Bebés

Médicos choraram quando o bebé nasceu

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Médicos falam em situação "inédita" e emocionante. O bebé está, para já, de perfeita saúde e teria nascido mesmo que a família não quisesse pois o Ministério Público assim o tinha decidido.

O bebé, de sexo masculino, nasceu com 2,350 kg, às 32 semanas e foi transferido para a Maternidade Alfredo da Costa

PAULO NOVAIS/LUSA

Uma “situação inédita”, um “fenómeno da vida”, “uma história de contrastes”. Cada um usou uma expressão diferente, mas todos os médicos — das equipas que acompanharam a gravidez da mulher que estava em morte cerebral desde fevereiro, no Hospital de S. José –, partilharam, esta manhã, em conferência de imprensa, o mesmo sentimento, e atribuíram méritos aos intensivistas que garantiram que a mãe pudesse ser uma “incubadora viva” do próprio filho que nasceu na terça-feira.

A equipa de cuidados intensivos fez um trabalho extraordinário. Esta mulher foi uma incubadora viva que doou o corpo ao seu filho”, ilustrou Gonçalo Ferreira, presidente da Comissão de Ética.

E foi essa comissão que optou por uma “decisão pró-vida” do feto, decidindo pelo prosseguimento da gravidez, na medida em que tudo indicava que aquele bebé era viável. E para garantirem que o mesmo nasceria, até porque “a mãe tinha reiteradamente” expressado essa vontade e porque já tinha sido ultrapassado o tempo legal para interrupção voluntária da gravidez, estes especialistas contactaram o Ministério Público que, “de uma forma inédita (…), aceitou tutelar autonomamente esta vida fetal, caso houvesse contradições”.

Em resumo, mesmo que o pai da criança não quisesse que a gravidez prosseguisse ou rejeitasse a criança, o Ministério Público garantiria a vida e a proteção dessa criança porque “os pais não são donos dos filhos”, explicou Gonçalo Ferreira. Esta criança era o segundo filho daquela mulher e o primeiro do homem.

A verdade é que não foi precisa a intervenção do Ministério Público pois, como qualificou o diretor clínico do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Lisboa Central (CHLC), Sousa Guerreiro, a família foi “impecável” e participou em todo o processo desde o primeiro momento, assistindo ao desenrolar da gravidez — com o que isso pressupõe como o crescer da barriga — com a mulher ligada às máquinas. O filho que a mulher de 37 anos já tinha de outra relação chegou a ir despedir-se da mãe à unidade.

Já a presidente do conselho de administração, Ana Escoval, dedicou umas palavras a toda a equipa: “Gostava de agradecer aos profissionais a sua elevada disponibilidade, profissionalismo, competência, amor, dedicação e emoção com que ao longo destas mais de 15 semanas foram fazendo acontecer este fenómeno da vida. É com muito orgulho que estou à frente deste centro hospitalar e que lidero estas equipas.”

“E foi interessante ver que as pessoas que estão habituadas a todos os dias cuidarem, ver nos seus rostos a emoção, a lágrima, quando aconteceu o nascimento”, rematou a administradora.

A unidade de cuidados intensivos dos neurocríticos nível III tem 10 camas. A mãe S. esteve, desde fevereiro, numa cama como a que aparece na fotografia

A unidade de cuidados intensivos dos neurocríticos nível III do S. José tem cinco quartos duplos (10 camas). A mãe S. esteve, desde fevereiro, numa cama como a que aparece na fotografia

Susana Afonso, que estava a representar a unidade de cuidados intensivos de neurocríticos, confirmou que “do ponto de vista emocional é impossível não ficar afetado” com uma história como esta e contou que “no início havia muita apreensão”, mas que “ao longo do tempo” se foram sentido mais reconfortados.

Isto apesar das “muitas complicações” que foram surgindo durante estes quase quatro meses. “Surgiram muitas complicações e dificuldades que passaram por questões infecciosas e que foram sendo diagnosticadas precocemente e sendo tratadas”, descreveu.

Bebé está “de perfeita saúde” e, se tudo correr bem, terá alta daqui a três semanas

O bebé, de sexo masculino, que nasceu no bloco operatório da unidade de cuidados intensivos de neurocríticos do Hospital de S. José, foi, ainda ontem, transferido para a unidade de cuidados intensivos de neonatais da Maternidade Alfredo da Costa.

Ana Escoval garantiu que “o bebé nascido há quase 24 horas está de perfeita saúde”, o que foi confirmado mais à frente por Teresa Tomé, diretora da unidade de neonatologia da MAC: “Já fez ecografia e até ao momento não revela sequelas importantes”.

Contudo, a médica da MAC fez questão de não dar garantias em relação ao futuro. “O bebé nem tem ainda 24 horas. Não nos podemos comprometer com o desenvolvimento futuro do bebé. Mas os exames feitos até agora não revelam lesões. Só com 40 ou 42 semanas fará uma ressonância magnética cerebral que vai precisar o grau eventual de lesão cerebral.”

Teresa Tomé sublinhou porém que 32 semanas é “uma idade gestacional com uma sobrevivência muito elevada”.

Confrontada pelos jornalistas com o peso deste bebé prematuro — 2,350 quilos — a médica respondeu que ainda não sabem explicar o porquê de ser bastante superior ao que é habitual em prematuros. “A mãe foi mantida artificialmente com todos os níveis hormonais e analíticos dentro de um padrão médio”, garantiu a médica, acrescentando que “provavelmente foram dadas hormonas à mãe para estabilizar o seu nível hormonal, em relação ao que sabemos que está dependente do crescimento fetal, mas felizmente o bebé ainda não manifestou, até ao momento, qualquer tipo de alteração que nos leve a ficar apreensivos.”

Já em relação à utilização de fármacos durante a gravidez, isso aconteceu “já depois da fase da embriogénese (que é a fase inicial de desenvolvimento dos órgãos) e portanto já foi numa fase bastante protetora em relação a uma patologia malformativa”, além de que “os fármacos foram usados para manter os níveis normais”, esclareceu Teresa Tomé. Também Ana Campos, obstetra da MAC, já tinha dito que “os fármacos utilizados foram aqueles que os nossos órgãos produzem quando estamos com as funções vitais intactas”.

Este caso é inédito em Portugal e a nível mundial, segundo a médica Susana Afonso, um estudo de 2010 apontava para um período de 107 dias como o máximo que uma grávida em morte cerebral tinha sido mantida artificialmente até o bebé nascer. Neste caso foram também 107 dias. E, em média, nos casos conhecidos a nível mundial, os bebés tinham 22 semanas de gestação quando a morte cerebral da mãe foi declarada, neste caso o bebé tinha 17 semanas. Já as cesarianas ocorreram, em média, às 29 semanas e meia. Este bebé nasceu às 32 semanas.

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