Entrevista com Berlín, de “A Casa de Papel”: “Foi em Lisboa que dei os primeiros passos como ator”

05 Abril 20181.921

Começou a carreira em Portugal e conta que usou armas reais, até carregadas, na rodagem de "A Casa de Papel", que tem novos episódios na Netflix esta sexta-feira. Entrevista a Pedro Alonso, o Berlín.

Berlín é o nome de um dos protagonistas da série espanhola “A Casa de Papel” (que em Portugal passa na Netflix, que esta sexta feira estreia os últimos episódios da única temporada que existe, pelo menos por enquanto). Mas — curiosidade das boas — Pedro Alonso, o ator que lhe dá corpo, chegou a morar em Lisboa: foi onde deu os primeiros passos na carreira e começou no teatro, ao ponto de o artista até ter chegado a pensar morar no lado de cá da Península Ibérica. E até sabe falar português.

Em conversa com o Observador, Pedro Alonso explicou o que vai na alma de Berlín e o que tem de tão hipnotizante para ter conquistado o público mesmo depois de ter provado ser um verdadeiro psicopata. Para o ator, é fácil perceber: é graças a ele que o comum dos mortais consegue explorar esse lado da penumbra que mantém escondido e adormecido no subconsciente. “Afinal, todos temos esta fantasia de pertencer ao lado mau da fita”, diz.

Mas vai mais longe: Pedro Alonso confidenciou-nos como é que preparou a personagem, desvenda pormenores da produção da série, admite fazer sentido mais uma temporada de “A Casa de Papel” e conta-nos que só se apercebeu da dimensão que o projeto tinha ganho quando a Academia das Belas Artes em Florença desviou o olhar do “David” de Miguel Ângelo para lhe tirar fotografias. Por enquanto, a série vai acumulando fãs em todo o mundo e, segundo ele, colocando em xeque a supremacia da língua inglesa no mundo da ficção na TV. E nada melhor que começar por uma questão de linguística.

É próprio dos galegos saber falar português, não é?
Claro. Nasci em Vigo e digamos que consigo conversar com alguém em português. Se bem que, uma vez, estive em Lisboa a fazer a promoção da estreia de uma peça de teatro e, quando chegou a assessora de comunicação, comentei com os meus companheiros que sabia falar português. E ela disse: “Ah, então nesse caso as entrevistas para a televisão podem ser feitas por ti em português”. Eu disse que estava bem e falei em português com os jornalistas, enquanto os meus outros companheiros falaram em castelhano com as televisões espanholas — apesar de terem dito que não sabiam a língua. Só que naquela noite, no telejornal, o único de nós a quem precisaram de pôr legendas foi a mim [risos]. Talvez não seja tão bom assim a falar português.

Que relação é essa com Portugal?
Eu adoro Portugal! Estive aí muitíssimas vezes, como é muito natural nos galegos. Historicamente, entre Portugal e Galiza, há dois tipos de vibração: uma de gente que detesta e outra de gente que ama. Eu faço parte daqueles que amam: eu adoro Lisboa, adoro o Porto e gosto muito da sensibilidade e da cultura portuguesa. Trabalhei bastante em Portugal a fazer teatro. Foi em Lisboa que dei os primeiros passos quando arranquei na minha profissão. Estive um mês em Lisboa e logo a seguir fiz a estreia de uma adaptação da peça “Romeu e Julieta”. A seguir voltei a estar algumas vezes em Lisboa e no Porto, mas por gosto. Conheço menos a parte do sul, mas tenho vontade de conhecer melhor o Alentejo. Gosto muitíssimo de Portugal.

"Adoro Lisboa, adoro o Porto e gosto muito da cultura portuguesa. Trabalhei bastante em Portugal a fazer teatro: foi em Lisboa que dei os primeiros passos quando arranquei na minha profissão. Num determinado momento da minha vida cheguei a pensar em viver aí."

E quando é que volta cá?
Num determinado momento da minha vida cheguei a pensar na possibilidade de viver em Lisboa. Mas a vida dá muitas voltas. Na altura pensava em viver em Granada, viver em Lisboa ou em Santiago de Compostela — e escolhi Santiago. Mas tenho um vínculo afetivo de momentos muito fortes e especiais nas recordações que mantenho da minha vida profissional. Aceitaria facilmente voltar a Portugal para trabalhar. Porque não? E voltarei, nem que seja em passeio.

Agora mora em Madrid. Como é que surgiu a oportunidade de participar em “A Casa de Papel”?
Recebi uma chamada a convidar-me para fazer um casting e, quando li as duas primeiras sequências do guião, ainda estava no México a acabar as gravações numa série que se chama “Diablo Guardián” e que agora mesmo está a estrear na Amazon. Li as separatas e, nesse momento, digamos que tudo parecia apontar a que eu ia participar noutra série espanhola. Mas quando li melhor, disse: “Uau, aqui há algo”. Fiz o casting, tive uma conexão muito direta e muito intuitiva com a personagem do Berlín e eles disseram imediatamente: “És tu. Gostamos de ti”. Mostrei a minha proposta à direção do casting, tudo se precipitou e senti de imediato que havia material de muita qualidade nesta série. Por isso, decidi parar a possibilidade de trabalhar na outra série e comecei a trabalhar na “Casa de Papel”.

[excerto da série:]

Qual foi a primeira impressão que teve sobre Berlín?
[risos] Vou dar-lhe a resposta longa para essa pergunta. Estava no meu quarto no México e estava a amanhecer quando recebi um e-mail com as sequências do guião. Tive a sensação de que tinha estado com alguém muito semelhante ao Berlín na noite anterior. E não digo isto de forma metafórica: é uma afirmação literal, tinha estado com um homem muito intuitivo, capaz, que tinha uma energia muito potente e muito aguda e a capacidade de ler mais além do que o aparente. De algum jeito, o homem era perturbador e provocador, gerava movimento. Por isso, quando lidei pela primeira vez com o Berlín pensei: “Eu sei quem ele é. Sei quem é esta personagem”. Tive a sensação de que estava tudo alinhado de alguma forma. O México foi um país que me marcou de uma maneira incrível e há algo nesse país que tem a ver com o xamanismo, com essa coisa ritual e selvagem e de conexão com o subtil, com o que não é visível. Senti que Berlín podia ser uma espécie de xamã, mas que apesar de ter o dom de conseguir estar conectado com as forças do invisível, decidiu ligar-se às sombras e não à luz. Decidi usar fio condutor e usá-lo. E isso diz muito sobre o mistério que sustenta a personagem do Berlín.

"Estava no meu quarto no México e estava a amanhecer quando recebi um e-mail com o guião. Tive a sensação de que tinha estado com alguém muito semelhante ao Berlín na noite anterior. Literalmente, tinha estado com um homem intuitivo com uma energia potente e aguda."

E como é que o descreveria?
Olhando agora para trás, depois do que aconteceu com a personagem, o Berlín tem rasgos de vários dos anti-heróis que nos últimos anos conquistaram o meu interesse na ficção. É um gajo que tem um pouco do Joker, mas que também pode ter algo de Sherlock Holmes. É um gajo que também pode ter a repugnância e a frieza do Doutor House, um gajo que pode conseguir fazer coisas tão maléficas como Hannibal Lecter e que até pode ter alguma coisa de Jason Bourne na forma como está preparado para operações especiais fora do estabelecido. Mas além disso, tem uma componente lúdica altíssimo.

É daí que vem o sucesso de Berlín junto do público?
Sim, porque ele podia ser unicamente uma personagem muito dominante. Mas além disso, Berlín também é muito divertido e permite atrever-se a caminhar por zonas proibidas. E não só: também leva as pessoas para o mesmo inferno que ele atravessa. Se pudesse herdar uma característica dele para ficar comigo, Pedro, seria isso mesmo: a empatia. Porque às vezes as pessoas dizem que o Berlín é um tipo frio. Eu penso que ele manipula o que se passa em seu redor mas tem um coração que não deixa de ferver. Acontece é que ele usa essa energia de um jeito perigoso. Mas creio ainda assim que Berlín é condescendente com as pessoas. Ele acha que os sentimentos das pessoas são pobres, mas que tem uma capacidade de escutar e mimetizar os outros muito poderosa. Nestes tempos em que as pessoas não escutam, só ouvem, as coisas acontecem muito rápido. É tudo muito precipitado e muito aparente, mas muito pouca gente para e leva tempo para estabelecer uma escuta. Isso é um rasgo muito humano que o Berlín tem: ele dá-se ao trabalho de parar à frente de alguém, de levar o tempo que precisar e de escutar o que ela tem para dizer. Outra coisa, claro, é o que ele decide fazer com isso, mas é um homem que tem uma grande capacidade de empatia.

Revê-se em alguma parte da personagem?
Interpretar Berlín foi terapêutico e até saudável para mim porque me ensinou a ter liberdade de lidar com coisas que na minha vida normal estão escondidas. Permitiu conhecer-me melhor e viver a vida de uma forma muito mais ligeira. Há um tempo decidi que não podia trabalhar por imitação e que não queria ser um ator que compõe de forma externa. Tenho de tentar pulsar a minha sensibilidade e a vibração que me desperta a personagem. Então, tudo o que há no Berlín sou eu, mas amplificado de um jeito muito particular para poder estar em disposição de navegar no guião. Posso entender o repúdio do Berlín na mentira que há no coração do mundo moderno, cheio de aparências. Posso entender o repúdio dele pelo sentimentalismo barato que há na cultura atual. Posso entender isso, mas nesse sentido, o que me difere do Berlín é a reação que tenho a essas questões.

"Berlín é um homem desesperado por sentir da mesma forma que ele vê as pessoas sentirem normalmente, mas tem aquela tendência para desprezar demonstrações de sentimentos. Tem uma espécie de solidão íntima muito grande que tenta encher com outras coisas."

Mas porque é que ele é assim?
Penso que ele tem uma fratura. Toda a gente tem uma fratura, toda gente tem uma carência e toda gente tem uma falta que tenta tapar. Penso que Berlín é um homem desesperado por sentir da mesma forma que as pessoas sentem normalmente, mas tem aquela tendência para desprezar a maior parte dessas demonstrações de sentimentos. Então, tem uma espécie de solidão íntima muito grande que tenta encher com outras coisas. Ou com sentimentos, é verdade, ainda que sejam maus, porque sente raiva por não conseguir sentir dessa forma tão fácil como ele vê os outros sentirem. Ele quer amar num conceito inusitado, mas como nunca acaba de se produzir e enche essa carência com outras coisas. Mas, acima de tudo, Berlín é um homem desesperado por amar. No entanto, com o caminhar da série, penso isso muda. Acho que ele começa a sentir que faz parte de uma família que nunca teve.

[a descrição de Berlín em “A Casa de Papel”] 

Como é que se preparou para o interpretar?
Fui a uma fundação para doentes terminais [suspiros]. Foi impressionante. Eu estava consciente de que todas as pessoas com quem ia estar tinham um prazo de vida muito curto e a ideia de estar ali com aqueles doentes arrombou-me muito intensamente. Tive uma conversa muito potente com um homem que até havia um ano e meio antes do nosso encontro era um profissional qualificado com um posto de muitíssima responsabilidade numa grande empresa, era um homem muito inteligente. Num momento de esplendor profissional, vital e familiar descobriu que tinha uma doença que o ia matar dali a pouco tempo. Eu perguntei-lhe se podia falar com ele e ficámos a sós. Houve um momento em que lhe perguntei se podia fazer uma questão muito privada e ele disse: “Estou aqui para te esclarecer sobre o que quiseres”. Perguntei-lhe: “Para ti, quando soubeste desta doença, o que ficou no foco e que não parecia importante antes de saberes que estavas a morrer?”. E ele disse-me: “Estar aqui contigo”. Pedi-lhe para explicar melhor e ele disse: “Agora estou absolutamente aqui contigo. Se me fizeres perguntas eu não vou andar a especular. Estou aqui com toda a presença de que sou capaz porque este é um momento único e pode ser que não me restem muitos mais”.

Claro, é estremecedor ver o sentido de respeito, do sentido, do cuidado e da atenção que tinha aquele homem por saber que tinha as horas contadas. Tomei aquilo como uma mensagem que me reforçou em vários sentidos naquilo que eu, pessoalmente, estou a tentar fazer: aproveitar melhor todos os dias. Andamos todos muito no âmbito da cabeça. No que respeita a Berlín, esta personagem que em princípio seria o vilão e antagonista tem, no final de contas, uma consciência da morte que lhe faz olhar para todos os momentos que lhe surgem à frente sem contemplações.

"Para preparar a personagem fui a uma fundação para doentes terminais. Estava consciente de que todas as pessoas com quem ia estar tinham um prazo de vida muito curto e a ideia de estar ali com aqueles doentes arrombou-me intensamente."

Quando é que se apercebeu da dimensão que “A Casa de Papel” tinha ganho?
A estreia da série foi muito forte em Espanha, depois as audiências baixaram um pouco e a média, embora fosse boa, também não era uma coisa de outro mundo. De repente estreou-se na Netflix Internacional. Estávamos em dezembro. Dois meses depois, em fevereiro, eu fiz uma viagem de cinco semanas pela Europa e, à medida que iam passando os dias, não conseguia acreditar no que estava a acontecer. Ia a Londres e, de repente, as pessoas cumprimentavam-me na rua, no supermercado, no cinema, quando estava a ver ruínas. Pronto. Depois fui para Paris e as coisas já tinham ganho uma proporção que eu nem conseguia entender. Eu estava em Toulouse, no aeroporto à espera da minha viagem, e as pessoas começaram a tirar-me fotografias. As pessoas que registavam as malas até deixaram o trabalho e ficaram a olhar para mim!

Em Itália é que foi a grande concretização: estava à frente do “David” de Miguel Ângelo — meu Deus, é o Miguel Ângelo! — e metade do museu tinha parado a olhar para mim e a pedir para tirar fotos. E eu pensava: “Ou isto é uma partida ou está a acontecer algo que eu não estou a conseguir perceber. Ou as duas coisas, talvez!”. Ainda hoje não sou capaz de dimensionar o que se está a passar porque os dados que me têm chegado são complicados de valorizar em tempo real. É a série mais vista em vários países do mundo. No outro dia gravei uma pequena cunha de texto porque puseram um daqueles cartazes dos estádios num jogo na Arábia Saudita. Mandei uma mensagem de agradecimento e pelos vistos a mensagem saiu em todos os telejornais! Acho que tem de passar algum tempo para entender a dimensão desta série: eu procuro olhar para ela com alguma distância.

Houve espaço para o improviso?
Sim! Tentei levar o Berlín o mais longe possível: quando estava a gravar, embora houvesse momentos em que tinha de respeitar o que dizia o guião e a planificação técnica, eu tentava esticar ao máximo a ideia de que em cada momento nem eu mesmo soubesse o que se ia passar. Para isso, gozava de todos os pequenos acidentes que me ofereciam os meus companheiros como atores e como personagens. Tentei estar muito atento ao presente. Interpretar a personagem de Berlín ensinou-me a escutar o outro mais do que nunca como ator. Eu não sou como os atores que obedecem cegamente quando alguém lhes diz: “Tens de fazer as coisas assim e assim”. Trabalhei muito com a direção para poder improvisar, mas continuar a respeitar os movimentos das câmaras e os outros aspetos técnicos. Eu sou mais pausado que isso e o Berlín também é uma personagem muito elástica: tenho de buscar em mim e na minha sensibilidade aquilo que quero exprimir através de uma personagem. É como se fizesse um cozido: ponho-me na cozinha e vou pondo na panela indiscriminadamente tudo aquilo que me poderá apetecer. Isso deve ser algo muito próprio da minha personalidade porque eu também pinto muito, de tal forma que procuro que o meu processo de estudo não seja intelectual, mas antes sensível. Nesse processo, tentei ir de um jeito o mais arriscado possível na ideia de que Berlín é um tipo que não tem qualquer interesse em respeitar as convenções, que é uma pessoa com uma determinação para parar o tempo de cada vez que tem uma pessoa à sua frente.

"Há um momento em que o Arturito tem uma ferida e é preciso pôr os pontos de sutura. Ele tinha uma prótese de silicone na pele para isso. Mas quando acabámos a cena e lhe tiraram o silicone, com a tensão do momento, o cirurgião tinha metido os pontos na própria pele!"

Que momentos da série foram improvisados e não estavam no guião?
Quando eu estava a contracenar com a Alba Flores [que interpreta Nairobi na série] era quando havia mais improviso porque os dois gostamos muito de improvisação e trabalhamos de forma mais atrevida nessa vertente. Um dos momentos mais impressionantes de improvisação em “Casa de Papel” é aquele em que estamos a operar Arturito [interpretado por Enrique Arce]. Eu estou em cima dele e disse coisas que não são exatamente aquelas que estão no guião. Há um momento brutal nessa operação: há um momento em que o Arturito tem uma ferida e é preciso pôr os pontos de sutura. Para fazer o detalhe dos pontos de sutura veio um cirurgião, lembra-se? Então, ele tinha uma espécie de prótese de silicone por cima da pele para o tal cirurgião fazer os pontos de sutura na ferida. Mas quando acabámos a cena e lhe tiraram o silicone, com a tensão do momento o cirurgião tinha metido os pontos na própria pele. Ele não tinha anestesia nem nada: estávamos ali a gravar a cena, eu estava lá com ele e vi. Com a rodagem e com a tensão do cirurgião ninguém reparou que ele estava a coser os pontos na carne sem anestesia. Tentávamos tirar o silicone e estava basicamente tudo cosido porque tinha pontos no próprio peito. Foi incrível.

[excerto da série:]

E quais foram os momentos mais intensos que recorda?
Houve muitos, mas alguns dos mais impressionantes foram aqueles em que tivemos de usar armas. Porque usámos armas reais, verdadeiras, na rodagem da série. Fizemos um curso com a polícia para aprender a disparar e, embora não tivéssemos fogo real na maior parte dos momentos, houve um em que o disparo foi verdadeiro: foi aquele em que eu uso uma metralhadora. A arma é verdadeira e o fogo que abre é verdadeiro porque o realizador queria que o movimento da metralhadora e a pólvora fosse o mais realista possível. A metralhadora estava carregada com um tipo de balas que não são as normais, mas a pólvora, o impacto e a vibração era real. A potência das explosões quando alguém usava a metralhadora era real. Essa parte não foi encenada. De resto, as armas que usávamos para gravar quando havia outros atores à nossa frente eram reais, mas o fogo não. Era demasiado perigoso.

"Usámos armas reais, verdadeiras, na rodagem da série. Fizemos um curso com a polícia para aprender a disparar. Embora não tivéssemos fogo real na maior parte dos momentos, o disparo no momento em que uso a metralhadora foi verdadeiro."

O que acha do fim que foi dado ao Berlín?
Isso é um spoiler [risos]! No final, toda a gente se apercebe que o Berlín é uma personagem que é pura turna e que todos desejam [risos]. Mas quando soube do final que o Berlín ia ter, senti que tinha muita potência e muito sentido. Pareceu-me muito interessante porque há partes do guião que retroativamente redirecionam tudo o que se passou antes, que lhe dão maior dimensão. Há algo nessa componente de Berlín que merece uma concretização quase trágica, com um sentido de risco muito grande. Senti que tinha muitíssimo sentido.

Esta foi a personagem mais desafiante que teve de interpretar?
Eu vivo cada sessão de trabalho como se fosse a mais importante da minha vida: é esse o meu compromisso com o meu trabalho, mas também com a minha vida. No outro dia fiz uma curta-metragem — pensei que nunca mais ia fazer curtas, mas fiz — e era a história de um pintor. Fiz essa curta-metragem como se fosse o último projeto de Steven Spielberg, ou seja não relativizo a minha concentração só porque me parece que um trabalho é mais importante do que outro. De maneira alguma! O meu compromisso é igual. Às vezes a equipa que temos ao lado ou o material com que lidamos permite-nos voar mais alto, mas sou igualmente esforçado em todos os meus trabalhos.

E a nível pessoal?
Uma maravilha. A nível pessoal foi uma das experiências mais lindas e afetuosas da minha vida. Há momentos na profissão de um artista em que se lida com pessoas de quem gostas muito e outras em que nos deparamos com pessoas de quem simplesmente não gostamos. Há momentos determinantes em que nos apercebemos que há algo mais. O arranque da série foi muito exigente fisicamente: houve uma altura com o decorrer da série em que realmente pensava ia passar mal porque era muito complicado, os tempos eram muitos curtos, havia muita gente, era tudo muito ambicioso e eu não sabia até que ponto aguentava aquilo e aquele ritmo. Mas pumba! Encontrei esta corrente de simpatia entre os atores e o resto da equipa. Era absoluta magia. De tal jeito que agora queremos beijar-nos a toda a hora [risos]. Mas A “Casa de Papel” vai mais longe do que isso.

[o plano de violência de Berlín:]

Como assim?
Veja: está claro que até há muito pouco tempo a ficção audiovisual global era em inglês. Isso parece estar a mudar e é uma coisa incrível. Até há bem pouco tempo, se houvesse uma série de narcotraficantes, tínhamos a certeza a absoluta que se falaria inglês, mas de repente chega “Narcos” e várias línguas conseguem coexistir na mesma produção: tão depressa se fala inglês como se fala castelhano. Penso que isso só vai ser mais notório a partir de agora. E isso tem sido maravilhoso! Muita gente fala de bandeiras, de nacionalismos, de globalização. Penso que no caso desta série não se trata nada disso: a língua chega a ser convite a ver a série. Estamos a competir especificamente e de uma forma mais evidente com os limites linguísticos que havia até há bem pouco tempo no audiovisual.

O que vai fazer agora?
Bem, eu tenho a impressão que numa profissão como a minha — que é tão dura e tão cruel às vezes — resistir é a máxima aspiração. Há trabalho que são trunfos e outros que são duques. Tenho a impressão que tive um ou talvez dois trunfos, por isso ando a tentar reunir forças para dizer “não” e fazer algo que queira realmente fazer. Seguramente vou fazer uma exposição de pintura, estou a realizar coisas que eu próprio escrevi e estou um pouco mais sossegado. Assim, quando disser “sim” a um novo projeto, vou ter a certeza que esse projeto me emociona muito. Mas não estou completamente parado: ainda no outro dia fiz uma curta-metragem, embora tenha dito que não a dois filmes. Quero esperar até sentir que tenho algo claro para fazer. Não tenho pressa. Agora estou a pôr os pés na terra: trabalhei muito intensamente durante um meio e meio sem parar durante séries seguidas — só na “Casa de Papel” foram seis meses brutais –, por isso ando a escrever, a pintar e a meditar. A meditação é um dos pilares da minha vida quotidiano, como indivíduo e como profissional.

"O assalto era o ponto concreto da série, mas penso que outro ponto é o da família sem estrutura que luta contra o sistema. Se pegarmos por aí, acho que "A Casal de Papel" tem potencial para alimentar mais uma temporada e dar-lhes mais voltas."

Acha que faria sentido haver mais uma temporada de “Casa de Papel”?
[risos] Eu penso que o material que há na “Casa de Papel” foi feito para ter princípio e um fim. Dito isto, creio que além de ser uma série de um assalto, é uma série de uma família sem estrutura que está a tentar articular uma maneira pessoal de dar a volta ao sistema. Embora o assalto fosse um ponto concreto da série, eu penso que outro importante é o dessa família que luta contra o sistema como se todos fossem o Robin Hood. Se pegarmos por aí, acho que “Casa de Papel” tem potencial para alimentar mais uma temporada e dar-lhes mais voltas. Agora ou dentro de vinte anos, não sei!

E o que faria se tivesse 2.400 milhões de euros à mão?
Essa é uma pergunta com rasteira… Acho que continuaria a fazer o mesmo que já faço. É verdade que se tivesse mais dinheiro, provavelmente em vez de comer um fiambre normal comeria um fiambre um pouco melhor. Mas a gosto da vida como ela é. Dito isto, seguramente poderia permitir-me a ter um estúdio de pintura estupendo ou um lugar muito bonito para trabalhar. Ou poderia convidar as pessoas que quiser e dar-lhes o que elas quiserem. Ou permitir-me embarcar em projetos que coincidam mais com os meus ideais. Depois, inverteria num mecanismo de desprogramação das cabeças das pessoas que mandam no mundo [risos] ou pegaria neles todos e punha-os a começar tudo de novo. Porque creio que é preciso dar uma volta a este mundo tolo em que vivemos.

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