Estes famosos simpatizam com o PS. Mas porquê?

A artista plástica Joana Vasconcelos, o maestro António Vitorino d' Almeida ou o cientista Rui Reis explicam o seu interesse nas primárias do PS. Mas o Observador ouviu também quem ficou à margem.

Para alargar o sistema democrático português, encontrar uma “alternativa credível” ao Governo de Pedro Passos Coelho ou para contrariar a tendência de fechamento e de falta de transparência dos partidos. São estas algumas das principais justificações que levaram personalidades não militantes do Partido Socialista a assinarem uma declaração de princípios e a inscreverem-se no ato eleitoral de dia 28, que escolherá o candidato do PS a candidato a primeiro-ministro. Outros ainda optaram por se inscrever nas primárias apenas “para apoiar António Costa” ou porque António José Seguro “é honesto e bem intencionado”.

Os motivos são variados, e assumem sempre o rosto de um ou a vontade de derrotar o outro. Em todo o caso, são fortes o suficiente para mobilizar mais de 145 mil pessoas sem militância política. Em nome do partido? Não, mais em nome do país.

Além dos 90 mil militantes, mais de 145 mil pessoas inscreveram-se como simpatizantes para escolher entre Seguro e Costa - o que faz um total de 235 mil eleitores.

Mas o que leva, afinal, nomes desligados da política e sem militância partidária a preencherem uma declaração geral de princípios, inscreverem-se, e deslocarem-se no dia 28 às urnas? Fomos falar com algumas personalidades de várias áreas alheias à política para perceber o que mobiliza este universo de simpatizantes. De Joana Vasconcelos a Nuno Artur Silva, passando pelo maestro António Vitorino d’Almeida, pelo cientista Rui Reis ou pelo cineasta António-Pedro Vasconcelos, as opiniões dividem-se – e não só entre o candidato que apoiam mas também entre o papel que estas improváveis eleições estão a ter no país.

Um combate de boxe sem knock-out

“Inscrevi-me pela necessidade de encontrar uma alternativa credível ao atual Governo”, começa por dizer ao Observador João Cardoso Rosas, investigador do Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho, defendendo que a iniciativa é “boa” porque “tudo o que signifique uma maior abertura do sistema político é positivo”.

Mas do outro lado da barricada, outra voz. “Inscrevi-me porque acho importante os partidos sondarem a opinião pública e porque há claramente um candidato que está desgastado e é preciso saber até que ponto um futuro novo governo terá força e irá fazer a diferença”, defendeu, por outro lado, o maestro António Vitorino d’Almeida, pai da deputada socialista Inês de Medeiros e um dos 145 mil simpatizantes que deixou o seu nome nos cadernos do PS para ter uma palavra a dizer sobre o seu futuro.

João Cardoso Rosas vai votar em António José Seguro daqui a duas semanas, enquanto o maestro votará em António Costa. O primeiro, porque Seguro “não tem esqueletos no armário” e porque “é importante ter um novo começo”. O segundo, porque Seguro está “exausto” e porque, diz, António Costa “tem mais condições para, neste momento, assumir o lugar”. Duas versões diferentes da mesma história, é essa a linha que tem acompanhado todo o processo das primárias socialistas, que começou no fim de maio, depois das eleições europeias que deram vitória magra aos socialistas, e que agora se aproxima do fim.

Para o investigador da Universidade do Minho, António Costa “representa o passado, sendo apoiado pela oligarquia, pelo poder económico e pelos jornalistas”. E essa é razão suficiente para se ter dado ao ‘trabalho’ de se alistar nesta batalha, para dar o seu contributo ao atual secretário-geral do partido socialista – partido do qual não é militante, apesar de ter participado em conferências da convenção ‘Novo Rumo’. “Não sou do PS mas os meus valores políticos estão em consonância com o centro-esquerda”, afirma o investigador para justificar a sua inscrição. Por isso e porque “há uma divisão como nunca houve, uma clivagem profunda, e vejo esta situação com alguma preocupação”.

"Imagine-se: vou reger um concerto, mas o ensaio correu-me muito mal e vêm-me dizer que já não há tempo e tenho de ser substituído porque há outro mais capaz do que eu naquele momento. Claro que fico chateado, mas de facto sei que o ensaio me tinha corrido mal, e acima de tudo o que queremos é defender a orquestra". 
António Vitorino d'Almeida

Uma coisa é certa: trata-se de uma “questão de figura”, e ainda bem. Para António Vitorino d’Almeida os debates entre os dois candidatos socialistas têm sido “desastrosos”. “As pessoas estavam à espera de que dissessem coisas opostas e tivessem ideologias opostas, mas isso seria uma catástrofe”, diz. “Isso significaria que o partido estava totalmente dividido em dois”. E não está? Para o maestro não, e “a atrapalhação que se sente nos dois mostra isso mesmo”. Estas primárias socialistas podem até ser “uma situação ingrata”, diz, mas o facto de haver ideias e formas diferentes de pensar e resolver os problemas dentro do mesmo partido é “natural”. O que não é natural é haver divergências ideológicas de raiz.

Para António Vitorino d’Almeida, que não tem militância em nenhum partido mas que colabora ativamente com o Partido dos Animais (PAN), “o respeito pelas duas pessoas” deve ser o “princípio” comum a todos os que vão votar, quer como militantes, quer como simpatizantes. E  arrisca uma ou outra analogia: “é mais ou menos como um combate de boxe que se luta com a condição de não deixar o outro ko. É preciso dar uns murros para que o outro desista, mas não caia”, diz. E António José Seguro está “exausto”. Será o primeiro a cair?

Instrumento de democracia ou perda de tempo?

António Costa Pinto, politólogo e comentador, acompanha com interesse a campanha e considera que está a influenciar o sistema político-partidário de duas maneiras óbvias: por um lado, “dá ao PS uma centralidade no espaço público muito significativa, muito maior do que se o nome fosse escolhido em congresso”. E, por outro, “obriga os candidatos a falar mais para a sociedade do que para o partido”, diz, apesar de acreditar que o PS tenha um núcleo eleitoral fixo e que seja sobretudo para estes que aponta a participação.

Questionado pelo Observador sobre a importância ou não destas eleições inéditas, o comentador foi perentório: “É um processo interessante e positivo”, que faz “muito sentido” porque Portugal “é uma democracia de fraca qualidade e nessa lógica tudo o que incentiva a cidadania é útil”. É uma oportunidade para remar contra a corrente de críticas em torno da “opacidade” dos partidos, diz.

Medina Carreira não quis revelar se se inscreveu ou não nas primárias por já ter sido militante do PS.

Ainda assim, o comentador não vai votar nestas eleições – “votaria, se não estivesse na posição de analista”, diz. Já Henrique Medina Carreira, também comentador e analista político, não quis pronunciar-se sobre o assunto nem revelar se se inscreveu ou não, por já ter sido militante do Partido Socialista nos finais da década de 70. “Prefiro não falar no assunto até porque já fui militante do PS”, respondeu ao Observador.

Mas esta ideia de que a abertura da disputa socialista à sociedade civil é um instrumento democrático digno de aplausos não é unânime. António Pedro Vasconcelos, que se tem mostrado ao lado de António Costa, fez questão de se inscrever nestas primárias precisamente por estar em “total desacordo” com elas. Para o cineasta, a abertura da votação à sociedade é “altamente perigosa” porque “é possível que haja votos oportunistas de pessoas ligadas à direita, que nada têm a ver com os princípios daquele partido e que podem ir votar apenas para garantir que um dos candidatos não é eleito”. “Não há forma de controlar isso”, diz.

António-Pedro Vasconcelos nunca se envolveu na política mas inscreveu-se nas primárias para travar Seguro

Gonçalo Villaverde

Para o realizador de cinema, as primárias do PS são “uma perda de tempo brutal, que servem apenas para desviar as atenções do essencial, que é combater o atual Governo de Pedro Passos Coelho”. Mas sentiu-se impelido a inscrever-se por ser “a única maneira de afastar António José Seguro da liderança”, diz. O mesmo paradoxo levou Nuno Artur Silva, fundador da agência criativa Produções Fictícias e moderador do Eixo do Mal, na SIC Notícias, a inscrever-se como simpatizante de um partido com o qual não tem ligação de militância: “Inscrevi-me nas primárias por não concordar com elas”, disse, acrescentando que o modo como o processo foi conduzido foi revelador da forma como “António José Seguro poderia vir a conduzir o país e o partido se fosse candidato a primeiro-ministro”. E por isso alistou-se.

Instrumento para ganhar legislativas

“As primárias são importantes porque acredito que é o PS que vai ganhar as eleições de 2015”. Este é o ponto número um, diz o investigador Rui Reis, o cientista português com mais obra publicada até hoje. O ponto número dois, que o levou a inscrever-se e que o levará às urnas no dia 28 de setembro, é o facto de ser “estranho” que tenha surgido um outro candidato a primeiro-ministro depois de umas eleições ganhas pelo PS. Ou seja, neste caso, foi a necessidade de combater aquilo que muitos veem como uma injustiça e assegurar que o secretário-geral do PS se mantém como candidato do partido às eleições legislativas do próximo ano.

O cientista Rui Reis não é militante do PS mas apoia António José Seguro

Adelino Meireles

“António José Seguro fez um trabalho difícil ao longo dos últimos anos e é uma pessoa honesta e bem intencionada”, defende o cientista ao Observador. “Quando havia outra liderança no partido, Seguro nunca fez nada disto e até se assumiu como candidato nas listas de Sócrates”, disse, apontando o dedo ao candidato desafiador, que acusa de ser “centralista” e de ter uma “clara diferença de caráter e postura” face a Seguro.

A artista plástica Joana Vasconcelos também se tem mantido ao lado de António Costa nesta campanha interna, apesar de não ser militante do partido. Foi uma das subscritoras da petição pública ‘A cultura apoia António Costa’, e inscreveu-se no sufrágio para isso mesmo, “para apoiar António Costa”, disse ao Observador por e-mail. Para a artista, “as clivagens internas são normais nos confrontos políticos, no PS ou em qualquer outro partido”, pelo que o mais importante é o “respeito pela democracia”. “Trata-se da primeira eleição primária disputada no PS e é fundamental que decorra exemplarmente”, diz.

Joana Vasconcelos apoia António Costa

AFP/Getty Images

Outros houve que não se inscreveram, por estarem fora do país ou tão só por não terem chegado a dar-se ao trabalho de dar esse passo de participação política pouco habitual. Foi o caso do escritor João Tordo, filho do autor Fernando Tordo, que há uns meses emigrou para o Brasil em rutura com a situação político-económica portuguesa. Ao Observador, o escritor repetiu a postura do pai, mostrando-se “profundamente descrente” do sistema partidário e num estado de “quase anti-militância”. Ainda assim, e porque falar mal não basta, admitiu que poderia ter-se inscrito se não tivesse estado fora do país nos últimos tempos, “já que é muito provável que daqui saia o nosso futuro governante”. O difícil, diz, “é reverter a situação que se vive desde sempre de alternância entre PSD e PS”.

Em todo o caso, das primárias socialistas vai sair certamente um dos potenciais candidatos a governar o país a partir de 2015. “Trata-se sempre de uma escolha”, diz João Tordo: votar ou não votar, escolher um ou escolher o outro. E por isso é bom “abrir a voz à sociedade”.

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