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“Viseu e a sua região são um exemplo de transformação e de progresso, preservando, ao mesmo tempo, aquelas características que são o fundamento da sua identidade própria. O que foi feito resultou da vontade que conseguiu contrariar o que parecia inelutável, simboliza o impulso que quer reformar, mudar, aperfeiçoar, fazer avançar”. No ano 2000, Jorge Sampaio escolheu Viseu para as comemorações do 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

Fernando Nunes, presidente da Visabeira, estava numa das primeiras filas. Foi nesse dia que lhe foi colocada a fita que lhe confere o grau de grande-oficial da Ordem do Infante D. Henrique. O empresário que fez de Viseu a casa da Visabeira (até no nome) — e de onde nunca a tirou — ouvia o então Presidente da República falar de imigração e dos compromissos políticos necessários entre os partidos e os grupos parlamentares para avançar com “as reformas de que necessitamos” e salientar que “após décadas de estagnação e isolamento e não obstante os problemas que persistem ou surgem, o nosso País mudou profundamente nos últimos vinte anos.”

A Visabeira tinha nascido há precisamente 20 anos. A 12 de maio de 1980, dois irmãos (de três), Fernando e Daniel — regressados com a família de Moçambique no pós-25 de Abril — constituíram uma empresa para aproveitar o que começava a ser a digitalização das telecomunicações, num país que tinha acabado de eleger um governo da AD, de Francisco Sá Carneiro (que morreria em dezembro desse ano).

Foi pelo negócio de telecomunicações que tudo começou, associando também a construção de infraestruturas de energia. O país estava por fazer. Os investimentos eram necessários. Fernando Nunes tinha-se licenciado em engenharia eletrotécnica na África do Sul. Esta ainda hoje é, através da subholding Visabeira Global, que tem na Constructel uma das alavancas (e a parceria no capital da Goldman Sachs), a principal área de negócio do grupo que tem mais outras duas subholdings: uma para a indústria e outra para o turismo e imobiliário. Em conjunto já representam um negócio consolidado superior a dois mil milhões de euros. Quando fez 20 anos faturava 100 milhões.

Fruto, dizem, de muita ambição. E do “prazer” de Fernando Nunes por aquisições. “A Visabeira onde põe a mão vem, de certeza, êxito”, considera ao Observador o histórico presidente da autarquia de Viseu, Fernando Ruas, que não deixa de se recordar dos “propagandistas da desgraça” que nos primeiros tempos não esperavam outro futuro para a Visabeira senão o da falência. “Não só não faliu como se expandiu de forma consistente”, reforça com visível satisfação.

Fernando Ruas, presidente da Câmara de Viseu, com Fernando Nunes, presidente da Visabeira, numa festa em Viseu

A entrevista que deu sem querer

Ainda que a infraestruturação e a construção sejam o principal negócio, a indústria e o turismo é que acabam por dar a Fernando Nunes o que ele não gosta — prejuízos (em alguns anos) e uma exposição mediática da qual foge.

Ainda que não se furte às fotografias em eventos ligados às suas empresas, recusa qualquer entrevista. Nunca deu nenhuma por livre vontade nestes 45 anos de Visabeira. Mas já foi apanhado. Conta-se na empresa que num desses eventos falava com um jornalista de uma rádio local sem saber que a conversa estava a ser transmitida. Não há registos (o Observador não encontrou) mas fica para a história a “entrevista que deu sem querer dar”.

Mas não impede que os seus gestores o façam. Nem o seu filho mais velho, a quem deu um nome que junta o dos dois fundadores da Visabeira. Fernando Daniel, também ele engenheiro, já é o número dois do grupo. É vice-presidente, sentando-se na mesa que tem Nuno Terra Marques como CEO (presidente executivo), e é presidente da Visabeira Turismo. Ainda não fez 30 anos. “O meu objetivo é continuar a ajudar o grupo Visabeira a crescer. Temos tido um crescimento exponencial e como é óbvio não quero que isso abrande. O céu é o limite e nós queremos sempre chegar mais longe. E o meu objetivo é esse, é continuar. Nunca passar acima de ninguém. Quem está lá há mais tempo tem que ser respeitado. Não quero dar um passo maior que a perna. Sempre ouvir os mais velhos é sempre o meu lema. Por isso, o meu objetivo é continuar a contribuir para que o grupo Visabeira cresça em todas as áreas”, declarou numa dessas entrevistas o filho mais velho de Fernando Nunes. Ao pai só destinou palavras de orgulho e elogio. “É o meu ídolo”, confessou, assumindo: “Todos os passos que quero seguir é inspirado nele”.

O pai “chegou onde chegou fruto de muito trabalho” e “por mérito próprio”. Fernando Nunes nunca falou da família, nem da tragédia que se abateu sobre ela, quando Daniel, o irmão que com ele fundou a Visabeira, morreu num acidente de viação em 1985. Hoje dá nome a uma rua na localidade de Pinheiro, na freguesia de Santos Evos, a 10 quilómetros da cidade de Viseu, de onde eram naturais os pais. A filha de Daniel Nunes também está no grupo e detém cerca de 1,4%.

Daniel ficou também na pele dos três filhos de Fernando Nunes. O segundo nome próprio de todos é Daniel. Apesar de ser sempre referido quando se fala do mais velho. Para não se confundir com o pai. Os mais novos, gémeos, têm hoje 23 anos. João fez Economia e já está na administração da recém criada Visabeira Pro, que é uma sociedade para serviços partilhados do grupo. Francisco, de Gestão, também já anda pelo grupo, mas ainda sem assento nos conselhos. Mas todos vão assistindo às reuniões de todas as áreas. E do próprio Conselho Geral e de Supervisão. É o modelo de governação que a Visabeira escolheu. Fernando Nunes é hoje o presidente desse órgão não executivo. Mas de não executivo tem pouco.

Visabeira é a cara da OPA lançada sobre Martifer para compor núcleo duro com Mota-Engil e Irmãos Martins

Vários são os relatos feitos ao Observador sobre o dia a dia do “eng. Fernando”, que é sempre associado ao trabalho. Não há, por isso, decisão estratégica que se tome que não passe por ele. Muitas iniciam-se precisamente nele. Não parece haver dúvidas de que comprar a Vista Alegre Atlantis, a Bordallo Pinheiro, entrar na Martifer — o mais recente —, expandir-se internacionalmente ou até a entrada de Cristiano Ronaldo na companhia centenária de cerâmica tiveram a sua marca. “A decisão é sempre dele”. Ninguém toma nenhuma decisão sem que a última análise não seja de Fernando Nunes, admite ao Observador Alberto Figueiredo Lopes, que está no Conselho Geral e de Supervisão da Visabeira e que esteve com o “eng. Fernando” nos primórdios da empresa.

Ligação à política? Dá-se com todos

No final de março de 2009, José Sócrates, então primeiro-ministro, e o seu ministro da Economia, Manuel Pinho, foram às Caldas da Rainha para assinalar a nova vida da Bordallo Pinheiro. Envolvida numa crise financeira grave, acabou adquirida pela Visabeira, com o beneplácito — ou mesmo o empurrão — do governo socialista. “É um recomeço, um reinício”, sustentou José Sócrates nessa visita. Um recomeço que, acrescentou, tem de ser “com ânimo” e sem “choraminguices”. Na mesma linha, Manuel Pinho, que apelidou de “quase milagre” a salvação da Bordallo, elogiou os empresários que “não baixam os braços e não se resignam à crise”, falando da Visabeira como “uma empresa com visão”.

Mas há um gosto especial de Fernando Nunes em pegar nestas empresas históricas, à beira do fim, e dar-lhes uma nova vida. Fê-lo com a Bordallo como fez também, por essa altura, com a Vista Alegre Atlantis.

Ao Jornal de Negócios, Ângelo Correia, antigo ministro e amigo de Fernando Nunes, já confidenciou a conversa que teve, então, com o dono da Visabeira: “‘Vais correr um grande risco’. E ele respondeu: ‘Estás enganado’”. “E ele é que tinha razão”, assumiu.

O negócio da cerâmica não era totalmente estranho à Visabeira.

No ano passado, em que comemorou 200 anos, a Vista Alegre recebeu uma condecoração do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, com o título de membro-honorário da Ordem do Infante D. Henrique.

Nuno Terras Marques, CEO da Visabeira, e Fernando Nunes, fundador da empresa, receberam a condecoração para a Vista Alegre.

Na era Sócrates, a Visabeira foi muitas vezes apelidada de empresa do regime. Fernando Ruas contesta — então tem de ser de todos os regimes. A ligação histórica da Visabeira à Portugal Telecom — de quem era fornecedor e acionista — também lhe proporcionou uma ligação àquela que viria ser a Nos (quando se deu a cisão da PT Multimédia). Uma ligação que só abrandou com a Altice, que se virou para outros fornecedores. De 2007 a 2013 a Visabeira faturou na PT mais de 600 milhões de euros, segundo o livro “A Implosão da PT”. Entrou na estrutura acionista da Portugal Telecom para, com a Caixa Geral de Depósitos, servir de contrapoder ao Banco Espírito Santo. Demorou a sair, já a Portugal Telecom era uma sombra do que tinha sido e já se chamava Pharol.

Ainda nessa era ganhou um concurso público para construir e operar uma rede rural de fibra ótica. Em todos esses processos pairava o Estado nas decisões. A Caixa Geral de Depósitos e a AICEP Capital, que era o braço de capital de risco da AICEP, estavam no capital da Visabeira Global.

Sendo ou não, então, uma das empresas do regime, Fernando Nunes nunca assumiu publicamente preferências políticas. Embora na agora “sua” Vista Alegre tenha tido já vários administradores mais ligados à ala direita. Paulo Portas, Miguel Poiares Maduro, Luís Marques Mendes, José Luís Arnaut andaram ou andam nos órgãos sociais da Vista Alegre.

Viseu sempre foi tido como o cavaquistão. Aí o PSD tem forte apoio e conquista votos. Por isso, há quem admita que possa também Fernando Nunes ter alguma preferência. Mas não o diz. Nem participa em campanhas ou mostra publicamente apoio. Fernando Ruas assume que também nunca solicitou o seu apoio: “Fará o que bem entender. Não modifica em nada o que penso”.

Nas suas amizades há, ainda assim, políticos de vários partidos. Não é segredo que tinha uma ligação de amizade com Jorge Coelho (que morreu em 2021), que foi ministro do PS e presidente da Mota-Engil, e que era de Mangualde, perto de Viseu.

Fernando Nunes tinha uma ligação de amizade com Jorge Coelho.

Jorge Coelho não é caso único. “É muito de relações com as pessoas”, acrescenta Fernando Ruas. Palavras que são corroboradas por vários dos contactos feitos pelo Observador para este perfil. Fernando Nunes é assim.

As festas em Viseu e os seus jantares de quinta-feira

Quem nos anos de 1980 andava pelos circuitos das discotecas não ficava indiferente ao Day After, em Viseu. Até uma pista de karting tinha (e tem). Várias pistas de dança. E estava no centro do país. Abriu em 1986 e fechou como discoteca regular 20 anos depois. Mas não se perdeu. Ainda hoje lá está. Com várias valências, incluindo um Expocenter. E as portas abrem-se para eventos. Mas há um especial todos os anos. Em setembro, o Day After, que pertence à Visabeira, torna-se no espaço da saudade. Uma reunião de amigos — às centenas — para dançar pela noite dentro.

Tudo começou em 1993. Eduardo Pinto, viseense dos sete costados, e que teve a banda “Os Tubarões” nos anos de 1960, organizou nesse ano um reencontro dos amigos de Viseu, inspirando-se nos bailes dos Bombeiros Voluntários por ocasião da Feira de S. Mateus. Três anos depois voltou o convívio que a partir de 2000 se tornou numa festa anual em setembro, com o apoio da Visabeira e da Câmara Municipal de Viseu. O OMA (“Os Melhores Anos”) realiza-se no Day After. A deste ano está marcada para 27 de setembro, com os Resistência como cabeça de cartaz. Já se tornou mais do que uma festa de convívio. Fernando Nunes é presença assídua. E, apesar de não gostar da exposição mediática, não foge das fotografias.

Num dos eventos do OMA em Viseu com Fernando Mendes

Afinal, “Os Melhores Anos” é sinónimo de convívio e Fernando Nunes é referido, sempre, como uma pessoa que promove bastante esse lado pessoal, de encontros com amigos. Não é, por isso, estranho que alguns desses amigos ou das suas relações mais pessoais já tenham sido convidados para ir jantar a sua casa — e fazer o jantar. Fernando Nunes “gosta muito de receber”, aponta-lhe Ruas. Fernando Nunes não é dado aos tachos. Os trabalhos manuais ficaram na geração anterior. O pai era alfaiate. Mas não diz que não a uma boa refeição.

Mantém, sempre que possível, jantares de amigos (um grupo relativamente restrito) às quintas-feiras. São os jantares de 5.ª feira, onde haverá poucos convivas da Visabeira. “Cultiva as amizades”, acrescenta Alberto Figueiredo Lopes, que confidencia também que Fernando Nunes tem cuidados com a saúde. Aliados ao gosto que tem pelo treino, e que o levam ao ginásio muito cedo. Não tantas vezes como gostaria. A vida não lhe permite. O ginásio da Visabeira “For Life” é o seu refúgio. É um gosto que partilha com os filhos. Pelo menos Fernando Daniel assume que é para si um hobby, assim como tocar bateria, instrumento no qual se iniciou em tenra idade e que o levou mais tarde até uma banda. Foi também esse gosto que fez com que um dos primeiros projetos de Fernando Daniel no grupo Visabeira fosse o do Day After, em 2016. Hoje as músicas são outras.

Uma família chamada Nunes e outra Aveiro

A família é nuclear para Fernando Nunes. A mulher, Ana Paula, psicóloga, cimenta a cola que une os pais aos três filhos. Tiram férias juntos. “É um homem de família”, garante Fernando Ruas. E convive bem com o benfiquismo dos filhos, que contrariam o seu sportinguismo — Ruas, parceiro de “bola” de Nunes, garante que nas últimas idas a Alvalade saíram sempre com uma vitória.

A fortuna do casal está avaliada, pela Forbes, em quase 1.600 milhões de euros. Em 2024 ficou no 10.º lugar dos mais ricos de Portugal. É também presença na iniciativa do Jornal de Negócios “Os Mais Poderosos”. Em Viseu não há quem não o conheça. Nas abordagens públicas é afável. Caracterizam-no como uma pessoa “terra a terra”, e sem vaidades. “Não quer estar nas bocas do mundo”, acrescenta Alberto Figueiredo Lopes.

Mas se não quer a exposição, os negócios condenam-no ao mediatismo. Fez uma parceria com o futebolista com mais seguidores do mundo em todas as redes sociais. Cristiano Ronaldo tornou-se acionista da Vista Alegre em Portugal (10%) e em Espanha (30%) estando nos planos levar a marca para o Médio Oriente e para a Ásia, onde CR7 abre portas.

“A Vista Alegre e a Bordallo Pinheiro são marcas pelas quais sempre tive uma grande admiração e das quais sou cliente assíduo. A possibilidade de apoiar a estratégia de globalização da marca Vista Alegre, como marca de lifestyle de luxo, é um orgulho para mim enquanto português. Faremos juntos tudo o que estiver ao nosso alcance para promover este ícone nacional de excelência e colocá-lo no patamar das melhores marcas do mundo”, declarou Cristiano Ronaldo quando a sua participação social foi anunciada. No comunicado em que se anunciava a parceria, Fernando Nunes era citado dizendo ser “com grande entusiasmo que recebemos o Cristiano Ronaldo como nosso investidor, representando este momento a união de duas das mais relevantes e unânimes marcas portuguesas. Cristiano Ronaldo é um elemento indissociável de Portugal. Consegue levar o nome do nosso país aos lugares mais recônditos da Terra, com uma imagem de trabalho, dedicação, simpatia e muito talento. É verdadeiramente uma marca planetária”.

Cristiano Ronaldo é uma marca planetária, que cultiva a ligação à família e à terra. Fernando Nunes também.

De Moçambique para Viseu, onde está de pedra e cal

Fernando Nunes nasceu em outubro de 1956 (tem 68 anos) em Lisboa. No entanto é sempre associado a Viseu. Foi adotado pela terra de Viriato, a qual também adotou. Mas sempre que pode volta a Moçambique, onde viveu na juventude.

Foi também por aí que começou a internacionalização do grupo Visabeira, nas telecomunicações, na construção, na energia, chegando ao turismo. As ligações a Moçambique são muitas. E o país africano ficou-lhe como um sinal de nascença. Não por raras ocasiões ajudou o Governo português com contactos diplomáticos. Conta-se que ajudou a desbloquear um problema que Portugal tinha com a barragem de Cahora Bassa.

“É uma relação quase visceral”, aponta Figueiredo Lopes.

Fernando Nunes com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e o Presidente da China, Xi Jinping

Já conhece muito mundo. Muito dele dado a conhecer por questões profissionais. Fez parte de várias comitivas empresariais em visitas oficiais. Muitas foram com Jorge Sampaio, o Presidente que o condecorou. E que, conta-se, questionava sempre: “O que é que faz o nosso amigo Fernando que, seja qual for a hora a que chegue, tem sempre o motorista à espera para ir para Viseu?”. Adotou a terra dos pais. Instalou a Visabeira aí. E daí não saiu. Nem, por sua iniciativa, sairá. “Muitas das coisas que fez [em Viseu] podiam ser iniciativas públicas”, diz Fernando Ruas, dando as piscinas olímpicas como exemplo. “É gerador de emprego e é muito amigo de Viseu”. O presidente da Câmara não poupa nas palavras: “O eng. Fernando foi uma das melhores coisas que nos aconteceu [a Viseu]”.

(Informação sobre cabeça de cartaz na festa OMA deste ano corrigida)