Foi no dia 27 de fevereiro que aconteceu o Observador Meeting Point, powered by Samsung. Com a ajuda de um painel diversificado de especialistas, o tema da digitalização no setor da educação esteve no centro da tarde de trabalhos.

A digitalização está a transformar a educação e importa perceber de que forma. Como está o estado da arte na colocação da tecnologia na sala de aula? Como é que o Estado se está a organizar? Como evitar o gap entre público e privado? Como encontrar o equilíbrio entre remoto e presencial? E entre o digital e o físico? Como garantir que ninguém fica para trás? Como vamos formar os profissionais? De onde surgirão os recursos para tudo isto? De que forma será feita a monitorização? Estas foram as perguntas que deram início ao evento e que se propuseram a ser o mote para as discussões que se avizinhavam.

Nuno Almeida, Mx B2B Head na Samsung, avançou que “(…) a primeira coisa a pensarmos, numa lógica nacional, será na infraestrutura de rede. As escolas estão preparadas para ter este tipo de solução, de tecnologia, nas salas de aula? (…) Eu diria que não existe nenhuma informação ao dia de hoje que nos garanta qual é que é a fotografia das salas de aula quanto à sua preparação. A escola digital tem de ser um desígnio nacional. Tem de estar numa lógica de longo prazo”.

Victor Machado

Nuno Almeida, Mx B2B Head na Samsung.

Para o profissional, a educação deve ser o verdadeiro elevador social e a estratégia que lhe está associada deve assentar-se em três pontos: tradução para uma visão de longo prazo; tradução de um consenso alargado por parte dos principais stakeholders; incorporação de uma articulação do poder central e do poder local em torno de um propósito comum – a promoção de um ensino mais inclusivo, adaptativo e inovador. “Se não tivermos esta abordagem holística, não vai funcionar”, rematou.

Samsung: os casos de sucess

↓ Mostrar ↑ Esconder

2014: Projeto Supertabi (CM Maia) – 1800 alunos/ano; 7 agrupamentos; 56 professores. O objetivo? Transformar as práticas pedagógicas: a Pedagogia, a Tecnologia e o Espaço;

2018: Projeto Manuais Digitais (Madeira) – 15400 alunos; 28 escolas (públicas e privadas); 756 turmas; 2304 professores. Objetivo? Uma visão holística;

2021: Colégios Privados – Colégio Efanor #2’24 Ranking; Colégio Novo da Maia #7’24 Ranking. Fruto de novas práticas pedagógicas baseadas no digital;

2021: Projeto Manuais Digitais (Açores) – 15500 alunos; 39 escolas; 2100 professores.

Transformação Digital nas escolas

↓ Mostrar ↑ Esconder

Benefícios:

  • Motivação;
  • Diminuição do insucesso escolar;
  • Maior interatividade da sala de aula;
  • Menor peso das mochilas;
  • Maior interação com o encarregado de educação;
  • Remote Ready: ensino à distância;
  • Maior inclusão e inovação.

Os desafios:

  • Infraestrutura e Conectividade;
  • Segurança;
  • Dispositivos Digitais;
  • Conteúdos;
  • Formação;
  • Serviços.

“Lápis Papel, Teclas e Ecrãs – Contornos e Perspetivas da Experiência na Região Autónoma da Madeira” foi a intervenção levada a cabo por Jorge Carvalho, Secretário Regional de Educação, Ciência e Tecnologia da Madeira onde todo o trabalho desenvolvido pela região autónoma foi dado a conhecer. A fruto de exemplo e de motivação para o que poderá ser o futuro. “Os processos de digitalização na sociedade vão ocorrendo a cada dia. O nosso quotidiano é cada vez mais digital. A educação também não é exceção. O que nós, na Madeira, nos começámos a aperceber é de que tínhamos uma população cada vez mais nativo-digital. Os nossos alunos viviam já neste contexto”.

Victor Machado

Jorge Carvalho, Secretário Regional de Educação, Ciência e Tecnologia da Madeira.

Para Jorge Carvalho, torna-se evidente os desafios que as instituições escolares enfrentam, numa base diária. Neste sentido, a tecnologia e a digitalização são mais um com o qual precisarão de aprender a lidar. “As escolas estavam e estão, neste momento, perante um desafio de gerir a digitalização e a tecnologia. Por outro lado, os organismos internacionais tinham já algumas recomendações para aquilo que deveria ser um caminho a seguir em relação ao digital. Chegados aqui, e com estes pressupostos, foi assim que nós definimos de que forma iríamos agir. De forma muito clara e objetiva, papel e lápis em toda a escolaridade obrigatória, desde o primeiro ao décimo segundo ano. Há papel e há lápis. Até ao final do 1.º ciclo, teremos também manuais em papel. A partir do 5.º ano os alunos passaram a ter manual digital. Continuam com o papel e lápis, mas o manual passou a ser digital. Foi dessa forma que se procurou enquadrar aquilo que nós pretendíamos de forma a dar respostas aos desafios”, acrescentou.

Dentro daquilo que tem sido o trabalho desenvolvido até aqui, a formação dos professores para todo este novo ecossistema foi uma constante e assume uma importância sem igual. Para o Secretário Regional, na sala de aula “o professor nunca poderia ser o elo mais fraco”. Mas a formação não fica por aqui. Também as famílias entram na equação, sendo fundamental esclarecê-las. Ao longo da apresentação, ficou claro que é necessário capacitar todos os intervenientes para compreender que os filhos deixam de ter um livro físico para passar a ter um equipamento e de que forma é que essa mudança representa, em si, algo positivo. Se dúvidas houvesse quanto à eficiência desta mudança no ambiente escolar, Jorge Carvalho partilhou, finalizando, que o grau de adesão das escolas a esta nova realidade foi total, demonstrando o interesse na abordagem e a vontade em fazer diferente.

Já o debate do dia teve lugar logo após a apresentação do Secretário Regional de Educação, Ciência e Tecnologia da Madeira e contou com a presença de Maria João Horta, Subdiretora-Geral na Direção-Geral da Educação, Sofia Ribeiro, Secretária Regional da Educação, Cultura e Desporto dos Açores, Rodrigo Queiroz e Melo, Diretor Executivo da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP), Rui Pacheco, Divisão de Tecnologias Educativas, Learning Technologies Lab Porto Editora, e Marco Bento, Professor e Investigador. Numa conversa moderada pelo Host na Rádio Observador, Paulo Ferreira, o pontapé de partida foi precisamente perceber o estado da arte e a evolução desejável deste que é um processo de digitalização nas escolas.

Victor Machado

Mesa-redonda moderada por Paulo Ferreira, Host da Rádio Observador, com Maria João Horta, Subdiretora-Geral na Direção-Geral da Educação, Sofia Ribeiro, Secretária Regional da Educação, Cultura e Desporto dos Açores, Rodrigo Queiroz e Melo, Diretor Executivo da Associação de Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo (AEEP), Rui Pacheco, Divisão de Tecnologias Educativas, Learning Technologies Lab Porto Editora, e Marco Bento, Professor e Investigador.

“O processo de digitalização na educação tem já muitos anos, não é uma coisa recente”, quem o disse foi Maria João Horta, esclarecendo: “Não é só o atirar a tecnologia, ter este puzzle que conhecemos bem de, juntamente com a tecnologia, a infraestrutura, capacitar os intervenientes e, por outro lado disponibilizar os recursos digitais… estas três peças que, há uns anos achávamos que era só encaixá-las e a coisa acontecia, hoje em dia sabemos que há muitíssimas mais variáveis que ainda precisamos de estudar e de perceber. Quando tomamos determinadas decisões, como é que o sistema reage? Não põe em causa esta necessidade da digitalização da educação, agora que tem uma enorme complexidade, uma enorme resistência à mudança, tem. Temos de ir estudando melhor os impactos que vamos tendo. Tem de existir continuidade para podermos chegar a resultados”.

E no ensino privado, de que forma tudo isto está a acontecer? Rodrigo Queiroz e Melo assumiu as rédeas da conversa e explicou a importância de um equilíbrio entre os vários fatores, no universo das escolas privadas. “Por um lado, muitas condições para inovar e andar para a frente, mas, por outro lado, nós inovamos muito, mas não podemos cair no risco de não dar certo. Não podemos esperar dois ou três anos para ver se deu certo. Há sempre um equilíbrio grande entre a inovação estar sempre na linha da frente, mas garantir que tudo se passa da melhor maneira”. Mas, para o Diretor Executivo da AEEP, a conversa hoje tem de ser outra e traz ao de cima um outro tema complementar: a inteligência artificial generativa. “A inteligência artificial generativa veio mudar a conversa. E esta mudança é que, se a sala de aula não muda rapidamente, a sua relevância torna-se diferente. Não é só o acesso à informação, é o acesso a algo que interage comigo, dando-me a informação de que eu necessito. Eu diria que no privado estamos muito atentos a este processo, porque há aqui questões fundamentais de manter relevância, porque continuamos a acreditar profundamente na escola”, afirmou, cedendo depois a palavra a Rui Pacheco que assumiu o papel de nos dar, agora, o enquadramento acerca do setor editorial no meio de todo este ecossistema.

“Nós já estávamos cá antes de tudo isto começar a acontecer. A escola virtual fez, em janeiro, 20 anos. Nós, desde o princípio, quisemos ser fonte de escolhas. Nós não fazemos a apologia de A ou de B, nós proporcionamos um conjunto de instrumentos, tornando-nos úteis à comunidade. Desde 2009, todos os manuais digitais do Grupo Porto Editora, que são cerca de 600, existem sob o formato interativo”. Para o orador, torna-se óbvio de que há muita coisa a mudar e que, no caminho da mudança, tudo acontece a ritmos diferentes, tanto na Madeira, como nos Açores, e até mesmo dentro do próprio Continente. Tema também bastante recorrente ao longo de todo o debate. “Tem muito que ver com o nível de maturidade tecnológica das escolas, o grau de infraestrutura, a capacidade ou não que os professores têm de tirar partido de um conjunto de coisas, etc. Nós temos cerca de 70 mil professores a usar a Escola Virtual todos os dias. Nós temos os dados que nos permitem inferir um conjunto de situações no concreto e não na aparência. Por isso, temos a capacidade de ajustar as nossas ofertas em função dessas experiências e é isso que temos feito”, reforçou.

Já para Marco Bento, a questão é outra e foi um pouco de encontro às intervenções dos colegas. Para o professor e investigador, o problema está na escolha do nome: digitalização. “O próprio nome não ajuda muito porque nos coloca aqui num confronto entre o digital e o analógico. Parece que há aqui duas fações quando, na verdade, não me parece que tenha de ser isso que temos de defender”, afirmou. Na sua ótica, deveríamos assistir a uma naturalização do processo, uma vez que “naturalizar o digital implica não falar sobre ele. No dia em que não tivermos de falar no digital significa que ele está a funcionar de uma forma fluída. A segunda constatação é que o nosso foco permanece há anos e anos numa componente tecnológica e o foco é, claramente, numa vertente pedagógica. Aí é que está o problema. Uma estrada sem sinais, sem regulação não nos fará, certamente, ter um bom processo de incorporação digital. E nós temos ausência de regulação digital. Como precisaríamos de ter uma boa regulação dentro das escolas. Ainda temos muitas escolas à procura do que é este digital”. A par com tudo isto, surge ainda a questão da duplicação de tarefas: “Estamos num processo de duplicação de tarefas onde o digital, em alguns casos, consigo perceber porque é que há tanta resistência. A mim parece-me que os professores não têm tempo pedagógico para preparar aquilo que será um bom conceito digital”.

No seguimento das palavras do colega de painel, Sofia Ribeiro aproveitou para fazer um espelho das suas, reforçando que “não há, não pode haver, nem nós queremos que haja uma dictomia entre a tecnologia e a prática pedagógica. O professor, na sua sala de aula, continua a ser a peça fundamental que decide, face aos alunos que tem à frente, os recursos que vai utilizar, quando e como. A tecnologia é um portentoso instrumento”. Já no que diz respeito à implementação do manual digital, também presente em grande massa no arquipélago, a Secretária Regional partilhou que, “para que ele corra bem na sua implementação, há uma série de condições que têm de ser verificadas. Em primeiro lugar, numa sala de aula nós temos de ter todos os alunos com um manual digital; em segundo lugar, têm de ter todos o mesmo equipamento; em terceiro lugar, o equipamento tem de ter a capacidade de prever a sua blindagem ao acesso a determinadas plataformas cuja decisão provém da própria escola; um quarto elemento é um modelo de segurança de utilização e de rastreabilidade do próprio equipamento. Quando isto não acontece de uma forma agregada, nós vamos tendo uma série de disrupções que causam problemas acessórias na implementação dos manuais digitais. Numa sociedade em rápida mudança, o grande desafio está na formação. De podermos fazer formação contínua, continuada e em permanente atualização”.

“Sala de aula do presente”

↓ Mostrar ↑ Esconder

Na apresentação levada a cabo por Marisa Afonso, Coordenadora de Formação, Escola Virtual, Porto Editora e Celina Lajoso, Professora e Formadora no Projeto Manuais Digitais, Região Autónoma da Madeira, estes foram algumas dos pontos partilhados.

Em 20 anos de Escola Virtual são já:

160.000 Recursos Educativos Digitais de todas as disciplinas (Ensino Regular);

700.000 Utilizadores;

120.000 Professores;

Milhares de horas de formação nas escolas.

Com a introdução dos Manuais Digitais:

– Os alunos não deixam de escrever, nem de usar o caderno. Desenvolvem, sim, competências digitais; tornam-se proativos e autónomos; e preparam-se para um mundo, cada vez mais, digitalizado.

Victor Machado

Celina Lajoso, Professora e Formadora no Projeto Manuais Digitais, Região Autónoma da Madeira, e Marisa Afonso, Coordenadora de Formação, Escola Virtual, na Porto Editora.

Então, quando falamos em digitalização na educação, qual a abordagem do governo em relação a este assunto? Com a tarde a acabar, foi a altura de Alexandre Homem Cristo, Secretário de Estado Adjunto e da Educação, subir a palco e partilhar as suas ideias. “A nossa prioridade na equipa da educação é o foco na aprendizagem”, começou por dizer, acrescentando: “os alunos aprenderem significa melhorarem as suas competências, termos indicadores dessa melhoria. Se isso é feito através de instrumentos digitais, ou não, não é a prioridade. O fim é a aprendizagem, a tecnologia é um meio para atingir esse fim. A política pública da educação, sem esquecer que a tecnologia é incontornável, está a ser pensada no âmbito da aprendizagem. Muito daquilo que nós falamos que é o impacto da tecnologia na aprendizagem, acontece na sala de aula”. Para o Secretário de Estado, a premissa é a de um futuro da educação cada vez mais capaz, com a tecnologia como um aliado ao longo de todo o percurso.

Victor Machado

Paulo Ferreira e Alexandre Homem Cristo, Secretário de Estado Adjunto e da Educação.

E uma coisa ficou clara, o futuro será cada vez mais tecnológico e a inteligência artificial estará em todo o lado. “Não poderemos prescindir da digitalização na educação, porque a inteligência artificial é um layer que não permite essa ausência. A Inteligência Artificial vai estar em casa dos pais e dos alunos, vai estar mobile e cada vez mais está presente nas nossas empresas. Por essa razão, o vertical educação é um vertical que tem que apostar nestas áreas. A Inteligência Artificial não é criada para dificultar, para criar mais barreiras aos professores…ela existe para eliminar essas barreiras e fomentar a colaboração dentro das aulas, a motivação dos alunos, a produtividade e a criatividade. É algo muito importante”. Foi com as palavras de Nuno Parreira, Diretor-Geral da Samsung, que a tarde foi dada como terminada, deixando no ar a certeza de que no futuro da educação, aprender a aprender, com a ajuda da digitalização, poderá fazer a diferença, nunca menosprezando as necessidades de quem enriquece uma sala de aula: alunos e professores. Reveja a tarde completa, aqui!