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Entrevista a João Catarré: "A minha filha é o motor da minha vida" /premium

O actor João Catarré, protagonista da novela Jogo Duplo, da TVI, fala com Maria João Avillez sobre a carreira, a infância, o silêncio e sobre todos os planos que ainda tem para o futuro.

É um grande, grande, actor. Tão bom que seria pena que, por causa do desinteresse algo snob que habitualmente acolhe o que se passa nas telenovelas portuguesas, não se desse inteiramente por isso. João Catarré, apesar dos seus 37 anos, é um veterano das novelas — mas nunca como desta vez na novela Jogo Duplo (de Artur Ribeiro, na TVI), da qual é protagonista, ocupou tão impressivamente o ecrã televisivo. E quando contracena com Diogo Infante, o outro protagonista masculino, ocorrem por vezes cenas de pura antologia. Custa a crer? Custará, mas é assim, é ligar a televisão e olhar para eles. Seguindo o combate de amor-ódio, tensão e dependência, poder e vingança entre dois inseparáveis inimigos numa história sobre a qual, surpreendentemente e num tom justíssimo, desce a sombra de Dostoievski, a herança de Shakespeare, a Lolita de Nabokov. No Sado, por entre branco casario.

João Catarré, infância feliz no Alentejo profundo, profissional de voleibol no Benfica, estudos incompletos em Informática, uma filha de três anos que é a luz dos seus olhos, percebeu a tempo que o seu destino era representar. Descobriu a sua parte na vida, um lugar próprio, seu. Sorte dele e nossa. E, como sempre devorou cinema, quer agora saber mais, estando hoje focado nesse interesse e entretido a desvendá-lo. E enquanto aguarda a concretização “quase certa” de um novo projecto — cinematográfico, justamente — partiu para férias, para um oceano longínquo, deixando “João Guerra” num ecrã de televisão. Se o encontrarem, percebem porque quis conversar com João Catarré.

Começo o nosso diálogo por uma dúvida que certamente também intrigará os leitores: como se sobrevive oito meses fechado num estúdio de televisão, seis dias por semana, 12 horas por dia, sem luz natural, contacto com o mundo ou janelas para a vida real, como lhe ocorreu agora durante a gravação de “Jogo Duplo”, na TVI?
É complicado, exige tanta persistência quanto resistência, calma, paciência, mas sobretudo é preciso gostar muito daquilo que fazemos, senão ninguém aguenta. Fui praticante de desporto de alta competição, voleibol, face ao qual se exigia grande espírito de sacrifício e uma imensa disciplina: treinar todos os dias, ir até ao limite… A analogia entre uma coisa e outra ajudou-me muito como actor. Deu-me a base e a estrutura para aguentar meses dentro de um estúdio, dez horas por dia.

Quando acabaram essas tão intensas gravações houve um certo vazio, uma estranheza no embate com a vida normal ou já se adquiriram tantos “ossos de ofício” que a transição para o quotidiano ocorre como se nada fosse?
Ah, não ocorre não! Já passaram vários dias e a transição está a ser difícil! Tem sido mais complicado de largar este “ João Guerra” — o meu magnífico personagem –, dou por mim com ele na cabeça, como se ainda estivesse a gravar.

Ainda?
Sim, a personagem era complexa, a minha cabeça não parava. Quando saía do estúdio e seguia na carrinha para casa ia a pensar “o que é que eu vou comer” mas também já ia a ler as cenas do dia seguinte! E muitas vezes, quando aquecia o jantar ou – com a falta de tempo! – ia comprar comida, já estava a ler os textos, principalmente aquelas cenas que sabia mais complicadas, as que deixam instalado em nós um nervoso maior. Mas, sabe, há certas coisas de que os actores têm de ter consciência e uma delas é que não se pode estar cómodo a fazer um personagem, há que estar sempre em conflito, para trazer esse conflito à personagem, é essa tensão que o alimenta. Ora, a preocupação constante que isso gera leva a que, quando estamos fora do plateau a preparar as nossas cenas, já tenhamos dentro de nós essa inquietação instalada, já está a circular e não é senão ela que a seguir dará peso e substância à representação. Quando leio uma cena, a primeira vez digo “ok, é esta a cena” mas na segunda leitura já é diferente: “Ah, se calhar aqui era interessante fazer alguma coisa que bata certo com a personalidade da personagem…”

… que pode ser até um olhar?
… uma troca de olhares, um gesto, uma simulação de que vou falar mas se calhar desisti porque não me convém falar aqui, mas justamente esse gesto de desistência já traz alguma coisa para a cena. E é engraçado porque, como não se trata de um trabalho unilateral mas de uma troca, há a partilha com os nossos colegas. E daí a minha analogia de há pouco com o desporto: se a equipa não trabalha em conjunto, o objectivo — e o resultado — final nunca será o melhor.

"O 'João Guerra', da novela Jogo Duplo, foi a personagem mais gratificante na minha carreira, a que me deu mais trabalho, dores de cabeça e um nervoso constante."

O seu protagonista, “João Guerra”, é um papelaço: forte, intenso, solitário, justo. Comovente, quase…
…ah sim, ao qual eu dediquei muito tempo, muito empenho, muita concentração. Muito foco.

O melhor papel da sua vida televisiva?
Acho que… sim. Profissionalmente, foi o mais gratificante, o que me deu mais trabalho, dores de cabeça e um nervoso constante. À noite pensava nas cenas que tinha feito, nas que tinha no dia seguinte, era o tal conflito constante de que lhe falei. Talvez por isso mesmo, o “João Guerra” foi efectivamente a personagem que na televisão mais me marcou ate hoje.

Apetece dizer, do que vi, que o Jogo Duplo é uma novela “diferente”: uma história densa e tensa, mais ousada que o habitual, violenta, às vezes quase sórdida, tendo em pano de fundo o eterno combate entre o bem – a sua personagem – e o mal, a cargo do “Manuel” de Diogo Infante.
O bem e o mal andam sempre numa tensa “competição” através dos diálogos entre a minha personagem e a do Diogo, que de início pertenciam ambos à realidade obscura do crime na cultura oriental de Macau e das suas Tríades. Após a brutal ruptura entre ambos, e o “meu” regresso a Portugal, tudo os opõe, ideias, modus operandi, ideais, objectivos sem que nenhum deles — daí a tensão – tenha de facto desistido do outro. Todo o percurso e o desenvolvimento destes dois personagens foi muito bem definido pelo autor, Artur Ribeiro, e pela sua equipa, dando origem a diálogos intensíssimos entre Diogo Infante e eu num combate que nunca acabará.

É verdade: quando contracenam os dois “roubam” o resto, quase não há mais história…
Quando gravávamos essas cenas mais tensas quase havia uma certa magia, os diálogos soltavam-se para outra dimensão: tudo era dito em meias palavras, criando por vezes ambiguidades e duplas intenções, todos os movimentos ou sinais físicos de nervosismo eram analisados mutuamente durante as cenas, para ver quem apanhava quem, num combate que nunca acabará, porque é afinal fruto de uma irmandade que os há de ligar para sempre.

E quem diria, na sua infância alentejana, na escola em pequeno, em casa com a família, que havia aí esta vocação, como um apelo, pela arte de representar? Vamos recuar um bocadinho no tempo: que o marcou nesse Alentejo profundo onde passou a infância, que brincadeiras, que sonhos? Foi marcado por isso?
Fui muito feliz na minha infância.

"O meu avô tinha uma taberna, uma tasca, que às 5h da manhã estava aberta para os pastores tomarem um cafezinho com um bocado de pão com chouriço antes de irem tomar conta do rebanho. E eu dei por mim a trabalhar lá, tinha 7, 8 anos. Carregava os garrafões do vinho para os homens, tirava cafés, ajudava em tudo."

As infâncias felizes podem explicar uma boa parte do que se vem a ser e a fazer na vida. Foi o caso?
Exactamente. É bom termos a consciência de uma infância feliz, ela faz parte da nossa vida. A infância nunca é desligável do resto. Na minha houve o contacto com a natureza; o silêncio, que é uma coisa maravilhosa; o campo; as brincadeiras; a “xinchada”; o rio… O meu avô tinha uma taberna, uma tasca, que às 5h da manhã estava aberta para os pastores tomarem um cafezinho com um bocado de pão com chouriço antes de irem tomar conta do rebanho. E eu dei por mim a trabalhar lá, tinha 7, 8 anos. Carregava os garrafões do vinho para os homens, tirava cafés, ajudava em tudo. Até cheguei a fazer as contas de somar, a dar os trocos, a aceitar o dinheiro, e isso era porreiro! Nas férias passava o dia com os meus amigos, a andar de bicicleta, a mergulhar no rio, apanhávamos lagostins. Era tudo muito natural: era bom, era puro, era sincero, não havia maldade nenhuma no que fazíamos. Hoje, não só não duvido que foi uma parte disso que tentei trazer para o resto da minha vida como sei que irei passar esses valores à minha filha, à minha Francisca.

Já lá vamos, à sua Francisca. Dizia-me que adorava o silêncio…
Sim, amo o silêncio, talvez porque preciso dele. Sempre foi assim. Hoje em dia tem-se medo do silêncio, já reparou? As pessoas fogem dele, incomodam-se com ele.

Após o encanto dessa infância rural, seguiu-se o liceu e alguns anos de faculdade, mas o seu estudo foi sempre pouco convicto, não foi? Era porque já havia qualquer “outra coisa” dentro de si, o apelo do teatro, o gosto pela arte de representar? Como é que a vida lhe sinalizou o caminho que veio a seguir? Como o descobriu e se descobriu?
Quando era miúdo via muita televisão. Não teatro, ainda não, era televisão. Gostava muito de ver as nossas séries — claro que também via telenovelas brasileiras mas no fundo era sempre para me questionar: “Como é que eles fazem aquilo? Porque é que ele fez aquilo assim? Porque será que a resposta foi dada daquela maneira tão arisca e não de uma forma mais serena?”. Andava ali de roda das séries mas sempre com perguntas.

Era um espectador que se interrogava?
Espectador atento. Queria saber os comos e o porquês, algumas coisas faziam-me confusão, tentava perceber como tudo se conjugava. Esse interesse foi ficando. Mais tarde comecei a ver peças de teatro, tornei-me um fanático por cinema. Vi muito cinema, era apaixonado pela história, durante uma hora e meia não havia mais nada. Como isso também puxava por mim, acabei por não ter muita convicção nos estudos. Não é que fosse mau aluno, era desinteressado, no 12.º ano frequentava a área das Ciências mas ainda sem rumo certo. Havia sempre algumas coisas que me motivavam mais. Não gostava da matemática, que me exigia estar parado muito tempo a olhar para um papel, mas curiosamente é o que eu faço hoje em dia: estar parado a olhar para um papel, a decorar texto! Mas era diferente, não é?

Era: as palavras são mais interessantes do que os números.
As palavras são maravilhosas. A palavra não é matemática. É tão bom uma palavra… Bom, voltando ao meu percurso: estudava Informática na faculdade mas só fiquei ate ao 3.º ano, o curso era de quatro. Entretanto, fizera já algumas publicidades para televisão, o que me provocou maior curiosidade e me levou até a apaixonar-me pelos castings, mas quando acorria a algum, preparava-me tambem a sério para fazer uma personagem, sem porém saber de antemão do que se tratava! Da agência diziam-me “vais fazer isto, um papel menos relevante, uma coisita assim”, mas fosse como fosse eu motivava-me e preparava-me mesmo: se fosse um homem mais rural deixava crescer a barba, se fosse urbano comportava-me como tal, etc.. Ou seja, nascia qualquer coisa.

Nascia o caminho?
Disse a mim mesmo: “Gosto disto, quero explorar isto”. Pensava sobretudo na televisão mas depois, se calhar, ia experimentar o teatro e o cinema, teimava em perceber o que ocorria atrás do plateau. Uma das minhas grandes paixões actualmente diz respeito à realização e à direcção de fotografia. Aliás, há três anos fui estudar cinema, para uma faculdade.

Em Portugal?
Sim. O objectivo era tirar o curso, a licenciatura em cinema. Ao fim do primeiro ano disseram-me que a faculdade não tinha alunos em número suficiente para o horário pós-laboral, o único que eu podia frequentar. Mas voltando um pouco atrás: um dia sentei os meus pais no sofá e disse-lhes: “Não estou a fazer nada no curso de Informática. Quero tentar outra coisa, fazer um curso de teatro, se correr mal volto para a Informática”. Na altura, fora-me proposto fazer um curso da NBP – ainda não era a Plural –, chamava-se Oficina de Actores, e o seu director era o cineasta José Fonseca e Costa, um tipo maravilhoso. Tive professores como o António Feio, o Howard, o Luca Aprea, que ensinavam Teatro no Conservatório, nas aulas de corpo, e de movimento. Durante esse ano percebi definitivamente que o caminho era aquele. E foi o que aconteceu, com os pais a aplaudir: “Queremos o melhor para ti”.

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Tem mais irmãos?
Tenho. Uma irmã, seis anos mais velha e que também sempre apoiou as minhas escolhas e decisões. Tenho uma família óptima…

É possível definir o que há de tão especial — quase uma dependência — na sedução/atracção que é representar? Vestir a pele de outra pessoa? Afinal, não há como um actor para poder explicar esse fascínio e eu tenho um actor sentado à minha frente.
Ah, por palavras é complicado, é qualquer coisa que se sente, que passa por nós. Num ensaio, com um colega, olhamos um para o outro e percebemos “ok, é isto”, como uma ligação que subitamente se estabelece originando o tom justo, a atitude certa, a intensidade dos olhares. Sente-se na pele e isso é difícil de explicar. O facto de podermos ter nas mãos uma profissão, que é a nossa profissão, que nos permite contar uma história através de uma pessoa que não somos nós, de termos a capacidade de nos transformarmos, fisicamente, psicologicamente, para dar o corpo, a voz e a alma a uma pessoa que alguém imaginou quando estava a escrever um texto, acho que de certa forma isso é um…

… milagre?
… não tem palavras. É um milagre, uma bênção. Daí gostar tanto, tanto, daquilo que faço.

Vê-se que gosta e possui um imenso talento. Mas há algo que me intriga e que de certo modo me inspirou esta entrevista: a verdade é que fez muitas novelas, foi protagonista de algumas, mas foi nesta, Jogo Duplo, com o seu “ João Guerra”, que de repente se agigantou: dá-se por si, o seu personagem “ocupa” a história e invade o écrã. Será como no vinho, um actor que tem vindo a amadurecer bem? Ou é o papel?
As duas coisas, mas o “João Guerra” é de facto um papelaço! Foi um bombom que me deram. Na rua, as pessoas olham para mim e noto que me respeitam, dão-me sempre palmadinhas no ombro, do género “ó pá, o teu pai, hein?” “ fica com a namorada, ela é boa pessoa”, “olha que o Manuel é muito mau!”… É muito curiosa esta abordagem na rua. No teatro temos a recompensa do aplauso do público por ter sabido contar uma história e dizemos para nós mesmos: “Ok, estive um mês e meio a ensaiar, depois passei aqui uma hora e meia no palco e no fim bateram muitas palmas, óptimo, correu muito bem!”. Na televisão, não: chegamos a casa e vamos estudar, para no dia a seguir estarmos lá outra vez e assim sucessivamente, durante meses e meses! O cinema também não anda longe disto. Acho que a nossa recompensa, ao fim e ao cabo, é esta abordagem da rua…

Falou na personagem “Manuel”, que é desempenhada pelo Diogo Infante, outro caso de respiração teatral. Vocês não se conheciam. Nem pessoal nem profissionalmente. Foi uma vantagem ou uma desvantagem enfrentar o máximo talento do Diogo Infante sem nunca antes se ter sequer cruzado com ele?
Ao princípio talvez tenha sido uma vantagem não nos conhecermos porque permitiu criar uma barreira inicial de respeito, de expectativa, que ajudou ambas as personagens. Por outro lado, pode ter sido algo desvantajoso no sentido em que nos era exigida, como personagens, uma cumplicidade muito grande logo no início da história. Quando começámos a gravar, em Macau, o “Manuel” dele e o meu “João Guerra” conheciam-se há 19 anos numa relação muito próxima de mestre e discípulo, houve ali um sustento, uma educação por parte da personagem dele em relação à minha. E afinal tudo foi ocorrendo muito naturalmente…

É um privilégio contracenar com o Diogo Infante?
É maravilhoso. É, é. Foi um jogo de xadrez. A minha personagem e a dele têm diálogos baseados em lendas orientais, diálogos complexos onde tudo o que se diz pode ter dois sentidos, ou três, ou quatro. Os nossos diálogos vão sempre para uma outra dimensão, como se houvesse um teste permanente de um para outro, quem está a mentir, quem diz a verdade, existia uma análise constante de tiques, de um para com o outro e isso, que é complicado de fazer, com o Diogo tornou-se muito fácil. Começamos a ganhar muita cumplicidade, elevando as cenas escritas para nós a uma dimensão completamente diferente.E depois havia a generosidade que o Diogo tem a trabalhar. O que era fantástico é que quando estávamos a ensaiar as cenas — esta cena vai para aqui, a outra para ali – mesmo já sabendo tudo, de repente, quando algum de nós via que afinal a dita cena podia ir para outro sítio, falávamos um com o outro “João e se fizéssemos isto assim?” e eu “Vamos”. Ou então era ao contrário, eu sugeria, ele aceitava. E este jogo, esta cumplicidade, este trabalho de equipa entre nós – tão importante nesta profissão — com o Diogo Infante foi maravilhoso!

Com uma pressão tão forte, com tão pouco tempo livre, com tanta disciplina profissional, há tempo para fazer amigos nos estúdios, para criar uma relação de amizade durante as gravações? Ficou amigo de alguém nesta novela? Você tem fama de ser um bom colega, generoso, atento, mas a amizade é outra coisa. Há tempo para ela?
Claro que sim. Claro que sim. Dou-me bem com toda a gente, é verdade, mas claro que fiz amigos. Aliás, eu, o João Lagarto, o Duarte Gomes e o Rodrigo Tomás — os actores que constituem a minha família da novela –, fomos um fim-de-semana os quatro almoçar a um restaurante da minha predileção, comer arroz de pato. E foi iniciativa minha telefonar para Vila Nova de Milfontes, pegar “na família” e dizer “vamos almoçar”. E fomos. Também vou com os colegas beber um copo, vê-los a fazer teatro ou vê-los no cinema.

Cinema, de que tanto gosta. Fez dois ou três filmes, não foi?
Pouco, mas fiz. Houve uma pequena participação no filme do José Fonseca e Costa, “O Fascínio”, outra num filme do João Botelho e uma outra ainda no filme dos “Morangos com Açúcar”. Gostava de fazer mais, claro, só que em Portugal ainda é complicado, há muitas dificuldades, há poucas produtoras a terem um subsídio bom e válido para produzir cinema. Talvez por isso ainda não desisti nem de me interessar pelo cinema nem de o estudar, estou só à espera que a faculdade consiga o número de inscrições suficiente para manter o curso em horario pós-laboral – o único que posso frequentar – para acabar o curso. Tive muitíssima pena de não o completar! E olhe que uma pessoa que trabalha constantemente, como eu, ainda ter vontade de estudar e de aprender à noite… é bom sinal!

Que reteve do José Fonseca e Costa?
Era um homem com um sentido de humor único, capaz de surpreender tudo e todos com as suas intervenções inesperadas, mas sempre com muita classe! Tinha uma grande qualidade como profissional, como artista, como realizador! A trabalhar era exigentíssimo, rigoroso, quando estava a filmar nem se podia falar com ele, focava-se totalmente no que fazia. Não me surpreendeu, é o que se espera de alguém exímio na sua profissão!

É muito diferente o acting, o fazer, o representar em televisão ou em cinema?
A realidade da produção televisiva para o cinema é muito diferente. No cinema há uma pré-produção muito grande, um mês, dois meses, três, muitas vezes. Quando se está a fazer um filme fazem-se quatro, cinco cenas por dia. Há um cuidado muito grande com tudo, da luz aos actores, estes têm tempo para trabalhar a cena e ganhar uma outra dimensão; em televisão é tudo muito mais rápido e há prazos: 40 minutos por dia! Os planos diários regem-se sempre por tempos efectivos de filmagem, de gravação. Há uma pressa. Acontece ter um plano diário em televisão que pode ir até às trinta e tal cenas! É claro que há cenas mais simples, sem falas ou só o actor a passar ou a entrar, etc. E há as outras que têm quatro, cinco páginas, bem mais complicadas de fazer mas que no regime televisivo têm de se concretizar. Sucede é que os actores que estão a fazer televisão já o sabem: quando chegam ao plateau têm a coisa bem preparada, e, como há todo um trabalho de equipa, a dimensão é ganha à mesma. Mas é pena, apesar de tudo podia-se trabalhar as coisas de outra forma em televisão.

E o teatro? Lembro-me de uma peça do Sam Shepard…
O “Fool for Love”, há dois anos. Um texto lindíssimo, com encenação do António Melo. Começámos na Guilherme Cossul, passámos depois para a Comuna. Correu muito bem, foi uma experiência espectacular. E houve também o “Flat Spin” no Casino Estoril, em 2011, uma peça do Alan Ayckbourn que o Rui Luís Brás encenou.

"O meu primeiro contacto com teatro, era eu muito jovem, foi inesquecível, era uma peça chamada 'Arte'. Interpretada pelo António Feio, José Pedro Gomes e Miguel Guilherme, que aliás não vi no palco mas numa cassete VHS – ainda havia! – e fiquei de boca aberta

Porque não faz mais teatro?
Porque não tenho tempo.

Não será que é porque prefere sempre a televisão? Há actores que gravam de dia e representam à noite.
Eu sei. Aconteceu comigo. Estava a fazer o “Flat Spin” no Casino do Estoril, há 5 ou 6 anos, e ao mesmo tempo a fazer um protagonista em televisão e não foi fácil: gravar dez ou doze horas no estúdio, ir directamente para o teatro fazer uma peça que começa às 21h e acaba às 23h — e é claro que depois temos de descontrair porque chegamos a casa com os nervos todos à flor da pele e sem vontade de dormir. Vamos para casa ainda excitados, por termos estado a fazer teatro, e há que despir o personagem, descontrair e depois ainda decorar os textos para o dia a seguir na televisão… Isto é, adormecer lá para as três da manhã, e depois às sete da manhã acordar…

Mas se escolher um filme ou uma peça em vez do pequeno écrã…
A questão é que não sou eu que escolho.

Quem é?
Os realizadores, os canais de televisão, os encenadores. Eu não posso, como actor, em Portugal corre-se o risco de…

… ficar desempregado?
Nunca se tem certezas…

Mas a continuar assim não corre o risco de ficar demasiado capturado pela televisão?
Sim, talvez, é um risco: saber que tudo bem, temos trabalho, vamos fazendo vários personagens em vários produtos, mas se calhar podíamos explorar outros tipos de trabalho, como o cinema ou o teatro…

Eu por exemplo apreciaria muito vê-lo num palco.
Ah… também eu. Temos tempo. Mas sim, também sinto a curiosidade e o desejo de explorar mais o palco do teatro, e a parte de trás das câmaras de cinema.

Digamos que se dependesse apenas de si a sua prioridade passaria a ser o palco e o “por detrás da câmara de cinema” ? Seriam essas as experiências mais apetecidas?
Sim. E muito provavelmente será o que vai acontecer: tenho essa vontade e os anos vão passando. E então chegamos a uma altura onde o “eh pá, se eu não faço isto agora…” começa a pesar.

… que idade tem?
37 anos.

Quem gosta de ver a representar, quem o inspira, quem o deixa com pele de galinha nos palcos e écrãs nacionais, ou internacionais?
O meu primeiro contacto com teatro, era eu muito jovem, foi inesquecível, era uma peça chamada “Arte”. Interpretada pelo António Feio, José Pedro Gomes e Miguel Guilherme, que aliás não vi no palco mas numa cassete VHS – ainda havia! — e fiquei de boca aberta a pensar: “Como se pode a dizer tanta coisa sobre nada, e ao mesmo tempo ter humor, ter conteúdo e ter contexto!” E eles faziam isso tão bem… Claro que depois fui vendo outros colegas fazer teatro mais sério e com maior substância, mas acho inglório e desnecessário nomear. Por uma questão de respeito para com todos os outros.

E no écrã?
Não foi um filme mas um modo de trabalhar, que é o do Kubrick, grande realizador. No “Shining”, por exemplo, está lá tudo, e tudo tão bem trabalhado: as melhores interpretações, as melhores expressões dos actores, os enquadramentos, a simetria que o Kubrick imprime na tela, o trabalho que faz com a sonorização. Como gosto muito disto, fui investigar e descobri que para poder fazer um filme de época, o “BarryLindon”, fora comprar umas lentes da Carl Zeiss – desculpe a marca — que tinha na altura uma parceria com a NASA, para captar luz na escuridão e poder filmar à luz das velas. O Stanley Kubrick e o seu cinema marcaram-me muito, mesmo.

"A Francisca é o próprio motor da minha vida porque para mim é tudo. Quando estou a trabalhar e as coisas correm mal – às vezes acontece -- interrogo-me: 'Vou estar a chatear-me por causa disto? Tenho uma filha tão especial...'"

Um actor sonha com papéis, ou dá consigo a ler um livro, e pensa: “Eu gostaria de fazer isto”. Tem algum papelaço, um grande personagem que gostasse de interpretar?
Não tenho uma personagem definida, cada uma que agarramos em papel vai depois ser transformada por nós, pelo realizador, por vezes pelo próprio actor, e essa é a melhor parte, e é, em certo sentido, uma descoberta: “O personagem vai ter este comportamento que não é o meu, mas vou passar a tê-lo porque passo a ser ele…” E aí descobrimos coisas em nós que ignorávamos que cá estivessem! Mas, ainda falando de personagens, há as nossas de que sempre me lembro: temos uma história tão rica, tantas figuras que podiam ser retratadas e sobre as quais se podiam contar histórias. Porque nunca se pega por aí?

Projectos? Gravou uma série para a TVI chamada “Elisa” para sair em breve…
… um policial, uma série policial, penso que talvez saia em Julho, não tenho datas confirmadas.

E que mais?
Há a possibilidade de um filme, mas como ainda nada está contratado não gostaria de falar muito nisso. ..

… mas está bem encaminhado?
Está muito bem encaminhado, mas estou ansioso para que esteja definitivamente encaminhado!

Como é uma vida — a sua — onde quase nunca é dono do seu tempo? Falou-me de desporto, que ama e já praticou…
Cheguei a ser profissional. Em júnior fui campeão nacional de voleibol pelo Benfica. Comecei a jogar aos 12 anos na escola, depois a escola federou-se, depois passámos para o Benfica, foi assim.

E hoje? Pratica?
Tento. Dentro da minha limitação de tempo procuro sempre fazer, é o meu escape, preciso mesmo dele. Agora ando a fazer desportos de combate muay thai, kick-boxing, mas também adoro nadar e correr na praia — só na areia seca Quando estou muito cansado, uma corrida faz-me bem: noto-o fisicamente e desanuvia-me a cabeça respirar a maresia. Voleibol de vez em quando ainda tento, mas o tempo passa e já não sabemos jogar da mesma maneira. Muitas vezes pego na minha filha, vamos para uma piscina para ela também fazer desporto.

Falemos então da sua filha Francisca, de 3 anos. Ela é o ar que você respira?
Ainda não tem 3, está quase, mas é como se tivesse 5 ou 6, já é muito reguila.

Pelo modo como fala dela e a necessidade que tem de a evocar, quase se diria que ela é a sua vida. Um dos “motores” é de certeza.
É o próprio motor porque para mim é tudo. Quando estou a trabalhar e as coisas correm mal – às vezes acontece — interrogo-me: “Vou estar a chatear-me por causa disto? Tenho uma filha tão especial…”

Que relação tem com a vida? Serena, conflituosa, ansiosa, desafiante? Impaciente?
Calma. Muito calma. Espero da vida o que ela tiver para me dar… de bom, principalmente, embora também haja o mau. A vida é como aquele gráfico analógico do som, tem altos e baixos, temos de passar por eles. Agora, o que tento sempre é transportar comigo aquilo que a minha infância me deu: a serenidade, a calma, a natureza.

Em que mês é que nasceu?
Agosto. Dia 5.

Leão? Deve haver aí um ascendente…
… não percebo muito dessas coisas, já me disseram que tenho ascendente Balança. Talvez explique a tendência para o equilíbrio.

Faz sentido eu falar-lhe de felicidade?
Faz. Faz.

Falei com um homem feliz?
Sim. Principalmente quando esse homem tem uma filha que diz, antes de dormir: “Papá, és lindo demais”. No fim de semana vamos para o Alentejo apanhar laranjas. Ela adora e eu também.

[Veja aqui a entrevista completa a João Catarré]

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