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EUA-Coreia do Norte. Cinco respostas sobre um encontro nunca antes visto /premium

Donald Trump e Kim Jong-un encontram-se na próxima madrugada. O que acontecerá dentro daquela sala de reuniões? O Observador falou com dez especialistas que arriscam espreitar pelo buraco da fechadura

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“Inédito”, “nunca visto”, “não é possível prever”, “não sei”. Essas são as respostas mais comuns dos vários académicos e diplomatas contactados pelo Observador quando questionados sobre o que esperar deste encontro entre o Presidente norte-americano e o líder da Coreia do Norte. Apesar disso, consegue-se determinar como partem os dois países para este encontro — e há até quem arrisque prever possíveis resultados.

Uma coisa parece certa: Donald Trump e Kim Jong-un entrarão naquela sala com objetivos, à partida, irreconciliáveis.Isso não significa, contudo, que saiam da reunião de costas voltadas. Uma declaração vaga e apaziguadora, um corte de relações definitivo ou avanços tremendos em direção à paz — todas estas hipóteses foram levantadas pelos vários especialistas consultados pelo Observador. Tudo porque o grau de “imprevisibilidade”, como dizem, é tremendo. O consenso surge à volta do significado do encontro: não há dúvidas de que é histórico e de que, depois disto, nada será igual.

O Observador preparou cinco perguntas e cinco respostas para compreender melhor o que estará em causa neste encontro e o que pode resultar dele.

Quais são os objetivos de cada lado?

Do lado da Coreia do Norte, tudo está claro: “Kim vê isto sobretudo como uma oportunidade para reforçar a imagem do seu país perante o mundo, de forma a tornar mais difícil a reimposição de sanções”, começa por explicar Mitchell Lerner, especialista em relações EUA-Coreia da Universidade do Ohio. “A cimeira com Trump será a maior conquista de todas, já que servirá para se mostrar ao mundo como a voz da razão e da contenção, ao mesmo tempo que consegue arrecadar munições para a propaganda doméstica.”

“Os Estados Unidos são a maior ameaça para a Coreia do Norte e, paradoxalmente, são a sua melhor hipótese de sobrevivência. Isto porque, se os EUA deixarem de ser hostis para com a Coreia do Norte, todos deixarão de o ser.”
James Hoare, ex-cônsul britânico em Pyongyang

O olhar diplomático de James Hoare, ex-cônsul britânico na Coreia do Norte, encontra precisamente os mesmos objetivos por parte de Pyongyang. “Os Estados Unidos são a maior ameaça ao seu país e, paradoxalmente, são a sua melhor hipótese de sobrevivência. Isto porque, se os EUA deixarem de ser hostis para com a Coreia do Norte, todos deixarão de o ser.”

Do outro lado, conta Hoare, temos “um espelho”. “Os Estados Unidos também querem, acima de tudo, garantir a sua segurança absoluta.” Ou seja, o fim do programa nuclear de Pyongyang, agravado pelas declarações hostis de parte a parte. “Os EUA estão preocupados com isso e com as possibilidades de estas armas chegarem a outros Estados que consideram perigosos ou inimigos dos americanos. Por isso, esta é a posição dos Estados Unidos: querem o fim da proliferação nuclear norte-coreana”, resume o diplomata.

Um desejo que, alertam os especialistas, dificilmente será concedido sem grandes contrapartidas por Pyongyang, que se mantém agarrada ao seu armamento como garantia de segurança. “Não há aqui espaço para um compromisso onde os dois lados saiam a ganhar”, resume Nicholas Eberstadt, economista e autor do livro “O Futuro da Coreia e das Grandes Potências” e consultor sobre a Coreia do Norte para o Departamento de Estado norte-americano e para o Banco Mundial.

Kim Jong-un inspeciona material nuclear (AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Por outras palavras, alguém terá de ceder — ou, quem sabe, ambos os lados cedam um pouco. Para isso, há matérias que serão decisivas.

Que tópicos estarão em cima da mesa?

Primeiro, e acima de tudo o resto, a chamada desnuclearização. Só que o problema começa nas palavras, como explica Eberstadt: “Quando os americanos falam em desnuclearização, querem dizer o desmantelamento do programa nuclear norte-coreano. A Coreia do Norte tem uma definição totalmente diferente.” Para Pyongyang, a desnuclearização deve ser sempre focada em toda a península coreana, incluindo Seul. “Isto significa o quebrar da aliança da Coreia do Sul com os EUA, que são uma potência nuclear. Enquanto existir esta aliança, para os norte-coreanos pouco interessa se o armamento nuclear está estacionado na Coreia do Sul ou nos EUA.” A partir do momento em que qualquer armamento nuclear pode ser usado contra si, Kim Jong-un não aceitará desfazer-se dos seus mísseis.

Mesmo que o líder norte-coreano admita fazê-lo, a verificação do cumprimento de um desmantelamento é difícil, alerta o diplomata Hoare. “Para ser sincero, se eu fosse a Coreia do Norte mantinha-me agarrado às minhas armas nucleares”, admite o britânico. Em causa está uma falta de confiança histórica: “O acordo de 1994 aguentou-se durante oito anos — e no final não foi quebrado pelos norte-coreanos, mas sim pela administração de George W. Bush”, alerta. Junta-se a isso a incerteza da presidência Trump, bem patente no rasgar do acordo nuclear com o Irão. “Os coreanos estão disponíveis a parar o programa nuclear, mas não a livrar-se de vez dele”, prevê.

Peter Hayes, especialista em política energética, enumera os vários pontos que considera essenciais para um acordo nuclear entre as duas partes:

  • Suspensão dos testes nucleares da Coreia do Norte e fim do destacamento de plataformas nucleares por parte da aliança EUA-Coreia do Sul na Coreia;
  • Remoção de todas as armas nucleares da Coreia do Norte;
  • Divulgação das instalações clandestinas de enriquecimento de urânio da Coreia do Norte;
  • Inventário de material nuclear da Coreia do Norte;
  • Aplicação de um esquema de monitorização e verificação dos EUA e agências internacionais na Coreia do Norte e de inspeções recíprocas por parte da Coreia do Norte na Coreia do Sul;
  • Instituição de um regime de paz que inicie o fim da hostilidade norte-americana para com a Coreia do Norte e a construção de uma parceria de segurança.

“O tema nuclear é de extrema importância para os Estados Unidos, mas a conversa será muito mais lata do que isso”, alerta o antigo conselheiro do Departamento de Estado norte-americano Mintaro Oba. “Os EUA estão a dar sinais de que a criação de um pacote de ajuda económica [a Pyongyang] é uma possibilidade real. Mas é preciso recordar que tal precisaria da aprovação do Congresso, por isso é uma matéria complicada que não deverá ficar resolvida neste encontro.”

Este será o cerne da discussão no que diz respeito a um acordo nuclear, mas há outros temas que podem vir a ser colocados em cima da mesa. Um deles é a possibilidade de se discutir um tratado de paz para pôr fim à Guerra da Coreia, onde os Estados Unidos têm um papel importante, já que, por exemplo, nunca assinaram o Armistício. “Um tratado de paz — ou, melhor dizendo, uma série de acordos que ponham fim à Guerra da Coreia, substituindo o Acordo do Armistício — será sem dúvida parte fulcral da agenda e demorará muito tempo a ser conseguido um entendimento. Contudo, será crucial, já que tornará mais fácil discutir depois a desnuclearização”, garante Robert Carlin, investigador que fez parte das negociações nucleares com a Coreia do Norte nos anos 90.

Qualquer entendimento neste tema, no entanto, não poderá ficar fechado nesta reunião. Não só porque o assunto é complexo, como também porque tem naturalmente de envolver a Coreia do Sul. Mas claro que, neste encontro, os dois intervenientes podem dar sinais de que estão dispostos a discutir este tópico.

Menos provável é que Trump e Kim discutam a situação dos direitos humanos na Coreia do Norte. “Se Trump levantar essa questão, os coreanos vão ficar irritados. Vão dizer ‘nós libertámos três prisioneiros americanos, apesar de terem sido julgados e condenados pelas nossas leis’”, alerta Hoare, referindo-se à libertação de três norte-americanos por Pyongyang durante a preparação da cimeira.

Quem são os três norte-americanos presos na Coreia do Norte que podem ser libertados em breve?

“Trump está focado na questão nuclear e qualquer tema que possa pôr isso em causa está a ser afastado”, resume o professor Lerner, do Ohio. “Lidar com o tema dos direitos humanos na Coreia do Norte exigiria uma força de vontade política que esta administração, como muitas antes dela, não tem.” Tudo não passa de uma questão de pragmatismo diplomático, como explica o ex-cônsul Hoare: “Suspeito que eles acham que os direitos humanos são uma questão dispensável. É algo útil quando se tratar de pressionar a Coreia do Norte, mas, na verdade, os EUA só estão focados em garantir a segurança dos norte-americanos.”

Isto significa que há temas já decididos e preparados com antecedência. Mas, como se verá, há muito menos decisões tomadas do que é habitual numa cimeira deste nível.

O papel dos dois líderes será determinante?

“Na política diplomática normal, tudo é praticamente decidido antes da cimeira. Neste caso, creio que Trump e Kim decidirão muita coisa só quando se encontrarem cara a cara.” A certeza é avançada por Lee Seong-Hyon, investigador do Departamento de Unificação do Instituto Sejong, na Coreia do Sul, para quem este encontro é, até certo ponto, “um espectáculo” — ou, por outras palavras, um “encontro pouco comum” entre “líderes pouco comuns”.

"Na política diplomática normal, tudo é praticamente decidido antes da cimeira. Neste caso, creio que Trump e Kim decidirão muita coisa só quando se encontrarem cara a cara.”
Lee Seong-hyon, investigador do Departamento pela Reunificação do Instituto Sejong

A maioria dos especialistas ouvidos pelo Observador coincidem, no entanto, num ponto fulcral: o de que Kim Jong-un estará muito melhor preparado do que Donald Trump. “É provável que eles sejam amigáveis um com o outro. Mas Kim estará muito melhor ‘briefado’ e compreenderá muito melhor o que está em causa. Pelo que leio, Trump não gosta muito de briefings”, resume Hoare.

A preparação para esta cimeira tem sido altamente invulgar. Múltiplos encontros em locais diferentes, reuniões apressadas para se chegar a bom porto em tempo recorde e, inclusivamente, um cancelamento que foi entretanto, digamos, cancelado. “Os velhos diplomatas como eu detestam este tipo de processo imprevisível e pouco preparado. O Presidente Trump adora”, declara Joseph DeThomas, antigo embaixador de carreira e ex-conselheiro do Departamento de Estado em matérias nucleares no Iraque e na Coreia do Norte. Pela frente, diz, temos um evento que dependerá de “dois líderes imprevisíveis e voláteis”. “O resultado pode ser um avanço histórico, um corte de relações diplomático desastroso ou um acordo instável e incompreensível.”

A juntar a tudo isto é necessário recordar que Estados Unidos e Coreia do Norte não são os únicos países com vontade de ter voto na matéria. Vejamos então quem são.

Qual será a influência de outros países?

Em primeiro lugar e de forma óbvia, a Coreia do Sul é decisiva para qualquer entendimento que surja desta reunião. “Se houver uma declaração simbólica para acabar com a guerra, o Presidente sul-coreano, Moon Jae-in, juntar-se-á depois”, garante o sul-coreano Lee Seong-hyon.

Para além do pós-reunião, é necessário recordar que Seul foi decisivo no pré. Ou, por outras palavras, sem a ação de Moon Jae-in talvez não tivesse havido sequer este encontro entre Kim e Trump, já que a aproximação da Coreia do Norte a outros países iniciou-se com a diplomacia desportiva dos Jogos Olímpicos de Inverno na Coreia do Sul.

Aperto de mão entre Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, e Moon Jae-in, Presidente da Coreia do Sul (AFP/Getty Images)

AFP/Getty Images

Mas todos os vizinhos de Pyongyang estarão bem atentos. No caso do Japão, explica o fundador do programa sobre a Coreia na Universidade de Stanford, Gi-wook Shin, os nipónicos não serão tão influentes como desejariam: “O seu papel tem sido mínimo e duvido que o encontro entre [o primeiro-ministro Shinzo] Abe e Trump mude isso”, explica. O mesmo não pode ser dito sobre a China, cuja influência, diz, “não pode ser subestimada”.

O mesmo sublinha o professor Carlin: “A China vai garantir que se mantém relevante nesta negociação e envolvida nos pontos mais importantes, independentemente do que as outras partes acham disso. A península coreana é o quintal da China e ela não cederá o seu direito de ter um papel nos assuntos fundamentais.”  Não é por acaso que, antes de se encontrar com o Presidente norte-americano, Kim Jong-un foi até Pequim para falar com o Presidente chinês, Xi Jinping, pessoalmente.

O acerto de agulhas entre os dois países foi também determinante para esta reunião e o papel dos chineses pode ainda vir a ser absolutamente relevante daqui para a frente. Mas afinal o que pode acontecer ao certo depois deste encontro?

O que acontecerá daqui para a frente?

O embaixador Joseph DeThomas sublinha que “incerteza” é a palavra-chave: “Depois desta cimeira, tanto podemos ter uma sucessão de outras cimeiras como uma marcha para a guerra.” Entre os diplomatas ouvidos pelo Observador, as críticas a Trump sucedem-se, já que consideram que o comportamento do Presidente norte-americano pode pôr em risco os procedimentos diplomáticos habituais.

"É altamente provável que os dois líderes consigam um acordo — seja ele qual for, desde que pareça bom a curto-prazo. Mas há também o risco que esse acordo venha a ser nada mais que outra folha de papel cheia de linguagem vaga e promessas vazias."
Gi Wook-shin, fundador do programa da Coreia em Stanford

Contudo, admitem, essa mesma transparência também poderá permitir perceber melhor como correu de facto o encontro. “Trump adora fazer declarações de improviso e adora tweetar. Provavelmente viremos a saber muito mais do que é habitual nestas reuniões”, avisa Hoare.

O mais provável, admite a maioria, é que deste encontro resulte um acordo de princípio amigável, talvez com declarações vagas. Mas até isso é um passo em frente face à retórica agressiva que era usual até há pouco tempo. Ambos os lados, diz Eberstadt, estão “sedentos por um acordo” — o que torna tudo mais fácil para um entendimento.

Os problemas, dizem os especialistas, surgirão depois, com as divergências práticas sobre como aplicar uma declaração pouco específica. “É altamente provável que os dois líderes consigam um acordo — seja ele qual for, desde que pareça bom a curto-prazo. Mas há também o risco de que esse acordo venha a ser nada mais que outra folha de papel cheia de linguagem vaga e promessas vazias“, resume Gi-wook Shin.

Trump e Kim Jong-un (JEON HEON-KYUN/EPA)

JEON HEON-KYUN/EPA

A solução deverá ser, caso tudo corra pelo melhor, mais reuniões: “Não podemos esperar que um único encontro resolva tudo. É preciso mais tempo para eles perceberem melhor as intenções do outro lado e ganharem confiança”, vaticina Lee Seong-hyon.

Se esses encontros serão de novo a este alto nível ou se acontecerão a um nível mais técnico, ficará por saber. A dimensão pessoal poderá também ter o seu peso, como explica Robert Carlin: “Se há uma lição que aprendi durante as negociações das quais fiz parte é que, a não ser que se esteja mesmo dentro da sala, não é possível ter noção do quanto se avançou”, avisa. Seria preciso ser mosca para ouvir as palavras trocadas pelos dois líderes — e nem tudo se esgota nas palavras.

“Por vezes nem tudo se joga no que é incluído nas declarações finais, mas no esbater das diferenças e na descoberta de novas abordagens que podem ser promissoras”, relembra o negociador. Se já é assim na diplomacia tradicional, imagine-se como será num encontro tão “pouco comum” como este que une dois líderes tão “invulgares”. O melhor mesmo é assistir até ao fim deste “espectáculo”.

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