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Este ano, o Natal será certamente diferente para muita gente. O que não costuma mudar são os mitos à volta desta época, mesmo com uma pandemia à porta: presépios com reis magos, celebração do nascimento de Jesus Cristo a 25 de dezembro ou a tradicional missa do galo a partir da meia-noite. A verdade é que esta tradição milenar, instituída entre os séculos III e IV, para substituir as festas pagãs do antigo império romano, tem vários símbolos religiosos e culturais à sua volta que foram sendo herdados de geração em geração.

Mas existem alguns enganos, como leituras erradas dos evangelhos da Bíblia ou a atribuição errada da autoria da origem do Pai Natal. E, ainda que esses mesmos enganos sejam diferentes das habituais notícias falsas, o Observador foi verificar a sua veracidade com a ajuda de diferentes especialistas no tema, como o Padre Anselmo Borges, o Padre Edgar Clara ou o cardeal patriarca D. Manuel Clemente.

Será que Jesus tinha mesmo irmãos? Foi a Coca-Cola a autora da famosa imagem do Pai Natal? Os reis magos eram mesmo reis? O Natal é a celebração mais importante para os cristãos? A Missa do Galo celebra-se mesmo à meia noite? Pode encontrar as respostas aqui, ainda que algumas não sejam definitivas, por envolverem diferentes correntes de pensamento, estudos científicos e calorosos debates, como aqueles que está prestes a ter a partir de 24 de dezembro, ainda com as devidas medidas de segurança sanitárias.

O Pai Natal de vermelho é uma criação da Coca-Cola?

Pode parecer estranho, mas a figura do Pai Natal, vestida de vermelho, que conhecemos através dos míticos anúncios da Coca Cola, não foi criado pela marca de refrigerantes. É certo que a partir dos anos 30, esta companhia contribuiu, e muito, para tornar o velhinho feliz, de barbas, com barriga, numa das personagens da época natalícia mais famosas do mundo, por “culpa” do ilustrador Haddon Sundblom, convidado para tratar dos anúncios. No entanto, já tinham existido outras representações, diferentes da versão moderna que conhecemos, tal como explica a própria Coca Cola, num artigo publicado no seu site oficial. Por isso, não, o Pai Natal de vermelho não é uma criação desta marca de refrigerantes. A marca só o popularizou à escala global.

Antes, esta figura já tinha sido representada como sendo um homem alto e magro ou até um elfo assustador. A verdade é que desde 1920 que esta empresa faz anúncios natalícios, sendo que o primeiro Pai Natal foi introduzido por Thomas Nast, cartoonista do tempo da Guerra Civil. Este mesmo autor foi responsável por uma outra versão, em 1862, onde o velho barbudo estava representado como um pequeno ser élfico que suportava a União — ou os Estados do Norte, compostos pelos 23 Estados que não faziam parte da confederação sessacionista.

Durante 30 anos, Nast continuou a desenhá-lo, mudando as suas cores, passando, inclusive, de um casaco de cor bronzeada, para o vermelho. Há quem defenda até, tal como se lê num artigo da revista Smithsonian, que Nast, fervoroso republicano e apoiante da abolição da escravatura e dos direitos civis, é o criador original do Pai Natal. Uma dessas imagens chegou a surgir na revista Harper’s Weekly, a 3 de janeiro de 1863, onde se vê o Pai Natal — de casaco estrelado e com uma calças às riscas, representando a bandeira dos EUA — a distribuir presentes aos membros da União.

Ilustração de Thomas Nast para a revista “Harper’s Weekly” a 3 de janeiro de 1863.

“Estas ilustrações deram o Natal ao Norte, e um sentimento doméstico à causa, que até pode ser considerado como sentimental”, escreveu Adam Gopnik, em 1997, para a New Yorker, citado pelo artigo da revista Smithsonian.

Quanto à casa do Polo Norte, que faz também parte deste imaginário natalício, também é atribuída a Nast, como referido pelo The Public Domain Review. A par desta criação, é no século XIX que esta celebração começa a ser um momento privado e familiar nos EUA, mais dedicado às crianças, tal como é vivenciado hoje. Isso mesmo é descrito por Fiona Halloran no livro “Thomas Nast: The Father of Modern Politics Cartoons”, citado também neste artigo.

Consultando o artigo do The Public Domain Review, é possível encontrar outros anúncios, como um de 1868, onde o Pai Natal aparece com um casaco vermelho, com riscas verdes, mas sem calças. Um pouco mais à frente, em 1902, seria possível ver esta figura ilustrada, já com a aparência atual, na revista Puck, pela mão de Frank A Nankivell.

Ilustração de Frank A. Nankivell para a revista Punk, em 1902.

Outras ilustrações foram surgindo, como a de Norman Rockwell, em 1913 — entre outras, que também foram tornando a figura cada vez mais humana. Ou a de um autor desconhecido vindo do Japão, que publicou uma imagem da mesma figura, um ano depois, com exatamente as mesmas cores do Pai Natal da Coca Cola. Ou seja, entre autores, ilustradores e até historiadores, todos contribuíram, ao longo dos anos, para construir o boneco que traz felicidade a muitos na noite de 24 de dezembro.

Mas só a partir de 1931, quando a Coca Cola começou a publicar anúncios em revistas famosas, como na “The Saturday Evening Post”, na “The New Yorker” ou na “National Geographic”, é que a figura feliz começou a ganhar mediatismo. Tudo porque a companhia convidou o artista Haddon Sundblom a transformar o Pai Natal numa figura real, e já não apenas “num homem vestido de Pai Natal”, porque a empresa precisava de aumentar as vendas durante o inverno.

A inspiração de Sundblom veio do poema de 1822 “A Visit From St. Nicholas” (comummente apelidado de “That Was the Night Before Christmas”), escrito por Clement Moore, que transformava o senhor anafado em alguém caloroso, simpático, humano — e que bebia o famoso refrigerante gaseificado. Mas, nesse poema ilustrado, a cor escolhida não é o vermelho, mas sim o amarelo. Ou seja, as cores foram variando ao longo do tempo.

Os desenhos a óleo de Sundblom foram depois distribuídos e vendidos em vários formatos, desde calendários, posters, cartazes ou outdoors, transformando-se em autênticas peças de coleção ao longo das décadas seguintes e estando expostas em diversos museus como o Louvre, em Paris, ou o Royal Ontario Museum, em Toronto.

Por curiosidade, o fact-checker norte-americano Snopes também considerou este mito como falso em dezembro de 2001. No artigo, lê-se que “não é possível que alguma pessoa ou instituição possa reclamar crédito absoluto sobre a criação desta personagem”. Também o Ferret, órgão de comunicação social independente, e que faz parte da International Fact-Checking Network, tal como o Observador, verificou este mito, citando vários dos trabalhos gráficos anteriormente referidos, que são prévios aos desenhos de Sundbom.

Conclusão

Não é verdade que o Pai Natal vestido de vermelho e de barbas brancas tenha sido uma criação da Coca-Cola. Sim, a partir de 1931, esta empresa pediu ao artista Haddon Sundblom para fazer uma série de ilustrações que impulsionasse as vendas no inverno e foi, a partir daí, que a figura feliz, anafada e vestida de vermelho começou a ser popular à escala global. Mas muito antes, inclusivamente no século XIX, já tinham surgido outras ilustrações onde o Pai Natal surgia de vermelho, em vários países, como no Japão, Canadá ou até nos EUA. Existe até quem defenda que Thomas Nast, ilustrador do tempo da Guerra Civil norte-americana, tenha sido o pai da versão moderna que hoje conhecemos. O fact-checker Snopes também verificou este mito em 2001 e considerou-o como falso, concluindo que nenhuma pessoa ou instituição pode ser cunhado como o verdadeiro e único criador desta personagem natalícia.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

O Natal é a celebração mais importante para os cristãos?

Aproxima-se, ainda que em moldes bem diferentes do habitual, a época mais celebrada por várias famílias: o Natal, que se festeja entre 24 e 25 de Dezembro. Sendo uma altura de partilha, reencontros familiares, troca de presentes e felicidade, é comum considerar-se que é a mais importante para os cristãos, por ser a data definida para o nascimento de Jesus Cristo. No entanto, segundo explicou o padre Anselmo Borges ao Observador, a celebração mais importante é mesmo a Páscoa, que decorre no mês de abril e em que os cristãos comemoram a ressurreição de Cristo, decorrida após três dias da sua crucificação. Ou seja: não, apesar da tão aguardada festa natalícia, esta não é a celebração mais importante para os cristãos.

“Na Páscoa celebramos a vida de Jesus Cristo, que o levou a ser crucificado, mas que, afinal, está vivo em Deus como esperança para todos. É aí que se celebra o mistério central do cristianismo. Porque, sem esta celebração, não existia cristianismo. Já São Paulo dizia: ‘Se Cristo não ressuscitou, então a nossa fé é vã (Coríntios 15:14)’”. É assim que o padre Anselmo Borges começa por explicar ao Observador o porquê de não se poder considerar o Natal como a época mais importante para os cristãos.

E, como se sabia pouco do nascimento de Jesus, foi através da Páscoa que muitos se converteram ao cristianismo. “Jesus Cristo foi crucificado porque anunciou o Reino de Deus, escandalizou na altura, colocou em questão o sacerdócio, os que exploravam os pobres, tinha banquetes com pecadores públicos, abalou interesses instalados. A boa nova foi estar vivo”, afirma o também teólogo e professor da Universidade de Coimbra. Portanto, ainda que o Natal celebre o nascimento desta figura bíblica — não sendo claro na Bíblia a data exata em que terá nascido — a Páscoa acarreta um simbolismo maior. Principalmente porque, sem ela, “Jesus não seria recordado”, acrescenta.

É claro que a celebração que se avizinha já este mês também transporta importância simbólica, sendo até mais popular do que a Páscoa, porque se celebra “a luz, o nascimento do sol invicto”. “O nascimento é sempre um milagre. Uma nova vida. Aqui, no hemisfério norte, celebra-se agora o Natal em conexão com o solstício de Inverno, porque os dias começam a crescer. Esta festa, que foi instituída entre o século III e IV, veio substituir a festa pagã romana do sol invicto. Jesus Cristo passou a ser esse sol. Ele é a luz que ilumina todos os homens”, termina.

Em vários documentos religiosos, tal como a transcrição das audiências-gerais dos Papas, é visível a importância da Páscoa. Por exemplo, o papa Bento XVI, a 23 de dezembro de 2009, numa das suas audiências-gerais, encontro que decorre no Vaticano entre pessoas de todo o mundo e o Papa, e onde é feita uma catequese sobre a fé cristã, explicou a origem histórica desta solenidade. “De facto, o ano litúrgico da Igreja não se desenvolveu inicialmente partindo do nascimento de Cristo, mas da fé na sua ressurreição. Por isso, a festa mais antiga da cristandade não é o Natal, mas a Páscoa. A ressurreição de Cristo funda a fé cristã, está na base do anúncio do Evangelho e faz nascer a Igreja”, lê-se no documento. Também o Papa Francisco, 9 anos depois, a 28 de março de 2018, viria a reforçar a importância da Páscoa, também numa audiência-geral. “Qual é a festa mais importante: o Natal ou a Páscoa? A Páscoa, porque é a festa da nossa salvação, a festa do amor por nós, a festa, a celebração da sua morte e Ressurreição”, lê-se no discurso publicado.

Conclusão

Não é verdade que o Natal seja a celebração mais importante para os cristãos. O padre Anselmo Borges explicou ao Observador que é a Páscoa a celebração mais significativa, por representar a ressurreição de Jesus Cristo. Aliás, sem esta época festiva, não existiria cristianismo, como defendeu o também teólogo e professor da Universidade de Coimbra. Ou seja, segundo os textos bíblicos, Jesus Cristo, apesar de ter sido crucificado, ressuscitou e está vivo, dando esperança a todos os fiéis. É isso que a Páscoa representa. Vários documentos cristãos, como os discursos do Papa Bento XVI e do Papa Francisco, defenderam a importância da Páscoa para a fé cristã na história recente.

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ERRADO

A Missa do galo é à meia-noite?

Por causa da pandemia, o horário habitual da Missa do Galo, que ocorrerá na Sé de Lisboa e que costuma ser por volta da meia-noite, vai passar para as 23h00 do dia 24 de dezembro, como anunciado pelo Cardeal Patriarca D. Manuel Clemente. Sendo a hora que dá início a um dia novo, é normal que o símbolo escolhido tenha sido um galo, que canta e acorda as pessoas, no nosso imaginário. No entanto, as dúvidas recaem sobre a origem desta tradição. E a verdade é que não existem referências bíblicas sobre esta celebração nem sobre a sua ligação com este animal, sem ser no episódio da traição de Pedro a Jesus, que surge em todos os evangelhos, onde o se refere o seguinte: “Em verdade te digo que esta noite, antes de cantar o galo, três vezes me negarás”.

D. Manuel Clemente explicou ao Observador a origem da missa do galo.

“A missa do galo vem dos antigos cristãos de Roma, onde uma das missas era celebrada adgallicantum, que significa ao cantar do galo, mais perto da madrugada. Mas o cantar do galo dificilmente será à meia noite, é mais na alvorada. Depois, ao longo dos séculos, foi-se aproximando da meia-noite”, afirma o próprio D. Manuel Clemente ao Observador. O cardeal patriarca confirma que não existem referências a esta missa nos textos bíblicos, acrescentando que o evento decorre de “usos e costumes que o tempo foi juntando, ficando esse nome”. “É pouco provável ouvir galos a cantar à meia noite”, afirma.

O Padre Anselmo Borges, em declaração ao Observador, confirma que, de facto, não existe qualquer referência bíblica, sem ser a de traição de Pedro, já referida anteriormente. “Não há galo nenhum na Bíblia sem ser nesse momento. No nascimento também não aparece nenhum. São símbolos, porque o galo anuncia o dia, estamos sempre em ligação com a luz”, afirma. Ou seja, aqui a luz refere-se ao nascimento de Jesus e ao crescer dos dias — relacionado com o solstício de inverno, que decorre a 21 de dezembro —, que acontece a partir da altura do Natal, celebração que veio substituir a festa pagã do Sol Invicto.

“Não é a missa do galo nem é a missa da meia noite. É da noite. O que está previsto na liturgia é que há uma missa despertina, que pode ser ao final da tarde ou ao início da noite. Nós é que a colocamos àquela hora. Mas pode ser celebrada às 23h00, às 3h00 ou a qualquer hora da noite”, confirma o Padre Edgar Clara ao Observador. Portanto, ainda que nesta época natalícia estejam previstas várias missas e uma daquelas decorra habitualmente àquela hora, nada indica, historicamente, que tenha de ser assim.

Conclusão

É verdade que a missa se celebra tradicionalmente à meia-noite, ainda que, por causa da pandemia, os horários tenham sido alterados. No entanto, não existe nenhuma referência bíblica concreta a esta missa, nem sequer ao animal em questão, tanto no nascimento de Jesus como noutros eventos importantes, sem ser no episódio da traição de Pedro a Jesus. Segundo D. Manuel Clemente, esta foi uma adaptação de uma tradição dos antigos cristãos de Roma, que celebravam uma missa “ao cantar do galo”, mais perto da madrugada. Só que, com o passar dos séculos, a hora foi-se chegando cada vez mais à meia-noite.

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ERRADO

A Bíblia diz que Jesus nasceu a 25 de dezembro?

Associar o dia 25 de dezembro ao dia do nascimento de Jesus Cristo é comum e imediato. Mas é verdade? Não. A verdade é que, na Bíblia, o nascimento da figura central do cristianismo não tem uma data definida. Esta celebração a 25 de dezembro só foi definida após três séculos de Cristianismo e surgiu, pela primeira vez, num calendário romano, tal como conta o site oficial do Canal História. Já o padre Anselmo Borges confirma a indefinição ao Observador: “Nós não sabemos quando Jesus nasceu”. Por isso, não, a Bíblia não diz que Jesus nasceu a 25 de dezembro. No entanto, o assunto é complexo, e foi amplamente estudado ao longo dos séculos, com argumentos diferentes defendidos por padres, teólogos, historiadores e até pelo próprio Papa Bento XVI.

“A Bíblia não diz quando nasceu. No século VI, quando o Cristianismo já tinha triunfado, percebendo-se a importância de Cristo, foi preciso estabelecer um calendário antes e depois de Cristo. O monge Dionísio, o Exíguo, ficou encarregue de estabelecer a data do seu nascimento. Hoje em dia, os historiadores dizem que se enganou entre quatro a seis anos antes de Cristo”, explica o padre Anselmo Borges ao Observador.  Não é, por isso, correto dizer-se que o 25 de dezembro, segundo a Bíblia, assinala o marco histórico que muitos fiéis celebram todos os anos.

A Bíblia não define uma data para o nascimento de Jesus.

A verdade é que só dois dos quatro evangelhos — São Lucas e São Mateus — se referem ao nascimento desta figura bíblica, não definindo, porém, a data em que esse momento terá ocorrido. Aliás, tal como descrito no artigo do Canal História, na própria Bíblia, a mera presença de pastores e de ovelhas no nascimento de Jesus indica que poderá ter ocorrido na primavera (no Evangelho Segundo São Lucas, 2:8), ainda que esta presença não confirme a data exata. Isto porque, durante o Inverno, as ovelhas estão habitualmente nos estábulos. No entanto, não passa de uma hipótese, porque essa leitura não é transversal nem é referida em todos os Evangelhos.

Porém, nestes dois textos canónicos que se referem à infância de Jesus Cristo, convém esclarecer, tal como o próprio padre Anselmo Borges defendeu num artigo de opinião publicado no Diário de Notícias, em janeiro de 2013, que existe uma leitura teológica, e não tanto factual, utilizando um género literário próprio, o midrash. Ou seja, a leitura histórica dos acontecimentos é feita, em retrospectiva, a partir da fé.

Mesmo assim, o Papa Bento XVI, que escreveu três volumes biográficos sobre Jesus Cristo, lançou, em 2013, quando ainda estava em funções, “A Infância de Jesus”, onde investigou a origem do seu nascimento. Este livro dá enfoque aos dois evangelhos de infância, de São Mateus e São Lucas, que incidem sobre este período da vida da figura divina, reconhecendo que estes documentos bíblicos são as únicas fontes históricas disponíveis sobre este período, ainda que apresentem dados diferentes. Na página 100, encontramos o seguinte: “Jesus não nasceu nem apareceu em público naquele indefinido ‘uma vez’, típico do mito; mas pertence a um tempo, que se pode datar com precisão, e a um ambiente geográfico exatamente definido.” Nasceu em Belém, cresceu na Nazaré, sob o domínio do imperador Augusto, reinado que durou desde 7 a.C. até à sua morte, em 14 d.C, mas também de Herodes, rei dos judeus (37-4 a.C). É certo que é referido o Natal como a altura do seu nascimento, mas o dia 25 de Dezembro nunca é citado. Ainda assim, é dito, como uma das hipóteses possíveis, que terá ocorrido entre os anos 7 e 6 a.C, por se ter verificado uma conjugação dos planetas Júpiter, Saturno e Marte, tese defendida por Johannes Kepler, astrónomo do século XVI, que também defende o surgimento de uma estrela nova (supernova), que guiou os comummente chamados três reis magos até Jesus.

O Padre Edgar Clara, em declarações ao Observador, acredita que, factualmente, o nascimento não foi a 25 de Dezembro. “Nós estamos perfeitamente convencidos de que essa data é mentira”, diz, reforçando no entanto que o livro do Papa Bento XVI traz essa novidade, apresentando “alguns argumentos para sustentar que a data mais provável é na altura do Natal”. Mas acaba por confirmar a tese defendida pelo Padre Anselmo Borges, de que a substituição das festas pagãs romanas por esta época natalícia acabou por ditar a celebração do nascimento de Jesus.

Convém ainda olhar para o livro do teólogo de Barcelona Armand Puig Tàrrech, “Jesus, um Perfil Biográfico”, que procurou também investigar os dados históricos sobre este tema, explicando com mais detalhe as hipóteses apresentadas. Segundo o que é escrito nos envangelhos de infância, o autor defende que “parece claro que nos devemos situar entre os anos 7/6 e 4 a.C”. Além disso, Armand Puig refere ainda  o aparecimento da tal estrela, fenómeno habitual no “mundo antigo para indicar o nascimento de uma grande figura”. “Do ponto de vista astronómico, a estrela citada em Mateus 2 pode ser interpretada como uma estrela nova (que apareceu em Março/Abril do ano 5 a.C, segundo os astrónomos chineses e coreanos). Esrrela que seria o resultado de uma conjunção entre Júpiter e Saturno na constelação de Peixes que se repetiu três vezes (Maio/Junho, Setembro/Outubro e Dezembro) durante o ano 7 a.C. Ou, ainda, como acumulação de Júpiter, Saturno e Marte (Fevereiro do ano 6 a.C). Ou como o emparelhamento de Júpiter com a Lua em Peixes, com a ocultação do primeiro (20 de Fevereiro do ano 5 a.C”).

Depois, o autor também se debruça sobre São Lucas, que fixou a data de início da actividade pública de Jesus. “O nascimento deste deve situar-se entre o dia 1 de outubro do ano 7 a.C e o dia 30 de setembro do ano 6 a.C. Em qualquer dos casos, uma maior precisão sobre o mês e o dia é hipotética. Todas as tentativas para encontrar a data exata esbarram com a falta de dados. E, apesar dos esforços para resolver a questão, tanto a partir dos cálculos astronómicos como a partir dos cômputos dos calendários antigos, a busca finaliza habitualmente em conjeturas”, escreve. Mesmo assim, Armand Puig conclui que, ainda que a data da Páscoa tenha sido móvel para os cristãos, “por depender das luas”, a festa de Natal, desde que foi instituída no século IV, celebra-se sempre numa data fixa.

Antes do nascimento de Jesus, e nos primeiros três séculos desta religião, as celebrações mais conhecidas ocorriam a 6 de Janeiro, a Epifania, onde se celebrava a chegada dos Reis Magos. A título de curiosidade, ainda nos dias de hoje se celebra o Natal nessa data em países como a Arménia. Antes de ser instituída essa celebração nova, no vigésimo quinto dia do último mês do ano, os romanos pagãos já celebravam o chamado o Natalis Solis Invicti, “Nascimento do Sol Invicto”.

A discussão deste tema polémico, tal como relatou o “The Washington Post”, começou a ser feita por Clemente de Alexandria, segundo textos do século III, que apontou várias datas para o evento especial, mas sem escolher o 25 de Dezembro. Antes, nenhum texto religioso apresentou dados sobre essa grande dúvida. O primeiro registo foi encontrado num almanaque romano, do século IV, chamado “Philokalia”, onde se diz que “Cristo nasceu em Belém da Judeia”.

Quando a Igreja fechou o 25 de Dezembro no fim do século III, a intenção era que coincidisse com as tais festas pagãs que honravam Saturno, Deus romano da Agricultura, e Mitra, o Deus persa da Luz. Com esta decisão, seria mais fácil selar o cristianismo como religião oficial do império romano. Isto porque, antes dessa data, o seu nascimento não era celebrado, tal como referido anteriormente. Foi o Papa Júlio I que escolheu a data definitiva para os cristãos ocidentais, para “absorver” as festas que celebravam, sobretudo, o solstício de inverno. A partir da Idade Média, o Cristianismo substituiu, quase por completo, a religião pagã. “Projeta-se o seu nascimento, aqui no hemisfério norte, para essa data. Ficava bem aqui o Natal e o nascimento de Jesus no império romano. As pessoas saúdam a alegria da Luz, dos dias a crescer. É a festa da família”, nota o padre Anselmo Borges.

É importante também referir que depois do nascimento Jesus, durante dois séculos, ninguém sabia ou queria saber quando é que ele tinha ocorrido, como conta o fact-checker norte-americano Snopes, que também verificou a informação, considerando-a como não comprovada. O motivo era simples: na altura, a morte tinha um significado maior, sendo que Cristo era divino, logo, o seu nascimento natural não tinha importância.

Sobre o 25 de Dezembro, ainda existe outra hipótese estudada que justifica a sua escolha: assinala os nove meses seguintes à Festa da Anunciação, que ocorreu a 25 de março, onde o Anjo Gabriel disse a Virgem Maria que daria à luz um menino, Jesus. Tese defendida ao longo dos séculos por diversas personalidades como Terturliano, primeiro autor cristão a produzir uma obra em latim, Louis Duchesne, sacerdote e historiador francês, ou, mais recentemente, pelo autor norte-americano Thomas Talley, entre outros.

No entanto, tudo o que foi descrito acima é a versão ocidental desta crença, que já foi contestada ao longo do tempo. Ou seja, não é possível auferir, com certeza absoluta, a data exata do nascimento, até porque a Bíblia nunca o define, tal como descreveu num extenso artigo Andrew McGowan, presidente da Escola Divinity de Berkeley, publicado no Biblical Archaeology Society, organização sem fins lucrativos que se dedica à disseminação de informação sobre arqueologia bíblica.

Conclusão

É correto dizer-se que na Bíblia não é definida a data do nascimento de Jesus. No entanto, existem várias leituras possíveis, ao longo dos séculos, para a data escolhida ter sido o 25 de Dezembro, especialmente nos evangelhos da infância, de São Mateus e de São Lucas — os únicos que refletem sobre esse período. Uma delas é ter sido nesta altura que as festas pagãs do império romano, onde se celebrava o Deus do Sol, terem sido substituídas pelo Natal, coincidindo com o nascimento de Jesus. Foi uma forma de potenciar o crescimento do cristianismo nessa época. Outra, é que a 25 de Dezembro marca-se nove meses do anúncio, por parte do Anjo Gabriel, de que a Virgem Maria iria dar à luz um menino. As teorias são complexas e amplamente estudadas, não havendo, portanto, uma resposta definitiva e consensual sobre o tema. No entanto, não é verdade que a Bíblia refira, com exatidão, a data de nascimento desta figura divina.

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ERRADO

Santa Claus, São Nicolau e Pai Natal têm o mesmo significado?

Tudo o que gira à volta do Natal pode ter um fundamento religioso, mas também lendário. Foi através dos mitos, das crenças, de vários textos, da Bíblia e das tradições milenares que se construiu esta época. A verdade é que o Pai Natal tem origem na lenda criada à volta de Santo Nicolau, que nasceu por volta de 280 d.C, em Patara (que hoje é a Turquia). A admiração por esta figura vem do facto de, sendo defensor da doutrina cristã, e tendo chegado a estar preso por esse motivo, se preocupar muito com os pobres, tendo-se transformado no protetor dos marinheiros, das crianças, entre outros, como conta o Canal História num extenso artigo sobre o tema.

Imagem de São Nicolau tirada do artigo da Coca-Cola.

Não há, porém, referências a São Nicolau como sendo um homem barrigudo, barbudo e feliz. No Renascimento, tornou-se no santo mais popular da Europa. Mas há uma relação com as prendas, que vem de uma das suas histórias mais famosas. Nesse conto, São Nicolau terá salvado três jovens raparigas de uma vida de prostituição, e terá deixado três sacos com moedas de ouro ao pai das jovens, como conta a National Geographic num artigo sobre o tema. Através deste conto, chegou mesmo a ser criada a ideia de que distribuía presentes. Foi, por isso, um homem a quem atribuíram diversas lendas. Acabou por se tornar bispo grego de Myra, tendo falecido a 6 de dezembro de 343.

Sendo certo que a figura de São Nicolau foi celebrada durante toda a Idade Média, a verdade é que a sua ligação ao Natal foi crescendo de ano para ano, de forma mais forte a partir do século XIX. Tudo porque a sua importância começou a crescer na cultura popular norte-americana. É que o nome “Santa Claus” vem de Sint Nikolas (ou Sinter Klaas, em holandês) e, sendo Nova Iorque uma antiga colónia holandesa (New Amsterdam), essa tradição acabou por singrar no outro lado do Atlântico. Os primeiros relatos de celebrações nessa cidade surgiram em finais do século XVIII, como descreve o artigo do Canal História.

Depois, em 1809, o escritor Washington Irving tornou as histórias de Sinter Klaas bastante populares, após se ter referido a São Nicolau (St. Nicholas) como o santo patrono de Nova Iorque num dos seus livros (“Knickerbocker’s History of New York”). Ainda que tenha feito a descrição de forma satírica, o autor fez questão de promover o mito natalício holandês que se ligava à história colonial dos nova-iorquinos.

Cinco anos antes, John Pintard, fundador da New York Historical Society, tentou promover São Nicolau como santo patrono da cidade, ainda que aquilo que mais se destacou tenham mesmo sido os panfletos que distribuiu: a figura do santo ao lado de imagens natalícias (brinquedos ou lareira). Contribuíram também para a passagem de São Nicolau para Pai Natal vários autores, poetas e escritores: um poema anónimo de 1821, “The Children’s Friend”, onde o Pai Natal foi associado ao Natal; ou o poema de Clement Moore, “A Visit from St. Nicholas”, onde o Pai Natal desce da chaminé para entregar prendas — que serviu depois de inspiração no século XX a Haddon Sundblom, através das suas campanhas de publicidade da Coca-Cola, que popularizaram, e muito, esta figura natalícia.

Só no final deste século é que o Pai Natal se transformou no homem vestido de vermelho, feliz, vindo do Pólo Norte, com a ajuda do seu trenó e das suas renas. Importante será também dizer que a revolução industrial naquele país aumentou o consumo, ajudando a esquecer as feridas causadas pela Guerra Civil e transformando o Natal num feriado federal. Foi uma época importante para solidificar tradições familiares e unir o país.

Representação de São Nicolau já com roupas semelhantes ao do Pai Natal. Imagem disponível no artigo da Coca-Cola.

A transformação estética de São Nicolau para Pai Natal tornou-se famosa — e muito comercial — nos EUA.  Mas, antes, na Inglaterra vitoriana, também já tinham surgido as festas dedicadas a esta figura, o “Father Christmas”. As semelhanças entre estas duas figuras começavam a aproximar-se, ainda que continuasse com um simbolismo religioso, quase como uma figura que vigia as crianças e depois as presenteia, caso merecessem. É, no entanto, na Holanda que, pela primeira vez, o Santo Nicolau ganha relevância e se começa a assemelhar ao Pai Natal que conhecemos, tal como relatado num artigo da Coca-Cola. Já nessa altura eram dados presentes às crianças.

Finalmente, ainda hoje não foram encontrados os restos mortais de São Nicolau, tal como descrito pelo artigo do National Geographic. É por isso que existe a tese de que São Nicolau nunca existiu, tal como defendido por Judith Flanders, autora do livro “Christmas: A Biography”, à revista Time. “É quase de certeza uma invenção”, porque não existem documentos históricos que comprovem que foi real, defende a autora.

Convém também dizer que, em Portugal, existem monumentos em homenagem a este santo, como a paróquia de São Nicolau, em Lisboa, e a Igreja de São Nicolau, no Porto. É importante referir, mais uma vez, que a história do Pai Natal parte de São Nicolau, mas essa foi uma construção simbólica e lendária, primeiro holandesa e, depois, de forma mais popular, feita por ingleses e pelos norte-americanos.

Conclusão

São Nicolau foi o bispo do século III que deu a suposta origem  à figura do Pai Natal, por ter sido descrito como grande defensor dos mais pobres e também das crianças, dando-lhes até presentes. Ao longo dos anos, as festividades que foram criadas à volta do santo, especialmente na Holanda, saltaram depois para outros países, como os Estados Unidos da América, onde as duas figuras começaram a ser associadas. Vários autores, poetas, escritores e, especialmente, a Coca-Cola, contribuíram, e muito, para que fosse criado um Pai Natal inspirado em São Nicolau. As três figuras estão intrinsecamente ligadas e aquele que hoje conhecemos como sendo o Pai Natal deve, em muito, a sua existência a uma inspiração em São Nicolau. Mas cada um tem a sua história própria.

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ESTICADO

Magos que visitaram Jesus eram reis? E eram três?

É bastante provável que algum membro familiar já tenha feito um presépio de natal, tendo três figuras bem conhecidas desde a nossa infância: os três reis magos, Baltazar, Melchior e Gaspar. Têm também um dia onde são celebrados, o Dia dos Reis (6 de janeiro), altura em que os espanhóis abrem os presentes, ao contrário de nós, portugueses. Foram guiados por uma estrela brilhante, trazendo três prendas, ouro, incenso e mirra. No entanto, na Bíblia, estas três figuras, que vêm do Oriente para visitar Jesus, não são descritas como reis nem é possível saber qual o seu número exato.

Magos não são reis nem são três, segundo a Bíblia.

“Não está em lado nenhum que sejam três nem que sejam reis. Mas nas escrituras aparecem que são magos vindo do Oriente”, conta o Padre Edgar Clara ao Observador. Surgem, portanto, no Evangelho de São Mateus. “Tendo Jesus nascido em Belém da Judeia, no tempo do Rei Herodes, eis que vieram magos do Oriente a Jerusalém perguntando: ‘onde está o rei dos judeus recém-nascido? Com efeito, vimos a sua estrela no Oriente e viemos homenageá-lo’” (2, 1-2). Tal como é explicado e investigado pelo Papa Bento XVI no seu livro “Infância de Jesus”, a palavra “magos”, apesar de poder ter vários significados — astrónomos, sábios, membros da casta sacerdotal persa ou “cultivadores de uma religião autêntica” —, significa, segundo São Mateus, o seguinte: “Na narrativa de São Mateus sobre os magos, a sabedoria religiosa e filosófica é claramente uma força que coloca os homens a caminho, é a sabedoria que leva, em última instância, a Cristo (…). Representam o encaminhar-se da humanidade para Cristo”, lê-se. Não há, porém, referência ao número dos magos nem a quem eram exatamente.

Para o Padre Miguel Pedro Melo, a história “fascinante” dos magos é também “bastante misteriosa”. “São um mistério, na medida em que nos falam do mistério de Jesus. O centro continua a estar nele. Porque há três homens sábios que se aproximam dele e trazem prendas, que nos revelam quem é”, afirma ao Observador. Ainda que existam várias teses e interpretações ao longo dos anos, a verdade é que diferentes povos reclamaram a origem verdadeira destas personagens, como a China ou a Pérsia Antiga. No nosso caso (português), o presépio contém sempre um africano, um ocidental e um asiático. “É o afeto do povo de Deus a interpretar a universidade do amor que tem a Jesus”, confessa o padre jesuíta. Ou seja, não estando escrito, de forma clara, quem foram os três magos na Bíblia, cada um dos cristãos foi fazendo a sua interpretação.

Há dez anos, um texto chamado “A Revelação dos Magos” foi redescoberto (e noticiado) por Brent Landau, especialista em linguagens bíblicas e literatura. Nele se conta uma versão diferente daquela que é conhecida por muita gente, como relatado pela ABC News, entre outros órgãos de comunicação social. Segundo Landau, que investigou o texto com cerca de 1,7 mil anos, os magos são “descendentes do terceiro filho de Adão e Eva, Seth, tendo vivido em Shir”, terra oriental. Outro ideia curiosa, e suscetível de originar polémica, é a de que, segundo o texto, a estrela seria, na verdade, o bebé de Jesus.

Quanto às três prendas, e tal como verificado pelo fact-checker norte-americano Snopes, essa menção existe no Evangelho de São Mateus (2:11) e por essa razão se assumiu historicamente que seriam três. Há, no entanto, algumas religiões que defendem que são, na verdade, doze magos, como relatado pela BBC. Os seus nomes também não vieram a partir da Bíblia, só surgiram 500 anos depois do nascimento de Jesus.

O Snopes refere ainda que, segundo a interpretação que é feita a partir do versículo 2:11 de São Mateus, os magos não visitaram Jesus pouco tempo depois. Só que aqui existe um lapso linguístico: em português, a Bíblia refere-se a Jesus como “o menino”; já em inglês, o fact-checker refere-o como “young child” (jovem criança). Em português: “E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe e, prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, ofertaram-lhe dádivas: ouro, incenso e mirra.” Não é por isso possível saber, com exatidão, em que altura chegaram, ainda que seja relatado que foram visitá-lo a certa altura.

No entender do Padre Miguel Pedro Melo, todas estas interpretações sobre o tal mistério à volta dos magos, só se explica de uma forma: “É uma expressão de afeto. Reis de todo o mundo, que não são. O povo de Deus quase que se manifesta como Rei e como Sábio”, finaliza.

Acredita-se que os restos mortais dos três reis magos estão depositados na Catedral de Colónia, local que também é utilizado como peregrinação, como o Padre Edgar Clara descreveu ao Observador. “Um dos sítios venerados na Idade Média são os Túmulos dos Magos, que está em Colónia. Tal como o túmulo de São Tiago, que teve grandes peregrinações, também este teve”, conclui o também pároco da Igreja de São Cristóvão.

Conclusão

Só um dos evangelhos (São Mateus) que faz parte da Bíblia é que faz referência à história dos reis magos que todos conhecemos. Mas é certo que essa viagem, guiada por uma estrela brilhante, aconteceu, tal como é descrito no texto bíblico. No entanto, nunca são referidos nem como reis nem como sendo três. Existem várias interpretações e até textos históricos que contam outras versões, como sendo doze, por exemplo. Em que momento ocorreu essa visita — se logo após o nascimento ou se passado mais tempo, é incerto.

Ainda assim, e segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

Jesus era filho único?

Sendo a Bíblia um livro suscetível de diversas interpretações ao longo dos séculos, existem algumas dúvidas sobre figuras centrais, amplamente estudadas, e dignas de debates calorosos sobre as suas circunstâncias. Uma delas é a dúvida sobre se Jesus, filho da Virgem Maria, seria (ou não) filho único. Isto porque a sua conceção, considerada como um milagre, partiu de uma mulher virgem, ou seja, que não poderia ter tido filhos antes. No entanto, existem passagens bíblicas (Lucas 8:20 e 21), onde se faz referência aos irmãos. “E foi-lhe dito: estão lá fora à tua espera a tua mãe e os irmãos, que querem  ver-te”. Jesus terá respondido: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a executam”.

Existem também outras conceções a este respeito. Uma delas foi levantada nos evangelhos apócrifos, que estão fora da Bíblia, onde o pai José terá tido um primeiro casamento, de onde surgiram outros filhos. A segunda, liga-se a uma possível interpretação linguística, já que, em hebraico, a palavra “irmão” pode significar parente próximo. Mesmo assim, D. Manuel Clemente confirma ao Observador que Jesus não tinha irmãos. Mas, como referimos, outras leituras podem ser feitas.

“Era filho único, com certeza que era. A tradição é unânime, até pelo que está nos evangelhos de infância (São Lucas e São Mateus). Quando se fala em irmãos de Jesus, significa os seus parentes próximos, como era próprio da linguagem dos judeus da altura”, garante o cardeal patriarca de Lisboa ao Observador. Portanto, segundo a tradição evangélica, sim, Jesus era filho único. Ou seja, e tal como é descrito noutros artigos, como o do The Washington Post, “irmãos” pode, na verdade, ser uma referência a “primos”.

Na Bíblia existem referências a irmãos. Mas o significado dessa palavra pode ter outro contexto.

A verdade é que existem outras versões. Por exemplo, o Padre Anselmo Borges questiona se é assim tão grave “Jesus pertencer a uma família numerosa”. “Jesus não era filho único, no evangelho diz lá várias vezes que tinha irmãos e irmãs. Só que, em pormenor, não se sabe” apontar com rigor o verdadeiro emprego do termo “irmãos”, diz ao Observador. O também professor universitário levanta outra questão importante: “Existe ainda a possibilidade de serem primos, mas como os evangelhos foram escritos em grego, a palavra para irmão não é a mesma para primo. O que se aplica neste caso é irmãos — e não há mal nenhum nisso”, conclui.

Já o Padre Edgar Clara refere-se ao livro do teólogo catalão Armand Puig “Jesus, uma Biografia” (2004), para dizer que, segundo o autor, “não existe quase dúvida de que era filho único, mas que tinha irmãos”. Nomeadamente, quando Puig cita Lucas 8:20, onde é dito: “A mãe e irmãos de Jesus estão à sua espera.” Esclarece também que, fora da Bíblia, é possível encontrar nos evangelhos apócrifos, atribuídos a Tiago (o Justo) e a Filipe (apóstolo), a possibilidade de José ter tido um primeiro casamento. “No evangelho Segundo São Tiago (apócrifo de Tiago), diz-se que São José, que era mais velho, teve um casamento prévio, e que teria tido filhos dele, mas não de Maria”, argumenta. O também pároco da Igreja de São Cristóvão acredita que, nesses documentos, também é possível encontrar outros elementos importantes para a história destas figuras centrais. Por fim, o Padre Edgar Clara reforça a possibilidade do significado da palavra “irmão” poder significar parente próximo, tal como defendido pelo cardeal patriarca.

“Há ainda a crença, ininterrupta, da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa, de que Maria permaneceu sempre virgem antes, durante e depois do parto, o que significa que nunca, em caso algum, Jesus terá tido outros irmãos”, afirma Edgar Clara. Esse é um dos pontos unânimes que o Padre Miguel Pedro Melo, em declarações ao Observador, também toca, escolhendo voltar à base de quem escreveu sobre a anunciação (quando o Anjo Gabriel disse a Virgem Maria que teria um filho), que foi São Lucas. “Curiosamente, era médico e bastante criterioso na descrição de milagres, acreditou que Maria era virgem e foi ele que contou a história, por isso, acredita na conceção virginal”, conta. Portanto, ainda que a Igreja tenha definido a virgindade perpétua como um dos seus dogmas —  havendo também divisões e teses diferentes para o tema —, também é importante olhar para o primeiro autor que se debruçou sobre estas questões para perceber, segundo a leitura teológica que se faz dos evangelhos, que Jesus não poderia ter irmãos.

Jesus Cristo, filho primogénito. Há quem defenda que por Maria ser virgem não podia ter tido mais filhos. Esse é um dos dogmas católicos.

Convém  olhar para o facto de que, na Bíblia, Jesus é referido como “filho primogénito” de Maria. Segundo o Papa Bento XVI, no seu livro “Infância de Jesus”, essa designação não quer dizer “necessariamente que seja o primeiro de uma série em sucessão”, tal como transmite o próprio significado da palavra. Para esse efeito, o Papa Emérito refere a Carta aos Romanos, onde Paulo designa Jesus como “o primogénito entre muitos irmãos” (8:29). Jesus é aquele “que inaugura uma nova humanidade (…), é a primeira ideia de Deus, antecedendo toda a criatura, tudo está ordenado para Ele e a partir d’Ele”. Por isso, “é também princípio e fim da nova criação, que teve início com a ressurreição”, escreve. Nesse sentido, o Padre Miguel Pedro refere que o objetivo da linguagem dos evangelhos é ser teológica: o significado da palavra “primogénito” não é, portanto, literal. “Como é dito no primeiro capítulo de São João, a partir de Jesus, dá-se origem a uma nova época da História, em que a criação chega ao início da sua plenitude. Ele é o primeiro dos que o seguem. Cada batizado é o segundo, terceiro ou quarto filho de Deus, não por vontade dos homens e das mulheres, mas porque Deus quer”, finaliza.

Por outro lado, nos apócrifos e até na Bíblia, é possível encontrar, por exemplo, referências a Tiago como tratando-se de um irmão de Jesus. Ou mesmo referências a Simão, Judas e José. “Não é Ele filho de carpinteiro? Não se chama a Sua mãe Maria, e Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Suas irmãs não estão todas entre nós?” (Mateus 13:55). Mas aqui entra novamente a dúvida: irmão pode significar parente próximo na língua semita (hebraico) ou estas personagens podem ser só filhas de José.

Conclusão

Segundo os especialistas escutados pelo Observador, Jesus Cristo era filho único. Mas existe a possibilidade de ter tido irmãos. Há, porém, outros argumentos que defendem que isso seria uma impossibilidade: o facto da conceção virginal de Maria, descrita por São Lucas (médico), justificar a ausência de outros filhos, e de Jesus ser referido como “primogénito”. É importante dizer que os evangelhos foram escritos sob uma linguagem teológica, o que significa que Jesus foi o criador de uma nova humanidade, tudo começa a partir dele, e todos os homens e mulheres seguintes serão filhos de Deus. E também significa outra coisa: a palavra “irmãos” que surge na Bíblia, em hebraico, quer também dizer parente próximo. Esses irmãos podiam, então, ser primos de Jesus, por exemplo. Ou seja, surgiram, ao longo dos séculos, várias interpretações sobre a Bíblia e sobre outros textos religiosos acerca desta questão. Por exemplo, segundo o apócrifo de Tiago, o pai José terá tido um primeiro casamento onde teve filhos — portanto, de acordo com essa versão, Jesus teria tido irmãos.

Olhando para a questão da perspetiva oficial consagrada pela igreja de Roma, sim, Jesus era filho único. Abrindo a análise às interpretações que o termo “irmão” pode ter, e às referências aos “irmãos” presentes na Bíblia e, também, nos evangelhos apócrifos, a dúvida ganha mais espaço — e não chega a esvanecer-se.

Ainda assim, e segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

INCONCLUSIVO