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O avião aterrou em Portugal às 20h24 de domingo

MÁRIO CRUZ/LUSA

O avião aterrou em Portugal às 20h24 de domingo

MÁRIO CRUZ/LUSA

Fatos de proteção, passageiros isolados e 30 horas de trabalho. Os detalhes do regresso dos portugueses de Wuhan /premium

Num voo com passageiros de vários países, 30 viajaram isolados e seis não chegaram a embarcar. A tripulação trabalhou mais de 30 horas, sempre com bata, máscara, óculos e luvas — incluindo os pilotos.

Foi uma constante durante o voo: um grupo de médicos atravessava os corredores do avião a distribuir máscaras novas aos passageiros, para substituir aquelas que já não estariam a cumprir a função de evitar o contágio. Todos eles viajaram assim, de máscara posta, durante as cerca de 11 horas que separam Wuhan de Marselha. Para a tripulação do avião da Hi Fly, as medidas foram mais extremas. Antes do embarque dos passageiros na China, além da máscara que tapava boca e nariz, pilotos, comissários e assistentes de bordo — todos portugueses — vestiram um fato completo e assim estiveram durante todo o voo.

As condições atípicas não provocaram qualquer pânico. Depois da longa espera, com atrasos provocados pela falta de autorizações — primeiro da China, para permitir a saída dos cidadãos europeus de uma cidade a que foi imposto um regime de quarentena; depois do Vietname, que tinha suspendido todas as ligações de e para o aeroporto de Wuhan —, a viagem decorreu sem incidentes. Pelo menos, para quase todos: a tripulação acabou por trabalhar mais de 30 horas seguidas e um grupo de passageiros teve de viajar numa zona isolada do avião, por terem sintomas de gripe.

A espera longa e os percalços para chegar a Wuhan

A operação para retirar os 16 portugueses que estavam em Wuhan e pediram para ser repatriados para Portugal — com outros dois diplomatas residentes em Pequim e duas cidadãs brasileiras que também seguiram para Portugal — foi preparada durante vários dias. As autoridades portuguesas ainda admitiram a possibilidade de fretarem um avião para fazer essa viagem. Por causa da necessidade de conjugar várias autorizações, sobretudo das autoridades de saúde pública chinesas, a opção foi a de coordenar o regresso com outros países da União Europeia, através do Mecanismo de Proteção Civil da UE.

O grupo de 20 portugueses — 16 residentes em Wuhan, dois diplomatas residentes em Pequim e duas cidadãs brasileiras — aterrou em Lisboa ao início da noite

LUSA

O avião escolhido, da companhia Hi Fly, foi fretado pelo governo francês, mas partiu de Beja, com duas escalas pelo meio. Primeiro em Paris, onde subiram a bordo alguns médicos e onde começaram também os problemas. O aparelho devia ter seguido na sexta-feira de manhã para o Vietname, onde faria a última escala, mas foi obrigado a esperar. Apesar de, na véspera, em entrevista ao Observador, o ministro dos Negócios Estrangeiros ter dito que todas as autorizações por parte da China já estavam asseguradas — “A operação já está em curso, portanto…”, disse Augusto Santos Silva —, Pequim terá recuado, travando a saída dos cerca de 350 cidadãos europeus que estavam na lista de passageiros, a maioria franceses. Essa autorização significava abrir uma exceção na quarentena imposta a toda a cidade de Wuhan, com entradas e saídas proibidas, e foi preciso esperar até ao final do dia, com um atraso de 20 horas, para que a viagem começasse.

Quando a operação de repatriamento dos portugueses de Wuhan já estava em curso, a partida do avião de Paris foi adiada, por falta de autorização das autoridades chinesas

Na China, os portugueses — e os outros europeus com viagem marcada — eram também obrigados a esperar. Receberam ordem para ficarem em casa, até um autocarro os recolher um a um, porta a porta, para os levar ao aeroporto. A imagem desse momento seria registada mais tarde por um dos passageiros, Miguel Matos, treinador de guarda-redes do Hubei Chufeng Heli CF, e divulgada pelo jornal Reflexo Digital.

Grupo de portugueses residentes em Wuhan a caminho do aeroporto

Grupo de portugueses residentes em Wuhan a caminho do aeroporto

Enquanto se esperava pela autorização da China, em Hanói já estava há quase dois dias uma segunda tripulação, toda portuguesa, a quem caberia fazer a viagem até Wuhan e, depois, de regresso a França. Havia a informação de que o aparelho regressaria a Paris, mas o destino acabou por ser alterado para Marselha.

O avião chegou como previsto ao Vietname, mas um segundo problema voltou a atrasar o voo. No sábado de manhã, as autoridades vietnamitas decidiram suspender todas as viagens de e para Wuhan, para evitar o contágio no país. A medida incluía o voo excecional para a retirada dos europeus e foi preciso pôr a diplomacia a funcionar, mais uma vez, para conseguir mais uma exceção.

A autorização chegou por volta do meio dia e o avião partiu já durante a tarde para Wuhan. Aí começou uma maratona de mais de 30 horas para a tripulação e em condições particularmente difíceis.

Fatos, máscaras, óculos e luvas. Proteção durante o voo evitou quarentena da tripulação

As medidas de proteção foram tomadas já na China, mas ainda antes do embarque dos passageiros. A tripulação do A380 da Hi Fly recebeu roupa especial para fazer a viagem. Cada um dos comissários e assistentes de bordo, tal como os pilotos, vestiu duas batas cirúrgicas, luvas de látex, uma máscara e um óculos de proteção. A ordem foi de manter aquelas proteções durante todo o voo, ainda que com algumas substituições pelo caminho, para garantir que se mantinham longe do risco.

Quando os passageiros entraram, já toda a tripulação estava preparada. Numa das mudanças para roupa nova e limpa, comissários e assistentes receberam fatos completos — macacões com capuz —, por falta de mais batas para todos.

O embarque em Wuhan foi demorado. Cada um dos 350 passageiros foi sujeito a uma triagem, para determinar se tinham condições para viajar. Nesses exames, as autoridades chinesas travaram a partida de seis, por suspeitas de estarem infetados. Para outros 30 — nenhum português — foi decidido que teriam de viajar longe do resto do grupo. Tinham tido sintomas de gripe ainda em Wuhan e, apesar de já não os terem no momento do embarque, foram colocados numa zona isolada do avião, por precaução.

As fotografias que foram reveladas do grupo de portugueses mostram não só a boa disposição geral como a forma como estiveram no aeroporto e passaram nos controlos. Os papéis pendurados ao pescoço com um cordel são uma espécie de formulário com a identificação individual e a autorização para viajarem.

Comitiva portuguesa já no aeroporto de Wuhan à espera de embarcar para Marselha

Embarque no aeroporto de Wuhan, China

Miguel Matos, treinador de guarda-redes que reside em Wuhan, um dos portugueses repatriados

Ao que o Observador apurou, nenhum dos passageiros mostrou estar doente durante o voo, nem houve qualquer sinal de pânico ou alarme. Os grupo de médicos — cerca de 30 — que acompanhou a viagem manteve uma vigilância próxima, além da distribuição regular de máscaras novas. Segundo fonte da embaixada portuguesa em Pequim, o A-380 descolou de Wuhan às 7h00 locais (23h00 de sábado em Lisboa). Aterrou em Marselha às 14h31 (menos uma hora em Lisboa).

Chegou a colocar-se a hipótese de a tripulação — toda portuguesa — ficar em quarentena em França, por decisão do governo francês, mas o facto de terem viajado com todas as proteções impostas evitou esse isolamento forçado.

As mais de 14 horas de voo não implicaram, porém, o fim imediato daquele troço da viagem. O desembarque foi ainda mais demorado do que o embarque e estendeu-se durante mais cinco horas. Os passageiros foram retirados do avião em pequenos grupos — só depois de cada um ser sujeito a nova avaliação médica é que o grupo seguinte podia sair. Enquanto isso, toda a tripulação mantinha-se na aeronave, até eles próprios passarem pela triagem.

Chegou a colocar-se a hipótese de essa tripulação ficar em quarentena em França, por decisão do governo francês, mas o facto de terem viajado com todas as proteções impostas evitou esse isolamento forçado. Passariam a noite de domingo para segunda-feira em Marselha antes de regressarem a Portugal.

Quando desembarcaram em Lisboa, os passageiros passaram por nova triagem e foram transportados pelo INEM até ao Hospital Pulido Valente em seis ambulâncias e três viaturas de transporte

LUSA

De Marselha para Lisboa e o isolamento voluntário

Com todos os passageiros já em solo francês, o grupo dos portugueses foi encaminhado para o avião militar C-130 que, horas antes, tinha partido da base aérea do Montijo em direção a Marselha. Até esse momento, mantinha-se uma dúvida: havia não um, mas dois destinos possíveis de regresso — Lisboa ou Beja. Só em cima da hora da viagem ficou decidido que aterrariam no aeroporto militar de Figo Maduro, onde se mantiveram as normais medidas de segurança. À PSP foi pedido que montasse um dispositivo de segurança ao perímetro do aeroporto considerado normal, admitindo, ainda assim, a possibilidade de a presença dos jornalistas e, eventualmente, alguns curiosos, obrigar a garantir que nenhuma via fosse impedida.

A bordo, o grupo de 20 pessoas foi acompanhado por oito tripulantes e oito profissionais de saúde da Força Aérea, do INEM e da equipa de sanidade internacional, revelou mais tarde a ministra da Saúde. Seriam os elementos que se viam ainda dentro do avião, nas imagens da televisão recolhidas já na chegada a Lisboa, vestidos com fatos de proteção.

Na aterragem em Figo Maduro, as televisões captaram a imagens de algumas pessoas com fatos de proteção dentro do avião militar

Já em terra foi feita nova triagem, antes de todos os passageiros seguirem para o Hospital Pulido Valente. Como, em Portugal, a lei impede internamentos forçados — a não ser em casos de saúde mental —, a opção das autoridades de saúde portuguesas foi a de fazer exames a todos os passageiros — com esfregaços do nariz e da boca para confirmar ou afastar a possibilidade de infeção por coronavírus, e convidá-los a permanecerem no hospital, isolados, durante 14 dias, o período de incubação do coronavírus. Todos aceitaram.

Isolados, sem visitas e com acompanhamento permanente

Enquanto as televisões mostravam imagens de um grupo de pessoas, meio escondidas na penumbra e com malas e bagagens às costas, a atravessar a pista do aeroporto de Figo Maduro, na outra ponta de Lisboa, no Ministério da Saúde, aguardava-se pelos esclarecimentos que, depois de todo o silêncio e secretismo que rodeou toda a operação, as autoridades portuguesas envolvidas no repatriamentos tinham prometido. A conferência de imprensa foi marcada para as 21h, meia-hora depois do C-130 da Força Aérea Portuguesa ter aterrado.

Com algum atraso, percebeu-se que, apesar de todos os avanços e recuos na viagem, o governo queria passar uma mensagem de tranquilidade e de sucesso — e logo à entrada da ministra da Saúde, Marta Temido, na sala de conferências do ministério, que cumprimentou os jornalistas com um sonoro e bem disposto “boa noite a todos!”. Com a ministra vinham também a Diretora-Geral de Saúde, Graça Freitas, a secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Teresa Ribeiro, o secretário de Estado Adjunto e da Defesa Nacional, Jorge Seguro Sanches, o secretário de Estado da Saúde, António Sales (o único que não falou) e a secretária de Estado da Administração Interna, Patrícia Gaspar.

Alguns dos detalhes da operação foram divulgados em conferência de imprensa, às 21h30, já depois da aterragem dos passageiros em Lisboa

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

“A primeira palavra que queria deixar é de boas vindas aos nossos concidadãos que regressaram a Portugal e garantir-lhes que tudo continuaremos a fazer para que a tranquilidade regresse às suas vidas”, começou por dizer Marta Temido, numa conferência de imprensa que se estenderia por cerca de meia-hora. Começava também a explicação do que aconteceria às 20 pessoas da comitiva portuguesa, pelo menos nos dias mais próximos.

Logo após a saída do avião, explicou a ministra, foi feita uma primeira “avaliação individual” pela equipa da sanidade internacional, coordenada pela DGS juntamente “com os dois médicos que estiveram a bordo e um terceiro reforço de terra”. Nesta fase, tratou-se apenas de um diagnóstico mais simples, composto pela avaliação do “histórico clínico”, seguindo-se um “inquérito epidemiológico” e algo que a Ministra da Saúde descreveu como “esclarecimentos diversos.” No fundo, cada passageiro respondeu a várias perguntas sobre a sua saúde, a existência de doenças prévias ou crónicas, os sintomas que teve (ou não teve) em Wuhan e os seus hábitos nos últimos dias em território chinês. Se surgisse alguma dúvida aos médicos, poderiam recorrer a uma linha de apoio, para discutir o caso específico com um médico de referência da DGS.

"Por razões de segurança, para os próprios e para a comunidade, durante os próximos 14 dias todo o grupo ficará em isolamento"
Marta Temido, ministra da Saúde

Consoante o resultado destes primeiros testes, estabeleciam-se os passos seguintes: se alguém apresentasse sinais de alarme, iria logo para “um dos hospitais de referência”, nos quais se inclui o Curry Cabral. Não havendo qualquer suspeita imediata, o destino seria outro.

“Findada a avaliação, e se não for validado nenhum caso, os repatriados são transportados nas ambulâncias e carrinhas do INEM para um edifício próprio do hospital Pulido Valente, onde o acompanhamento continuará a ser feito pela equipa da sanidade internacional coordenada pela DGS”, explicou a ministra.

O hospital Curry Cabral tem quartos preparados para receber doentes com suspeitas de coronavírus, que devam ficar internados em isolamento

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Foi isso que aconteceu algumas horas depois. Todo o grupo foi levado para o Pulido Valente. Ali foram feitas as “colheitas de material biológico para testes laboratoriais” — os tais esfregaços no nariz e na boca e colheitas de sangue — e enviadas para Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge. Serão essas análises que hão-de revelar se alguns dos portugueses foi infetados com coronavírus. À saída da China, todos já tinham sido testados e todas as análises deram negativo.

Os testes demoram cerca de 5 a 6 horas. Assim, os resultados só deverão ser conhecidos pela manhã de segunda-feira (e só serão divulgados numa conferência de imprensa agendada para algures entre o fim da manhã e a hora do almoço, apurou o Observador). Sejam quais forem, o “isolamento profilático”, ou quarentena não obrigatória, será o desfecho geral para todos. “Por razões de segurança, para os próprios e para a comunidade, durante os próximos 14 dias todo o grupo ficará em isolamento”, explicou a ministra.

Essa quarentena será feita num de dois sítios: “No referido edifício do Pulido Valente” ou “em edifício próprio do Parque da Saúde de Lisboa”. Porquê a diferenciação? Por causa da “disponibilidade de quartos individuais”. Existem 13 no Pulido Valente e dez no parque de saúde de Lisboa. A decisão sobre quem ficaria onde dependeria dos inquéritos iniciais que foram feitos ainda no aeroporto de Figo Maduro.

As duas cidadãs brasileiras que vieram na comitiva portuguesa vão seguir exatamente os mesmos protocolos preventivos que o resto do grupo, não se sabendo ainda o que acontecerá quando terminar a quarentena voluntária.

Quando estivessem instalados, o INEM e a “equipa de sanidade internacional” poderiam retirar-se. Não significa isso, porém, que ao longo dos próximos 14 dias não esteja previsto acompanhamento médico — pelo contrário. “O seguimento do grupo manter-se-á com vigilância ativa duas vezes ao dia, por visita da equipa de sanidade internacional, e com vigilância passiva via centro de contacto do SNS e linha de atendimento ao médico”, explicou Marta Temido.

Tudo durante as quase duas semanas será controlado ao pormenor — a duração foi definida de acordo com o tempo médio que demora o vírus a incubar –, os “profissionais de saúde e das empresas de fornecimento de serviços” têm “treino específico” e os materiais que vão utilizar são “no essencial, descartáveis.” Até as visitas, pelo menos por enquanto, não serão permitidas.

A cada dia será divulgado um boletim clínico com a “a evolução geral” e o próprio Ministério da Saúde fará uma conferência de imprensa diária sobre os casos e possíveis ramificações, isto pelo menos “enquanto as circunstâncias o recomendarem”. Se todos estiverem bem no final dos 14 dias, poderão seguir para as suas casas. Para todos eles — e também para os profissionais de saúde que vão acompanhá-los —, Marta Temido pediu ainda respeito pela sua privacidade.

O governo garante que responderá aos pedidos dos portugueses que optaram por ficar em Wuhan, se mudarem de ideias e quiserem regressar. "Temos equipas ainda a acompanhar esta situação e mantemos contacto próximo"

Quanto às duas cidadãs brasileiras que vieram na comitiva portuguesa, vão seguir exatamente os mesmos protocolos preventivos que o resto do grupo, não se sabendo ainda o que acontecerá no final da quarentena voluntária.

Quando se colocou a questão de um possível repatriamento, ficou a saber-se que viviam 20 portugueses em Wuhan, com quem a embaixada em Pequim estava em contacto. Desses, 16 quiseram voltar para Portugal. O que acontecerá se os outros quatro mudarem de ideias e decidirem fazer o mesmo? O governo garante que responderá a essa solicitação. “Temos equipas ainda a acompanhar esta situação e mantemos contacto próximo”, explicou a secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Teresa Ribeiro.

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