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A imagem é simbólica. O Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, recebia o seu homólogo ucraniano em Ancara. Chovia a 18 de fevereiro na capital turca. O líder turco decidiu pegar num grande guarda-chuva preto e abrigar Volodymyr Zelensky. Ao mesmo tempo que tinha lugar este encontro, as delegações russas e norte-americanas estavam a discutir um possível acordo de paz para terminar a guerra na Ucrânia em Jeddah, na Arábia Saudita, num gesto diplomático que irritou Kiev e até a Europa. Por causa deste contexto, a fotografia ganhou uma importância significativa: num momento negativo, em que os ucranianos sentiam estar fora da mesa das negociações, o chefe de Estado turco amparava a Ucrânia.
Desde o início da guerra, a Turquia tem apoiado a Ucrânia: enviou drones, munições, mísseis e armas para combater os russos. O apoio turco não foi irrelevante; o país é um dos mais fortes militarmente no mundo e possui um complexo militar-industrial bastante desenvolvido e inovador. No âmbito da NATO, de que também faz parte, Ancara tem o segundo maior número de militares, apenas atrás dos Estados Unidos da América (EUA).
Este poderio turco ganhou em 2025 uma nova importância. Para além de apoiar a Ucrânia, a Turquia pretende assumir um papel na Defesa europeia. Desde que o Presidente Donald Trump regressou à Casa Branca, a União Europeia (UE) sentiu a necessidade de se rearmar, tendo a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, apresentado recentemente um plano para fomentar os investimentos na área da Defesa dos Estados-membros. Os receios de que o Presidente norte-americano possa virar costas aos aliados da NATO e a hipótese de a Rússia sair fortalecida de um acordo de paz vantajoso na Ucrânia fizeram soar os alarmes entre os 27.
▲ Drones Baykar, um dos mais avançados do mundo — e que a Turquia forneceu à Ucrânia
dia images via Getty Images
Tendo como base a importância que os dirigentes europeus têm colocado na área da Defesa, Recep Tayyip Erdoğan declarou que a Turquia continua a ter um “objetivo estratégico”: aderir à União Europeia. Numa conferência de imprensa em Ancara ao lado do primeiro-ministro da Polónia (país que assume a presidência do Conselho Europeu), Donald Tusk, o Presidente turco realçou que “apenas a entrada da Turquia pode prevenir ou reverter a falta de poder e influência” da UE.
O processo de adesão à Turquia ao bloco comunitário encontra-se congelado há cerca de uma década. A entrada na UE continuava publicamente a ser um objetivo a longo prazo do regime turco, mas servia essencialmente para não desagradar a opinião pública. Na prática, Ancara afastava-se cada vez mais de Bruxelas. No entanto, o jogo mudou desde janeiro. Numa Europa à procura da sua independência na Defesa, Recep Tayyip Erdoğan deixou claro que espera aprofundar a “cooperação com a UE baseada em benefícios mútuos e respeito”. Mas este clima de aproximação pode ter sofrido um revés esta semana.
O “evento depressivo” desta semana que pode afastar Ancara de Bruxelas
É considerado uma “pedra no sapato” de Recep Tayyip Erdoğan. O autarca de Istambul e uma das figuras de proa da oposição turca, Ekrem İmamoğlu, foi detido na passada quarta-feira na sua residência. A Justiça turca acusou o autarca da maior cidade da Turquia da prática de alegados crimes de corrupção e de “colaboração com grupos terroristas”, nomeadamente as milícias curdas.
▲ Ekrem İmamoğlu, a "pedra no sapato" de Erdoğan
ERDEM SAHIN/EPA
Ekrem İmamoğlu seria, muito provavelmente, o candidato escolhido pelo Partido Republicano do Povo (CHP, sigla em turco, de centro-esquerda), a principal força partidária de oposição ao Presidente, que tinha eleições primárias marcadas para este domingo, a fim de escolher quem concorreria às presidenciais de 2028. Popular e capaz de mobilizar o eleitorado, o autarca de Istambul era o rosto que tinha mais hipóteses para levar à alternância política na Turquia, país que é governado por Recep Tayyip Erdoğan e pelos seus aliados há mais de duas décadas.
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Ainda que as eleições de 2028 estejam distantes, a candidatura de Ekrem İmamoğlu poderia fazer mossa. No Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP, sigla em turco) — liderado por Recep Tayyip Erdoğan —, ainda existe uma incógnita sobre quem será o candidato. O atual Presidente esgotou os mandatos previstos pela Constituição e, em teoria, não pode voltar a concorrer às presidenciais. Porém, já foi admitido pelo AKP que poderá ser realizada uma alteração constitucional, de forma a que o atual chefe de Estado avance com uma recandidatura. Em alternativa, caso se realizem eleições antecipadas, Recep Tayyip Erdoğan, de 71 anos, pode voltar a candidatar-se.
Num regime centralizado na figura de Erdoğan e em que os opositores tem perdido importantes direitos políticos ao longo das últimas décadas, a detenção do seu rival pode ser já uma forma de ajudar a sua muito provável candidatura. Antes de İmamoğlu ter sido detido, já tinha havido um aviso. A Universidade de Istambul (estatal) anulou na terça-feira os diplomas que comprovavam a licenciatura de 28 pessoas, incluindo o do autarca, alegando para o efeito as conclusões de uma comissão de investigação interna sobre uma suposta “falsificação de documentos oficiais”.
▲ Erdoğan já esgotou mandatos previstos pela Constitução
NECATI SAVAS/EPA
A decisão não causa apenas danos na reputação de Ekrem İmamoğlu — impede mesmo que se candidate às eleições. De acordo com a Constituição turca, quem concorre à presidência do país deve possuir um diploma do ensino superior. Todos estes fatores indicam que o regime turco pretende obrigar o autarca de Istambul a desistir da candidatura, não estando de parte um acerto de contas.
Em 2019, Ekrem İmamoğlu venceu duas vezes (uma vez que o Presidente ordenou a repetição eleitoral) as eleições da maior cidade da Turquia, acabando com a hegemonia de 25 anos do AKP na localidade. O resultado foi encarado como uma humilhação para Erdoğan. Em 2024, o autarca de Istambul foi reeleito, melhorando o resultado de há cinco anos. Aliás, nas eleições locais que tiveram lugar o ano passado, o CHP sagrou-se como grande vencedor, derrotando o partido do Presidente turco nas principais cidades, como Ancara, İzmir ou Bursa.
Face à derrota e à animosidade que sente por İmamoğlu, o regime terá agido para evitar uma derrota em 2028. Não obstante, isso entra em conflito com o “objetivo estratégico” do país de entrar na UE. Numa União Europeia defensora do Estado de Direito, do pluralismo político e da liberdade, a detenção não foi vista com bons olhos. Num comunicado conjunto assinado pela chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, e pela comissária do Alargamento, Marta Kos, condena-se a “detenção do autarca de Istambul, assim como as detenções feitas contra dirigentes, ativistas políticos, sociedade civil, representantes financeiros e jornalistas”, colocando em causa “a adesão da Turquia à tradição democrática”.
▲ Chefe da diplomacia europeia condenou detenção de Ekrem İmamoğlu
CHRIS RATCLIFFE / POOL/EPA
Kaja Kallas e Marta Kos deixaram ainda dois avisos no comunicado. O primeiro: “Como candidata da UE, espera-se que a Turquia leve a cabo os mais elevados padrões e práticas democráticas”. O segundo: “O respeito pelos direitos fundamentais e pelo Estado de Direito são essenciais para o processo de adesão da UE. Vão continuar a ser uma parte integral das relações entre UE-Turquia”. As responsáveis comunitárias deixaram bem claro que a adesão à União Europeia acarreta a concordância com certos valores e a abstinência de certas práticas de regimes tipicamente autocratas.
Quem também demonstrou a sua insatisfação foi o chanceler alemão. No X, Olaf Scholz lamentou o “evento depressivo” para a democracia turca e para o futuro da relação com a União Europeia. “Fizemos grandes esforços para melhorar as relações entre a Europa e a Turquia”, lembrou o líder germânico.
Vai este caso ter impacto no futuro numa possível adesão da Turquia à União Europeia? Apenas a curto prazo, aponta Hürcan Aslı Aksoy, líder do Centro de Estudos Turcos Aplicados em Berlim. Ao Observador, lembra que a “nível discursivo” já houve condenações de líderes europeus e das instituições comunitárias à detenção de Ekrem İmamoğlu. Contudo, a especialista acredita que, “a médio prazo, Ancara está a contar melhorar as relações com a UE, pelo menos na segurança e na economia”.
We have made great efforts to further improve relations between Europe and Turkey. The arrest of Istanbul’s Mayor Ekrem İmamoğlu is a depressing event for Turkish democracy and for our relationship. The political opposition is not to be put on trial.
— Bundeskanzler Olaf Scholz (@Bundeskanzler) March 20, 2025
Adesão da UE à Turquia? “É moeda de troca diplomática”
São vários os critérios que a União Europeia exige antes da adesão de um país — a defesa da democracia, o respeito pela dignidade humana e os direitos humanos são valores que estão na base do projeto europeu. Ora, a Turquia tem-se mostrado reticente em se adaptar às exigências de Bruxelas e até tem havido retrocessos. Em 2016, Recep Tayyip Erdoğan reintroduziu a pena de morte, uma autêntica linha vermelha para a UE.
Apesar de ter renovado o interesse da Turquia aderir à UE, Erdoğan também não demonstra grande abertura para introduzir reformas que coloquem o país definitivamente no caminho europeu. Neste sentido, Hürcan Aslı Aksoy refere que a ideia da adesão ao bloco comunitário é algo “que o Presidente turco e a liderança do AKP repetem sempre” — mas não como um plano a longo prazo. Em vez disso, a especialista frisa que é uma “narrativa usada estrategicamente” para dois objetivos: agradar à opinião pública turca que deseja ver o país na UE e “ajudar a manter as relações próximas com a Europa”.
Ao Observador, Hakkı Taş, membro do Instituto Alemão de Estudos Globais e especialista na política turca, clarifica o posicionamento da presidência turca: “A abordagem de Erdoğan é moldada por estratégias a curto prazo e transacionais, mais do que compromissos políticos a longo prazo. O líder turco deseja manter a adesão da Turquia à UE na agenda — quer usar isso como instrumento político interno e como moeda de troca diplomática”.
Dito doutro modo, na ótica da presidência turca, a adesão à União Europeia é um taticismo para encetar uma aproximação à Europa, quando percebe que isso pode ser útil geopolítica e estrategicamente. “A adesão efetiva nem é fazível, nem é desejada de forma genuína”, analisa Hakkı Taş, sublinhando: “Dada a inabilidade de a Turquia cumprir com os critérios da UE, a adesão total é improvável”. O especialista recorda igualmente que, desde 2020, a Turquia tem feito “esforços de normalização das relações” com países europeus; assim, este recente esforço não é “nada de novo”.
No entanto, Recep Tayyip Erdoğan percebe que o atual momento é o indicado para agir. “Após a ameaça de retirada de apoio e a acusação de que os poderes europeus não pagam o suficiente para a NATO, a União Europeia enfrenta os seus maiores desafios de segurança”, assinala Hürcan Aslı Aksoy. E o Presidente turco sabe ler o atual momento geopolítico, salienta a especialista: “Ancara entende que significado pode ter para o futuro da segurança europeia”.
Hakkı Taş subscreve que o Presidente turco percebe que as “preocupações de segurança são crescentes” na Europa, por causa de “já não poder confiar nos EUA” e da política expansionista de Moscovo. Se por um lado a ajuda turca neste momento tão crítico pode trazer certos benefícios da União Europeia a Ancara, por outro também se coaduna com os interesses geopolíticos de Ancara. “Alinha-se com o objetivo mais amplo de atingir autonomia estratégica e diversificar as suas parceiras internacionais”, diz o membro do Instituto Alemão de Estudos Globais.
▲ Possibilidade de Trump esvaziar NATO faz Erdogan aproximar-se dos europeus
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A Rússia como inimiga comum e Trump próximo de Moscovo. A confluência entre UE e Turquia
Se é verdade que a Turquia apoiou militarmente a Ucrânia desde o início da invasão, também é certo que o país manteve boas relações com o Kremlin durante os últimos três anos. Erdoğan falou várias vezes ao telefone e até se encontrou presencialmente com o seu homólogo russo, Vladimir Putin, e nunca impôs quaisquer sanções à Rússia. O posicionamento turco define-se por um equilibrismo constante entre os dois lados. Ancara apoia a soberania e integridade territorial ucraniana e condena a invasão, ao mesmo tempo que mantém relações económicas com Moscovo.
Esta posição de agradar aos dois lados causa desconfiança na Europa, que vê em Moscovo a principal ameaça geopolítica. Mas também é certo que a Turquia deseja que a Rússia não acabe com uma vitória retumbante na Ucrânia. Afinal, os dois países competem pela mesma zona de influência: o Mar Negro. Logo após a invasão, as autoridades turcas bloquearam os estreitos do Bósforo e de Dardanelos, o que impossibilitou que navios russos se abastecessem, diminuindo assim o poderio naval de Moscovo.
Além dos princípios de solidariedade e respeito pelo Direito Internacional, a Turquia possui interesses estratégicos em apoiar a resistência da Ucrânia. “A Ucrânia ocupa um lugar essencial na estratégia da Turquia em contrabalançar a influência da Rússia no Mar Negro. Se a Ucrânia perde a soberania e se a Rússia tenta conquistar Odessa, cortando o acesso da Ucrânia ao Mar Negro, isso representa uma ameaça direta para a Turquia”, explica ao jornal Telegraph Galip Dalay, analista do think tank Chatham House.
▲ Erdogan tem interesses geopolíticos em manter apoio à Ucrânia
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Nas últimas décadas (e até séculos), as relações entre Ancara e Moscovo pautaram-se pelo pragmatismo. Atualmente, Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdoğan até mantêm uma boa relação pessoal, mas há temas em que estão em polos distintos — a Ucrânia é um deles, mas a guerra civil síria também o foi, uma vez que apoiaram fações distintas no conflito.
Isso não significa que não tenha havido um certo equilibrismo turco entre a Rússia e o Ocidente, agradando aos dois lados. Mas essa estratégia está agora em risco. A administração Trump tem aproximado Washington de Moscovo — e isso são más notícias para Ancara. Num cenário em que a NATO que não é uma verdadeira garantia de segurança e existe uma Rússia possivelmente fortalecida, a única aliada que sobra à Turquia é a Europa.
Existe, portanto, uma confluência de vontades: a Europa e a Turquia ambicionam que a Rússia não saia com mais força da guerra da Ucrânia. A possibilidade de Donald Trump favorecer o lado russo em negociações de paz sobressalta quer Ancara, quer as capitais europeias. E é nessa premissa que Erdoğan e alguns dirigentes europeus estão a ensaiar uma aproximação.
▲ Putin e Erdogan não escondem boa relação pessoal, mas mantém posições divergentes em vários assuntos
VLADIMIR SMIRNOVSPUTNIK/KREMLIN POOL/EPA
Forças Armadas potentes vs. revisão do acordo de união aduaneira. O que ganham a UE e a Turquia em se aliarem?
Em Londres, no primeiro encontro a que o primeiro-ministro Keir Starmer chamou de “coligação de boa vontade” para ajudar a Ucrânia a alcançar uma paz justa e duradoura, estiveram presentes representantes de vários países. Um deles foi o ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Hakan Fidan. A presença do chefe da diplomacia da Turquia estava essencialmente relacionada com um tópico: a disponibilidade demonstrada pela Turquia de enviar militares para integrar as forças de manutenção de paz na Ucrânia.
Essa iniciativa turca caiu bem junto dos dirigentes europeus. No encontro com o Presidente do país, Donald Tusk assinalou que a Turquia pode desempenhar um papel de “co-responsabilidade” durante o “processo de paz” na Ucrânia, garantindo “estabilidade e segurança em toda a Europa”. “Sabemos bem o que queremos para a Ucrânia, o que queremos para a região, o que queremos para a Europa”, declarou o primeiro-ministro da Polónia.
À Reuters, um dirigente europeu também comentou “as estrelas alinharam-se” para a Turquia “desempenhar um papel nas garantias europeias para a Ucrânia”, recordando que o país já não está dependente da Rússia para influenciar a Síria — uma vez que Bashar al-Assad, o antigo Presidente pró-russo, foi deposto em dezembro de 2024. “Os interesses de Erdoğan estão [com os europeus] agora, especialmente porque ele já não tem a dinâmica com a Rússia na Síria.”
▲ Chefe da diplomacia turca com Keir Starmer em Londres na cimeira europeia de segurança
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Na ótica turca, as forças de manutenção de paz na Ucrânia seriam um primeiro passo para convencer os dirigentes europeus de que necessitam da Turquia para elaborarem a sua arquitetura de segurança. Em declarações à Bloomberg, o analista Hasan Yukselen sinaliza que Erdoğan mostra que é um “aliado estratégico da NATO quando o Ocidente está com problemas”. “A Turquia desempenhou um papel importante em conter a União Soviética durante a Guerra Fria e emerge como um país que pode ajudar a acabar com conflitos e estabilizar a região.”
O próprio Presidente turco já expressou que a segurança da Europa é “indissociável” da Turquia. “Os nossos amigos europeus deviam enfrentar essa realidade e avançar com o processo de adesão total com uma abordagem visionária”, definiu Recep Tayyip Erdoğan no início de março, acrescentando que “a Turquia tem um novo papel a desempenhar e a Europa deve determinar as suas estratégias de acordo com isso”.
Com umas Forças Armadas de 400 mil homens e uma indústria militar potente que desenvolve drones e veículos de combate de ponta, a Turquia pode ser um acréscimo importante para as capacidades defensivas europeias. E com uma grande vantagem: as tropas turcas conhecem em grande detalhe as táticas de guerra russas, devido a conflitos passados como a guerra civil síria.
“A Turquia tem uma forte experiência operacional no que diz respeito a confrontar a Rússia ou grupos apoiados pela Rússia de uma forma que os europeus não têm tido nos últimos anos”, diz Nigar Goksel, membro do think tank International Crisis Group ao Telegraph, sublinhando também que as Forças Armadas turcas “têm experiência em agir de forma autónoma, o que outros países europeus não têm, já que agem dentro das missões da NATO sob comando norte-americano”.
Coincidindo no objetivo de a Rússia não estar numa posição de força, a Turquia quer explorar os dividendos que uma relação mais aprofundada com a UE lhe pode trazer. Publicamente, é a adesão à União Europeia, ainda que os especialistas ouvidos pelo Observador duvidam muito que isso vá acontecer. Nos bastidores, são outros interesses que guiam Ancara.
Como apurou a Bloomberg junto de pessoas conhecedoras do processo, uma cooperação na Defesa pode dar azo a que se reabre as discussões sobre como melhorar o acordo de união aduaneira entre Ancara e Bruxelas. Simultaneamente, a Turquia pretende que se flexibilize a entrada de cidadãos turcos dentro do Espaço Schengen, almejando a que não sejam necessários vistos para o efeito.
▲ Relação entre a União Europeia e a Turquia pode ter benefícios para ambas as partes
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Ainda na área da Defesa, a Turquia ficaria satisfeita se fosse integrada no Mecanismo Europeu para a Paz, um instrumento criado para apoiar as Forças Armadas de países terceiros a para prevenir conflitos. “Em vez de incluir a Turquia em projeto à la carte, seria mais lógico para a Europa procurar parceiras [com a Turquia] de uma forma mais holística”, revelou uma fonte turca à Reuters.
Num mundo com novas dinâmicas geopolíticas, a Turquia olha para a Europa como uma aliada a ter em conta. Com medo de ficar sozinha num mundo hostil, os europeus olham para as Forças Armadas turcas como uma importante força de dissuasão. Para aceitar o apoio de Ancara, o velho continente vai ter, não obstante, de fechar os olhos à maneira como Recep Tayyip Erdoğan se tenta manter no poder e tenta enfraquecer todos aqueles que façam frente ao regime.