Óliver, o irmão que morreu aos três anos, quando Julen ainda tinha poucos meses de vida, com um enfarte fulminante. É pelo menos nisso que acredita o pai de ambos, José. “Tem calma, o pai está aqui e o teu irmãozinho vai ajudar-nos”, gritou para Julien no dia do acidente, quando ainda conseguia ouvi-lo a chorar do poço, segundo contou numa entrevista ao Diario Sur.

No bairro, ninguém estranha — porque Óliver era um “protetor” de Julen. “Quando uma criança se aproximava do irmão, ia logo a correr ver o que se passava”, conta María, ao Observador. “Julien não se lembra de Óliver, mas Óliver está presente”, acredita Lleiliam.

As operações de resgate e busca decorrem desde domingo para retirar Julen do poço (Foto: AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

O irmão de Julen morreu na primavera de 2017. A família tinha ido dar um passeio à praia e Óliver, que estava a brincar com a prima, começou a abrandar o ritmo. “Mamã, ajuda-me que estou cansado”, pediu. Sentou-se no chão. A mãe viu os olhos do filho a fecharem-se, julgando ela, de sono. A criança acabou por cair, por completo, no chão. Não era a primeira vez que algo deste género tinha acontecido: Óliver já tinha caído algumas vezes, chegando até a bater com a cabeça, mas os médicos nunca diagnosticaram qualquer problema. “Pensava que estava vivo. Chamaram a ambulância, assistiram Óliver, mas ele já estava morto”, recorda Lleliam ao Observador.

A maioria dos vizinhos não acredita que os pais alguma vez tenham ultrapassado — ou que alguma vez irão conseguir fazê-lo — a morte daquele filho. Lleiliam, porém, acredita que possam ter conseguido por uma razão: “Pelo Julen”. Estavam agora a “aprender a viver com isso”, resume María. O casal estava, segundo revelou José, a “tentar dar um irmãozinho ao Julen porque a vida lhe tirou o outro”.“Tinha o meu coração partido em mil pedaços pela perda do Óliver. E agora tenho-o partido em três mil porque dentro de um dia ou dois posso ficar sem ele”, acrescentou. Alguns jornais começaram a apelidá-los de “família amaldiçoada”. Os vizinhos não gostam da expressão e preferem chamar-lhes “família destroçada”.

Tinha o meu coração partido em mil pedaços pela perda do Óliver. E agora tenho-o partido em três mil porque dentro de um dia ou dois posso ficar sem ele"
José Roselló, pai de Julen

O pai e a mãe não perdem a “esperança de que [Julen] não está morto”. Esta manhã de quarta-feira, em declarações aos jornalistas, José disse acreditar que um anjo os iria ajudar a que o pequeno Julen “saia daqui o mais rápido possível”. Vitória continua no quintal — onde tantas vezes Julen passava algum tempo — a pedir um milagre. Sabe que só mesmo um milagre o pode trazer de volta. “Se estiver morto, o que era um enorme azar, que o tirem de lá. Só tem dois aninhos“, lamenta.

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