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Exames de Filosofia "podem estar mal corrigidos". Professores receberam respostas trocadas e cortadas a meio, IAVE não deu apoio

Mais de 23 mil alunos inscreveram-se na 1.ª fase do exame de Filosofia. Pela primeira vez a correção fez-se em formato digital, mas erros multiplicaram-se. O IAVE não deu qualquer apoio no processo.

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Desde exames que “desapareceram” do sistema (impedindo que os professores fizessem uma revisão da correção), à existência de folhas de prova totalmente brancas (ou pretas), passando por respostas cortadas a meio ou até trocadas. Os professores que corrigiram o exame nacional de Filosofia este ano dão avaliação negativa à nova forma de correção introduzida pelo Governo e apontam o dedo ao IAVE (Instituto de Avaliação Educativa) por não responder aos pedidos de ajuda — silêncio que levou alguns docentes a submeter notas sem qualquer orientação do instituto que regula a realização das provas. Já o Ministério da Educação considerou o processo “muito positivo” e admite que “no próximo ano serão introduzidas as melhorias qualitativas consideradas necessárias”.

Pela primeira vez, a prova de 11.º ano foi corrigida de forma digital, abordagem que o Ministério da Educação pretende alargar às restantes disciplinas no próximo ano. Mas o sistema registou várias falhas — tanto na 1.ª como na 2.ª fase dos exames nacionais — pelo que “as provas podem ter ficado mal corrigidas”, admite Paula (nome fictício) numa denúncia enviada à Associação Jurídica pelos Direitos Fundamentais (AJDF). Este ano, 23.473 pessoas inscreveram-se na 1.ª fase deste exame de 11.º ano (mais 5.809 face a 2024), sendo a quinta prova com maior número de inscritos.

O que pode explicar o aumento do número de inscritos no exame de Filosofia?

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Este ano, após uma mudança temporária em virtude da covid-19, houve uma alteração das regras dos exames: os alunos voltaram agora a ser obrigados a realizar três exames nacionais para terminar o ensino secundário.

Além de Português A (que se tornou obrigatório para todos), podem fazer dois exames da componente de formação específica da sua área — por exemplo História A e Geografia A, no caso do curso de Línguas e Humanidades — ou um exame da componente de formação específica e o exame de Filosofia, o que pode explicar, em parte, que mais alunos queiram realizar a prova de Filosofia.

No total, este ano inscreveram-se na primeira fase dos exames finais do Ensino Secundário mais de 160 mil estudantes, segundo dados do Júri Nacional de Exames divulgados pelo Ministério da Educação, Ciência e Inovação.

Enquanto corrigia uma das provas da 1.ª fase, a professora deparou-se “com um aluno com a primeira folha de resposta totalmente preenchida”. “Só que a última linha da resposta acabava com um ‘mas’ e o problema é que a folha não continuava, não havia mais nada. Pressupunha-se que havia uma segunda folha de resposta porque o aluno não tinha terminado”, mas nada constava da plataforma.

Recorrendo ao fórum do IAVE criado para esclarecer as dúvidas dos professores corretores, Paula expôs a situação — e não foi a única, havendo mesmo professores que assumiam que o aluno podia ter cessado “a resposta abruptamente por término do tempo”. A resposta que os corretores recebiam era sempre a mesma: “Se a resposta parece não estar completa por algum problema técnico (digitalização, por exemplo) deve enviar mensagem [para os serviços do IAVE] indicando o seu número de classificador, o agrupamento de exames, a prova e o número da resposta que está a classificar”.

“Fiquei a aguardar até ao final do tempo limite, dia 10 de julho”, mas a resposta nunca chegou. “Tinha de entregar as correções às 11h59, mas só submeti minutos depois das 12h, com uma nota a informar que, dado que o IAVE não me tinha dado resposta e que o aluno tinha uma segunda folha, cotei a resposta com a pontuação máxima para não o prejudicar.” A professora de Filosofia argumenta que “fez o reporte da situação com muita antecedência”, concretamente três dias antes do prazo de entrega, sendo que o IAVE alegava “que respondia no prazo de 24 horas”.

“Eu dava a cotação máxima nestes casos, mas houve pessoas que deram a cotação correspondente àquilo que leram. Do ponto de vista de critérios, se se procura imparcialidade, isto não funciona”, alerta.

Com a correção em formato digital, "os professores não conseguem fazer o que deviam: corrigir as provas com consciência, critério e calma. São muitas vidas que ficam em stand-by"
Paula (nome fictício), professora corretora da 1.ª fase do exame de Filosofia

Respostas “trocadas”: não correspondiam à pergunta

Paula fala sob condição de anonimato por medo de represálias e conta que, “ao saber que tinha sido convocada para corrigir provas” da 1.ª fase, ficou “imediatamente apreensiva”, diz, reconhecendo agora que tinha razões para tal. “Não tínhamos informações nem de como tudo ia funcionar, nem sobre a plataforma, nem sequer sabíamos quando recebíamos as credenciais.”

Este ano (e por ser digital), a correção das provas assumiu outros contornos: cada corretor ficava encarregue de corrigir um item concreto de uma prova. Ou seja, em vez de cada corretor avaliar o exame do início ao fim, ficava apenas com uma das perguntas a seu cargo, sendo as restantes divididas pelos outros professores. Este sistema faria sentido, não fosse o facto de algumas respostas surgirem, por vezes, “trocadas”.

Vamos por partes: imaginemos que Paula tinha como missão corrigir apenas a pergunta 5 do exame. “Neste item [ou pergunta] a que os alunos estavam a responder, tinha, imaginemos, 22 provas em que os alunos respondiam ao problema que lhes era colocado”, no entanto, nas restantes “22 comecei a ter alunos a responder a outra questão completamente diferente”, apesar de vir identificada como sendo a resposta correspondente à pergunta 5. “Reportei a situação e identifiquei as perguntas. No dia seguinte verifico que as provas que me aparecem para corrigir já vêm com as respostas esperadas, mas todos os itens corrigidos anteriormente desapareceram”.

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No exame deste ano os alunos escreviam numa folha diferente de acordo com a pergunta a que queriam responder, por isso “a digitalização não apanhava o número da pergunta nem o enunciado”, explica ao Observador Rui (também nome fictício), corretor do exame de Filosofia da 2.ª fase. Segundo o docente, também na segunda volta, que se realizou há cerca de uma semana, houve respostas a ser trocadas. Quando a situação era exposta no fórum do IAVE ao qual o Observador teve acesso, lia-se, uma vez mais, que esta instituição tutelada pelo Ministério da Educação devia ser contactada.

“Imagine que eu não tinha aqui comigo, a acompanhar a correção, o enunciado do exame. E nem me tinha apercebido da tal troca de respostas. Podia pensar logo ‘Vou dar zero porque está a responder a outra coisa’. Porque nós, corretores, na plataforma só temos acesso à resposta, à pergunta não”, diz.

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▲ Prova de Filosofia foi a quinta com maior número de inscritos na 1ª fase: 23.473 pessoas (mais 5.809 que em 2024)

AFP via Getty Images

Folhas de respostas totalmente a branco… E a preto

Além de respostas trocadas e cortadas a meio, a corretora de Filosofia deparou-se ainda com situações em que a folha de prova (onde devia constar a resposta do aluno) estava em branco.

“Fiquei com três itens para corrigir em 214 provas. Quando comecei, cada prova tinha um número de identificação”, que garante o anonimato da prova. Houve provas em que, “em diferentes perguntas, aparecia o número de identificação da prova mas não aparecia folha de resposta nenhuma. Não tinha lá nada, era como se a resposta não existisse“, lembra a professora.

E sublinha que existiam várias justificações possíveis: “Ou não tinha sido bem digitalizada ou o aluno não tinha pedido folha para responder ou não tinha respondido. Mas não havia indicação nenhuma, não sabíamos o que tinha acontecido. E o que devíamos fazer? Colocar zero? Ninguém respondia.”

Uma vez mais, a mesma situação verificou-se na 2.ª fase deste exame, havendo ainda relatos de pelo menos uma “resposta a preto”, ou seja, uma folha de resposta totalmente escura onde era “visível uma parte escrita da primeira linha”, denunciou um professor no fórum. Uma vez mais, os docentes recebiam a indicação de que deveriam contactar o IAVE por email, pedindo orientações sobre como deviam proceder à correção.

Todas estas situações são “frustrantes”, aponta Paula. “Porque os professores não conseguem fazer o que deviam: corrigir as provas com consciência, critério e calma. São muitas vidas que ficam em stand-by.”

Provas “desapareceram” do sistema antes de a correção ser revista

“Embora seja um exame que não é muito solicitado pelos alunos, ainda assim aqueles que foram a exame não têm de se submeter a estes erros. A classificação tem a ponderação de 25% para conclusão da disciplina, se for aluno interno, e tem reflexo na nota de conclusão do secundário”, além de contar caso alguém queira “usar o exame para entrar no Ensino Superior”, lembra Rui. É por este motivo que alguns professores consideram importante rever as correções que fazem, “para confirmar que consegue melhorar” a nota, explica o docente.

Foi precisamente isso que um dos seus colegas tentou fazer: a correção das provas de 2.ª fase terminou esta quarta-feira e no sábado um dos professores “já tinha corrigido tudo e estava a fazer uma revisão”. “A dada altura deu conta que havia cinco respostas classificadas às quais deixou de ter acesso”, lembra Rui com base numa das partilhas feitas no fórum do IAVE.

O docente expôs na plataforma que deixou de ter acesso a estas provas, “apesar de aparecerem na contabilização [de exames corrigidos]”. O corretor recebeu a indicação de que se tratava de um problema de ordem técnica, que ultrapassava as funções da supervisão, pelo que devia contactar o IAVE por email. Contudo, até então não obteve qualquer resposta.

“Em papel dá-nos mais trabalho a corrigir, assim é mais rápido, até porque em papel temos de escrever as notas a caneta e preencher o cabeçalho… Mas há muitas dúvidas a respeito de erros técnicos e a respeito da digitalização. Se ele tivesse consigo as provas em papel as folhas não desapareciam. Agora, as dúvidas que tinha [na correção daquelas provas] ficaram por esclarecer.”

"Há muitas dúvidas a respeito de erros técnicos e a respeito da digitalização"
Rui (nome fictício), professor corretor da 2.ª fase de exames

Correções começaram em dias diferentes

Mas o primeiro problema surgiu ainda antes de Paula receber qualquer prova para corrigir. Os professores ficam a saber da convocatória através de um email enviado às escolas por parte do Júri Nacional de Exame (JNE) e têm de assinar um documento que comprova o seu serviço. “Quando fiz a assinatura do documento, dizia lá que ia receber as provas dia 30 de junho”, ou seja, três dias depois da realização das provas.

Pouco depois, Paula recebe “um email da escola a dizer que tinha sido alterado e que iria ser dia 1 ou 2 [de julho]”. “No dia 1 recebo mensagens de uma colega que já tinha recebido as provas dela e eu só dia 2 consegui entrar na plataforma. Consegui entrar no fórum, ver as mensagens que os outros professores enviavam [com dúvidas], mas quando carregava em ‘Corrigir’, para aceder às provas, não dava. Só ao fim de um bom pedaço desse dia é que consegui aceder e perdi muitas horas nesse dia.”

O mesmo aconteceu na 2.ª fase, destaca Rui: “As provas não foram disponibilizadas na data que tinha sido indicada. A minha correção teve início a 24 [de julho] e houve colegas que começaram a 23; houve datas diferentes para iniciar. Um professor dizia [no fórum] estar à espera desde as 6h da manhã para começar a corrigir as provas.”

Além de diferentes professores começarem a corrigir em diferentes datas, deu-se ainda o caso de alguns professores receberam provas extra para corrigir — sem terem sido alertados para esta possibilidade. Quando Rui soube que tinha sido convocado para corrigir a 2.ª fase desta prova, colegas que tinham passado pelo mesmo na 1.ª fase alertaram-no para a necessidade de “fazer print” ao número de provas por corrigir que eram indicadas na plataforma. “Houve professores que viram provas a ser adicionadas a esse número que inicialmente surgia. Há um professor que se queixa [no fórum] de lhe terem dado mais cinco provas e que questionava o procedimento. Uma vez mais remeteram [todos os esclarecimentos] para o IAVE.”

3.500 perguntas por professor, nova plataforma e recrutamento à última hora. “Falhas técnicas” não foram único problema em provas de 9.º ano

Revisão das provas também “está a falhar”

Por considerar que toda a correção desta prova “foi surreal”, Paula “disse aos alunos para pedirem a revisão de prova”. “Mas até isso está a falhar. Os alunos pediram para rever a prova e os professores corretores recebem os exames com as folhas em branco. O aluno não ia pedir reapreciação de uma prova à qual não respondeu. Algo está errado.”

Paulo recolheu precisamente o mesmo testemunho por parte de um colega que corrigiu exames de 1.ª fase e foi escolhido para rever provas: “Um aluno ou um encarregado de educação pediu a revisão das perguntas, o professor que foi fazer a reapreciação viu que a digitalização está em branco.” Até ao momento, o IAVE continua sem se pronunciar sobre qual deve ser o procedimento a adotar.

Segundo dados avançados pelo Ministério da Educação ao Observador, “este ano, em relação à 1.ª fase,  foram registados 380 pedidos de reapreciação, em 20.335 provas realizadas, ou seja, 1,9%”. Já em “2024 foram registados 245 pedidos de reapreciação em 14.368 provas realizadas, correspondente a 1,7% das provas”.

As pautas da 2.ª fase do exame de Filosofia são divulgadas na próxima semana, dia 5 de agosto, mas os corretores receberam ordens para entregar a correção das provas esta quarta-feira.

Ministério garante que IAVE e JNE prestaram todos os esclarecimentos

Em resposta ao Observador após a publicação deste artigo, o ministério de Fernando Alexandre defende que, “tratando-se de um processo inovador realizado pela primeira vez, é natural a existência de algumas dificuldades e dúvidas” no processo de correção digital, tendo estas sido “prontamente resolvidas e esclarecidas pelo Júri Nacional de Exames e pelo Instituto de Avaliação Educativa”.

Contrariando os testemunhos dos professores ouvidos pelo Observador, o Ministério da Educação garante que “os professores classificadores tiveram acesso em tempo útil à plataforma de classificação e supervisão do IAVE (PCS)”. E, quando o manual do professor classificador de Filosofia e um documento com as questões mais frequentes não eram “suficientes para esclarecer os classificadores”, foram disponibilizados contactos telefónicos e de correio eletrónico do JNE e do IAVE.

“Foram reportados ao IAVE, em sede de supervisão, algumas dúvidas por parte dos professores classificadores sobre as respostas apresentadas pelos alunos, tendo-se verificado que, na maioria das dúvidas reportadas, não se comprovou qualquer motivo para intervenção. O JNE e o IAVE, em sede de supervisão, deram as respostas adequadas para o esclarecimento de dúvidas colocadas pelos professores classificadores, tal como é habitual todos os anos”, acrescenta o Ministério da Educação.

Efetivamente, os professores classificadores ouvidos pelo Observador explicaram que quando as questões que tinham eram de ordem científica, conseguiam obter resposta por parte dos professores supervisores. Contudo, o cenário mudava quando eram questões de ordem técnica — como por exemplo folhas de resposta em branco ou a preto — nesses casos, dizem, eram encaminhados para o contacto de correio eletrónico do IAVE — o qual não respondia. Acerca deste ponto o Ministério da Educação não prestou qualquer esclarecimento.

O mesmo aconteceu quando foi questionado sobre provas apresentadas de forma incompleta (impedindo a correção integral do exame). O gabinete de Fernando Alexandre apenas garantiu que, “segundo informação do IAVE, não foram detetadas quaisquer situações de respostas apresentadas a professores classificadores correspondentes a enunciados distintos”, contrariando, uma vez mais os relatos ouvidos pelos professores e aquilo que foi escrito no fórum do IAVE (e ao qual o Observador teve acesso).

Considerando este “processo muito positivo”, o Ministério da Educação admitiu que em 2026 “serão introduzidas as melhorias qualitativas consideradas necessárias”. E fez ainda questão de apontar que a “classificação digital comporta benefícios para os professores classificadores e para a qualidade dos resultados da avaliação externa, pois não há perda de tempo na classificação dos itens de seleção, não há lugar a trancar as provas, não há necessidade de se deslocarem aos agrupamentos do JNE para levantar e entregar os sacos de provas, e podem especializar-se em um ou dois itens da prova, contribuindo assim para uma maior consistência na aplicação dos critérios de classificação”. Tudo isto “torna o processo mais equitativo e justo”, remata.

Notícia atualizada às 18h14 com resposta do Ministério da Educação ao Observador

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