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▲Capaz de mobilizar diferentes setores do eleitorado turco, Ekrem İmamoğlu ocupa atualmente o cargo que pertenceu ao atual Chefe de Estado turco: o de autarca de Istambul

dpa/picture alliance via Getty I

▲Capaz de mobilizar diferentes setores do eleitorado turco, Ekrem İmamoğlu ocupa atualmente o cargo que pertenceu ao atual Chefe de Estado turco: o de autarca de Istambul

dpa/picture alliance via Getty I

Do restaurante de almôndegas a inimigo número 1 de Erdoğan. Quem é Ekrem İmamoğlu, o homem que enfrenta o regime turco?

Geriu um restaurante, trabalhou numa empresa de construção e agora é tido como "candidato perfeito" para as presidenciais de 2028. Quem é Ekrem İmamoğlu, o homem que Erdoğan colocou atrás das grades?

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Meados dos anos 90, Istambul. Ekrem İmamoğlu, na altura um jovem com 25 anos, geria um restaurante em que vendia kofte, as típicas almôndegas turcas. O então autarca da maior cidade da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, visitou um dia o espaço. “Quando ele estava no início do mandato, eu recebi-o. Ele comeu almôndegas no meu restaurante. Não aceitei dinheiro”, relatou recentemente aquele viria a converter-se no inimigo político número 1 do agora Presidente.

Da restauração para a política, Ekrem İmamoğlu está detido desde a passada quarta-feira. O popular político, pertencente ao histórico Partido Republicano do Povo (CHP) fundado por Kemal Atatürk, tornou-se uma ameaça à hegemonia política de Recep Tayyip Erdoğan, que já dura há mais de duas décadas. O principal opositor ao regime é atualmente autarca de Istambul, tendo vencido as eleições em 2019 e tendo sido reeleito para o cargo o ano passado.

Capaz de mobilizar diferentes setores do eleitorado turco, Ekrem İmamoğlu ocupa atualmente o cargo que pertenceu ao agora Chefe de Estado da Turquia: o de autarca de Istambul. E pretende seguir as suas pisadas: quer candidatar-se à presidência em 2028. O homem de 53 anos é considerado aquele tem mais hipóteses para terminar com o domínio do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, sigla em turco), liderado por Recep Tayyip Erdoğan.

epa08416637 Istanbul mayor Ekrem Imamoglu poses for photos in Istanbul, Turkey, 11 May 2020 (issued 12 May 2020).  EPA/ERDEM SAHIN

▲ Ekrem İmamoğlu em Istambul

ERDEM SAHIN/EPA

Apesar da detenção, o CHP elegeu durante este fim de semana Ekrem İmamoğlu como o seu candidato às eleições presidenciais daqui a três anos. Recebido este voto de confiança, o autarca de Istambul promete não desistir. “O meu pulso é forte e não o vão conseguir torcer. Não vou recuar nem um milímetro. Vou ganhar esta guerra”, avisou o opositor este domingo, numa mensagem transmitida pelos seus advogados de defesa.

A promessa está feita, mas Ekrem İmamoğlu está a enfrentar um regime que não tolera qualquer tipo de dissidência e em que as liberdades políticas estão cada vez menos salvaguardadas. No entanto, o autarca do Istambul conta com um importante apoio: o de milhares de pessoas que estão a sair às ruas para protestar contra as últimas ações do governo turco (mais de mil foram detidas nos protestos, entre eles jornalistas).

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O estilo “calmo e eloquente” que dá “esperança” aos turcos. O que İmamoğlu tem para enervar Erdoğan?

Quando concorreu às eleições locais, em março de 2019, para a câmara de Istambul, Ekrem İmamoğlu era um nome pouco conhecido para os turcos. A sua vitória foi uma surpresa não só por ter um perfil pouco mediático, como também por a maior cidade da Turquia ser um bastião do AKP. Ganhou as eleições inesperadamente, se bem que a diferença tenha sido mínima. Numa metrópole com 15 milhões de habitantes, o CHP venceu por apenas 13 mil votos. Claramente frustrado e desagradado com o resultado, Recep Tayyip Erdoğan forçou a repetição eleitoral.

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O Presidente turco esperava reverter a tendência num segundo ato eleitoral, em junho de 2019. Não foi isso que aconteceu. Pior: Ekrem İmamoğlu melhorou o resultado nas urnas; a diferença em relação ao candidato do AKP foi de mais de 800 mil votos. Recep Tayyip Erdoğan não conseguiu salvar a face. E nas eleições do ano passado em Istambul, o autarca foi reeleito com um milhão de votos a mais do que o nome eleito pelo regime.

Três vitórias consecutivas na maior cidade e no polo económico da Turquia levaram a que Ekrem İmamoğlu ganhasse um inevitável capital político. O opositor ao regime cativou vários eleitores de centro e alargou a base eleitoral do CHP. Para isso, contribuiu, num ambiente altamente polarizado, a estratégia política da “linguagem do amor” contra a “linguagem da raiva” usada pelo regime.

epa11190899 A handout photo made available by the Turkish Presidential Press Office shows Turkish President Recep Tayyip Erdogan delivering an address during the Antalya Diplomacy Forum (ADF) in Antalya, Turkey, 01 March 2024. The third edition of the ADF runs from 01 to 03 March 2024 under the theme 'Advancing Diplomacy in Times of Turmoil'.  EPA/TURKISH PRESIDENTIAL PRESS OFFICE HANDOUT  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

▲ Erdoğan nunca escondeu a frustração pela derrota em 2019 em Istambul

TURKISH PRESIDENTIAL PRESS OFFICE HANDOUT/EPA

É uma diferença substancial em comparação com Recep Tayyip Erdoğan, que usa um discurso bastante combativo e polarizador. Em vez de se exaltar e de usar a estratégia de “nós contra eles”, Ekrem İmamoğlu prefere construir pontes. O eleitorado vê, deste modo, o autarca de Istambul como “calmo e eloquente”, não perdendo as estribeiras facilmente. “É capaz de dar esperança a uma população deprimida pelo discurso agressivo” dos políticos na Turquia, escreve o Le Monde.

Para além do discurso menos divisor do que o de Recep Tayyip Erdoğan, a grande vantagem de Ekrem İmamoğlu é que cativa vários grupos religiosos e sociais. Desde alauítas a migrantes internos que residem em Istambul, é considerado o “candidato perfeito” para derrotar o atual Presidente. À Associated Press, Berk Esen, cientista político na Universidade Sabanci de Istambul, assinalou que o opositor vem de um meio conservador, tem um background sunita, uma esposa carismática e uma rede densa de contactos.

Esses fatores foram fundamentais para a vitória nas eleições em Istambul. E podem igualmente alavancar a candidatura presidencial de Ekrem İmamoğlu em 2028. Por isso, tudo indica que o regime da Turquia está a agir para impedir uma surpresa idêntica à que ocorreu nas eleições locais de 2019. Ainda que não seja claro se Recep Tayyip Erdoğan se vai recandidatar (uma vez que expirou os mandatos previstos para Constituição), o AKP pretende manter-se como a força dominante na política turca.

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▲ İmamoğlu celebra a reeleição na autarquia de Istambul em 2024

Getty Images

Antes da detenção, já tinha surgido um aviso a Ekrem İmamoğlu, de modo a que não avançasse para a presidência. A Universidade de Istambul anulou na terça-feira passada os diplomas que comprovavam a licenciatura do autarca, alegando para o efeito as conclusões de uma comissão de investigação interna sobre uma suposta “falsificação de documentos oficiais”. Isso impossibilita a candidatura do opositor, uma vez que, de acordo com a Constituição turca, quem concorre ao cargo de Presidente deve possuir um diploma do ensino superior.

Nem 24 horas depois deste aviso, o autarca foi detido. Depois do aviso, Recep Tayyip Erdoğan quis estancar o mal pela raiz e impossibilitar de vez a candidatura do rival. “Erdoğan tinha a esperança de que poderia desacelerar, se não dificultar, as chances de candidatura de İmamoğlu. Mas o CHP decidiu convocar as primárias e tornou-se claro que İmamoğlu poderia ser o candidato do CHP, por isso Erdoğan agiu rapidamente”, constata Berk Esen.

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Futebol, restauração e construção. A vida de İmamoğlu antes da política

A par da restauração, onde geria o restaurante que servia almôndegas turcas, Ekrem İmamoğlu teve outras experiências profissionais antes de entrar para a política. Nascido em 1970 no norte da Turquia, em Trabzon, na costa do Mar Negro, o opositor ao regime pertenceu a um meio bastante politizado — o pai, Hasan İmamoğlu, foi um dos fundadores do Partido da Pátria, que idelogicamente se identificava com o centro-direita. A infância foi feliz, como contou à Reuters o político, e “rodeada de natureza, mar e pedras da calçada”.

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▲ Trabzon, a cidade onde nasceu İmamoğlu

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No ensino superior, Ekrem İmamoğlu teve a oportunidade de estudar na República Turca do Chipre do Norte. Na altura, a ilha do Mediterrâneo já estava dividida em duas zonas — uma grega (a República do Chipre, que está hoje em dia na União Europeia) e o Chipre do Norte, uma região que proclamou a independência nos anos 80 com o apoio de Ancara e na sequência de um invasão turca. Hoje em dia, o Chipre do Norte apenas é reconhecido pela Turquia. 

A família mudou-se depois para Istambul e Ekrem İmamoğlu decidiu ir viver com os pais, estudando Gestão naquela cidade, onde se licenciou e tirou um mestrado em Gestão de Empresas. Quando acabou os estudos em 1994, entrou no ramo da construção e trabalhou na empresa familiar Imamoglu Insaat, ao mesmo tempo que geria o restaurante de almôndegas na maior cidade da Turquia. Em 2002, somou uma nova experiência: o gestor integrou a SAD da equipa de futebol do Trabzonspor, um dos clubes mais populares na Turquia.

A política entrou até tarde na vida de Ekrem İmamoğlu; apenas em 2008, aos 37 anos. Apesar de ter nascido num meio mais à direita e conservador, o gestor decidiu ingressar no Partido Republicano do Povo, de centro-esquerda. Identificou-se, assim, como um social-democrata — e indicou que a passagem pelo Chipre do Norte foi fundamental para se posicionar ideologicamente.

Na sua vida pessoal, Ekrem İmamoğlu casou-se aos 25 anos com Dilek İmamoğlu, com quem teve três filhos. Como escreve a BBC, a mulher tem-se dedicado à caridade, ajudando os mais desfavorecidos — e desempenhando um papel quase de primeira-dama. Adicionalmente, converteu-se numa figura popular nas redes sociais, onde expressa apoio ao marido e partilha as suas opiniões, cativando pelo meio o eleitorado feminino.

Nos protestos contra a detenção do marido, Dilek İmamoğlu tem surgido em destaque: falando para multidões e participando nas manifestações, não se resignando a um papel secundário. Já tratando o marido como “Presidente”, a mulher de 50 anos fez várias publicações nas redes sociais contra o regime. Numa delas, deixou um aviso a Recep Tayyip Erdoğan: “Ele vai derrotá-lo quer esteja atrás das grades, ou cá fora”.

O caminho político e as ideias de İmamoğlu

Seis anos depois de entrar no CHP, Ekrem İmamoğlu teve o seu primeiro desafio político: candidatar-se para liderar a localidade de Beylikduzu, pertencente à área metropolitana de Istambul. Venceu essas eleições e ficou conhecido pela forma próxima e tolerante como governava. O seu estilo não passou despercebido a Kemal Kılıçdaroğlu, o antigo candidato presidencial em 2023 e líder do Partido Republicano do Povo, que o escolheu para se candidatar à autarquia de Istambul, apesar de ser praticamente um desconhecido.

▲ Antigo candidato presidencial Kılıçdaroğlu confiou em İmamoğlu para se candidatar à liderança de Istambul

CEM TURKEL/EPA

Ekrem İmamoğlu venceu as eleições duas vezes e foi reeleito o ano passado. O sucesso está ligado ao seu estilo unificador e pacificador, que cativa grupos étnicos como os curdos ou os alauítas, importantes minorias cujo sentido de voto tem um impacto nos resultados eleitorais. Simultaneamente, a sua passagem no mundo dos negócios e da construção concedeu-lhe credibilidade e contactos importantes.

Houve igualmente um esforço de moderação por parte do político. O CHP sempre se assumiu como um partido secular, tendo como base os ideais de Kemal Atatürk. Mas Ekrem İmamoğlu também tentou piscar o olho a um eleitorado mais conservador — que tipicamente vota no AKP —, visitando frequentemente mesquitas e afastando-se de um retórica menos conciliatória com o islamismo. O facto de o pai ter fundado um partido de centro-direita também ajuda a apresentar o político como um moderado. 

A perceção pública do político é, portanto, bastante positiva entre o eleitorado. “Ekrem İmamoğlu é um social-democrata pró-europeu. Como vem de uma família de centro-direita, também está familiarizado com o que pensam os eleitores de direita e qual é o seu mundo cultural”, define o professor na Kent University de Istambul, Banu Örmeci, num artigo na revista académica Politikaakademisi.

"Ekrem İmamoğlu é um social-democrata pró-europeu. Como vem de uma família de centro-direita, também está familiarizado com o que pensam os eleitores de direita e qual é o seu mundo cultural"
Banu Örmeci, professor na Kent University de Istambul

Enquanto autarca de Istambul, Ekrem İmamoğlu fez das suas bandeiras a luta contra a corrupção e a melhoria das condições de vida da população da maior cidade de Turquia, um país que ainda enfrenta uma grave crise económica. Porém, há várias questões, como sinaliza Banu Örmeci, em que o opositor ao regime nunca deu uma resposta concreta. “Ele responde a todas as questões de uma forma gentil e civilizada. Mas as suas visões nos problemas mais prementes da Turquia, como a questão curda ou o problema do Chipre, ainda são desconhecidas”, nota o professor universitário.

É, como vários analistas definem, o “candidato perfeito” para concorrer às presidenciais e derrotar Recep Tayyip Erdoğan, mas que ainda não definiu claramente o seu posicionamento em vários assuntos, especialmente no que diz respeito à política externa. Houve, ainda assim, um assunto em que se pronunciou — e cujas declarações provocaram várias críticas entre os opositores: a guerra na Faixa de Gaza.

Numa entrevista à CNN Internacional, no início de 2024, Ekrem İmamoğlu declarou que o “Hamas cometeu claramente um ataque em Israel”: “Estamos profundamente tristes por isso e qualquer estrutura organizada que perpetre ataques terroristas e mate pessoas em massa é considerado para nós uma organização terrorista”. “Infelizmente, a mesma coisa está a acontecer a palestinianos inocentes. Eu apelo para que a oposição brutal dos palestinianos cesse imediatamente.”

"Hamas cometeu claramente um ataque em Israel. Estamos profundamente tristes por isso e qualquer estrutura organizada que perpetre ataques terroristas e mate pessoas em massa é considerado para nós uma organização terrorista"
İmamoğlu sobre Hamas e Israel

Estas declarações motivaram vários críticas, principalmente vindas do regime. Recep Tayyip Erdoğan tem apoiado o Hamas e é bastante próximo do grupo islâmico. Não é de estranhar, portanto, que o regime o tenha acusado de ignorar o sofrimento dos palestinianos. Ao mesmo tempo, foi um ensaio para se posicionar enquanto futuro candidato presidencial. Ouvido pela agência de notícias Medialine, Salim Cevik, membro do think tank alemão Stiftung Wissenschaft und Politik, considera que foi uma forma de mostrar que também aborda assuntos de política externa e que não se foca apenas em questões internas. Contudo, o especialista ressalva que não “sabe se foi muito inteligente” comentar um “tópico tão controverso e sensível”.

Detido há quase uma semana, o “candidato perfeito” para a alternância política — que agrada a várias parcelas do eleitorado — vai ter um caminho difícil para eventualmente chegar à presidência. Recep Tayyip Erdoğan nunca esqueceu a humilhação que sofreu nas eleições locais de 2019 em Istambul. Com um pulso cada vez mais firme, o Presidente turco mostra estar disposto, em 2028, a fazer tudo para que não haja outra surpresa desagradável.

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