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Fernanda Torres, 52 anos, atriz de alto gabarito, escritora fina e filha da inigualável Fernanda Montenegro

Fernanda Torres, 52 anos, atriz de alto gabarito, escritora fina e filha da inigualável Fernanda Montenegro

Fernanda Torres. "Chegava a casa, botava o filho para dormir e escrevia das 10 à meia-noite"

Atriz premiada em Cannes com a Palma de Ouro (1986) é escritora de primeira água. O novo livro, "A Glória e seu Cortejo de Horrores", tem no título uma frase de sempre da sua mãe, Fernanda Montenegro.

A distância é enorme, entre Brasil e Portugal. Ao todo, 7495 quilómetros com o Oceano Atlântico pelo meio. Para diminuir essa diferença, já de si esbatida com os Descobrimentos e tal, a RTP importa as novelas da Globo. Começa com “Gabriela, cravo e canela”, em 1977. Depois. Bem, depois, respire, inspire e cá vai disto: “Escrava Isaura” (1978), “O Astro” (1979), “Dancin’ Days” (1980), “Pai Herói” (1983), “Guerra dos Sexos” (1984), “Vereda Tropical” (1986), “Roque Santeiro” (1987), “Selva de Pedra” (1988), “Sassaricando” (1989), “Tieta” (1991), “Pedra sobre Pedra” (1992) e por aí fora. É um fartar de vilanagem. De bom gosto e indiscutível qualidade.

A distância é enorme, entre Rio de Janeiro e Lisboa. Ao todo, 7724 quilómetros com o Oceano Atlântico pelo meio. Para diminuir essa diferença, já de si esbatida com as novelas da Globo, a editora Companhia das Letras lança o novo livro de Fernanda Torres, A Glória e seu cortejo de horrores, e aproxima-a de nós. O get together dá-se no sexto andar do Hotel Ritz, quarto 633. Dois toques leves e Fernanda fala um “já vou” longínquo do lado de lá, antes de nos abrir a porta. Ainda descalça e com uma chávena de café na mão, convida-nos a entrar e solta outro “já vou”. Fernanda vira à esquerda, para o quarto, e indica-nos o caminho em frente, o da sala. E que sala, com uma janela a toda a largura e de alto a baixo. Quando reaparece em cena, já de saltos altos, serve-nos um copo de água e cá vai disto.

E esta vista?
Aiiii, Lisboa. Geralmente, a vista é para o outro lado e aí vê-se o Castelo, a Graça. Incrível, né?

Conhece Lisboa?
Muuuito. Desde 1974.

Antes ou depois da revolução?
Três meses depois.

E então?
Era deprimidííííííssimo. Os meus pais [Fernanda Montenegro e Fernando Torres] tinham ganho um prémio de teatro e saíram pela primeira vez do Brasil. Foi uma viagem louca: em 45 dias, fizemos toda a Europa, com 20 cidades em Itália, mais Nova Iorque e a Disney. Acabámos exaustos, a precisar de um hospital. Uma das passagens foi Lisboa e ficámos horrorizados com a atmosfera carregada de 30 ou 40 anos de Salazar. O povo era carrancudo, nossa… Saímos correndo daqui, a jurar para nunca mais. Só mais tarde é que pude conhecer Lisboa como deve ser. A partir daí, tem sido amor e já fiz três filmes aqui, duas peças e este é o segundo livro que lanço em Lisboa. É, Lisboa é mágica.

Esse mais tarde é quando?
Só voltei a Lisboa no final da década 80 para filmar o “Judeu”, conhece?

Nem ideia.
É um filme brasileiro sobre um judeu, dramaturgo e diretor de um teatro de marionetas. Ele foi para o Brasil e lá a Inquisição mandou-o de volta para Lisboa, onde foi queimado. As filmagens foram em Óbidos e chamaram-me para rodar uma semana. Eu adorei a ideia e fui. Quando cheguei aqui, havia um problema financeiro com o filme.

Então?
Estávamos na era Collor, ou perto disso, e não liberaram o dinheiro. O elenco estava junto com a produção, sem pagar o hotel e a viver de favores. Virei-me para o produtor e disse-lhe ‘como é que você me traz para cá no meio deste caos?’. Esse filme, imagina, demorou sete anos a ser feito e o elenco foi morrendo. [“Judeu” só sai para o cinema em 1996]

“A Glória e seu Cortejo de Horrores”, de Fernanda Torres (Companhia das Letras)

E depois?
Voltei a Lisboa para fazer um filme do José Fonseca e Costa, “A Mulher do Próximo”, e ainda o “Terra Estrangeira”, do Walter Salles. Amo esse filme, foi um período incrível aqui em Portugal, estávamos em 1991, acho. Agora, venho cá uma vez por ano, de férias.

A gente?
A família, ahahahah. O ponto de partida é Lisboa. A partir daí, pulamos para o resto da Europa. O meu marido, o Andrucha, não sacava Lisboa e, há uns três anos, ficou aqui comigo uns 10 dias.

E que tal?
Ele só me dizia “isto é maravilhoso”.

És reconhecida nas ruas de Lisboa?
Sou. Houve uma altura em que Portugal era uma extensão do Brasil por causa das novelas. Depois, com a entrada na União Europeia e tal, Portugal voltou-se para a Europa e agora é menos brasileiro que antes pela globalização, pela Netflix. Aliás, os meus filhos não vêem mais televisão.

Ah pois.
Sacou? Então, agora é mais difícil.

O Rio decaiu muito e perdeu poder aquisitivo a partir do momento em que deixou de ser a capital. Além disso, na redemocratização, foi dominada pelo populismo corrupto. Basta ver que os últimos quatro governadores do Rio foram presos.

Eu lembro-me da Fernanda por causa de uma novela.
“Selva de Pedra”?

“Baila Comigo”?
Nossa, não fazia nada: entrava muda, saía calada. Deve ser o “Selva de Pedra”.

Aí falavas mais?
Ahahahah, muito mais. Aliás, há uma história engraçada. Ao mesmo tempo do “Selva de Pedra”, entrei em filmagens pelo “Terra Estrangeira”. Uma parte desse filme implicou uma viagem a Cabo Verde. Mal aterrei lá, o povo cabo-verdiano gritava Simone, Simone [Fernanda muda de voz e fala como se estivesse a pedir um autógrafo]. Simone era o nome da minha personagem no “Selva de Pedra”. Fiquei tão espantada, sabe? A globalização antes da globalização.

Da Globo, ainda por cima.
Ahahahahah. Isso, a Globo se mandou para fora do Brasil e os países lusófonos acolhiam muito material do Brasil.

A primeira novela brasileira em Portugal foi a “Gabriela”.
Excelente, foi uma febre lá no Brasil.

Aqui também. No último episódio, o Parlamento fechou mais cedo.
Para assistir?

Ya.
Maravilha.

E o “Roque Santeiro”?
Outro fenómeno. Tô certo ou tô errada? Ahahahahahah.

Certíssima. O Diário de Lisboa até fez manchete com o último episódio.
Que coisa, hein?! As novelas tinham esse plus, o de mexer com as pessoas. Incrível.

Mas a Fernanda retirou-se cedo das novelas.
Agora sou mais conhecida pela sitcom “Os Normais”.

Quando vem a Lisboa, já sabe onde ir?
Tudo, restaurantes, cafés, passeios a pé. Adoro o Príncipe Real, um lugar de todo o mundo. Adoro a Baixa, o Bairro Alto. Adoro caminhar até Belém. No outro dia, fui a pé até ao Museu do Azulejo, que está numa zona mais industrial. Amo a Graça. Na última vez que vim cá, conheci a Serra da Arrábida. Que lugar ma-ra-vi-lho-so. Por falar nisso, amo pegar num carro e ir até ao Cabo da Roca. É incrível, aquela rocha simboliza o fim da Europa continental. E, claro, um peixe em Cascais, os castelos em Sintra e o Norte, que é lindo. O único lugar por visitar é o Algarve. Um dia, vou de carro. Ahahahahah.

E nós, portugueses, adoramos o Brasil, o Rio de Janeiro.
A geografia do Rio é uma coisa inacreditável.

Sempre foi assim?
O homem tenta destruir, mas a natureza é mais forte, mais resistente. O Rio é aquele verde, aquele céu, cheio de morros. Decaiu muito e perdeu poder aquisitivo a partir do momento em que deixou de ser a capital [por troca com Brasília]. Além disso, na redemocratização, foi dominada pelo populismo corrupto. Basta ver que os últimos quatro governadores do Rio foram presos.

Dá que pensar.
Não é? Depois veio a falência da Petrobrás, que atingiu o Rio em cheio. E agora, nossa senhora, a cidade entrou numa depressão violenta depois dos Jogos Olímpicos.

6 fotos

Isso sente-se na rua?
Claro que sente. E já escrevi isso numa coluna de opinião. Estava na rua a ir para casa, ali na Lagoa, e é costume haver engarrafamento. Naquele dia, não havia isso. Nem no outro. Nem depois, depois, depois, depois. Não há mais engarrafamento. Isso é bom, pensei eu no imediato. Só que depois pensei melhor e a falta de trânsito é o sinónimo do recolhimento. As pessoas já não andam na rua, estão recolhidas. E os restaurantes estão a fechar. A depressão económica é visível, impressionante.

Económica e também social?
Todos os problemas desaguam na sociedade. O Brasil é um país muito desigual e essa desigualdade é cada vez mais profunda. Que acaba em violência. No caso do Rio, uma cidade muito democrática, no sentido em que todo o mundo está junto, ao contrário de São Paulo, por exemplo, em que há um Centrão bem separado da periferia, a gente sente a violência em todo o lado. O meu filho estuda na Rocinha e estourou uma guerra por lá.

Eish…
É, agora o meu filho pergunta à polícia se pode ir à escola. ‘Tá fogo, o Rio está a viver um período muito difícil.

O Collor de Mello acabou com a Embrafilmes, uma empresa estatal criada pelo cinema novo. Numa penada, isso acabou e foi um choque para todos nós. Quer dizer, o rapaz em Paris dizia-me que não tinha mais um telefone para ligar, não havia contacto para falar com quem quer que seja. A Embrafilmes acabou de um dia para o outro e foi um período negro para a cultura brasileira. O Jabor [realizador], por exemplo, deprimiu e mudou de profissão.

Sabe quem vi na minha primeira vez no Rio: Arnaldo Jabor.
Ai não, sério?

Sério mesmo. Em Ipanema, à saída do Restaurante Devassa.
Isso é comum no Rio, ainda é um centro de artistas e muitos moram lá. Por exemplo, a Companhia das Letras [editora de Fernanda Torres] é paulista e abriu no Rio, onde a é a sede da Globo. No dia em que a Globo sair do Rio, nem sei o que acontecerá ao Rio. Mas é isso, os artistas moram lá e é costume tropeçar neles: Jabor, Chico, Caetano.

Jabor é o realizador.
Do “Eu Sei que Vou te Amar”. Depois, na crise do Collor, ele virou jornalista.

E que jornalista.
Maravilhoso mesmo.

Como foi filmar com o Jabor?
O Jabor era um ídolo na minha casa, os meus pais viviam a falar dele, do quanto o admiravam. Aliás, a mamãe entrou num filme dele chamado “Tudo Bem”, bem melhor que o “Eu Sei Vou Te Amar”. Então, um dia, ele chama-me para filmar com ele e foi uma experiência inesquecível. A convivência do quotidiano com o Jabor marcou-me para a vida.

E ganhou o prémio de melhor atriz no festival de Cannes.
Como estava a filmar a novela “Selva de Pedra”, fui a Cannes para a exibição do filme mas falhei a premiação. Ahahah. Por um lado, é ruim. Por outro, teve um sabor de Copa do Mundo.

Ahahahah.
Foi uma época bem cheia de projetos, com filmes atrás de filmes. Fiz quatro nessa época e rodava o mundo inteiro a promovê-los. Fui a muitos países, tanto aqui na Europa como EUA e Cuba.

A cultura brasileira sempre vendeu muito bem em todo o mundo.
Verdade, só que depois o Collor acabou com a Embrafilmes, uma empresa estatal criada pelo cinema novo. Numa penada, isso acabou e foi um choque para todos nós. Quer dizer, o rapaz em Paris dizia-me que não tinha mais um telefone para ligar, não havia contacto para falar com quem quer que seja. A Embrafilmes acabou de um dia para o outro e foi um período negro para a cultura brasileira. O Jabor, por exemplo, deprimiu e mudou de profissão. Eu vivi no exílio e o “Terra Estrangeira” fala sobre isso mesmo, sobre a crise na era Collor. Lembro-me bem que estava a filmar no México e ligaram-me do Brasil a dizer que tinham confiscado o dinheiro de todo o mundo. Falei com a produtora, que era inglesa, e ela reagiu como se fosse uma piada: “Fernanda, dont worry, it doesn’t exist.” Ai existe, existe. Infelizmente, existe.

Não houve contestação ao Collor?
Claro, só que houve muitas pessoas que se mataram. Foi um período negro e não havia uma solução à vista. Quer dizer, o vice do Collor era o Itamar e as pessoas viam-no como um incapaz. Mas não, o Itamar devolveu alguma confiança, meteu o Fernando Henrique na pasta da economia e o Brasil começou a sair lá de baixo. Anos depois, viveu uma era de realizações.

E agora?
O Brasil é uma montanha russa de emoções e diria que agora vamos passar uns 20 anos maus, bem estranhos. Já vou ter 70 anos quando tudo passar, em princípio.

Mudo de assunto. Já contracenaste com a tua mãe, que tal?
Ser colega da mamãe é algo imbatível. Até fizemos uma peça juntas em que ela me arrancava a cabeça e eu comia-lhe o coração. Olha, é uma peça experimental que apresentámos no Centro Cultural de Belém e rodou a Europa mais Nova Iorque.

Bem sei, bem sei, vi no wikipedia.
[Fernanda abre os olhos e lembra-se de algo] Por falar no wikipedia, um dos capítulos do livro é sobre um caso do wikipedia. Li sobre o Augusto Boal, um dramaturgo brasileiro, inventor do teatro invisível, que fazia intervenções na rua para criar pensamento. E estava lá no wikipedia que o tal teatro invisível tinha ido trabalhar o teatro revolucionário para o interior do Brasil e um operário da fazenda tinha sido feito prisioneiro pelo proprietário. Então, os operários disseram aos atores para intervir, só que os atores argumentaram que eram só atores e não iam participar nessa aventura. Escrevi sobre isso e o Boal escreveu-me a dizer que “repetir falsidades era demais”. Ai meu Deus, que vergonha, imagina? E saiu um capítulo inteiro com essa história.

Em 2017, dei um tempo na carreira de atriz e dediquei-me mais à escrita. Aí, tinha o dia todo para mim e sabe o que me aconteceu? Foi-me dando uma trava, porque tive de aprender a escrever de dia. Esperava que todo o mundo saísse de casa. Aliás, bastava que eles batessem com a porta para eu começar a escrever. Estava igual a Pavlov, ahahahah. É como dizia aquele autor, o Paul Beatty: “Se eu escrever uma página por semana, fico satisfeito.” Isso destressou-me porque, de repente, estava com tempo a mais.

Como é que surge essa vontade de escrever?
Durante 30 anos, tive um nervoso de ser atriz, sempre à espera de convites para entrar aqui ou ali. Como já te falei, a era Collor acabou com o cinema. Então, comecei a escrever. E, às tantas, fui ganhando mais gosto, mais gosto, mais gosto. E escrevi um roteiro, que demorou seis anos a acabar e serviu para o filme “Redentor”, realizado pelo meu irmão Cláudio. Mais tarde, o Domingos de Oliveira e eu fizemos “A Casa dos Budas Ditosos”, um monólogo do livro do João Ubaldo Ribeiro. Aí, tive de decorar um livro inteiro e isso transmitiu-me outro mundo, outra bagagem. A partir daí, passei a receber convites para escrever. O Sérgio Mário Conti foi o primeiro a falar comigo e convidou-me a escrever textos longos na revista Piauí, tipo New Yorker. O primeiro texto foi sobre stage fright, medo de entrar em cena, e dei conta disso. O começar, o desenvolver, o concluir. Escrevi direitinho, bonitinho. Ahahahah. Depois, ainda fiz mais dois perfis e veio um convite da Veja Rio. Depois, um convite do Folha durante as eleições já-não-sei-quais. Aí, virei colunista do Folha e ela obriga-te a escrever, com tamanho, a desenvolvimento do raciocínio. Antes, nunca tinha pensado em escrever. Só que…

Aconteceu.
É. Até porque os convites sucederam-se. O Fernando Meirelles, por exemplo, quis que escrevesse um conto sobre terceira idade e aí escrevi sobre os cinco minutos finais da vida de um velho. Falei, “pôxa, dei conta, tenho jeito”. O conto era para a Companhia das Letras e o contacto ficou feito. Propuseram-me algo maior e fiz o Fim, em 2013. Como a repercussão foi boa, muito boa, com um texto enorme na “New Yorker”, aventurei-me a escrever mais este aqui, o Glória e seu cortejo de horrores.

E mostras a alguém da família?
Ninguém, só aos editores da Companhia das Letras.

E tens um horário específico para trabalhar?
Foi difícil, isso. Estava a gravar na televisão, naquele ambiente de convívio contínuo, barulhento, e era um alívio à noite quando chegava a casa, botava o filho mais novo para dormir e escrevia das 10 à meia-noite.

Conseguias nessas duas horas?
É incrível como criamos hábitos, não é? Em 2017, dei um tempo na carreira de atriz e dediquei-me mais à escrita. Aí, tinha o dia todo para mim e sabe o que me aconteceu? Foi-me dando uma trava, porque tive de aprender a escrever de dia. Esperava que todo o mundo saísse de casa. Aliás, bastava que eles batessem com a porta para eu começar a escrever. Estava igual a Pavlov, ahahahah. É como dizia aquele autor, o Paul Beatty: “Se eu escrever uma página por semana, fico satisfeito”. Isso destressou-me porque, de repente, estava com tempo a mais. Ahahahahah.

À mão ou…?
Pôxa vida, tem de ser no portátil. Já ninguém escreve à mão. Por falar nisso, fico sempre a pensar no Victor Hugo. Escrever Os Miseráveis à mão? Pobre copy desk, ahahahah.

Os meus pais tiveram-nos, a mim e ao meu irmão, aos 30-e-tal anos e foram corajosos na forma como encararam o gap geracional, que não era normal na altura como o é agora, ainda por cima à entrada para os loucos anos 70. Mais interessante ainda, havia uma liberdade total da parte deles em relação a nós. Quero dizer, nunca se criou uma expectativa aos olhos deles sobre mim ou sobre o Cláudio. Eles nunca sonharam nada para gente. Isso é impressionante, deixar o outro ir. Nós podíamos ser o que quiséssemos.

Tanto no Fim como n’A Glória e seu Cortejo de Horrores só se vêem personagens masculinos. Porquê?
Não sei, vou corrigir isso no futuro, ahahahahahahahahah. Não sei porque traio o meu género. Não sei porquê. Acho que é vontade de ser quem não sou, acho que é imaginar alguém na pele que não você e acho também que a crise do macho é mais interessante. É mais fácil encontrar a falha humana e o desengano no homem. Também é verdade que sou ácida a escrever e não me vejo a escrever sobre a mulher com essa liberdade, ahahahah.

O título A Glória e seu Cortejo de Horrores.
É da mamãe. É uma frase dela. De sempre.

A propósito de quê?
Por exemplo, a nomeação para melhor atriz nos Óscares [1999, “Central do Brasil”, de Walter Salles]. A campanha de apresentação do filme em não-sei-quantas-cidades-dos-EUA foi, assim, e-xaus-ti-vo. Aquilo é uma batalha, uma invasão napoleónica. Antes dos Óscares, havia o Globo de Ouro, onde ela também estava nomeada. Então, a mamãe dizia “a glória e o seu cortejo de horrores”.

Toda a glória tem um lado negro?
Lembro-me da minha mãe abduzida, completamente. Foi um trabalho extra, mais duro ainda que o próprio filme. Havia cenas inacreditáveis. De bom, claro. Como a minha mãe no David Letterman.

Uauuuuu.
Uauuuuu, mesmo. E ela conseguiu fazer uma piada em inglês.

Como foi crescer ao lado dos teus pais, pessoas do teatro?
Andava sempre de um lado para o outro, dentro dos teatros, de terça a domingo. Foi uma aprendizagem desde bem cedo.

Sempre ao lado do teu irmão?
O Cláudio foi muito importante para mim. Devemos todos passar por essa sorte, a de ter um irmão ao teu lado a toda a hora. É uma aventura fantástica.

Imagino as histórias.
Ainda há poucos dias, falava disso lá em casa. A mamãe diz que o Cláudio tinha 16, ele diz 20. Seja como for, a mamãe liberou um pedido louco dele.

Qual?
Fazer o trem da morte.

Sério?
O trem sai do Brasil e vai para a Bolívia. Durante dois meses, o Cláudio sumiu. Nada, nem um telefonema, nem uma carta. Outros tempos, claro. Ao fim de dois meses, o Cláudio ligou do Peru a pedir dinheiro para regressar ao Brasil. Ahahahahah, esse tipo de histórias, ’tá vendo? Era uma época muito especial, em que se podia viajar de carona. Hoje, você não consegue atravessar o Estado do Rio sem levar uma bala. Mas isso do trem da morte é para dizer que os meus pais tiveram-nos aos 30-e-tal anos e foram corajosos na forma como encararam o gap geracional, que não era normal na altura como o é agora, ainda por cima à entrada para os loucos anos 70. Mais interessante ainda, havia uma liberdade total da parte deles em relação a nós. Quero dizer, nunca se criou uma expectativa aos olhos deles sobre mim ou sobre o Cláudio. Eles nunca sonharam nada para gente. Isso é impressionante, deixar o outro ir. Nós podíamos ser o que quiséssemos. E a verdade é que não fiz a universidade e comecei a trabalhar aos 17 anos, idade em que comecei a ganhar a minha autonomia.

E tu com os teus filhos?
Vejo muitas parecenças, até pelo historial da minha família. A mamãe veio de um Brasil arcaico e é filha de operários, por isso sempre a considerei operária. Eu não, sou burguesa. Sou nascida e criada no Rio, tal como os meus filhos. Há aspetos em que eu e eles somos parecidos e fazemos as mesmas coisas. O que não é de todo descabido porque vivemos uma época muito global: assistimos aos mesmos programas, vestimo-nos de forma. Seja aqui, no Brasil ou na China. Você vai a qualquer lugar e as lojas são sempre as mesmas.

Também é assim com música e futebol, dois expoentes da cultura brasileira?
Agora é curioso o que se passa com a música, pelo intercâmbio entre Portugal e Brasil. Já fui ver Carminho e Zambujo, é uma ponte musical fantástica. O Zambujo, inclusive, ouvi-o a cantar Chico com uma intensidade genuína. Depois há valores fenomenais, que nos fazem esquecer toda a crise política, económica e social do Brasil.

Como por exemplo?
Há uns meses, ouvi Marisa Monte com Paulinho e saí do concerto com a certeza de que o Brasil é grande, tem potencial e merece mais e melhor.

E tu, a cantar?
Não tenho dotes musicais, bem tento, mas não tive essa sorte. Ahahahah.

Cresceste a ouvir quem?
Jorge Bem, Chico, Caetano, Novos Baianos, Baby, Pepeu, Marisa Monte, todo o rock brasileiro, cheio de poetas maravilhosos.

E o futebol, fintaste essa pergunta.
Olha, não sou tão ligada. Mas sei de uma coisa.

Qual?
Vou sentir a falta da Itália na próxima Copa, os jogadores italianos são belíssimos.

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