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Draghi está a perder a batalha da inflação?

Objetivo de inflação nos 2% é cada vez mais uma miragem para o BCE. Mario Draghi e os outros governadores, que se reúnem nesta quinta-feira, estão a falhar a missão?

Mario Draghi esteve em Sintra, em maio de 2014, e o discurso do presidente do Banco Central Europeu (BCE), que analisou “a anatomia da desinflação”, foi visto como um prenúncio do que aí viria. Desde essa reunião de banqueiros centrais, a autoridade monetária de Frankfurt cortou duas vezes a taxa de juro de referência, para o mínimo histórico de 0,05%, e apresentou mais um conjunto de medidas inéditas para tentar estimular a subida dos preços e promover o crédito. Porém, para já, nada parece estar a funcionar. Esta quinta-feira, Mario Draghi volta a ter a palavra.

A taxa de inflação anual na região da moeda única europeia desceu para 0,3% em setembro, indicou o Eurostat na terça-feira, o valor mais baixo dos últimos cinco anos. Afastou-se mais uma décima do objetivo de uma inflação “perto, mas abaixo”, de 2%. É o único e exclusivo mandato do BCE, mas é uma meta que está a revelar-se cada vez mais elusiva. Uma inflação demasiado baixa é, ao mesmo tempo, uma causa e uma consequência de crescimento económico reduzido, cenário que tem sido comprovado pelos mais recentes indicadores. E a ausência de inflação também não vem nada a calhar aos membros da zona euro, que teriam uma grande ajuda para acelerar a redução real da dívida, entre os quais Portugal.

O Conselho de Governadores do BCE reúne-se esta quinta-feira na cidade italiana de Nápoles e, na habitual conferência de imprensa, o presidente do banco central voltará a ser questionado sobre o que está a falhar e o que pretende fazer para acelerar a inflação. É enorme a pressão sobre Mario Draghi e o BCE para que sejam tomadas as medidas necessárias para evitar que uma inflação cada vez mais baixa, ou seja, a desinflação de que falou Draghi em Sintra, se transforme numa “espiral clássica de deflação”. Para evitar esse risco, que o BCE garante não prever, não têm faltado, contudo, garantias de que “será feito mais, se for necessário”.

Draghi enfrenta a pressão do banco central alemão, que se opõe às últimas iniciativas anunciadas e que receia que o BCE esteja a assumir demasiados riscos.

A disponibilidade para fazer mais não é, contudo, unânime. Draghi enfrenta a pressão do banco central alemão, que se opõe às últimas iniciativas anunciadas e que receia que o BCE esteja a assumir demasiados riscos. Sobretudo no momento em que se prepara para assumir a supervisão dos maiores bancos da zona euro. Para Jens Weidmann, governador do Bundesbank, cada descida da taxa de juro e cada nova medida de estímulo ou de injeção de liquidez não são mais do que um sinais negativos enviados aos Estados que, na sua opinião, necessitam de continuar a fazer reformas estruturais para não as fazerem. Em especial, Weidmann tem na mira os governos de Itália e França.

Jens Weidmann, líder do banco central alemão, critica baixas nas taxas de juro

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Será eficaz (e possível) injetar um bilião de euros?

Perante a taxa de inflação cada vez mais baixa, o BCE tem procurado manter uma atitude de tranquilidade e paciência. Mario Draghi quer que se dê tempo para avaliar o efeito das medidas anunciadas em 5 de junho. Está prometida para esta quinta-feira a publicação de mais detalhes sobre o programa de compra de ativos anunciado no início de setembro. O BCE dispõe-se a comprar pacotes “simples e transparentes” de dívida titularizada, isto é, títulos garantidos por empréstimos dos bancos às empresas. Sem levantar muito o “véu”, o italiano disse, também, que o BCE vai comprar títulos de dívida hipotecária, que os bancos emitem no mercado para se financiarem, dando créditos hipotecários como garantia.

Com estas medidas, o banco central da zona euro quer comprimir os custos de financiamento dos bancos e tornar mais atrativa a concessão de crédito não só para os bancos mas também para as empresas e famílias. Os analistas antecipam que o BCE tentará comprar até 250 mil milhões de euros em dívida titularizada e até 150 mil milhões em dívida hipotecária. No total, o banco central poderá estar prestes a injetar até 400 mil milhões de euros no Eurossistema através destes dois programas.

A primeira operação aconteceu há duas semanas. Os 255 bancos participantes tomaram um total de 82,6 mil milhões de euros, o que parece pálido quando comparado com os 400 mil milhões disponibilizados neste programa.

Ao passar estes ativos dos balanços dos bancos para o balanço do BCE, o setor financeiro poderá ganhar margem para emprestar mais. E a juros tendencialmente mais baixos que permitam aumentar a procura por crédito. E é para estimular a concessão de crédito que o BCE anunciou, também, mais duas injeções de liquidez a longo prazo. Liquidez que, ao contrário daquela que foi concedida em 2011, se pretende estar condicionada à prestação de crédito à economia e não à compra de dívida pública, como aconteceu no passado.

A primeira operação aconteceu há duas semanas. Os 255 bancos participantes tomaram um total de 82,6 mil milhões de euros, o que parece pálido quando comparado com os 400 mil milhões disponibilizados neste programa. Em testemunho, na semana passada, em Bruxelas, Draghi considerou o montante “dentro das expectativas” e pediu para que se façam as contas após a segunda operação, em dezembro. No final, a missão de Mario Draghi, que está prestes a comemorar três anos à frente do BCE, será a de aumentar o balanço do banco central em cerca de um bilião de euros até ao final de 2016.

São muitas as dúvidas entre economistas de que, sobretudo com os sinais de derrapagem na retoma na zona euro, estas medidas sejam suficientes para levar a um aumento do crédito e, por essa via, a uma aproximação da taxa de inflação ao seu objetivo. Mas “o BCE está empenhado em expandir o balanço em um bilião de euros e fará aquilo que for necessário para atingir esse objetivo”, acredita Frederik Ducrozet, economista do Crédit Agricole. “No passado recente, duvidar [do empenho] do BCE não tem dado bom resultado”, assinala.

Um euro mais fraco torna as exportadoras mais competitivas no mercado global e potencia os seus lucros.

O que se pode fazer mais?

Para já, as palavras de Mario Draghi e as medidas anunciadas pelo BCE têm tido um resultado que agradará ao presidente do BCE. Nos mercados cambiais, o euro perde quase 10% face ao dólar desde que o italiano visitou a serra de Sintra, no final de maio. Um euro mais fraco torna as exportadoras mais competitivas no mercado global e potencia os seus lucros. Além disso, como o petróleo e outras fontes de energia são negociados em dólares, tornam-se mais caros em euros, o que, só por si, é uma forma de “importar” inflação.

Todavia, a cada indicador económico que é divulgado na zona euro, cresce o consenso entre os economistas e também no interior do BCE – acredita-se que o Bundesbank esteja cada vez mais isolado – de que será preciso fazer mais. E fazer mais significa promover uma expansão forçada do balanço através de programas semelhantes aos que estão a ser seguidos há mais de cinco anos nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Se as injeções de liquidez de longo prazo e as compras de dívida titularizada não resultarem, o BCE poderá avançar para o que Draghi chama “um programa de compra generalizada de ativos”, entre os quais predominarão títulos de dívida pública. É essa possibilidade que está a levar para mínimos históricos os juros da dívida de todos os países da zona euro, já que os investidores estão a antecipar-se à entrada no mercado de um comprador com “bolsos fundos” como o BCE.

Possibilidade de um programa de compra generalizada de ativos pelo BCE tem baixado juros da dívida de países periféricos como Portugal

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Depois de a inflação ter descido para 0,3% em setembro, Christian Schulz, economista do Berenberg Bank em Londres, diz que, além do “ambicioso programa de compra de ativos [dívida titularizada e hipotecária], o BCE deverá deixar a porta escancarada” para aquilo a que muitos economistas se referem como a “bazuca” do banco central: um programa de expansão monetária que, em moldes que certamente causariam um grande debate no seio do Conselho de Governadores, avançaria para a impressão de moeda para drenar do mercado uma quantidade a determinar de títulos de dívida pública.

Onde está o fundo?

Um programa “à americana” de expansão monetária seria uma medida inédita e a tentativa mais audaz para garantir que a inflação se aproxima da meta do BCE. Uma meta da qual se tem afastado sobretudo desde o início de 2013. Nos últimos 12 meses, a taxa de inflação ficou-se, em média, pelos 0,6%, mas o BCE mantém a expectativa de que as iniciativas de reforma estrutural nos vários países da zona euro, a supervisão única bancária e, agora, a bem-vinda correcção do valor do euro, façam com que a inflação se aproxime do objetivo.

Vários economistas têm-se mostrado confiantes de que isto acontecerá, nem que seja uma correção dos chamados “efeitos-base”. Isto é, os preços baixos da energia no último outono poderão tornar mais fácil que, na comparação homóloga, a taxa de inflação acelere um pouco. Foi, com efeito, com a descida dos preços da energia (num contexto de euro caro face ao dólar) que Mario Draghi justificou, em Sintra, “80% da queda da inflação na zona euro desde 2011”.

Preços baixos da energia no último outono poderão tornar mais fácil que, na comparação homóloga, a taxa de inflação acelere um pouco

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Draghi assinalou, também, outro fator, que ajuda a explicar as taxas de inflação há muito negativas nos países da chamada “periferia” da zona euro: a crise da dívida soberana e o “ajustamento relativo de preços nos países em dificuldades”, isto é, as medidas de austeridade e de consolidação dos orçamentos públicos aplicadas nos últimos anos. A subida do desemprego e a descida dos salários forçou uma descida dos preços, o que se reflete agora nas taxas de inflação negativas. Em Portugal, por exemplo, a taxa de inflação estava em agosto em 0,4% negativos.

O BCE reconhece que a inflação continuará “em níveis baixos por um período prolongado”, mas mesmo as estimativas atuais podem estar em risco se a retoma da economia não mantiver o curso previsto. Esta quarta-feira surgiu mais um indicador avançado que veio alimentar os receios face ao ritmo de crescimento do produto interno bruto (PIB) da zona euro no terceiro trimestre de 2014. Isto depois de um crescimento nulo no segundo trimestre em comparação com os três meses anteriores e de apenas 0,2% face ao segundo trimestre de 2013.

Economistas dizem que a fraqueza recente da zona euro ficou a dever-se à guerra "encapotada" de Vladimir Putin na Ucrânia

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Mario Draghi deverá, nesta quinta-feira, reiterar a disponibilidade para “fazer mais” com o objetivo de evitar que o rumo da inflação seja ainda mais dececionante do que já se prevê. Mas, na conferência de imprensa a realizar em Nápoles, após mais uma reunião do Conselho de Governadores, espera-se também que o italiano repita o apelo lançado em setembro: “é necessário que o esforço de reformas estruturais ganhe ímpeto, para que se atinja um crescimento e emprego mais sustentáveis na zona euro”.

Fomentar a “melhoria do ambiente empresarial” é crucial para Draghi, tal como é que “os países da zona euro não invertam os progressos já realizados nos últimos anos e que contribuíram para reduzir os desequilíbrios orçamentais”. Isto não obstante “a margem de manobra para obter uma composição de políticas orçamentais mais amiga do crescimento”, como declarou Mario Draghi na mais recente conferência de imprensa. Isso deve acontecer onde existe “flexibilidade dentro do Pacto de Estabilidade e Crescimento” e poderá suportar “um apoio à procura”, isto é, ao investimento e ao consumo.

Conseguirá Mario Draghi, com as medidas já anunciadas e o passar do tempo, reaproximar a inflação do objetivo de 2%? “Essa é a grande questão neste momento”, diz Christian Schulz, economista do Berenberg Bank ouvido pelo Observador. “Acredito que a retoma na zona euro vai voltar a acelerar no início de 2015, até porque a fraqueza recente foi, em parte, causada por factores externos como a guerra encapotada de Putin no Leste da Ucrânia”, afirma o economista, defendendo que “se a confiança começar a recuperar nesta reta final de ano, provavelmente não haverá necessidade de avançar com um plano ‘à americana’ de expansão monetária”.

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