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Fortimel e outros mitos, UberEats e o aquecedor a óleo. Os bastidores da campanha presidencial /premium

Milhares de quilómetros, mais UberEats do que restaurantes, muitos grupos de WhatsApp e várias velocidades numa corrida imprevisível. Os bastidores da primeira campanha nacional com pandemia.

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São horas sem dormir, milhares de quilómetros percorridos, restaurantes fechados por culpa da pandemia e hotéis com regras apertadas. Houve menos rua, muita estratégia e, por necessidade, muito improviso. Marcelo Rebelo de Sousa não largou o Fortimel. Ana Gomes não se afastou do aquecedor a óleo durante as sessões mais frias e no carro só conduziu um dia. Já André Ventura fazia reuniões noturnas com a equipa, com o apoio de um quadro magnético, e mantinha secretismo sobre o hotel onde dormia por razões de segurança.

As histórias são infinitas em duas semanas de campanha. Marisa Matias, candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda, teve de recorrer ao take away em hotéis para conseguir fazer refeições, como aliás muitos outros candidatos. João Ferreira, do PCP, teve um homem sombra e uma equipa de assessores rotativa. Já Tiago Mayan Gonçalves teve como assessor e grande comparsa um dos Darth Vaders do blogue 31 da Armada que fizeram tropelias durante o socratismo. São os bastidores de uma campanha portuguesa, com certeza.

O mito do não come, não dorme, não pára desmontado em cinco actos (e mais um)

Marcelo não come, Marcelo não tem estrutura de campanha, Marcelo não dorme, Marcelo organiza a agenda e marca pessoalmente as iniciativas de campanha, Marcelo conduz e sabe sempre por onde ir, Marcelo está sempre ao corrente de tudo, Marcelo só tem um telemóvel dos antigos, com teclas, não se entende com novidades tecnológicas, Marcelo é alérgico à mistura Presidente/candidato e nunca usa meios de Belém, nem uma caneta, Marcelo avança sem chamar apoios locais, Marcelo não pára. “Bastidores? Bastidores sou eu!”. A tirada sai-lhe enquanto veste o sobretudo depois da visita à Salvador Caetano, em Vila Nova de Gaia, e o Observador tenta combinar com o candidato registar imagens dos seus tempos mais privados nesta campanha “minimalista”. Fomos tirar a limpo se esta imagem de uma espécie de super-herói-político-impoluto-acima-dos-partidos-mas-que-afinal é-um-tipo-normal nos tempos livres é mesmo assim.

Não come? Tem os seus dias

Estes bastidores serão, na verdade, os bastidores dos bastidores que Marcelo Rebelo de Sousa faz crer que são… os seus bastidores. Comecemos pelo “não come”. Come, evidentemente. E não se move apenas a garrafinhas do suplemento proteíco Fortimel que mostrou nesta campanha, qual promotor da marca, fazendo questão de ser fotografado e filmado a tomar aquilo a que chama “almoço”. Mas não é sempre assim. Ainda esta quinta-feira, em Vila Nova de Gaia, ficou para trás da restante comitiva (que na verdade é composta por ele e os jornalistas que cobrem a sua candidatura) que seguiu logo para a iniciativa seguinte, no hospital local, enquanto o Presidente esteve a almoçar com os responsáveis da empresa do setor automóvel.

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Em conversa com o Observador também diz que quando chegou ao Porto e antes de seguir para a entrevista em direto no Porto Canal, ainda foi ao “hotel para comer qualquer coisa”. Em tempos de confinamento geral, as refeições estão abreviadas (e dificultadas) para todos e Marcelo garante que quando chega ao quarto se alimenta com “bananas e bolachas”. São os mantimentos que leva consigo, quando está fora e, nesta campanha, só esteve fora mesmo na reta final, quando foi até ao Porto para lá ficar um dia e seguir no dia seguinte para o encerramento em Celorico de Basto, onde votará no domingo ao fim da manhã.

Não dorme? De manhã arranca tarde

No pouco que se viu nesta campanha que durou metade do tempo da campanha oficial, por decisão do candidato, houve sempre iniciativas mais tardias, nunca antes das 11h da manhã e apenas uma a essa hora, no Porto. Antes disse o “noctívago” — o que Marcelo se chama a si mesmo — não aparece em público e nos outros dias só apareceu mesmo ao início da tarde. Gosta de ficar até tarde a ler diplomas que lhe chegam e a fazer os telefonemas que foi acumulando durante o dia. Na quarta-feira, por exemplo, o Observador sabe que o dia terminou já no dia seguinte, ou seja, bem para lá das duas da manhã. Motivo? Esteve a responder, por telefone, a algumas perguntas que lhe fomos colocando (e que pode ler aqui) e no dia seguinte contou-nos que o tinha feito já no seu quarto de hotel, o único em que ficou nesta campanha: o Sheraton do Porto, com reservas bem acima dos 100 euros por noite.

Marcelo pode ficar acordado até bem tarde, mas dorme. Aproveita as manhãs para desacelerar o ritmo e descansar das noites de trabalho. Muito do tempo livre que tem é passado ao telemóvel, o que o Observador também pôde comprovar quando o candidato se disponibilizou para ser fotografado nos seus bastidores de campanha. Marcelo acedeu, mas quando desceu ao lobby do hotel onde estava hospedado esteve praticamente todo o tempo ao telefone. E apesar de se mostrar disponível para ser fotografado, não abriu a porta dos seus bastidores. Não quis que entrássemos no sítio onde trabalha, o seu quarto, nem mostrou mais do que aquilo que ali se via.

É um livro aberto? Com conta, peso e medida

Marcelo “é bastidores”, mas com conta peso e medida. Vai contando tudo, mas o “tudo” que quer e sobretudo o “tudo” que sabe resultar no espaço mediático para a figura que tem alimentado. Um exemplo? Na terça-feira, dia 19, na Universidade Nova SBE, fez campanha ao abrir e beber, em frente às câmeras, um frasco do suplemento proteíco que diz ser  o seu “almoço” quando não tem tempo para mais. E fê-lo propositadamente, nada o impedia que bebesse a garrafa em privado, até porque a ação de campanha já tinha terminado e Marcelo já estava de saída. Mas por que não aproveitar para o fazer em público e cimentar a imagem de um candidato que é Presidente e não se escapa, evidentemente, a lufa lufa que esta dupla função exige nestes 15 dias que Marcelo reduziu a apenas oito?

Também houve aquele momento, também ainda na Nova SBE, em que o candidato confidencia, frente às câmeras, que tinha tido uma reunião no dia anterior em Belém com uma estrutura partidária e que lhe disse que estava pronto para deixar a Presidência, se fosse caso disso, e andar com eles, depois disso, a debater o país. “Vai ser muito divertido. Mas eles ficaram a olhar para mim desconfiados. Será que este tipo está a dizer a verdade?”. Atirámos à distância se tinha sido na reunião com a Juventude Socialista, mas lá está, aí Marcelo fecha portas. Riu-se e fez um sinal como quem diz “isso não posso revelar”. O institucionalismo acaba por prevalecer acima das tais portas abertas e confidências (afinal controladas) que vai semeando no terreno de descontração à volta do cargo que quer promover.

O mesmo quando atendeu um telefonema durante a sessão com alunos no Pedro Nunes, dando a entender que se tratava de António Costa, corrigindo, mal voltou à sala, qualquer eventual falha no sentido de Estado ao dizer que se tinha tratado de uma conversa com um chefe de Estado estrangeiro. Certo é que já ali tinha chegado ao telemóvel, quando caminhava em direção às câmaras e quando no dia anterior tinha feito acelerar a medida do fecho das escolas e sabia que naquele dia o Governo se preparava para dizer alguma coisa sobre o assunto.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

É impoluto e acima dos partidos? Exceto naquele dia em Belém

É muito cuidadoso com os gastos, auto-intitula-se como “sovina” e fez uma campanha minimalista por causa da Covid-19, é certo, mas mesmo antes de a doença se espalhar a esta velocidade vertiginosa pelo país, já tinha traçado um orçamento de campanha de 25 mil euros, um sexto do que apresentou para as Presidenciais de 2016 (157 mil euros). Não contou com contribuições de partidos políticos nem com angariação de fundos, mas apenas donativos de 1.500 euros. Fez sempre questão de separar a linha entre o seu gabinete de Belém e o seu trabalho como candidato.

Viajou sempre no seu carro próprio, sozinho ao volante, e sem staff da Presidência atrás. Apenas dois seguranças que tem de ter obrigatoriamente consigo por ser o chefe de Estado, mas que se mantiveram sempre à distância e viajaram sempre num carro separado. Quando saía de Belém para participar em alguma ação de campanha, ia logo no seu próprio carro que tinha estacionado fora do parque do Palácio. E até quando deu positivo à Covid-19 e soube que o teste era afinal um falso positivo, decidiu sair do Palácio de Belém e ir até à sua casa em Cascais para entrar por videoconferência a partir de lá e não na residência oficial do Presidente da República. À campanha o que é da campanha e à Presidência o que é da Presidência.

Mas como no melhor pano cai a nódoa, o Observador reparou que no dia em que esteve à conversa com a economista Susana Peralta, para uma edição do jornal Público, Marcelo entrou por videoconferência a partir de… Belém. Confrontado pelo Observador, o candidato garante que fez a videoconferência sem usar equipamentos da residência oficial e que se tratava do seu próprio computador. Mas sim, confirma que estava no seu gabinete no Palácio, mas só porque tinha “terminado a audiência tarde, já mesmo em cima da hora da conversa” e foi por ali que acabou por fazer a sua participação como candidato.

Corre sozinho e não chama ninguém à campanha? Exceto um socialista

O seu Mercedes “velhinho” (é de 2014) tem servido para todas as voltas com o próprio candidato ao volante. “Não tenho estrutura de campanha”. E ainda acrescenta ao Observador que o “trabalho tem sido louco, louco”. É ele que faz a agenda e alinhava os seus curtos programas, faz os contactos, normalmente do dia anterior, confere que pode aparecer junto das instituições que quer visitar e conduz até lá. Estaciona onde há lugar e só por uma vez os seguranças foram buscar-lhe o carro mais para junto da porta do hospital que visitava em Vila Nova de Gaia. De resto faz o que qualquer pessoa faz, estaciona no parque e vai a pé até aos locais.

Não tem assessores com ele, nem de imprensa. O consultor de comunicação Vítor Cunha, da M Public Relations e da JLM&A, ajudou Marcelo a título pessoal, mas em muitas das vezes quando divulgava a informação aos jornalistas, já o candidato o tinha feito antes. É uma raridade, sobretudo quando se trata da mais alta figura do Estado, mas era o próprio que ia dizendo ao que ia a cada momento, com horas e locais. E para lá ia segundo a cada momento com a ajuda do GPS do iphone — tem dois telemóveis, um antigo de teclas, mas também um iphone para algumas utilidades, como ler notícias.

Tira notas num qualquer papel — como aquele que tira do bolso, em Carcavelos, onde apontou as respostas aos estudantes sobre perguntas rápidas — rabisca, corrige, faz acrescentos. Mas só o vemos a ler um discurso escrito mesmo ao cair do pano em Celorico de Basto, na intervenção final de campanha. Formal em tudo e com o mesmo cenário e palanque que usou na apresentação de candidatura, com a bandeira de Portugal impressa. Parece outro nestes momentos mais formais, nada a ver com o Marcelo que circula pela Biblioteca Municipal de Celorico de Basto e que mostra tudo, comenta os cadernos, as datas, os quadros, os livros, conta como os filhos se surpreenderam quando souberam pela comunicação social que ia doar a biblioteca pessoal a Celorico e como a filha começou por estranhar. Mostra até a fotografia dos netos — “os quatro e a brasileira” — que tem na secretária de trabalho na biblioteca. Olha embevecido para os cinco espalhados pelas molduras, numa delas está Marcelo na praia com quatro pendurados a toda a volta.

É muito solitário neste caminho. É ele quem faz as honras na casa em qualquer canto por onde passe e passou estes oito dias de estrada assim mesmo. Mas quando toca de escolher instituições, privilegia terrenos mais seguros. Exemplos? Na primeira ação de campanha, Marcelo escolheu um espaço de um dos quatro presidentes de junta de freguesia do seu partido: Vasco Morgado, presidente da junta de freguesia de Santo António; na visita à Santa Casa da Misericórdia do Barreiro onde é vice-provedor José João Engrossa, que foi presidente da Mesa da concelhia do PSD/Barreiro; a ida aos Bombeiros Voluntários do Dafundo, cujo presidente é Armando Soares, presidente da concelhia do PSD/Oeiras e muito próximo do dirigente da distrital do PSD; a visita ao ex-libris do presidente da Câmara de Cascais, Carlos Carreiras, na Universidade Nova SBE.

No entanto, foi em Vila Nova de Gaia, terra socialista, que teve um apoio presencial: Eduardo Vítor Rodrigues, dirigente do PS e autarca local. E, surpresa das surpresas, o socialista que apoia a candidatura de Marcelo disse ao Observador que foi o próprio candidato que lhe ligou a convidá-lo para aparecer. Uma raridade num candidato presidencial que se gaba de estar acima dos partidos e que resistiu durante toda a campanha a entrar em polémicas com adversários ou partidos porque no dia seguinte às eleições continuará a ser Presidente da República.

É um tipo normal?

Nem por sombras. Pode vender uma imagem dele afastada do formalismo, sendo formal e institucionalista, pode soltar todo o tipo de tiradas que parecem despropositadas e espontâneas que afinal têm sempre um propósito, mas nem por isso se trata de um político comum. É um dominador do espaço mediático. Sabe perfeitamente os que as câmeras querem ver num candidato e que tipo de gesto tem de fazer para passar uma mensagem subliminar que quer que chegue às parangonas. E marca a diferença em relação às outras campanhas — como o fez também há cinco anos — em termos dos habituais séquitos no seu encalce. Embora também não seja propriamente uma alma virginal no que toca a esses contactos, usando-os em seu favor.

É rápido, de fácil acesso e ponderadamente imprevisível. Uma contradição nos termos, mas é mais ou menos isto que se prepara para assumir mais cinco anos de Presidência da República. O chefe de Estado que, no final desta campanha, acabou sozinho numa sala a comer um pão de ló, na Biblioteca de Celorico, antes dos últimos diretos paras as televisões.

O aquecedor nas pernas, a “ração de combate” e um grupo de WhatsApp para definir estratégia

“Não me tirem isso daqui senão eu morro frio”. Ana Gomes está na sala 2 do Coliseu do Porto preparada para mais uma conferência online, desta vez para discutir política externa. Junto às pernas tem um aquecedor a óleo, e quando a equipa de vídeo faz menção de desviar o aparelho para que não apareça no plano, a candidata trava todas e quaisquer intenções. O frio, em pleno mês de janeiro, tem sido uma constante (a crítica já tinha sido feita depois do debate com os sete candidatos na RTP) e sempre que pode Ana Gomes não larga o aquecedor.

A sala 2 do Coliseu, no Porto, a par do Hotel da Estrela, em Lisboa, serviu de quartel-general nos últimos dias para a candidatura de Ana Gomes que todas as tardes tinha uma conversa online, via Zoom, com personalidades políticas ou da sociedade civil. Naquela quinta-feira, contudo, a seguir à habitual conversa iria ter um “comício” de pré-encerramento de campanha com dois convidados que estariam presencialmente ao seu lado: Francisco Assis e Tiago Barbosa Ribeiro. Faltavam poucos minutos para o ex-eurodeputado e atual presidente do Conselho Económico e Social chegar ao Coliseu quando alguém na equipa se lembra que daria jeito um púlpito. Está bem que não havia público, e que o “comício” seria transmitido online, mas se este era o “maior” evento online das duas semanas de campanha, então que fosse diferente dos anteriores.

A mudança de cenário foi rápida. Enquanto a candidata comia uma sandes para enganar a fome, a equipa do Coliseu foi buscar um “velho” púlpito porque, alegadamente, a equipa de Ana Gomes tinha-se “esquecido” de levar. Feito. Um púlpito velho ao centro, três ou quatro cadeiras ao lado e um ecrã à frente com mais sete oradores, prestes a falar. “‘Tão m’a ouvir?” foi a pergunta mais ouvida não só na campanha, como, de resto, em toda a nova “normalidade” da pandemia.

Estamos a ouvir e a gravar, vamos a isso. Ana Gomes seguia estrada fora praticamente sozinha. Um carro apenas, com quatro pessoas lá dentro, e nada mais. A equipa de apoio, com Paulo Pedroso e Carlos Vargas à cabeça, ficava em Lisboa. A conduzir o carro ia geralmente Diogo Franco, filho do falecido embaixador António Franco, marido da candidata, que foi uma espécie de “faz tudo” na comitiva. Ora conduzia, ora organizava a agenda, ora fazia a ponte com as instituições que a candidata iria visitar.

Além do enteado, no lugar do pendura, seguia Filipe Vasconcelos Romão, comentador e  professor universitário na área das relações internacionais no ISCTE que não conhecia pessoalmente a candidata mas que se “voluntariou” para ajudar. Ao Observador, fonte da candidatura esclarece que todos os que integram a equipa funcionaram em regime pro bono. É também o caso de Miguel Partidário, o fotógrafo que seguia sempre no banco de trás ao lado da candidata. Ana Gomes “gosta de conduzir” e num dos dias de campanha, em Santarém, apareceu a conduzir o seu próprio carro. Com o cansaço dos dias, contudo, optava pelo banco de trás. “Aproveito para ver notícias no Twitter, leio os jornais e às vezes também aproveito para descansar”, comentou com o Observador. Na mão tinha dois diários: o Público e o Diário de Notícias.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Comer é que é mais difícil quando se está fora de casa, a fazer quilómetros todos os dias, e com os restaurantes fechados devido à pandemia. Ana Gomes “gosta de comida portuguesa”, mas por estes dias ficou-se mais pelas “sandes”. Ou até pela “ração de combate” que a RTP forneceu aos candidatos no dia em que lá foram para o debate das rádios. “Os bares da RTP estavam fechados por causa da pandemia, então deram-nos dois saquinhos com umas sandes, porque tínhamos de estar lá às 8h15, muito cedo”, comenta ao Observador fonte da candidatura: “Chamamos-lhe a ração de combate e foi o nosso almoço”. E o que seria um reforço de pequeno almoço depressa se transformou no almoço tardio, já que a ração de combate só foi comida mais à tarde. E é menos uma refeição com que se tem de preocupar.

Quando a caravana passou por Coimbra, o almoço foram umas “sandes de leitão à beira rio”. No Porto, funcionou o take away na porta ao lado do hotel e o restaurante foi transferido para o próprio quarto. Uber Eats, nem por isso, é mais para liberais. Liberais com quem, de resto, Ana Gomes se chegou a cruzar. É que a candidata socialista ficou hospedada no hotel Boavista, na Foz do Porto, e era aí que Tiago Mayan tinha o seu escritório improvisado de campanha. O Observador não viu, mas consta que trocaram apenas palavras de circunstâncias.

Sempre com o telemóvel na mão, ou para tweetar antes de dormir, ou para ver notícias quando vai no carro — ou quando lhe falha o serviço tv net voz em casa, como aconteceu — Ana Gomes definia a estratégia de campanha diariamente com Carlos Vargas e Paulo Pedroso, o núcleo duro. Mas não só. No Whatsapp, o Observador sabe que foi criado um grupo com “cerca de 20 pessoas”, entre “embaixadores”, “políticos, deputados” e até “um capitão de Abril” onde se debatia a estratégia e se pensava os passos seguintes. O nome do grupo é literal: “Núcleo estratégico”. Sem um emoji, nem nada.

Quem não está nesse grupo, apurou o Observador, são membros do Governo. Nem Pedro Nuno Santos, nem tão pouco o ministro do Mar, Ricardo Serrão Santos, que chegou a aparecer num Zoom com a candidata na qualidade de “amigo”. Ana Gomes também está no grupo, mas tinha uma ajuda: ao final do dia, o assessor e “amigo” Carlos Vargas reunia os contributos e sintetizava-os à candidata. E assim partiam para o dia seguinte.

Ventura. Em parte incerta até 10 minutos antes do encontro e o quadro magnético

Fato azul escuro, gravata às listas vermelhas e brancas, camisa abotoada até cima. “Não podemos ostracizar o PSD e temos de continuar a falar de Marisa e do Bloco de Esquerda e sobre a nossa história de hoje do Bloco”, diz André Ventura enquanto olha para um dos blocos de notas em versão XL que tem atrás de si. Calmo, está fechado numa sala com o seu núcleo mais duro há três horas num momento que é já um ritual: no final de cada dia de campanha, o líder e candidato do Chega reúne-se com a sua equipa e avalia o que correu bem e o que falhou.

Nessa tarde de terça-feira, em Coimbra, a campanha falhou. Depois do esqueleto em Serpa, a caravana do líder do Chega tinha sido surpreendida pela segunda vez nesta campanha. A visita ao Mosteiro de Santa Cruz e ao túmulo de D. Afonso Henriques fora comunicada aos jornalistas já bem perto da uma da tarde pelo que era pouco provável que houvesse tempo para organizar manifestações anti-Ventura. Perto das 18 horas, a poucos minutos de o candidato chegar, não se via um único manifestante na baixa de Coimbra. Em poucos minutos, juntaram-se centenas de pessoas na praça 8 de Maio. Ventura ficou cercado. Quando saiu e tentou discursar, a sua voz mal se fez ouvir por cima dos gritos dos manifestantes. Acabou esse dia de campanha numa conferência de imprensa improvisada num hotel a acusar o Bloco de Esquerda de espionagem e boicote. O dia não tinha corrido bem.

O Observador devia encontrar-se nessa noite com o candidato no hotel da comitiva. Inicialmente, o encontro estava marcado para as 23 horas. Em que hotel? “Só será revelado mais perto da hora”, informou o staff do candidato. O objetivo era impedir falhas de segurança. À meia-noite chegou finalmente a mensagem. “Podes vir”, informou a assessoria de imprensa.

A luz artificial da sala de reuniões, no primeiro piso do hotel mas sem janelas, encandeia. Ao lado de Ventura estão Rui Paulo Sousa, diretor de campanha e mandatário nacional, Patrícia Carvalho, assessora de imprensa, Ricardo Regalla, diretor para a comunicação do partido, Luc Mombito, amigo de longa data de Ventura e motorista pessoal, Pedro Pinto, líder do Chega/Beja e condutor da carrinha Mercedes preta que transporta o staff, Rita Matias, dirigente do Chega, filha de Manuel Matias (ex-PPV), cantora ocasional na campanha e responsável pelas redes sociais do partido, tal como Pedro Moura, líder do partido para região do Vale do Sousa, também presente na reunião.

André Ventura é o único que está de pé. Nunca se senta. Gesticula, bate na mesa, aponta para os blocos de notas, desvaloriza João Ferreira (“não tem expressão”), aponta para Ana Gomes (“tem de ser o nosso foco”) e insiste que a história sobre a alegada espionagem promovida pela campanha de Marisa Matias tem de ser explorada. Escreve e vai sublinhando vezes sem conta o nome das suas maiores adversárias: Ana Gomes e Marisa Matias. Enquanto o Observador assistiu à reunião, nunca Ventura falou sobre Marcelo Rebelo de Sousa.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Toda e qualquer estratégia ficaria sem efeito dois dias depois. Ventura não sabia, nem tinha como saber, mas o seu comício em Setúbal, na quinta-feira, penúltimo dia de campanha, acabaria por ficar marcado por atos de violência dirigidos contra si e contra a sua comitiva e consequente carga policial sobre os manifestantes, a maioria de etnia cigana. Numa campanha marcada pelos ataques permanentes às minorias “subsidiodependentes” e pela preocupação com a segurança do candidato, o que aconteceu na quinta-feira foi uma espécie de concretização dos piores receios da equipa do líder do Chega. Politicamente, virou a campanha do avesso: deixou de se falar sobre Marcelo, Ana Gomes e Marisa, para se falar sobre as “balas, as facas e as pedras” que querem parar Ventura e sobre as ameaças visíveis e invisíveis que atentam contra o líder do Chega.

Em muitos momentos, essa preocupação com a segurança e reserva de Ventura atingiu dimensões surrealistas ao longo da campanha. Em Viana do Castelo, por exemplo, quando alguns jornalistas, há quase duas horas à espera que o almoço de Ventura terminasse, pediram para usar a casa de banho do restaurante, foi-lhes autorizado sob a condição de não tirarem os telemóveis do bolso.

Em Coimbra, na terça-feira, no hotel onde Ventura recebeu o Observador, a equipa de segurança não recuou um milímetro. Um segurança recebeu o repórter no lobby do hotel e encaminhou-o até ao elevador. À saída da caixa metálica, um segundo segurança aguardava para o conduzir até à sala de reuniões onde esperava um terceiro segurança, que bateu à porta para anunciar a presença do convidado especial.

Com a reunião perto do fim, um dos seus seguranças comunica com todos os outros através dos intercomunicadores anexados à gravata que o candidato irá sair daquela sala e que quer ir para o quarto. Outros elementos da comitiva preferiram fumar um cigarro antes de irem para os quartos. Não na rua, na parte da frente do hotel, mas no piso -1 e nas traseiras do edifício “por razões de segurança”.

Terminada a reunião do candidato com a comitiva, o líder do Chega subiu até ao quarto, no segundo piso do hotel. O Observador seguiu-o pelas escadas. É um dos elementos da equipa de segurança quem tem o cartão que dá acesso ao quarto. Antes de André Ventura entrar no quarto, o chefe de segurança entra e perscruta o espaço. Caminho livre. O candidato só então entra no quarto.

“Finalmente”, diz Ventura tirando a gravata e dirigindo-se para a casa de banho lavar as mãos. Está cansado. Nessa mesma noite, ao telefone, confessaria ao Observador que a campanha tem sido particularmente esgotante, pelos quilómetros percorridos, por chamar a si todas as atenções e por ter de lidar com a sensação de ameaça constante. “Não é que me assuste. Mas preocupa-me o impacto no futuro. Não sabemos onde está o perigo eventual. Isto pode ser uma questão nestas eleições mas também para o futuro”, desabafaria.

No quarto, sozinho, Ventura anuncia que vai ler as notícias e tentar esquematizar os seus discursos para o dia seguinte. “Não escrevo discursos, não gosto, acho pouco espontâneo”, admite, reconhecendo que discursar sem trapézio nem rede já lhe provocou amargos de boca, como quando comparou as touradas aos adversários do Benfica. “Por não gostar de touradas não quer dizer que concorde em proibi-las, tal como não gosto dos adversários do Benfica não quero proibi-los de jogar”, recorda enquanto tenta ligar a televisão. Não ligou.

A rábula do “batom vermelho” e da “coisa de brincar” foi um desses momentos de improviso. Na cabeça de Ventura, correu bem: não só porque, perante a reação da esquerda, ajudou a cerrar fileiras entre os apoiantes do Chega; como ajudou a insuflar Marisa Matias, fragilizando, teoricamente, Ana Gomes. Mas os imprevistos têm riscos. “A parte do ‘avô bêbado’ é que era… Não pode correr tudo bem”, chegou a lamentar com o Observador uma fonte do núcleo duro de Ventura à margem do jantar-comício em Viseu.

Nada que faça Ventura mudar de ideias. No quarto de hotel, diz ao Observador que esse hábito já vem de trás, do tempo em que era comentador televisivo. Não escreve nada, mas gosta de ler — a vida na estrada é que não tem deixado. “Livros é para esquecer”, lamenta. O que lê, religiosamente, são os jornais que a sua equipa lhe traz às primeiras horas da manhã de cada dia.

Notícias não faltaram à campanha do líder do Chega. A comitiva de Ventura queixa-se permanentemente de boicotes às ações do candidato, com hotéis que desmarcam as reservas à 25ª hora, restaurantes que mudam de ideias, autarquias que criam obstáculos à realização de eventos. Em Braga, no jantar-comício que juntou 170 pessoas, tudo correu (demasiado) bem do ponto de vista da mobilização. Em termos políticos, foi um erro tático.  “Epá… Há coisas que reconhecemos que não correram bem. Teríamos feito muito diferente”, diria mais tarde ao Observador.

As imagens de um apoiante de Ventura a fazer a saudação nazi acabaria por marcar esse evento. “Não percebem que por muito entusiasmados que estejam ou por muito idiotas que sejam não percebem que só estão a prejudicar”, irrita-se.

Antes de se atirar aos jornais e de preparar o dia de campanha, Ventura gosta de rezar. A sua relação com o divino, com algumas pinceladas de mitologia histórica, foram uma constante desta campanha. Não houve dia da campanha em que o líder do Chega não falasse da “Divina Providência”, os “céus”, as “estrelas”, os legados de Afonso Henriques ou de Francisco Sá Carneiro para justificar a “força” que o move e o “milagre” que é o Chega.

Ventura considera-se um homem com uma missão e essa missão é “salvar Portugal”, como foi repetindo ao longo de toda a campanha. Em Santarém, disse que era um milagre poder fazer esta campanha. Em Guimarães, discursou em frente ao Castelo, ajoelhando-se (metaforicamente) perante o símbolo da luta contra o “politicamente correto”. Em Braga, disse que estava “escrito nas estrelas” que o Chega liderará o Estado um dia. Em Leiria, em frente ao Mosteiro da Batalha. Em Matosinhos, depois de ser comparado a Humberto Delgado, falou para Sá Carneiro, onde quer que ele estivesse. Em Coimbra, visitou o túmulo de D. Afonso Henriques. Os mais fiéis, e houve muitos a juntarem-se à campanha em vários pontos do país, acreditam que representa qualquer coisa, um símbolo que eles nunca tiveram. Ventura já prometeu que, aconteça o que acontecer, essa missão não será dada como terminada a 24 de janeiro. Resta saber a força (e os votos) que terá para a continuar.

Marisa. A campanha onde todos se tratam por ‘tu’

O motorista, o assessor de comunicação e o diretor de campanha. É com estas três pessoas que Marisa Matias percorre o país numa “bolhinha”, com uma carrinha de nove lugares, onde normalmente só quatro seguem ocupados. Um dia ou outro, abre-se uma exceção para um apoiante da candidata a Belém e passam a ser cinco.

Por falar em apoios, muitos foram os membros do Bloco de Esquerda que apareceram durante a campanha. Uns com direito a discurso nos comícios, outros nem tanto. Uns que já conheciam bem o sítio das iniciativas, as “lutas” que tantas vezes Marisa repetiu, os “rostos da linha da frente” e outros que dispensavam o protagonismo, estavam ali só para dar uma palavra amiga e para marcar presença, ainda que longe dos microfones. De José Soeiro, a José Gusmão, de Mariana a Joana Mortágua, de Catarina Martins e a José Manuel Pureza, de Tiago Gillot a Jorge Costa. Francisco Louçã ainda piscou os olhos ao socialistas mas, ainda que se contem pelos dedos, houve alguns apoios ligados ao partido que deram a cara como Manuel Strecht Monteiro, ex-deputado do PS, ou Francisco Ramos, coordenador do plano de vacinação contra a Covid-19 e ex-secretário de Estado de Governos do PS.

Numa campanha sem rua, mas em que a candidata se recusou a ficar em casa, Marisa Matias optou por um modelo mais intimista, em que chamou um ou dois exemplos de pessoas que davam a cara por cada bandeira. Dos cuidadores informais aos pedreiros, das auxiliares de saúde ao setor da cultura, da restauração à habitação, houve tempo para tudo. E nada mais intimista do que o nome, o tratamento por ‘tu’.

É desta forma que a bloquista se dirige praticamente a todas as pessoas que passam pela campanha, que dão a cara pela candidata. “A Marisa é a Marisa, é a nossa Presidente”, atirou Carla Jorge, uma das auxiliares do Centro Hospitalar do Oeste que lutou contra a precariedade no hospital das Caldas da Rainha. Marisa ofereceu-lhe um cravo. Já se conheciam desde o dia em que esta mulher interrompeu uma reunião que a eurodeputada estava a ter em Alfeizerão. A partir daí, o contacto manteve-se. Carla é apenas um exemplo, mas há a cuidadora informal Rosália, a veterinária Sandra, o pedreiro Zé. Foi rara a vez em que Marisa não conhecia as pessoas com quem se estava a encontrar, pelo menos de vista. A uma técnica da cultura disse: “Tu estavas na linha da frente no Largo do Carmo.” Catarina confirma, estava lá, sim.

O discurso muda poucas vezes, há poucas exceções, uma delas é no restaurante do “senhor Luís”. Joana Mortágua esteve por lá e o dono lembra-se bem dela. “Talvez não me reconheça, era muito pequenina, também isto das máscaras”, afirma em jeito de desabafo. Quem tratou de tudo foi a organização do Bloco local e talvez por isso tenha sido o “senhor Luís” e não apenas Luís. Uma exceção a uma regra mais do que evidente durante os dias na estrada.

A própria Marisa reconhece numa conversa com o Observador que gosta desse tratamento por ‘tu’ e não de “fazer política a encaixar pessoas em números”. Aliás, a candidata a Belém diz gostar da “reciprocidade”, trata por tu e quer que a tratem da mesma forma, pelo nome e por tu, longe dos títulos académicos que criam “barreiras e hierarquias” até porque num cargo público se está ao “serviço das pessoas” e não o contrário. “Esses títulos muitas vezes servem mais para afastar, não acredito que o respeito com que se trata as pessoas tenha a ver com o título que se põe antes do nome.”

LUSA

O #VermelhoemBelem marca uma viragem na campanha que Marisa considerava estar “morna” e mudou também o espírito da própria comitiva. Se a candidata recusa a ideia de estar mais moderada do que há cinco anos, a verdade é que a semana de debates — em que a própria admite terem sido dias difíceis e dolorosos devido à fratura nas costelas — não correu propriamente bem e o movimento após o insulto de André Ventura trouxe outra dinâmica à campanha.

Se o combate à extrema-direita era já uma bandeira de Marisa Matias, esta onda de solidariedade que diz ser para com “todas as mulheres” fez com que os discursos ganhassem outra força, com que o batom passasse a ser um símbolo e que a candidata a Belém ganhasse outra vitalidade.

Ainda assim, e apesar dos afetos virtuais, numa campanha diferente devido à pandemia, Marisa sentiu falta dos abraços, mas fez questão de continuar próxima das pessoas, mesmo que poucas, muitas vezes na rua, outras em casa. A organização da campanha adaptou-se e fez dos comícios virtuais o ponto algo do dia. Com centenas de pessoas em casa, foi através do Zoom, do Facebook ou do Instagram que a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda entrou em casa das pessoas. “Faltam cinco segundos, quatro, três, dois, um. Estamos no ar.” As imagens de quem está a assistir acendem-se no ecrã gigante e está tudo pronto.

A música marcou o início de todos os comícios, duas canções antes das intervenções que se dividiam entre presenciais e online. Marisa tinha sempre a última palavra e, no fim, aquilo que se tornou um ritual, olhar para o ecrã e dizer adeus a todos os que estavam a assistir. Acenava com as mãos, mandava beijos. A bloquista até chegou a admitir que o seu novo desporto era ver quem estava nos quadradinhos.

Quando a (curta) comitiva marcava presença nas ruas o processo era bem diferente. Duas pessoas tratavam da press box para que Marisa pudesse falar à distância dos jornalistas, a uma distância que permitia tirar a máscara e responder às perguntas, desde o tema da iniciativa do dia à atualidade. Entre os cuidados sanitários, no início da campanha foi também pedido aos jornalistas que fizessem um teste PCR à Covid-19.

Na hora das refeições, a tradição esteve longe de ser o que era. Com jantares e almoços cancelados devido à pandemia e em pleno confinamento, a equipa que andou com Marisa Matias teve muitas vezes de recorrer ao take away e principalmente a refeições nos quartos de hotel para conseguir almoçar ou jantar.

João Ferreira. Francisco, o homem na sombra numa campanha minimalista

Não é novidade nas campanhas comunistas, mas talvez a idade contribua para que a presença de Francisco Araújo não passe despercebida. É o homem na sombra de João Ferreira nos últimos dias e está lá para facilitar a vida ao candidato e tratar de coisas que rapidamente podem ser resolvida sem sobrecarregar João Ferreira, é o “elemento de ligação”. Francisco tem 21 anos e é a primeira vez que desempenha a tarefa, explica ao Observador o veterano António Rodrigues.

Mas a experiência de Francisco Araújo dentro do Partido Comunista Português está longe de ser pequena. Já liderou a JCP, condição que lhe valeu um discurso no encerramento da festa do Avante em 2018 e é atualmente membro da comissão política nacional da juventude do PCP. Por estes dias manteve-se atento a cada passo, cada declaração ou necessidade que João Ferreira pudesse ter. Das palavras trocadas em surdina à prontidão do chapéu de chuva para enfrentar uns pingos de chuva mais insistentes durante as declarações aos jornalistas.

Além de Francisco Araújo, João Ferreira tem uma equipa de assessores — que ao contrário do que é habitual em campanhas do PCP foi sendo rotativa –, que são assessores do PCP, um motorista e um fotógrafo a tempo inteiro. Viajam em carros separados, pretos, e o ritual é sempre o mesmo. Primeiro os assessores, fotógrafo e (quando há) o videógrafo, quando tudo está preparado no local para receber o candidato presidencial chega o carro que o transporta. O objetivo, como o próprio explicou ao Observador, é evitar criar situações onde se pudessem aglomerar pessoas e aumentar o risco de propagação da pandemia.

Ao contrário da habitual envergadura da máquina comunista, fruto das contingências e alterações necessárias a comitiva é mais pequena desta vez. Do DEP (o Departamento de Propaganda), habitualmente presente com várias carrinhas de material como sistemas de som e técnicos necessários para as ações, desta vez há apenas duas equipas, tendo a caravana optado (no caso das ações em interior) por realizar as ações em locais que garantissem à partida esses equipamentos. Manteve-se o fotógrafo e videógrafo porque as redes sociais não passam ao lado da caravana. É uma das apostas da campanha do candidato ainda que não se substitua ao “contacto direto”.

António Rodrigues, um dos homens responsáveis pela campanha de João Ferreira, diz ao Observador que “nunca esteve em questão não fazer a campanha”. Uma vez marcadas as eleições, com a certeza de que se realizariam, não foi hipótese deixar a estrada (isto porque o candidato começou com ações de pré-campanha logo depois de apresentar oficialmente a candidatura, em setembro) e “ficar nas mãos de comentários e análises feitas por terceiros”. “É muito importante fazermos o esclarecimento, procurarmos ter o contacto direto com as pessoas”, justifica Rodrigues.

E em ações de esclarecimento muito limitadas em termos de ocupação e assistência não houve lugar a incompreensão por parte das estruturas locais ou dos militantes. “Há que garantir que a mobilização não vá além do que está definido em cada momento”, explica António Araújo, que confirma a importância das estruturas no terreno do PCP. São estas que organizam as pessoas na assistência, que garantem que não há um a mais ou a menos. Tudo bate certo do início ao fim.

Mas o papel dos militantes não se fica pela organização e ocupação de lugares nas ações. As refeições, por exemplo, numa altura em que os restaurantes estão de portas encerradas e as horas para refeições são muito limitadas são maioritariamente asseguradas pelos militantes no terreno. Já as noites da campanha, quando fora da área metropolitana de Lisboa, foram passadas em hóteis. “Sempre que foi necessário, confiando que cumprem todas as regras de higiene e segurança sanitárias”, apontou Rodrigues. Em relação à comunicação entre toda a equipa que acompanha João Ferreira é “tudo por telefone”, não há grupos de WhatsApp ou similares, “as coisas estão mais ou menos todas definidas” por isso, conta António Rodrigues ao Observador, se for preciso alguma alteração ou ajuste, é só ligar.

Mayan. O Darth Vader e o Toyota Yaris

O WhatsApp era o centro de comandos. Era ali que se discutia a estratégia, o que podia ser afinado, os temas que podiam ser reforçados ou introduzidos na discussão. Era ali que se concentrava o núcleo duro de uma campanha que, quando andou na estrada, andou com pouca gente. Tiago Mayan Gonçalves acabava as ações do dia e via os comentários, lia as opiniões.

No grupo de WhatsApp, “todas as pessoas envolvidas na campanha discutiam”, conta fonte da candidatura. Funcionava “24 horas” e era permanentemente atolado de mensagens de pessoas que diziam “este tema é importante”, que perguntavam “o Tiago já falou sobre isto?”, que sugeriam “se calhar podia reforçar aquilo”. O candidato via, “dizia que sim ou não” e escolhia ele “se queria falar disto ou daquilo”.

No grupo de WhatsApp estavam, por exemplo, Vicente Ferreira da Silva — o diretor de campanha –, Rodrigo Saraiva, chefe de gabinete do líder e deputado da Iniciativa Liberal João Cotrim de Figueiredo e o assessor de comunicação José Maria Barcia. Mas também “malta das redes sociais”, que debatia “o que podia entrar hoje e amanhã” nas contas oficiais na internet do candidato. Aí, na decisão do que seria publicado, a decisão era coletiva mas Ricardo Pais de Oliveira, vice-presidente do partido, tinha um papel predominante.

Quem não estava no grupo de WhatsApp era o próprio Cotrim de Figueiredo, que “ajuda mas não está”, que muitas vezes “falava diretamente com o Tiago para debaterem coisas”. Embora o candidato garanta que não precisavam de falar muito longamente, porque a sintonia é grande e de há vários anos e porque também Cotrim tem (como ele por estes dias) uma agenda muito preenchida por ser deputado único.

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A vida de estrada: no Toyota Yaris, habitualmente só com duas ou três pessoas

Nos dias de estrada, o braço direito de Tiago Mayan Gonçalves era o seu assessor, José Maria Barcia — um adepto do liberalismo desde os tempos da licenciatura em Ciência Política na faculdade, que fez parte de blogues como o “Alunos do Liberalismo” e o “31 da Armada” e que regressou a Portugal vindo de Londres para rapidamente se inscrever na Iniciativa Liberal (garante que nunca estivera inscrito em nenhum partido antes) e que seria chamado para fazer a assessoria da campanha de Mayan.

O trabalho do assessor, que bem antes da fundação da Iniciativa Liberal (há dez anos, quando tinha 20) se opôs ao socialismo e a José Sócrates com ações satíricas vestido de Darth Vader (era o “Vader do fraque”), começou em outubro. Enquanto Mayan ainda fez quilómetros e viajou pelo país, era ele que estava sempre presente. E ficou até ao fim.

No Toyota Yaris alugado onde a comitiva seguia, estavam sempre candidato, assessor e um videógrafo e fotógrafo que já não esteve nos últimos dias de campanha, nos dias de sessões por Zoom feitas a partir de um restaurante da zona da Foz, no Porto. Esse era o núcleo sempre presente fisicamente: depois juntavam-se ocasionalmente o mandatário de campanha, Michael Seufert, o coordenador do núcleo do Porto da Iniciativa Liberal, Pedro Schuller, ou o membro da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal Bruno Mourão Martins.

Sempre presente na “sala dos Zooms” do Porto esteve o diretor de campanha, Vicente Ferreira da Silva, que ainda acompanhou o candidato numa visita à Escola Superior de Ciências Empresariais do Instituto Politécnico de Viana do Castelo, localizada em Valença. Nas outras cidades e ações de campanha, não esteve fisicamente. Mas no WhatsApp o contacto era permanente.

Ao volante do Yaris o condutor ia rodando mas o candidato, que diz não ter carro por “opção de vida”, era muitas vezes o condutor. Quando no Porto, Tiago Mayan dormia em casa, num apartamento na zona da Foz onde até assistiu ao Sporting x FC Porto com o Observador. Quando estava em Lisboa, dormia em casa de um amigo e os hotéis ficavam reservados a pernoitas noutras cidades.

Os almoços e jantares iam variando: ou eram encomendados na UberEats ou eram feitos em estações de serviço quando em viagem. No interior da campanha, gracejava-se com o apetite sempre voraz de Tiago Mayan Gonçalves: “Comia mais do que todos os outros”.

Os planos A, B, C e D e como a campanha passou para o online

A campanha do candidato apoiado pela Iniciativa Liberal teve duas fases: uma primeira com mais ações no terreno e uma segunda, correspondente à última semana de campanha, com apenas duas ações presenciais (a segunda das quais, muito curta).

As alterações de agenda, resultantes da evolução negativa da pandemia da Covid-19, foram permanentes ao longo dos dias — até se chegar a um ponto, de terça-feira, 19 de janeiro, para quarta-feira, 20, em que ficou decidido que praticamente tudo seria feito online. De ações presenciais estipuladas, sobreviveu apenas uma visita ao núcleo da Refood da Foz do Douro, onde Tiago Mayan Gonçalves é voluntário. Mas mesmo aí os jornalistas não puderam entrar, por razões sanitárias.

Desde o início da campanha que a equipa que rodeia Tiago Mayan Gonçalves sabia que a evolução da pandemia poderia ditar diferentes cenários para o que era possível fazer presencialmente — sobretudo atendendo à garantia do candidato de que não queria fazer nada que o “comum cidadão” não pudesse. E mesmo antes do anúncio de um confinamento generalizado da população, tudo estava planeado para diferentes hipóteses, garante fonte da campanha: “Para agendas tínhamos planos A, B, C e D”. Nenhum era um plano tradicional, com arruadas ou jantares-comício: “Foi sempre evidente que uma campanha tradicional estava fora de questão. Mesmo com um número de casos mais baixos como tínhamos há duas semanas, não deixava de ser uma irresponsabilidade”, ouve-se da campanha.

Um dos responsáveis pela adaptação da agenda de campanha a ações online foi Bruno Mourão Martins, membro da comissão executiva do partido que Mayan ajudou a fundar e que o apoia.

Na estrada, Bruno Mourão Martins acompanhou o candidato apenas num dos dias, o mais preenchido em quilómetros e ações presenciais das duas semanas: 16 de janeiro, um sábado em que Mayan correu Faro (foi ao aeroporto algarvio tentar “desmistificar” a tese de que a TAP, que tem poucas ligações para aquele destino, é essencial ao turismo), Albufeira (quartel dos bombeiros voluntários) e Beja (entrevista a uma rádio regional). Nos bastidores, porém, Mourão Martins tinha um “trabalho hercúleo”, muitas vezes feito de véspera para o dia seguinte: transformar a quase totalidade das ações presenciais previstas em reuniões por Zoom.

O media training, a simulação de entrevistas e os “momentos agricultura”

Uma das principais preocupações do núcleo duro da campanha era preparar para entrevistas, debates e declarações a jornalistas um candidato que já participara em campanhas (de Rui Moreira à Câmara do Porto, da Iniciativa Liberal às últimas legislativas e europeias) mas que não tinha experiência mediática como protagonista político.

O trabalho começou na preparação de entrevistas. Cláudia Nogueira, uma militante de base da Iniciativa Liberal com experiência na área, assegurava o media training. As reuniões de preparação de entrevistas juntavam várias vezes a militante, o candidato, o assessor e um outro elemento da campanha e militante de base da IL que prefere o anonimato.

Na preparação das entrevistas, por exemplo, os colaboradores do candidato tentavam mimetizar o comportamento do jornalista. Um exemplo: “Com o Adelino Faria [jornalista da RTP], por exemplo, sabíamos que o Tiago ia ser muitas vezes interrompido, que ia ser uma entrevista mais dura, num estilo que não é habitual em Portugal”. O objetivo dessa preparação foi testar o candidato para uma entrevista onde teria poucos segundos para responder, onde teria de ser sucinto e claro.

Nas sessões de preparação de entrevistas, o assessor e outro militante de base da IL encarnavam o papel do entrevistador que o candidato teria pela frente. Tiago Mayan Gonçalves respondia e Cláudia Nogueira tirava notas. No fim, todos diziam o que achavam.

O método manteve-se ao longo da preparação das primeiras entrevistas mas quando chegou ao momento dos debates a equipa alargou: entraram também em cena João Caetano Dias, membro da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal, Rodrigo Saraiva, chefe de gabinete de Cotrim de Figueiredo, e Carla Castro e Leonor Dargent, assessoras do deputado da IL. Dargent, por exemplo, ajudou na preparação de temas mais jurídicos por ser essa a sua especialidade.

Outro dos pontos em que Tiago Mayan Gonçalves foi trabalhando ao longo da campanha foi naquilo que internamente se descrevia como “o momento agricultura”. A expressão faz referência a um momento satirizado pelo humorista Ricardo Araújo Pereira em que um então cabeça de lista da Iniciativa Liberal pela Terceira, José Parreira, respondia assim a uma questão sobre o “plano de revitalização”: “Desculpe, eu conheço pouco deste plano. Aquilo que me interessa é falar de agricultura”. Um dos “momentos de agricultura” aconteceu quando Mayan Gonçalves visitou a Refood da Foz do Douro: perguntaram-lhe sobre a pandemia e o candidato chutou o tema (do qual já falara previamente, no mesmo dia) para canto para falar de solidariedade social.

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