Num dia marcado pelas comemorações dos 50 anos do 25 de Novembro de 1975, perante um Parlamento dividido, o tema marcou o arranque do debate, com Luís Marques Mendes a entrar ao ataque, preparado para radicalizar André Ventura — uma tentativa que manteve no resto do debate. Para o candidato apoiado por PSD e CDS, o adversário “comemora o 25 de Novembro porque não gosta do 25 de Abril” e viu-o no “detalhe” de ter retirado os cravos vermelhos deixados no púlpito por outros deputados. E, mais do que isso, acusou Ventura de se ter sentado no lugar de líder da oposição, o que viu como uma confirmação de que “é um falso candidato à Presidência” e está a “pensar nas legislativas”.
Com Luís Marques Mendes a entrar ao ataque, André Ventura jogou exatamente com a mesma moeda. Não só associou o retirar dos cravos a “regras e ordem”, argumentando que o fez porque “não deviam estar lá”, como aproveitou para polarizar entre o “candidato da ordem”, como se descreveu, e o adversário a quem “tanto faz ser PS como PSD, como estar a cumprir a lei, como não”. “Não finja que é independente e está acima dos partidos. Foi político toda a vida”, atirou o líder do Chega, argumentando ainda que ambos são conselheiros de Estado, mas fazendo uma distinção: “Eu fui eleito, o Marques Mendes, como sempre na sua vida, foi nomeado pelos amigos.”
No repique, houve tempo para recuperar a polémica relativamente a Angola, com Mendes a apontar ao estilo “completamente contraditório” do adversário, desde logo porque na cerimónia em que as declarações foram proferidas por João Lourenço, Presidente de Angola, também estava Pedro Pinto, líder parlamentar do Chega e não abandonou a sessão. “Só lhe dá jeito criticar o Presidente da República porque lhe convém”, argumentou o candidato apoiado pelo PSD, acusando Ventura de fazer “teatro” e de atuar com “total falta de sentido de Estado” e recordando a postura do Chega na receção de Lula da Silva, chefe de Estado do Brasil, na Assembleia da República e o facto de ter pedido “prisão” para o primeiro-ministro de Espanha. “Ventura é um político, não é um magistrado. Políticos não são polícias para mandar prender alguém, isso era a PIDE”, disparou.
A deixa serviu para Ventura colar ainda mais Mendes ao sistema, dizendo que o seu sentido de Estado é “defender Portugal até ao fim” e que está farto de “andar a defender corruptos e ladrões”. A somar a isso, não só disse que “Marques Mendes entraria e sairia calado [por causa] do sentido de Estado” numa situação como a do Presidente angolano, como atirou ao adversário, dizendo que “esteve com Fidel Castro, está habituado a dar-se com ditadores”.
O tema deu para mais confrontos entre ambos e Marques Mendes aproveitou para colar as declarações de Ventura à ditadura, recuperando as declarações dos “três Salazares”, acusando-o de estar a “branquear o regime anterior, que tinha tanta ou mais corrupção que agora” e tirando da cartola um dos soundbites do debate: “O senhor não é polícia, não é candidato a xerife da República”.
Para mostrar a preocupação com o tema da corrupção, Mendes assumiu que, se chegar a Belém, a primeira reunião do Conselho de Estado será sobre o assunto. Aos olhos de Ventura, a proposta é mais do mesmo: “Se acha que é Conselho de Estado que vai resolver o problema da corrupção só mostra que vai fazer o mesmo que todos os outros: absolutamente nada.”
A seguir, acusou o social-democrata de “conversa de treta” e de “silêncio”, recusando-se a ser o “o candidato do sistema ou do mimimi”. E ainda colou Mendes a Gouveia e Melo, dizendo que “estão na mesma lógica, não atacar políticos corruptos, mas atacar a justiça que investiga os políticos corruptos”.
Marques Mendes foi tentando mostrar independência, deu como exemplos o facto de ter discordado de Marcelo Rebelo de Sousa quando não reconduziu Joana Marques Vidal na PGR e quando afastou candidatos como Isaltino Morais ou Valentim Loureiro, criando “enormes problemas” para si próprio no partido.
Depois de Mendes ter levado a debate o caso de Miguel Arruda, o deputado eleito pelo Chega que foi acusado de roubar malas em aeroportos, André Ventura voltou a disparar, desta vez aproximando o adversário do “partido que anda a roubar há 50 anos” e dispensando lições de moral. Concluiu ainda que Mendes tem “zero independência” — comparou comentários aos incêndios nas épocas de Costa e Montenegro —, está “na mão de um partido” e é a “marioneta do Governo”. “O Presidente da República não deve ser a muleta do Governo.”
Pelo meio, Ventura ainda refutou o ataque de Arruda com Miguel Albuquerque, que é apoiante de Marques Mendes, o que levou o social-democrata a recordar que não foi acusado. O tempo foi encurtando entre ataques diretos entre ambos e terminou com Mendes a acusar Ventura de “não ter soluções” e de ter uma técnica: ataques pessoais, lançar lama, “tentar irritar o adversário” e ocupar o tempo para disfarçar a ausência de propostas. “É a nova cassete da política portuguesa”, atirou. Ventura jogou a cartada final do povo: “Para a sua casta de elite posso não ter nível, mas sei que sou a voz do povo português contra as vossas elites.”
No segundo final, que pertencia a Ventura, trouxe ainda o tema do BES, sugerindo que Mendes não era de confiança porque tinha dito em público que “estava tudo bem” com o banco. Perante a gravidade, Mendes referiu apenas que era a informação do Banco de Portugal e recusou o selo de irresponsável.
Diálogo revelador
André Ventura: A vergonhosa independência das colónias ainda hoje estamos a ver no que deu. A humilharem-nos, maltratarem-nos… E o doutor Marques Mendes em silêncio, compreendo, se calhar tem lá alguns interesses mais escondidos (…).
Luís Marques Mendes: Foi dizendo aí en passant que eu podia ter interesses em África, em Angola. Não tenho coisíssima nenhuma. Aproveito para dizer o seguinte sobre o último episódio, acho profundamente lamentável o seu comentário.
André Ventura: Ai o meu comentário? Chamarem-nos opressores não?
Luís Marques Mendes: Não estou a pronunciar-me sobre a declaração do Presidente de Angola…
André Ventura: Não lhe interessa, não é?
Luís Marques Mendes: Não, não tenho nenhum interesse. A questão é que o senhor é completamente contraditório. Na mesma cerimónia em que estava Marcelo Rebelo de Sousa, em que o senhor advogava que ele abandonasse ou dissesse alguma coisa, estava lá o seu deputado Pedro Pinto, seu líder parlamentar, e não disse nada nem abandonou a cerimónia.
André Ventura: Mas quem é o Presidente da República? É o Pedro Pinto?
Luís Marques Mendes: Estava lá, não se levantou, não saiu, não fez nenhuma declaração. Só lhe dá jeito criticar o PR porque lhe convém, e mostra que está a fazer teatro. Porque se não já tinha repreendido ou retirado a confiança a Pedro Pinto.
André Ventura: Mas concorda com o PR?
Luís Marques Mendes: Concordo. Nesta matéria André Ventura atua com total falta de sentido de Estado. Com Lula da Silva, eleito pelos brasileiros, o comportamento do Chega foi inqualificável. (…)
André Ventura: (…) Sabe qual é o meu sentido de Estado? É amar este país, é não estar calado quando outros dizem que somos ladrões, corruptos, que escravizámos África. Acha que está a honrar a memória dos nossos combatentes? Isso é o seu sentido de Estado? Então eu não tenho sentido de Estado nenhum.