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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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"Fui eu que fiz!". Filipe Araújo mostra obra e apresenta-se como quase-incumbente no Porto

Vice de Moreira faz campanha a mostrar obra e disparar sobre partidos, frisando a sua independência. Sondagem que mostra contentamento da população anima, mas intenções de voto são baixas.

Para quem anda junto de Filipe Araújo a fazer campanha, a piada é recorrente: quando o candidato pára para abordar alguém na rua, é preciso ir tirá-lo de lá ao fim de algum tempo e impedir que passe largos minutos na conversa com o potencial eleitor em questão, enquanto a comitiva vai avançando sem candidato à vista. Araújo pára, fala, debate, explica, demora-se, apela (ao voto), insiste mesmo quando não lhe dão troco imediato e repete sempre, para quem não o conhece: “Boa tarde, sou candidato a presidente da câmara, atual vice-presidente”. Ou para ficar mais claro: “Sou o número dois do Rui Moreira”.

A associação ao legado de Moreira, que também é seu enquanto vice-presidente, é a chave da campanha de Araújo. Não por acaso, tem-se apresentado como um fazedor, enumerando os projetos que liderou na câmara — a instalação de painéis solares nos bairros municipais, levando a uma poupança de 30 a 40% na fatura da eletricidade, será um dos mais destacados — e visitando muitos deles para mostrar obra. Sem a notoriedade de Moreira, numa corrida bipolarizada pelos partidos e em que as sondagens o colocam na luta para ser eleito vereador, o grande objetivo de Araújo passa por mostrar o que fez — e o que ainda quer fazer, numa lógica de continuidade que, espera, agradará aos eleitores globalmente satisfeitos com o moreirismo.

Afinal, acredita a campanha, se a população está satisfeita com uma governação que quer “continuar”, assumindo-se herdeiro do moreirismo apesar de não ter (como nenhum candidato) o apoio do atual presidente, o passo que é preciso dar é fazer o eleitorado associar essa governação ao seu atual vice. Para isso, Filipe Araújo percorre freneticamente a cidade, apresenta-se, apresenta os seus projetos, como se fosse na prática o incumbente que luta para reconquistar a câmara. Do outro lado coloca os partidos que critica ferozmente, consciente de que a a independência foi a grande mais-valia da candidatura de Moreira — que já veio avisar que o desafio do vice, sem contar com o apoio de partidos (exceto o PAN), será “mais difícil“.

O projeto-piloto e a sondagem que anima (mas não é pelas intenções de voto)

Quando chega à associação de moradores do bairro Agra do Amial, onde um grupo de homens grisalhos joga às cartas em sossego, Filipe Araújo lança a pergunta: “Quem é que recuperou estes edifícios e construiu o parque infantil?”. Os presentes sabem: “É uma referência dos painéis solares!”, atira um deles. Araújo fica satisfeito. Minutos antes, perguntara à funcionária de um café se vira o jardim que está a ser feito. Perguntara a uma cliente do mesmo café se já aderiu ao sistema dos painéis solares. E dissera a uma idosa sentada no parque infantil: “Fomos nós que recuperámos o bairro! Foi o que eu fiz aqui e vou fazer noutros bairros. Já sabe o que eu fiz, por isso espero merecer a sua confiança”.

Quando as interações são mais críticas, como aconteceria com outra idosa no mesmo parque, também tem a resposta pronta e inserida na lógica da continuidade:

— Olhe tudo o que fizemos pelo bairro!
— Mas não fizeram tudo o que há para fazer…
— Se tivéssemos feito tudo eu não estava aqui agora!

Este bairro municipal, que antes estava “completamente degradado”, recebeu um projeto-piloto que funciona há um ano, tendo neste momento outros quatro (Lordelo do Ouro, Francos, Mouteira e Fernão Magalhães) projetos adjudicados para se tornarem também bairros com painéis solares instalados (e faturas de eletricidade mais baratas), chegando a 1500 famílias. Neste momento, há 180 famílias que beneficiam deste sistema — Araújo admite que ao início só aderiram umas 30, uma vez que o ceticismo era muito, mas a baixa efetiva da conta da luz abriu caminho a mais adesões.

E é este tipo de currículo que o vereador (atualmente com os pelouros das Finanças, Emprego e Empreendedorismo, do Ambiente e Transição Climática e da Inovação e Transição Digital) quer mostrar. “Tem toda a gente energia mais barata aqui?”, lança a qualquer grupo de pessoas que encontre no bairro. “Espero contar com a vossa ajuda no dia 12, se não voltamos ao antigamente, aos que nunca fizeram nada por isto”.

Aos jornalistas, explica os planos para constituir um fundo de energia de quatro milhões de euros que ajude os proprietários privados a terem melhor eficiência energética; o “desconto direto ao orçamento familiar” que o projeto significa; e sobretudo explicar que é a candidatura que trata o tema do Ambiente “de forma mais objetiva, sabendo exatamente o que quer fazer e quanto vai custar” — mais uma forma de recordar quem o ouve, como foi fazendo nos debates, que a vice-presidência lhe deu experiência e conhecimento mais aprofundado das contas da autarquia.

A quem lhe lembra que as sondagens não refletem essa aprovação dos eleitores, responde sempre com a mesma fórmula: as sondagens são uma “fotografia do momento” e está a fazer um “caminho” que só será concluído no dia 12, quando os portuenses forem votar. A equipa vai olhando para dados que considera mais relevantes e decisivos para a decisão de cada eleitor: no último estudo divulgado pela CNN, 52% dos inquiridos diziam que a cidade melhorou com a gestão de Rui Moreira e uma esmagadora maioria declarava-se feliz por viver no concelho. Falta convencê-los de que é com Araújo que isso vai continuar.

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Os problemas de um incumbente e um tiro aos partidos: “Nem sabem onde fica o Porto”

O cenário muda, esta quarta-feira, para a Praça da República, que Araújo está visivelmente satisfeito por poder visitar, depois de ter reaberto esta semana com mais árvores e zonas de descanso. Boa parte da sua intervenção tem a ver com a reabilitação e construção de mais parques e espaços verdes na cidade. E é mais uma maneira de se apresentar. “Já encontrei no caminho pessoas a dizerem que já lá estiveram a ler um livro”, comenta. Lá irá perguntando a quem se cruza consigo se já foi ver o jardim novo.

É o que faz com duas amigas, a dona de uma pastelaria e a dona de um cabeleireiro, que lhe dizem que até estavam indecisas (“Gostámos muito do debate, de como falou. Eu há bocado disse-te: hoje tenho de decidir, que já está próximo”, diz a primeira à segunda). Caso resolvido: com o contacto pessoal, ficam mais aliviadas e decididas. “Veio tirar-me a dúvida que eu tinha! De que partido é? Ah, é bom ser independente!”.

Este seria o seu ideal de interação, mas com o estatuto de quase-incumbente também chegam, naturalmente, as queixas, que se esforça por rebater. Por um lado, Pedro Duarte tem-lhe apontado responsabilidades, por exemplo, na questão do Metrobus, pela qual teria responsabilidade enquanto vereador, acusando Araújo de andar “distraído” e de não ter travado a segunda fase do projeto, uma opção que disse ser “chocante” (Araújo responde que no final do projeto haverá mais árvores do que as que existem agora, uma vez que parte terá de ser abatida para o projeto avançar).

[Há um novo candidato a Belém. Soares fica em choque com o anúncio do amigo que considera irmão. Freitas elege Zenha como principal adversário. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui.]

Já rua de Cedofeita, Araújo ouve uma comerciante queixar-se da “falta de dinâmica” da zona e contrapõe: já está melhor, a atual câmara já fez o que pôde, o que falta é pressionar o Governo para “travar as lojas de bugigangas” construídas ali ao lado — o ónus é colocado do lado do Estado central. Noutra loja duas senhoras conversam sobre ser preciso “mudar isto tudo”, recordando os casos de crianças que nascem em ambulâncias “desde que foram para lá PSD e CDS” — será um alívio perceber que estão a falar da governação nacional e não local.

As críticas de Araújo estão, de resto, muito focadas nos partidos, enquanto apresenta a sua independência como bem maior. Antes de começar as declarações à imprensa, ironiza, sobre a equipa que o segue para todo o lado: “Aqui vai tudo para os governos a seguir, tudo prometido!”. (“Vamos para o ministério das infrastruturas paradas”, atira-se na comitiva). Os partidos estão, no seu discurso, permanentemente associados ao Porto do “antigamente” ou do “preto e branco” pré-Rui Moreira. E às promessas “fantasiosas”.

“Há duas propostas: os que prometem mundos e fundos e os que fazem”, dispara, criticando propostas como a da construção de cinco mil casas, prometida pelo PS, ou de gratuitidade dos transportes, lançada pelo PSD. Ambos estão na sua mira. “Os partidos do passado prometem tudo a toda a gente e são dominados por diretórios a partir de Lisboa. Alguém vai ter de pagar a conta“, vai disparando. “Nunca vi tantos cartazes com promessas. É uma fantasia despesista”.

A dificuldade é dar o passo seguinte: associar-se por contraste a Rui Moreira, com quem trabalhou de forma próxima durante doze anos (especialmente os últimos oito, como vice), mas que não apoia a sua candidatura, argumentando que tem vereadores espalhados por várias campanhas.

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A fórmula foi encontrada há meses e não mexe, sempre que Filipe Araújo é questionado sobre a ausência de um apoio que poderia dar peso à sua candidatura: sente “intimamente” o seu apoio, lembra a “confiança” que este tinha de ter no seu trabalho para colocá-lo como número dois, frisa que tem consigo “pessoas do Porto” que têm as suas vidas e “não pensam nisto como um trampolim para outros lados”, que “revolucionou” vários aspetos da cidade e por isso também tem “legado” próprio. Mas precisa de continuar: “Longe de mim dizer que sou vice, conduzi os destinos da cidade e está tudo feito”.

Já nos partidos, sublinha, existe o risco de que a direção mande parar um projeto ou suspender uma promessa antes das eleições. “Eu não tenho esse problema, tomarei as decisões independentemente disso”. Os partidos são mesmo um “problema” ou a conversa tem a sua dose de populismo? “São importantes, mas têm vindo a desvirtuar a sua essência”, apontava em entrevista ao Observador. “Estamos num país que tenta vender que só existem dois partidos . Nos últimos doze anos a cidade deu claros sinais de que esses partidos não mandam na cidade e escolheu as pessoas”.

Esta quarta-feira, Araújo endurecia o tom: “Neste movimento somos pessoas do Porto que andam na rua a falar com os portuenses, muito mais do que ouvir líderes que vêm aqui e nem sabem onde fica o Porto. O Governo governa a partir do Google Maps. E temos visto uma campanha toca e foge do PSD”, longe das pessoas, acusa. O próprio Araújo não tinha, por exemplo, agenda de manhã ou à noite nesta segunda-feira, mas era pelos ofícios de quase-incumbente: enquanto atual vice ainda tinha de estar numa reunião de câmara e noutra de Assembleia Municipal.

A convicção na sua candidatura é que é possível convencer os eleitores de que o caminho trilhado nos últimos doze anos, que aparentemente gera “contentamento”, “só é possível com um movimento longe dos partidos“. Resta acelerar ao máximo para convencer o máximo de pessoas disso mesmo.

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