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HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

HENRIQUE CASINHAS / OBSERVADOR

Garret McNamara: "Lidei de perto com a droga e com a violência doméstica"

A pele de Garrett McNamara, curtida pelo Sol e pelo sal, tem outras marcas além das que o mar lhe deixa. A "infância selvagem", das drogas ao abandono, acabaram por levá-lo ao sucesso de hoje.

As cristas das ondas não deixam enganar: o mar da Nazaré está bravo. O barulho que fazem quando estalam, já próximas da praia, fazem o chão tremer aqui no cimo, no farol do Sítio da Nazaré. Está muito vento. Garrett McNamara não está na água, como pensaríamos que estivesse num dia em que o Canhão, a meio quilómetro da costa, brinda os nazarenos com as ondas gigantes que o surfista cavalgou em 2011. O agente, com quem nos íamos encontrar, também não está por perto. Fomos tentar o “lobo do mar”, significado do apelido “McNamara”, por outras bandas. E viramos costas à Praia do Norte.

O porto de abrigo da Nazaré foi a nossa segunda aposta. Entrámos e vimos um homem a tratar das artes das redes na companhia de um cão e uns quantos barcos com nomes curiosos: há o “Dianandré”, o “Anantónio” e o “Milenenrique”. Garrett McNamara ainda não tinha chegado às docas, mas estava a caminho. Surge um pouco mais tarde, cumprimenta os vizinhos em português e deixa-nos explorar as motas de água, fatos de surf, pranchas com grãos de areia e uma fotografia enorme, tirada por Tó Mané em 2011, no dia em que GMac surfou a maior onda do mundo. Seis anos depois do dia em que as ondas nazarenas deram a volta ao mundo, Garrett McNamara decidiu contar as outras histórias que lhe marcaram a pele, tanto quanto a impetuosidade no mar.

No seu livro fala muito da sua mãe e refere-se a ela como um “espírito livre”. Depois de se separar do seu pai, ela deixou a Califórnia e partiu à aventura por vários países. Esse espírito indomável foi o melhor que recebeu dela?
A minha mãe ensinou-nos a ser livres [o surfista de ondas gigantes que faz 50 anos em agosto tem um irmão mais novo também surfista famoso, Liam]. Ela nunca nos forçava a fazer nada, como a maioria dos pais fazem com os filhos, e isso obrigava-nos a pensar por nós mesmos. Estávamos entregues a nós próprios. Penso que isso nos obrigou a descobrir o mundo por nossa própria iniciativa. Isso definitivamente obrigou-me a ser independente muito mais cedo do que é convencional. Se bem que, à medida que o tempo passava, ela tornou-se progressivamente mais estruturada e com os pés mais assentes na terra. Nessa altura, ela tentou que eu e o meu irmão fizéssemos o mesmo e nos tornássemos menos… desprendidos, mas era tarde demais. Nós já éramos uns selvagens. Talvez ela também estivesse a crescer. A certa altura ela começou a procurar incessantemente pela religião certa e tornou-se numa cristã muito dedicada. São esses os princípios que ela segue até hoje. Mas enquanto a minha mãe viajava muito, naquela onda hippie dos anos setenta, eu não me lembro de sentir a falta dela. Acho que sim, que tinha saudades, mas não tenho memória disso. Lembro-me de me manter sempre ocupado. Em criança eu estava sempre demasiado ocupado a fazer alguma coisa, a divertir-me e a ser um pouco louco.

"O maior ensinamento que o meu pai me passou foi a pensar antes de falar. Ele é muito inteligente e uma pessoa realmente interessante, embora também tenha tido aquela fase louca por que a minha mãe também passou"

Quando a sua mãe partia, deixava o seu pai para trás. Até que você e o seu irmão foram com ela e afastaram-se do seu pai de vez. O que herdou, mesmo assim, dele?
Por aquilo que me lembro, o maior ensinamento que o meu pai me passou foi a pensar antes de falar. Ele é muito inteligente e uma pessoa realmente interessante, embora também tenha tido aquela fase louca por que a minha mãe também passou. Na verdade, há histórias loucas sobre ele que não aparecem no livro [a biografia que acaba de publicar, ‘Lobo do Mar’], porque não tinha espaço suficiente. Essas histórias, bem… talvez possam aparecer num segundo livro. Acho que o meu pai se foi mesmo abaixo quando fomos para o Hawai [para onde a mãe foi viver em 78 tinha então ele 11 anos]. Passou por maus bocados, por alguns momentos de loucura e quase acabava a dormir na rua. Só depois que mudou para Nova Iorque e conheceu a mulher certa é que a partir daí tudo se equilibrou. Ele também estava a crescer, suponho eu. Agora é treinador de basquetebol, professor, e tornou-se mais rigoroso. Ainda assim, continua a ser uma pessoa de trato fácil, apoia muito o meu trabalho. Sim, é um gajo ótimo.

A vida era mais simples nos tempos hippies em que viveu a infância, mesmo estando rodeado de drogas? No seu livro fala, por exemplo, de um episódio em que fumou um charro com 4 anos e depois bebeu gasolina… tudo sem os seus pais por perto.
Definitivamente muito mais simples. Tudo era divertido e descontraído. A única regra era não haver verdadeiras responsabilidades, podíamos fazer o que nos apetecesse. Mas, por outro lado, é sempre preciso ter um pouco mais de direção e de orientação. É bom ter princípios básicos, mas podemos aprender algumas coisas daqueles tempos. A sermos menos rígidos e tentarmos deixar as coisas aconteceram. Não temos de ser tão rigorosamente pegados às coisas. Devíamos ser um pouco mais como o bambu, andar um bocado ao sabor do vento.

"Enquanto a minha mãe viajava muito, naquela onda hippie dos anos setenta, eu não me lembro de sentir a falta dela. Acho que sim, que tinha saudades, mas não tenho memória disso. Lembro-me de me manter sempre ocupado"

E o amor? Para quem cresceu no tempo do “peace and love”, como é que define amor?
Ora… Acho que nunca me tinha questionado sobre isso. O amor é algo que nos faz sentir tão bem por dentro, que faz com que mais nada realmente importe. Não sei… Neste momento, sinto muitas saudades da minha mulher. E sinto muitas saudades do meu menino, também. Sinto mesmo o coração a doer de tanto que amo a minha mulher. O amor é uma montanha russa de emoções. Acredito em amor eterno, sem dúvida. E acredito em amor à primeira vista, tenho de acreditar.

Como assim?
Quando conheci a Nicole, a minha mulher, foi amor à primeira vista. Nós conhecemo-nos num evento de caridade da Surfers Healing, em que levamos crianças autistas a surfar. Era um jantar na noite anterior a essa atividade. Ela estava do outro lado da sala e eu topei-a à distância. Ela não foi difícil de conquistar, aquilo foi uma loucura. Ela nem sabia quem eu era, não sabia que era o surfista que sou. E isso é bom, porque significa que não havia outro tipo de interesse e que era tudo genuíno. Eu não sei como é que consegui! Nem ela sabe, quanto mais… Às vezes diz: “Como é que eu acabei aqui contigo?”. Na verdade, ela é que foi a agressiva! Nós conhecemo-nos e pronto, estávamos a falar e até dançámos um pouco. Depois eu fiquei tão nervoso que fugi!

E, deixe-me adivinhar: deixou um sapato para trás?…
Havia uma festa depois desse jantar na casa de um amigo meu e eu convidei-a para ir e ela disse: “Está bem”. Só que depois eu fui à casa de banho e fiquei todo ansioso, então comecei a correr pela estrada abaixo. Só que ela viu-me e gritou: “Hey! Onde é que vais?”. E eu, pronto… tive de disfarçar e voltei para a festa. Foi um bocado difícil, mesmo assim. Eu fugi porque os dois éramos casados na altura. Foi estranho, até. Fomos dar uma volta de carro e demos um pequeno beijo. A seguir eu disse: “Eu não sei se nos podemos continuar a ver. Eu sou casado, acho que só podemos ser amigos”. E ela respondeu, assim meia zangada, “Olha, eu também sou casada! Ah, pois é! Mas não vamos falar disso agora!”.

Good morning!!! There is nothing I'd rather be doing for the rest of my life!!! #lovemywife #lovemyfamily #loveourlife

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Bem, é evidente que não se contentaram com a amizade.
Ela não desistiu! Começou a mandar-me mensagens. Nós queríamos ver-nos, mas estávamos sempre a dizer um ao outro que tínhamos medo de o fazer. Mas era evidente que estávamos apaixonados. Foi imediato. E prova disso foi que a seguir viajámos pelo mundo todo durante três anos. Vivíamos do que havia nas nossas malas. Fazíamos surf e esses foram os melhores momentos das nossas vidas. A seguir comprámos algumas propriedades e assentámos, mas até gostava bastante de voltar a viajar. Mas por outro lado… Estamos agora a assentar, estamos finalmente a criar algo. Por isso acho que vou mesmo aproveitar para estabilizar-me. Ela antes também queria estar sempre a viajar, mas agora gosta de estar em casa com o miúdo [McNamara e Nicole casaram na Praia da Nazaré em 2012 e têm um filho de 3 anos].

Me amor ! My happy place ! I love you !!!

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Mais tarde ou mais cedo, o Barrel vai entrar para a escola. Por isso, sim… via-me perfeitamente a ir lá para casa, fazer mesas e a aproveitar as ondas que há na parte de trás da propriedade. O Barrel pergunta muito pelo pai, mas a Nicole é uma grande mãe e dá-lhe muita atenção. Às vezes, sei que fico preso dentro da minha própria mente. Penso demasiado no trabalho e no que quero fazer a seguir. Por isso, às vezes estou no Hawai com eles, ao lado do meu filho e da minha mulher, e sei que não estou verdadeiramente presente. Penso que não estou suficientemente envolvido na vida da minha família. Sinto que tenho de ser um pouco mais presente e esse é um dos meus sonhos, aqueles sonhos de que falávamos há pouco. Isto está no meu mapa mental. A paz interior que quero também depende disso.

"Às vezes, sei que fico preso dentro da minha própria mente. Penso demasiado no trabalho e no que quero fazer a seguir. Por isso, às vezes estou no Hawai com eles, ao lado do meu filho e da minha mulher, e sei que não estou verdadeiramente presente. Penso que não estou suficientemente envolvido na vida da minha família"

No livro fala do “charme McNamara”. E diz que uma mulher pode desvendar o melhor e o pior que há num homem. Alguma vez sentiu que uma mulher desvendou o seu lado negro?
Foi sempre culpa minha. Quando duas pessoas não funcionam bem juntas, não há outro remédio senão separarem-se. Não posso culpar mais ninguém senão a mim mesmo. Tenho noção de que os piores momentos da minha vida foram trazidos por mim, foram provocados por mim. Tento não ter arrependimentos na vida. Nem pensar demais nas coisas erradas que aconteceram comigo. Procuro apenas fazer escolhas cada vez melhores, com base naquilo que vai no meu coração. É onde estão sempre as respostas.

Mudaria alguma coisa no seu passado se tivesse oportunidade? Pediria uma vida diferente aos seus pais, talvez mais calma?
Eu não sinto vontade de mudar nada, porque consegui tudo o que consegui a partir do meu passado. Agora que olho para trás costumo pensar que havia alturas em que desejava ter estudado mais e ter-me aplicado mais na escola. Em vez de ter ido para a praia, ter antes ido para a escola. Mas nem isso será problema, devo ter mais uns cinquenta anos para estudar. Ainda só cheguei a meio da vida!

Créditos: Henrique Casinhas/ Observador

Durante os primeiros dez anos andou atrás da sua mãe, de igreja em igreja e acompanhado com os homens que ela ia escolhendo pelo caminho. Estava sempre a mudar de rumo. Alguma vez questionou os seus pais sobre o porquê de ter tido essa infância?
Eu gosto de estar com o meu pai. Sei que os tempos que passei com eles juntos eram fantásticos, embora não tenha assim tantas memórias disso. O meu pai e a minha mãe divorciaram-se quando eu era novo. Um dia perguntei à minha mãe o propósito de uma infância como a que eu tive, sempre de um lado para o outro a seguir as mudanças de planos dela, a lidar tão de perto com a droga e com a violência doméstica. Ela disse-me que queria que descobríssemos sozinhos como funciona o mundo. Recentemente, os meus irmãos leram o livro e disseram à minha mãe que eu tinha dito umas coisas algo maldosas sobre ela. Foi a primeira vez que ela confessou todas aquelas coisas. E disse-lhe que eles não a conheciam naquela época, só conheciam a cristã conservadora em que ela se tinha tornado. Eles não conheciam a selvagem “gitana”.

"Um dia perguntei à minha mãe o propósito de uma infância como a que eu tive, sempre de um lado para o outro a seguir as mudanças de planos dela, a lidar tão de perto com a droga e com a violência doméstica. Ela disse-me que queria que descobríssemos sozinhos como funciona o mundo"

Não lamenta nada? Não sentiu nunca que foi vítima de algum tipo de negligência?
Não, devo muito à minha mãe. Foi ela que me levou para o Hawai. Se não tivesse ido para o Hawai provavelmente não teria entrado assim no mundo do surf e se calhar nem sequer tinha chegado até aqui a Portugal. É verdade que, quando vivíamos em Berkeley, éramos miúdos urbanos e praticávamos todo o tipo de desportos, mas lá também era fácil metermo-nos em problemas. Além disso, sabes, não me lembro de muita coisa. Não me lembro de ver o homem a bater na minha mãe, acho que bloqueei isso como num mecanismo de defesa. Foi a minha mãe que me disse que eu vi esse homem a dar-lhe pontapés na cabeça com botas, mas não tenho uma única memória disso. Nunca mais vi esse homem. Não o reconheceria, não me lembro de como ele era fisicamente. Mas não lhe diria nada… Acho que temos de amar toda a gente.

Esses episódios tiraram-lhe alguma inocência? Como é que uma criança que experimenta marijuana, assiste a violência doméstica e vive uma vida tão desregrada consegue amadurecer de forma saudável?
Acho que nunca cheguei àquele momento em que deixei de ser criança. Acho que ainda sou uma criança. Ainda por cima, a minha mulher cuida tão bem de mim que nem sinto que tenha de deixar de ser. No meio de toda a agitação por que passei, a minha infância, selvagem como foi e também tão cheia de travessuras pela rua, tornou-me mais ambicioso. Fez-me ter noção de que tinha de trabalhar muito, uma coisa que gosto de fazer, mas que agora sinto que devo abrandar. Devia começar a passar mais tempo com a minha família. Não sei quando, mas esse momento de assentar está a chegar. O meu objetivo é continuar a surfar e continuar a andar enquanto for possível para mim. Mas esta parece uma boa altura para assentar.

"Não me lembro de ver o homem a bater na minha mãe, acho que bloqueei isso como num mecanismo de defesa. Foi a minha mãe que me disse que eu vi esse homem a dar-lhe pontapés na cabeça com botas, mas não tenho uma única memória disso. Nunca mais vi esse homem"

Sei que só encontrou um pouco mais de estabilidade quando foi viver para o Hawai com a sua mãe, numa altura em que ela também quis assentar. Foi também lá que descobriu o surf. O que ainda assusta um homem que dominou uma onda como a que encontrou na Nazaré?
Eu nunca saltaria de aviões, tenho medo de cavalos e não nadaria com tubarões. E não me importo de conduzir, mas quando há um carro que se aproxima muito isso deixa-me mesmo apavorado. Mas o medo é uma coisa que nós escolhemos. O que tento sempre fazer quando temo alguma coisa é simplesmente aceitar o momento. Há certas condições do nosso passado que nos desafiam a relativizar tudo isso, a não ter medo de vez em quando. É precisa bravura, por vezes. Porque o medo também pode jogar a nosso favor, sabe? Pode ajudar-nos a mantermo-nos concentrados e a sermos mais incisivos. Posso dizer que não sinto medo em relação a muitas coisas, mas trabalho em prol de levantar a cabeça perante essa sensação.

Créditos: Henrique Casinhas/ Observador

Mas há algo que ainda o impressiona? No seu trabalho, há ondas que ainda o intimidam quando está dentro de água?
Sim. Porque, percebe, o mar é vida. Sem o oceano todos morreríamos. Ele é todo o nosso coração, é de toda a gente. Por isso temos de dar o nosso melhor para cuidar dele. E eu sinto-me tão vivo, tão pequeno e ao mesmo tempo engrandecido por todo aquele movimento. Sinto que pertenço ali, que estou vivo e que sou parte de uma coisa muito maior. A Nazaré pode ser um lugar realmente impressionante. Naquelas praias é tudo sempre tão colossal e imponente e magnificente! Está sempre tudo a mudar, por isso nem sequer temos tempo de encontrar a regra daquele mar. Aliás, é impossível cair na monotonia quando estamos no mar da Nazaré. Quer dizer, estou sempre a surfar em pontos diferentes e, mesmo estando constantemente a viajar por todo o mundo, passo mais tempo ali do que em qualquer outro lugar. E não me canso, porque a casa da monotonia não é a Nazaré. Tudo muda a toda a hora, ninguém que goste de ondas grandes pode sentir-se saturado ali.

"Eu nunca saltaria de aviões, tenho medo de cavalos e não nadaria com tubarões. E não me importo de conduzir, mas quando há um carro que se aproxima muito isso deixa-me mesmo apavorado. Mas o medo é uma coisa que nós escolhemos"

O mar deu-lhe muito, tanto pessoal como profissionalmente. Mas tirou-lhe alguma coisa? Ainda há três meses sofreu um “wipe out” perigoso em Mavericks que o obrigou a uma estadia no hospital.
Na verdade, sim. Tirou-me alguns amigos. Tive alguns bons amigos que morreram no mar. E tenho estas dores nas costas e feridas pelo corpo, montes de arranhões. Parece tudo um efeito qualquer do karma, como se o Universo me estivesse a dar um estalo por algo errado que tenha feito. Talvez tenha sido um sinal, tenho essa sensação desde que parti o ombro. Pode ter sido um sinal de que estou a precisar de abrandar e a aprender a controlar os meus impulsos. Sempre tive este ímpeto de tentar controlar todas as ondas que chegavam e o universo ensinou-me a desacelerar. É uma questão de respeito, no fundo, é preciso respeitar plenamente a fúria da Natureza. Antes eu era demasiado confiante, um pouco insolente perante o mar. Respeitava-o, mas a Nazaré é tão mais desafiante que me obrigou a deixar essa arrogância de lado.

Depois da onda gigante da Nazaré voltou a embarcar noutros desafios. Foi a primeira pessoa a surfar uma onda de um tsunami provocado pela queda de um iceberg. O que pensa fazer a seguir?
Há uma aventura que quero começar no Japão. Estou prestes a começar um projeto, que já tem três anos, em que vou surfar uma onda, precisamente sempre a mesma onda, desde Tóquio até Portugal. Vou passar pelo Hawai também e posso surfar a mesma onda três vezes. Porque quando temos um sistema de baixa pressão em cima do mar, as ondas depois são empurradas pelo vento. É como deixar cair uma pedra no lago. A pedra representa a baixa pressão, que pode ser um tornado, por exemplo. A onda começa então a vaguear pelo mar. E eu posso surfar sempre a mesma onda a sul do Japão, a meio e depois a norte do Japão. Depois, a mesma ondulação viaja até ao Hawai e eu posso apanhá-la em Kauai, Oahu e Maui. Três ilhas! Com um pouco de esforço até posso encontrá-la em sete ilhas. A seguir vou até à Califórnia e vou perseguir a onda até ao México. Pelo meio vou à piscina de ondas do Kelly Slater e só a seguir é que vou passar por Cuba e continuar por aí abaixo pela costa este, por Porto Rico. Ainda dou um salto aos Açores e acabo na Madeira. Tudo isto numa onda. A mesma onda!

"Estou prestes a começar um projeto, que já tem três anos, em que vou surfar uma onda, precisamente sempre a mesma onda, desde Tóquio até Portugal. Vou passar pelo Hawai também e posso surfar a mesma onda três vezes"

Quando pensa começar tudo isso?
Tudo indica que será em setembro. Tenho de estar atento à tempestade e monitorizar o seu efeito para garantir que persigo sempre a mesma onda. Mas devo começar a 15 de setembro e acabar precisamente dois meses depois, a 15 de novembro. É o tempo perfeito, porque os tufões estão prestes a atuar e os furacões também estão a chegar. Não é demasiado perigoso porque é disto que nós vivemos, de baixas pressões. Sabemos que os tufões e furacões dão origem às melhores ondas que podemos encontrar, por isso…

Mas tudo isso são histórias que o público em geral não conhece bem. Provavelmente a maior parte dos portugueses sabe o seu nome, mas apenas quem segue a evolução do surf entende estes projetos. Alguma vez teve a sensação de que as pessoas o reduzem à onda que surfou em 2011 e que, no fundo, não conhecem tudo isto que lhe vai na cabeça?
Acho que nunca pensei sobre isso. Se as pessoas só me conhecerem pela onda que apanhei na Nazaré em 2011, isso também não me incomodaria. Eu sou apenas uma pessoa normal. Bem, sou um pouco sortudo pela vida que tenho, mas também sou muito focado nos meus objetivos e muito determinado no trabalho que desenvolvo para os realizar. Sou muito trabalhador, sim. Isso basta-me. Não se pode controlar os sentimentos ou os pensamentos de ninguém em relação aos outros, por isso tento cingir-me a ser uma boa pessoa, esperar que todos os outros sigam os seus corações também. Mas é verdade, acho que nem toda a gente compreende quem realmente sou além do surfista daquela onda. Os meus amigos mais próximos e a minha família conhecem-me profundamente, mas o resto do mundo tem todo visões diferentes do que pensam que eu possa ser. Mas vivo bem com isso.

Créditos: Henrique Casinhas/ Observador

E que outras paixões tem além do surf?
Adoro fazer ioga e fazer caminhadas com a minha família. E agora ando viciado na música que o meu sobrinho tem feito. É o Landon McNamara, tem de procurar. Ele é… eu nem consigo acreditar no quão bom ele se tornou. É sem dúvida o meu cantor favorito neste momento. E não estou a dizer isto por ele ser meu sobrinho, só que a verdade é que tudo o que oiço agora é o Landon McNamara. Ele lançou o álbum novo para aí há cinco meses e é simplesmente fantástico. É também o que oiço quando tenho um dia importante e tenho de me preparar e concentrar.

Onde é que se concentra? É um homem reconhecido na rua e cá na Nazaré todos sabem quem é. Não sente saudades de silêncio de vez em quando?
Cá em Portugal, a fama não se vive da mesma forma que noutros lugares do mundo por onde já andei. Aqui a fama transforma-se em amor. As pessoas não admiram as pessoas que reconhecem na rua, dizendo: “Olhem aquele gajo, é tão fixe”. Quando se aproximam de mim na rua dizem-me mais vezes: “Obrigada por aquilo que fizeste pelo meu país”. Os portugueses fazem-me sentir realmente especial com o amor que as pessoas transmitem para mim quando estou por cá. É uma gratidão, parece-me. E isso é muito recompensador, porque eu sinto exatamente o mesmo amor e a mesma gratidão pelos portugueses e por este país. Por isso é reconfortante e não me incomoda essa fama. Mas quando tenho necessidade de me isolar um bocado, quando sinto falta de um pouco de solidão, encontro-a em casa. Eu tenha uma propriedade muito porreira que tem um grande muro em seu redor e uma praia privada. Até tem uma montanha por detrás do quintal sem ninguém à volta. Mas posso perfeitamente passear pelas ruas da Nazaré sem problemas. Ah, e em Itália! Lá nas montanhas, onde não há pessoas. Há algumas pessoas, vá… E o Douro também é fantástico, estive lá há pouco tempo e é tão bonito! Até gostava de começar a passar mais tempo lá e, quem sabe, talvez alugar uma pequena casa onde passar uma semana ou duas. E subir pelo rio…

"É muito delicado ter a nossa paixão e o nosso trabalho misturados num só. Mas é a melhor coisa do mundo ter a carreira baseada numa paixão que nutrimos há tantos anos. Mas desenvolver uma carreira na área do surf exige que tratemos essa atividade como um negócio"

Falava desse amor que sente pela Nazaré e que os nazarenos nutrem por si. Mas admite que esse amor também pode ser um negócio?
É como uma simbiose. É muito delicado ter a nossa paixão e o nosso trabalho misturados num só. Mas é a melhor coisa do mundo ter a carreira baseada numa paixão que nutrimos há tantos anos. É assim em todo o lado: aposto que qualquer jornalista que exerça a profissão sinta paixão naquilo que faz. Mas desenvolver uma carreira na área do surf exige que tratemos essa atividade como um negócio, principalmente porque o meu objetivo é continuar a surfar. Agora, não fui eu que escolhi Portugal para cumprir esse objetivo. Foi Portugal que me escolheu a mim. Fui muito sortudo: as ondas estiveram sempre aqui, o país esteve sempre de portas abertas e sempre espetacular.

O surf vai estar representado pela primeira vez nos próximos Jogos Olímpicos em Tóquio. Como seria constituída a equipa de sonho para Portugal?
Sabe, nós temos de encontrar os melhores e os mais focados. Podia ser o Frederico Morais. Tenho a certeza de que as instituições portuguesas vão tomar boas decisões. As regras ainda não estão bem definidas, penso eu, mas julgo que cada país pode mandar apenas um homem e uma mulher para a competição. Não tenho a certeza, já ouvi coisas diferentes. Ainda não se sabe, por exemplo, se vai ser no oceano ou se vai ser numa piscina de ondas para que as condições sejam iguais para todos os atletas. Mas Portugal tem de mandar alguém que se consiga adaptar a qualquer ambiente. Tem sem dúvida hipóteses de ganhar uma medalha de ouro.

Aceitaria fazer parte dessa equipa?
Eu não hesitaria em representar Portugal nos próximos Jogos Olímpicos. Talvez não como surfista, mas não pensaria duas vezes em representar o país como um embaixador ou um porta-voz de Portugal para o mundo. Essa seria a posição perfeita, porque eu falo japonês. Durante dez anos todos os meus patrocinadores eram japoneses, por isso ia ao Japão muitas vezes durante meses. Confio mesmo que podemos sair de Tóquio com medalhas e potencialmente com uma de ouro. Mas, vá… só se eu fizer parte dessa equipa!

"Eu não hesitaria em representar Portugal nos próximos Jogos Olímpicos. Talvez não como surfista, mas não pensaria duas vezes em representar o país como um embaixador ou um porta-voz de Portugal para o mundo"

Como é que começou essa paixão por Portugal?
Alguém me mandou um e-mail para vir cá. Era um português. O meu e-mail dizia qualquer coisa como: “Vê se as minhas ondas são grandes. Vê se as minhas ondas são boas. Se forem grandes e boas, podes ajudar-me a pô-las a concurso?”. E de facto eram grandes e eram boas, por isso decidi ajudar a pô-las a concurso. Ainda hoje estou em contacto com essa pessoa. Estou sempre a vê-lo pela Nazaré, é um bodyboarder de lá. É o Dino. Se me perguntarem se alguma vez pensei em sair daqui… Bem, quando está muito frio tenho saudades do Hawai. Mas é que agora já me sinto um bocado português também. Sinto que o país me acolheu e que eu também acolhi este país. Até nem me importaria de me tornar oficialmente português. Estou a pensar em pedir nacionalidade portuguesa. Só tenho de entregar alguns papéis. Mas… pois, eu não sei o hino português. Isso se calhar é importante, devia aprender português.

Tem palavras favoritas em português?
“Maiomenos” (mais ou menos) e “obrigadinho”. Vocês dizem muito isso, “obrigadinho”.

E sei que gosta do nosso Carnaval?
Fui ao Carnaval da Nazaré este ano pela primeira vez e foi de loucos. Havia tanta gente e tantas máscaras e tantos eventos, todos diferentes uns dos outros. Depois aquilo começa num dia, dura a noite toda e vão descansar. Só que depois voltam todos outra vez na noite seguinte para as ruas. Quer dizer, há pessoas que não dormem durante quatro dias! Eu não sei como é que elas conseguem, fogo… E eu mascarei-me este ano. Vesti o meu fato de surf e até usei algum material. Depois comecei a sentir demasiado calor, então corri até casa e vesti um smoking porque era tudo o que eu tinha no armário que se encaixa minimamente no Carnaval. Não era bem apropriado, mas pronto. Lá toda a gente veste o que tiver à mão. Não há regras, no fundo. Os nazarenos gostam da tradição, mas no Carnaval não há regras.

Se não fosse o surf provavelmente não teria essa experiência. E se não fosse o seu irmão provavelmente não seria surfista, porque ele foi o primeiro a aventurar-se nas ondas do Hawai. Que relação tem com ele?
Tenho uma relação boa com o meu irmão mais novo. Eu não gosto de ir para a água com ele porque o Liam costuma apanhar todas as ondas boas e eu fico sempre ali a vê-las passar. Ele até se sente mal por eu não querer surfar com ele, mas claro que nos amamos muito e apoiamo-nos um no outro. Ele já não faz surf, agora, por isso sinto saudades de o ver em cima da prancha. Decidiu deixar o surf porque tem alguns negócios. E acho que escolheu esse caminho para estar mais próximo e cuidar melhor dos filhos. Foi por uma causa responsável.

Créditos: Henrique Casinhas/ Observador

Alguma vez sentiu que foi irresponsável? Na adolescência tinha o hábito de fumar erva antes de entrar na água. E enfrentou alguns riscos no mar por isso…
Nunca, não. Cheguei até aqui por causa de tudo o que já fiz na minha vida, por isso não me parece que tenha verdadeiros arrependimentos e sinto-me confortável com as minhas emoções, porque me preparo para elas. E preparo-me quando tenho de entrar no oceano. Se não o fizesse, então sim, estaria a ser irresponsável. Mas não é o caso. Nunca senti que tenha sido um exemplo a não seguir. A minha mulher não concorda. Às vezes quero beber um bocado mais de vinho e lá vem ela dizer: “Isso não, não à frente das crianças!”. E eu tenho de me acalmar. Mas ela tem razão. Eu gosto de ser um bom exemplo. E sei que o sou quando dou o meu melhor.

Que lições quer dar às pessoas?
Gostava que as pessoas, onde quer que vão, se certifiquem de que aplicam toda a paixão a perseguir as suas missões. E que desenhem um mapa mental que mantenha a vida e a carreira num bom caminho, que façam algo em prol da humanidade, seja de que maneira for. Se tiverem isto em mente, é impossível falhar. Mas mantenham os pés na terra: tudo é possível, todos os sonhos se podem realizar e podemos voar muito alto. Desde que sejam realistas.

Sentiu-se especialmente privilegiado ao por essas lições em prática? Sei que é religioso. Aliás, a sua educação sempre foi cristã. Chegou mesmo a participar numa organização, a Christ Family.
Sou uma pessoa crente. Acredito definitivamente que há algo lá para cima, como um Criador ou uma energia. Há quem lhe chame Deus e eu gosto do nome. Tem de haver um Deus por aí. Sinto que há professores tão maravilhosos que passaram pela Terra, como Jesus, Buda ou Ghandi e muitos outros. E há tantas variações dos credos e até dos livros sagrados que me parece que podemos retirar bons ensinamentos e mensagens úteis de todos eles. Repare, eu não gosto de pensar na ideia de alguém ir para o Inferno só porque não estão a fazer algo, só porque acreditam numa coisa diferente daquilo que eu defendo. Prefiro retirar o melhor que cada ensinamento traz. Julgo que basta fazer o bem para atrair para nós coisas boas. Sou um cristão desde que me conheço. Claro que comecei a ter dúvidas sobre a minha fé, mas agora é mais como um encantamento. É difícil para nós imaginar algo tão pouco definido, algo que não podemos sentir fisicamente porque o humano deixa-se confortar com estas ideias de haver sempre um princípio e um fim e coisas muitos definidas pelas meio. Como Deus não nos promete isso, não nos promete sequer esse fim, é difícil para nós aceitar tudo isso. É difícil porque nós não entendemos bem esta ideia de eternidade. Mas eu aceito. Deus existe.

"Como Deus não nos promete isso, não nos promete sequer esse fim, é difícil para nós aceitar tudo isso. É difícil porque nós não entendemos bem esta ideia de eternidade. Mas eu aceito. Deus existe"

É também a fé que o ajuda a lidar com erro e com a falha?
O segredo para aprender a lidar com o insucesso é, mesmo trabalhando constantemente para o evitar, não ficar demasiado obcecado com o cumprimento dos objetivos. Eu não consigo escolher o maior erro ou a maior falha da minha vida, mas talvez tenha ficado realmente frustrado por não ter conseguido ganhar o Triple Crown. Mas a coisa boa é que não costumo ficar religiosamente viciado com a ideia de ganhar. Sinto-me confortável com o caminho que as pessoas levam naturalmente. O meu objetivo principal foi sempre comprar uma boa propriedade, ter uma casa que seja sustentável e que eu possa continuar a pagar mesmo que a minha carreira tenha algum problema. Como em criança tive uma vida muito atribulada e andava sempre de um lado para o outro, agora sinto-me na necessidade de ter um pouso. No Hawai não há muitas casas, por isso ter uma casa com quartos extra ou ter mais que uma casa pode ser uma boa fonte de rendimentos. Com aquilo que tenho conquistado cá, espero conseguir alcançar esse objetivo. Depois todos os outros sonhos advêm desse.

Que outros sonhos?
Paz interior, como naquele filme… o Panda do Kung Fu. Acho que a vida não me deve nada. E eu também não devo nada à vida, mas sinto esta vontade de dar alguma coisa em troca. Por todas as coisas que tenho recebido.

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