Para lá do prestígio, da história e do sem-número de artistas lendários que pisaram o seu palco, o auditório principal do Carnegie Hall, de Nova Iorque, distingue-se por aliar a sobriedade abastada da sua decoração à qualidade de som que oferece a todos aqueles que entram pelas suas portas. No entanto, nem a melhor acústica do mundo estaria preparada para o rugido que se ouviu este sábado à noite. Mais do que abanar os alicerces, o pedido gritado na língua de Camões de “só mais uma!” feito a partir de um dos balcões quando o concerto “Amália na América – Além do Fado” chegou ao fim foi o sinal de que, por breves horas, a famosa sala de espetáculos passara de uma instituição norte-americana para uma casa portuguesa, com certeza.
Foi sob abraços sentidos e cumprimentos de quem parecia rever familiares e amigos de longa data que se celebrou Amália Rodrigues no coração de Nova Iorque, num espírito de comunhão a afastar qualquer potencial sentimento de frieza e/ou solenidade por tal estar a acontecer num salão tão venerado. A melhor forma de defini-lo está no repto que Ricardo Ribeiro — ao lado de Cristina Branco e Raquel Tavares como uma das três vozes encarregues de reinterpretar Amália — deixou ao público: “espero que o meu coração chegue aos vossos”.
Um ano antes, no Centro Cultural de Belém, este espetáculo produzido pela Égide recuperara o repertório folclórico português que Amália cantou nos EUA nos anos 60, assim como uma seleção de canções da Broadway que a fadista chegou a gravar, dando a todos estes temas novas roupagens através dos arranjos de Carlos Azevedo, Filipe Raposo, Daniel Bernardes, Pedro Moreira e Pedro Duarte. Explicava-se assim a sua dimensão “além do fado”. No entanto, dois fatores confluíram em 2025 para subir a parada e fazer do título “Amália na América” algo literal: as celebrações dos 40 anos da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e dos 50 anos desde que a voz-maior de Portugal se estreou nesta mesma sala de espetáculos.
Amália morreu há 20 anos. Porque é que a voz dela era especial?
Assim, mais do que voltar a celebrar a figura de Amália, tanto os fadistas já mencionados como a Orquestra Sinfónica Portuguesa tiveram então a responsabilidade acrescida de atravessar o oceano para honrar o papel que a cantora teve enquanto embaixadora da cultura nacional. De caminho, se a nível individual, os três solistas passaram a integrar um lote extremamente reduzido de artistas nacional que atuaram no auditório do Carnegie Hall, ao lado de nomes como Maria João Pires, Celeste Rodrigues, Dulce Pontes e Mariza, os músicos liderados pelo maestro Jan Wierzba cumpriram o feito de ser a primeira orquestra de origem portuguesa a tocar em solo americano.
Uma “leveza” nascida sob a pressão do dever
Alguns dias antes do concerto, dentro de um barracão pré-fabricado instalado no Teatro São Carlos, solistas e orquestra ultimam preparativos num ensaio antes da viagem para os EUA. Tiram-se dúvidas entre os músicos e definem-se detalhes, corrigem-se timings para que os solistas não entrem fora de tempo ou não se atropelem na música que vão cantar todos juntos. Vemos Jan Wierzba particularmente enérgico, a dar indicações à orquestra, para cortar esta e aquela parte e fazer uma determinada suspensão para entrar certo instrumento — linguagem alienígena para os leigos, instruções absolutamente claras para os demais.
O ambiente é de concentração e de um certo nervoso miudinho. O Carnegie Hall “não é uma casa de fados, é uma das salas mais emblemáticas do mundo e pensar no histórico daquela sala traz-nos uma responsabilidade acrescida”, assume Raquel Tavares. De resto, os três, donos de carreiras internacionais, já atuaram mais do que uma vez em Nova Iorque, mas esta ocasião é tão excecional que a encaram como se fosse uma estreia na cidade norte-americana. “Acho que não há nada que se vá comparar, podemos fazer muitas coisas, já todos fizemos muito aqui, mas acho que este é um momento singular na vida e na carreira de cada um”, completa a fadista.
No entanto, o clima também não é tenso, até porque é o próprio maestro a trazer alguma leveza ao processo. “Falta-nos [ensaiar] a Gaivota”, avisa Wierzba, fazendo de seguida o som dessa ave, tornada ícone do fado. Já alguns dias depois, no derradeiro ensaio geral no auditório do Carnegie Hall antes da atuação, vimo-lo sair do seu pódio durante Ai Mouraria para vir sentar-se na plateia, tentando perceber como se ouve do lado do público e causando o efeito curioso de deixar Ricardo Ribeiro a cantar sozinho, como se fosse ele a conduzir a orquestra.
▲ Momentos do ensaio a 8 de outubro, nas vésperas da comitiva portuguesa viajar para Nova Iorque
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
É um método que junta rigor a descontração, uma das chaves para entender todo este processo — também facilitado, sem dúvida, pelo facto de todos os músicos já se conhecerem e trabalharem sobre estes temas desde o espetáculo de 2024. “O acompanhamento já foi de outra maneira. Já estão mais entrosados, já estão mais connosco, e portanto a capacidade de cantar com a orquestra já é diferente, já se consegue estar ‘mais livre’, afirma Ricardo Ribeiro. Mais à frente, postula que na música há “a arte de acompanhar e a humildade de ser acompanhado”. “E, portanto, quando o cantor tem noção de que está a ser acompanhado e que tem de ser um corpo só e que tem que atingir a unidade para que tudo soe a uma coisa só, é quando a música acontece”, completa.
O papel de Wierzba, no entanto, não é de somenos. O fadista, que já tinha trabalhado com o maestro luso-polaco quando levou a Toada de Portalegre de José Régio ao São Luiz em 2016, considera-o “um harmonioso, porque a harmonia é a capacidade de juntar os opostos, de os harmonizar no justo caminho do meio”. Já Cristina Branco classifica-o como “absolutamente brilhante”. “Ele dá uma liberdade fenomenal a quem está a cantar, nunca largando a orquestra. Ou seja, é alguém que sabe comandar, fazendo com que nós cantores tenhamos sempre uma palavra a dizer e possamos sempre ser nós próprios, fazendo com que a orquestra vá ao encontro daquilo que nós estamos a desenhar na voz. E claro que isso dá uma leveza à própria orquestra, ou seja, não há tensões, ele cria uma respiração daquele corpo único e permite que nós possamos dançar em cima daquilo tudo”, afirma.
Note-se uma das palavras utilizadas, “leveza”, empregue noutro contexto por Raquel Tavares, mas que contribui para a mesma sensação. Ela, que se assume como não tendo sido originalmente uma devota de Amália Rodrigues, mas alguém que, mesmo com uma carreira longa, ainda está a apanhar o comboio amaliano para compreender a sua linguagem musical, explica que como todos os fatores e desafios a rodear este espetáculo “podiam de alguma maneira pesar, mas que, no todo, trazem uma sensação de leveza extraordinária”, em parte por se sentir integrada num todo.
Esse entrosamento também se manifestou na própria forma como cada um, de forma desinteressada, escolheu o repertório que melhor encaixa no seu estilo e voz e deixou para os colegas as canções que sentiu serem mais adequadas. Raquel e Ricardo, por exemplo, não têm pejo em afirmar que nunca seriam capazes de cantar os clássicos da Broadway em inglês como Cristina. “O que tu fazes é sublime. É de uma extrema dificuldade. Não é cantar em inglês, é a maneira como tu defendeste este repertório e a proximidade emocional que tu tens com ele”, diz-lhe Raquel que, por sua vez, também não optou pelo Fado Amália ou Ai Mouraria, que ficam ” grandiosos, imensos na voz do Ricardo”, alguém que é “megalómano em tudo o que faz”. Este devolve-lhe o encómio, considerando a sua interpretação de Senhora de Livramento “uma coisa extraordinária”.
Tamanho é o entusiasmo com esta iniciativa que os três vão sugerindo nas várias interações que têm com os jornalistas de que gostariam que este espetáculo tivesse vida para lá destes concertos, ainda que não haja para já confirmação disso mesmo. “Gostava que pudéssemos estar a falar dele em mais salas do mundo e, naturalmente, em Portugal. Acho que tem todas as capacidades para isso, com toda a modéstia. E creio que seria um espetáculo que, daqui a um ano, se o voltarmos a repetir, ele vai ser naturalmente diferente e arrisco dizer melhor, sempre melhor”, confessa Raquel Tavares.
▲ Momento de descontração durante o ensaio geral de “Amália na América – Além do Fado”
Inês Pinto Gonçalves/FLAD
Na pior das hipóteses, porém, já terá servido para voltar a evocar o nome de Amália, algo necessário porque, aponta Ricardo Ribeiro, “os portugueses têm um problema de memória”. “É um problema do início do Atlântico e do fim do Mediterrâneo. Perdemos facilmente a memória, mas de quando em vez a Amália vive. E quando de repente parece que já não se fala dela, vem qualquer coisa que a põe outra vez onde ela merece estar”, defende. Há 73 anos, por exemplo, mereceu ombrear com a elite nova-iorquina, quando deu a conhecer os seus encantos em terras transatlânticas.
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Como a América quis Amália e Amália foi querendo a América
“Há uma rapariga portuguesa no La Vie en Rose que, para mim, é a cantora estrangeira mais arrebatadora que os nossos night clubs apresentaram, desde há muitos anos”. Foi desta forma que o lendário crítico de teatro e música, Douglas Watt, se referiu a Amália Rodrigues nas páginas da revista New Yorker, destacando não só a qualidade da sua voz — “de uma bela limpidez, assim como uma espantosa flexibilidade” —, mas também como a usava, equiparando a sua técnica ao “grito do muézin, chamando à oração, do alto da mesquita”.
Estávamos em 1952, e os EUA já tinham travado contacto com o fado — Ercília Costa, a “santa do fado”, já tinha ido ao país duas vezes, pela mão de António Ferro —, mas nunca desta maneira, numa fase em que Amália Rodrigues já começara a construir a sua lenda internacional, causando burburinho nas diferentes geografias por onde passava, cantava e ia bebericar ao cancioneiro local. Esta primeira passagem por Nova Iorque, na famosa e exclusiva boate acima mencionada, causou impacto imediato. “Era para ir por três ou quatro semanas e fiquei catorze”, afirmou a cantora ao seu biógrafo, Vítor Pavão dos Santos, em Amália: Uma Biografia.
Após o sucesso da primeira passagem, passados dois anos, Amália não só regressou ao La Vie en Rose, como se estreou no igualmente prestigiado Mocambo, em Hollywood. Pelo meio, tornou-se na primeira portuguesa a figurar na televisão americana, no popular programa do cantor Eddie Fisher (pai de Carrie Fisher), de quem ficou amiga, apesar de não ter gostado nem da experiência de cantar neste formato — “é demasiadamente frio” — nem de ter bebido Coca-Cola pela primeira vez na vida.
Esses tempos dos anos 50, conta, foram marcados por jantares com os Sinatra ou convites às festas no lendário hotel Waldorf-Astoria, onde paravam figuras como James Stewart ou Jennifer Jones e onde chegou a cantar casualmente com Nat King Cole ou Eartha Kitt. No entanto, destas passagens resultaram também solicitações mais sérias, como uma proposta por parte do ator Danny Kaye para que entrasse com ele num espetáculo da Broadway. “Eu não quis. Quem sabe, se tivesse ido, correndo-me bem as coisas, como sempre correram em toda a parte, talvez eu tivesse partido dali para uma coisa importante. Eu podia ter sido muita coisa, se não tivesse sido aquilo que sou”, admitiu. Mais à frente, terá também sido sondada para participar num filme em Hollywood, algo que também recusou.
No entanto, nem só de “nãos” se fizeram estas primeiras passagens da fadista pelos EUA. Foi neste país onde editou o seu primeiro vinil longa-duração, tecnologia recentemente estreada: Amalia Rodrigues Sings Fado From Portugal and Flamenco From Spain. Lançado em 1954 pela Angel Records, este, segundo a investigação de Miguel Carvalho em Amália – Ditadura e Revolução, terá sido financiado pela agência publicitária George Peabody and Associates, por sua vez contratada pelo Estado Novo para promover a imagem de Portugal. Amália, no entanto, sempre reclamou independência face ao regime e a António Ferro — “achava que eu era a melhor toalha que tinham em casa, mas nunca me ajudou a ser a Amália Rodrigues”, defendeu na sua biografia —, tanto que, nessa fase, recusou propostas subsequentes para gravar clássicos de Cole Porter e Ira Gershwin. “Fiquei muito contente de me terem convidado, mas estava farta da América e vim-me embora”, assume.
O seu destino, porém, cruzar-se-ia profundamente com os EUA nas décadas seguintes. Em 1964, mereceria um perfil do The New York Times, sendo descrita como “a sumo-sacerdotisa do culto do amor; dos amores perdidos, atraiçoados, amaldiçoados e não correspondidos”. Já no final da década, em atuações no clube Chateau Madrid, onde os melhores artistas ibéricos paravam na “Big Apple”, seria apontada pela revista Newsweek como “o equivalente português de Edith Piaf e Billie Holiday”, com “uma voz escura e emocionante, carregada de nuances subtis de um imenso colorido, que tornam a dor quente e a paixão fria”.
▲ Amália Rodrigues, sentada nos bastidores do Town Hall, em Nova Iorque, a 2 de novembro de 1990.
Getty Images
Pelo meio, porém, dar-se-ia a ocasião especial de explorar uma outra faceta do seu talento como cantora, a de folclorista. “O meu primeiro disco de folclore foi para a América e foi tão bem recebido que levou uma enciclopédia musical a aconselhar a não perder aquele disco”, contou, referindo-se a Amália Canta Portugal. Tal disco chamou a atenção do maestro e arranjador Andre Kostelanetz, que acabou por convidá-la para uma sequência lendária de concertos no Rose Bowl, em Los Angeles, e no Lincoln Center, em Nova Iorque, entre 1966 e 1968. Foi a sua estreia em sala nos EUA, ainda por cima acompanhada de orquestra sinfónica. “O espectáculo não foi fácil. Morri de medo!”, admitiu, não deixando ainda assim de ser um sucesso retumbante, a avaliar pelas reações do NYT e da revista Time. “Dominou o vasto auditório com a mesma facilidade com que domina os pequenos recintos”, lê-se no primeiro, ao passo que o segundo teve como título sui-generis “os prazeres do sofrimento”.
Desse espírito aventureiro não logrou a sua estreia a cantar temas do cancioneiro norte-americano ao vivo — algo que, de resto, acabou por nunca fazer — , mas, ao contrário do que acontecera nos anos 50, Amália não recusou uma segunda oportunidade de gravar estas grandes canções, em 1965. No entanto, indecisa quanto à qualidade do trabalho final, manteve o disco na gaveta até 1984, finalmente editado com o título Amália na Broadway. “Até acho que está bonito, embora a voz esteja pouco valorizada. Mas levou vinte anos a sair porque eu não me decidia. Cantei à minha maneira. Eu sei que não tenho nenhuma obrigação de pronunciar bem o inglês. Os americanos também não cantam o fado como eu canto”, atirou.
Até ao fim da sua vida, Amália continuou a encontrar nos EUA porto seguro — particularmente em Nova Iorque —, pelas melhores e as piores razões. Foi aqui que passou os últimos anos entre tratamentos a diversos problemas de saúde e onde, em 1984, julgando ter um tumor, equacionou pôr termo à própria vida, sendo “salva” pelos filmes de Fred Astaire que comprara e se pusera a visionar de forma obsessiva. “Ia vendo os filmes e ia adiando. Não é hoje, mato-me amanhã”, chegou a confessar.
Mas foi também aqui que, já com 70 anos, continuou a estrear-se em novos palcos, com o concerto que deu no Town Hall desta metrópole. “A sua voz já foi mais doce, mas o seu alcance parece inalterado, e ela faz com que a aspereza sugira angústia e determinação”, escreveu Jon Pareles para o The New York Times. Já 15 anos antes, entrou no Carnegie Hall pela primeira vez, na data que propiciou esta efeméride e perante a convulsão política de Portugal pós-25 de abril. Com a sala de braços abertos para recebê-la, tratou-se de um concerto particularmente festivo, tendo Amália transformado “grande parte do alinhamento num programa comunitário de cantar, cantarolar e bater palmas, concentrando-se nos aspetos mais leves, animados e ritmicamente persuasivos do seu repertório”.
▲ Inês Pinto Gonçalves/FLAD
Um pedaço do “velho mundo”, em cima e fora do palco
Mesmo que sem palmas ou cantigas sonoras vindas do público, é possível afirmar que o concerto “Amália na América – Além do Fado” decorreu no mesmo espírito que aquele dado pela sua homenageada meio século antes, pautando-se mais pela folia do que a circunspeção. Para tal muito ajudou que as comunidades portuguesas tenham acorrido ao Carnegie Hall para fazer essa festa, algo que ficou bem patente quando, num discurso antes do concerto começar, o presidente da FLAD, Nuno Morais Sarmento, pediu a que todos os portugueses e luso-descendentes presentes se levantassem para perceber qual era a proporção da sala. Muitos eram locais, mas houve também quem tivesse vindo de Washington D.C., da Virgínia e até da Califórnia, na outra ponta do país. Um grupo de 50, vindo das cidades a norte de New Bedford e Providence, alugou mesmo um autocarro e veio a Nova Iorque em romaria.
“Foi um momento muito poderoso”, afirmou Karlee Rodrigues, atriz e produtora de cinema de 26 anos, ao Observador no foyer da sala, após o espetáculo. “Os dois consulados portugueses em Nova Iorque e Nova Jérsia estiveram presentes. Eles estão sempre a representar as nossas comunidades em eventos como este, por isso, o facto de nos podermos reunir todos e celebrar num local como o Carnegie Hall é simplesmente fantástico”, aponta. Residente nesta cidade, Karlee faz questão de ressalvar que a sua família imigrou para Nova Jérsia quando os seus avós partiram de Portugal durante a ditadura do Estado Novo, os mesmos que ouviu cantar “as canções folclóricas regionais que a Amália cantava”. “Ouvi-las agora neste palco é muito impactante. É realmente gratificante, poder ouvir vozes portuguesas”, declara, especialmente quando teve de enfrentar questões de assimilação quando era mais jovem. “Já tive pessoas que queriam mudar o meu apelido, para soar mais americano. Agora que isso está a ser celebrado, é muito bom”, remata.
Ao seu lado, Karen Meurer Bacellar, escritora de 35 anos e que diz ter já participado no programa literário Disquiet, em Lisboa, tem uma história ainda mais tortuosa: os pais são luso-brasileiros que vieram para os EUA, sendo que todo esse passado lhe serve de inspiração — aliás, refere mesmo estar a escrever um romance que se passa na ditadura salazarista. Karen, que veio de propósito da capital dos EUA, sublinha como durante a sua infância em Massachusetts não era incentivada a celebrar a sua ascendência portuguesa, sendo isso considerado “algo foleiro”. Hoje, acredita que a maior representação mediática de Portugal — dá como exemplo a série Rabo de Peixe — está a mudar essa perceção.
Lá fora, Tânia Gomes, de 46 anos, também veio de Washington D.C. ver o concerto, mas com um incentivo extra. “Tendo crescido nos Estados Unidos como alguém de primeira geração, é muito importante para mim manter-me ligada à minha cultura. Além disso, o meu primo faz parte da orquestra, toca violoncelo”, revela. No seu caso, esta reunião não é apenas cultural, é mesmo familiar, mas aponta que o tipo de ambiente vivido no Carnegie Hall é a norma neste tipo de eventos. “É como se estivessem sempre a ver-se pela primeira vez, e isso é muito importante para nós aqui, porque é essa comunidade de pessoas que traz consigo o velho mundo”, comenta.
Esse mesmo “velho mundo” manifestou-se integralmente a partir da voz quente e aveludada de Raquel Tavares, que arrancou o concerto com a beirã Senhora do Livramento. De olhar enternecido e sorriso radiante, a cantora de 40 anos representou o lado mais solar do concerto, manifesto nos andamentos arrebitados e gaiteiros de O Trevo, Rosa Branca ao Peito ou Mané Chiné. Com Oliveirinha da Serra, chegamos ao zénite do folclore no que à penetração popular concerne, sendo audível pessoas a cantá-la entre o público. A fadista, permitindo-se a brincar com o público, chegou mesmo a fingir que a música tinha acabado para depois cantar uma última estrofe, apontando o dedo como quem diz “apanhei-vos”. A exceção à regra foi uma estupenda versão de Lírio Roxo, onde melhor pode explorar a sua profundidade interpretativa, de tal maneira que não conseguiu conter uma lágrima.
Nesta primeira fase do concerto, dedicada às canções tradicionais portuguesas, Raquel Tavares foi contrastando os seus temas com Ricardo Ribeiro. De fato sóbrio, a exuberância das camisas que habitualmente enverga estava toda concentrada na voz. Em Rosa Tirana e Quando Eu Era Pequena, mostrou logo essa sua forma tão sanguínea de cantar — mais do que portuguesa, cigana, espanhola ou árabe, ela contém em si todo o Mediterrâneo.
Se Erva Cidreira do Monte ainda lhe permitiu alguma airosidade entre a dolência presente em grande parte dos temas que trouxe, chegando mesmo a ensaiar uns passos de dança, com Ai Mouraria entramos de novo não só na melancolia, como também numa masterclasse de como manipular o aparelho vocal, sustendo a última nota da canção e modulando-a a bel-prazer. Solidão surge depois não só como um exemplo de como os novos arranjos deste espetáculo transfiguram as canções, mas de como o cantor de 44 anos carrega qualquer tema pelos colarinhos. Prova disso é a sua interpretação absolutamente arrepiante de Fado Amália, a fechar a primeira parte do espetáculo a merecer um gritos e uma ovação em pé.
Na segunda parte, coube Cristina Branco a mais exigente tarefa da noite, ao cantar os temas clássicos do cancioneiro norte-americano. O desafio nunca estaria na sua capacidade vocal — é, talvez, a mais formalmente exemplar dos três, perfeitamente controlada, havendo momentos em que parece estar a falhar quando, na verdade, está a contê-la de propósito para elevar o tom de seguida —, mas no risco da execução técnica sacrificar os cambiantes emocionais da sua voz. Summertime — original de George Gershwin para a ópera Porgy and Bess — tratou logo cessar as dúvidas, mostrando que até no português europeu há toda a uma picância latina que não se reduz à pronúncia.
Da candura e delicadeza desse primeiro tema passa-se para outro destaque da noite, o turbilhão em Who Will Buy, a prova de que qualquer tema pode soar melancólico e arrancado do âmago dependendo do talento do seu intérprete. Aqui, uma canção potencialmente esperançosa torna-se num extraordinário lamento na voz da fadista de 52 anos, pouco devendo ao que Amália fizera com a mesma música. Em Blue Moon e Long Ago and Far Away, a toada passa a ser sonhadora, ao passo que o jazz clássico de The Nearness of You também a forçou a conter uma lágrima.
Com I Can’t Begin to Tell You a encerrar o concerto, voltamos para o momento inaugural deste texto: o grito em bom português de “só mais uma” a ecoar no Carnegie Hall. Os três solistas, não se fazendo rogados, assentiram positivamente. As primeiras notas no oboé começam a despontar sorrisos nos mais atentos, mas foi quando Raquel Tavares verbalizou “se uma gaivota viesse” que a sala irrompeu num aplauso. Gaivota, que não estava no alinhamento, não foi sequer a maior surpresa: foi o facto da própria voz de Amália Rodrigues se fazer ouvir numa gravação, um baque que deixou os solistas de lágrimas soltas e representou um momento de enorme catarse na sala.
Estava assim mais que cumprida a missão de honrar Amália na sua dimensão internacional, e nestas coisas, há que dar a mão à palmatória a quem cumpre as promessas que faz. Ainda em Lisboa, Ricardo Ribeiro declarou: “Com os ecos que virão dos Estados Unidos, vocês, como portugueses, vão ficar orgulhosos. Digo eu e podem dizer que fui eu que disse”. Está dito.
O Observador viajou a Nova Iorque a convite da FLAD