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▲A Google vai dar 32 mil milhões pela Wiz, uma empresa que tem apenas cinco anos de vida

HANNIBAL HANSCHKE/EPA

▲A Google vai dar 32 mil milhões pela Wiz, uma empresa que tem apenas cinco anos de vida

HANNIBAL HANSCHKE/EPA

Google faz maior aquisição da sua história na era Trump 2.0 e num momento em que está na mira da concorrência

No verão, a Wiz disse não à Google, por alegadas preocupações conconcorrenciais. O enlace vai ser analisado mas a mudança de contexto político — e líder na FTC — aumenta as hipóteses de avançar.

À segunda parece ter sido de vez. A Google anunciou esta terça-feira o acordo para comprar a startup de cibersegurança Wiz, depois de o negócio ter caído por terra no verão passado. No total, são 32 mil milhões de dólares, o equivalente a 29,3 mil milhões de euros, numa transação all-cash (toda paga em dinheiro). É a maior compra dos 26 anos de história da gigante da internet.

Google avança para compra de empresa de cibersegurança Wiz por 32 mil milhões

O negócio ainda está sujeito a avaliação dos reguladores mas, a ser concluído, a Wiz vai ser integrada na Google Cloud, o braço da tecnológica para a computação na nuvem. As soluções de cibersegurança da Wiz passarão para o portefólio de serviços da Google Cloud. No anúncio Sundar Pichai, CEO da Google, declarou que a junção das empresas “vai pôr um turbo na melhoria da segurança cloud”.

O caminho até ao anúncio teve reviravoltas. Em julho de 2024, quando a Wiz rejeitou a oferta, foi noticiado que a Google pôs em cima da mesa 23 mil milhões de dólares para ficar com a startup, o equivalente a 21 mil milhões de euros. Oficialmente, não houve uma tomada de posição pública por parte de nenhuma das empresas sobre a falta de acordo. Nos bastidores, a história foi outra. “Dizer que não a ofertas tão honrosas é difícil”, terá afirmado o CEO Assaf Rappaport aos trabalhadores, numa nota citada pela CNBC. Admitindo, no entanto, que estava a olhar para outras formas de atingir marcos no negócio como uma oferta pública inicial (IPO).

Porém, noutra versão, foi dado outro argumento para a rejeição: as preocupações de alguns investidores da Wiz com os dois processos de Concorrência em que a Google está envolvida. A gigante da internet foi acusada de ter um monopólio na pesquisa e, noutro processo, de práticas anticoncorrenciais na publicidade. O caso do monopólio da pesquisa vem de 2020, ainda da primeira administração Trump, mas só em 2024 é que surgiu a decisão.

A Google tem um monopólio na pesquisa. O que significa a decisão do maior caso de Concorrência contra uma big tech em mais de 20 anos

De qualquer forma, este mês, o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) reforçou que, no processo da pesquisa, quer mesmo obrigar a Google a vender o Chrome, o navegador de internet mais usado do mundo. Ou seja, a administração em vigor pode ter mudado, mas isso não é sinónimo de mudanças na decisão sobre a Google.

O que mudou para a Google “ressuscitar” a aquisição?

Pouco mais de meio ano após as negociações falharem, o que é que mudou para, agora, a Google dar ainda mais milhões pela Wiz, uma empresa com apenas cinco anos? O contexto político pode explicar uma parte, mas não toda, admitem os especialistas.

No geral, era esperado que Trump 2.0 tivesse uma abordagem mais amigável com as empresas. “Houve alguns sinais iniciais de que a atual administração poderá ter uma abordagem mais robusta à concorrência do que alguns poderiam ter esperado inicialmente e que não está à procura de uma mudança dramática em relação à administração anterior”, é possível ler numa nota da multinacional de advocacia Davis Polk enviada ao Observador.

Em particular na FTC, a Comissão Federal de Comércio que escrutina as aquisições nos EUA, a mudança de líder é que pode trazer um contexto mais favorável aos movimentos de fusão e aquisições, acredita Dan Ives, analista da Wedbush. “A saída de [Lina] Khan da FTC é positiva para o mundo tecnológico”, nota o analista, referindo-se à anterior líder da FTC, conhecida pela mão de ferro para com as tecnológicas. Um dos casos mais notórios foi a tentativa de travar a compra da Activision Blizzard pela Microsoft — o negócio ficou concluído em outubro de 2023, dois anos depois do anúncio de compra.

Microsoft pode não conseguir concretizar a sua maior aquisição. Pode ser o início do travão ao poder das big tech?

A FTC é agora liderada por Andrew Ferguson, nomeado por Trump em janeiro. Dirk Auer, diretor de políticas de concorrência do International Center for Law & Economics (ICLE), reconhece ao Observador a lógica de “a FTC anterior ser mais agressiva ou muito cética em relação a fusões”, mas também afirma que “a atual liderança não parece ser particularmente amigável para a Google”. Considera, assim, “que, ainda que [o contexto político] possa ter desempenhado um papel”, provavelmente “não foi um papel tão grande quanto se poderia inicialmente pensar”.

O contexto empresarial — e a rivalidade com outras empresas — poderá ter pesado mais. “Com uma guerra completamente em curso na cloud e na inteligência artificial [IA], as big tech vão continuar a ser mais agressivas nas aquisições e sem se limitarem devido às preocupações regulatórias”, declara o analista Dan Ives. “Para a Google, isto seria um tiro certeiro contra outras grandes big tech, especialmente a Microsoft e a Amazon, ao fazer uma grande aposta no espaço da cibersegurança para complementar a sua oferta de cloud”, explica Ives. O analista considera ainda que, a avançar, a compra poderá “dar vantagem” à Google “no número de implementações cloud e no avanço da monetização do espaço de cibersegurança na cloud”.

"Para a Google, isto seria um tiro certeiro contra outras grandes big tech, especialmente a Microsoft e a Amazon, ao fazer uma grande aposta no espaço da cibersegurança para complementar a sua oferta de cloud."
Dan Ives, analista Wedbush

“Da perspetiva de alguém que analisa políticas de Concorrência, o que isto mostra é que as grandes empresas de cloud, como a Google, Amazon e Microsoft, estão realmente a concorrer de forma agressiva”, completa Dirk Auer. “Estamos a ver a Google a gastar vastas quantidades de dinheiro para garantir que é vista como um player competitivo e forte nesta indústria.”

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Negócio enfrentará obstáculos regulatórios, mas tem “75% de hipótese de avançar”

A aquisição vai ser sujeita ao crivo dos reguladores, com a Google a esperar que esteja concluída em 2026. Não é expectável que o processo seja simples, antecipam os analistas, mas notam que é provável que a compra tenha luz verde.

“Haverá alguns obstáculos, mas a Google sabe que Lina Khan está agora fora da FTC e vão seguir a estratégia da Microsoft/Activision”, explica Dan Ives. Em 2023, a Microsoft foi obrigada a adotar remédios como o compromisso de os jogos da Activision estarem disponíveis noutros serviços de streaming e consolas, acalmando os receios de concentração de poder. “Há uma aberta para fazer aquisições e vemos uma probabilidade de 75% de isto avançar”.

Comissão Europeia dá luz verde à compra da Activision pela Microsoft

Dirk Auer, do ICLE, não vai ao detalhe das probabilidades mas, “se fosse um homem de apostas, diria que é mais provável ser aprovado do que não”. “Só porque nos EUA os reguladores de concorrência estão a ser um pouco menos agressivos”, concretiza. “Acho que há pelo menos uma boa hipótese de o negócio avançar, mas haverá algumas questões regulatórias que vão ter de ultrapassar, não vai ser um passeio no parque.”

O facto de a Google estar sob a ameaça de uma separação no âmbito de um processo não é sinal de que isso afete este negócio. “Acho que o caso da pesquisa não vai impedir a Google de integrar a Wiz no ecossistema de cloud”, diz Auer. “A intervenção regulatória nem sempre é consistente entre produtos, mesmo dentro da mesma companhia.”

epaselect epa11488344 A Screen display the Microsoft Logo in Times Square New York, New York, USA, 19 July 2024. Companies and institutions around the world have been affected on 19 July by a major computer outage in systems running Microsoft Windows linked to a faulty CrowdStrike cyber-security software update. According to CrowdStrike’s CEO, the issue has been identified, isolated and a fix has been deployed  EPA/KENA BETANCUR

▲ Analistas referem que a compra da Wiz sinaliza a rivalidade na cloud, nomeadamente com empresas como a Microsoft e a AWS

KENA BETANCUR/EPA

Para avançar na compra, a Google precisará de “aliviar as preocupações dos reguladores”. “Podem fazer o que a Microsoft fez com a Activision, que, neste caso, seria integrar a Wiz no ecossistema de cloud, mas sem que se tornasse um exclusivo”, afinando pelo mesmo diapasão de Dan Ives. Na publicação da Wiz, é dito que a startup “continuará a ser uma plataforma multicloud” e que “vai continuar a trabalhar de forma próxima com os parceiros da AWS, Azure, Oracle e toda a indústria”.

O clima também se alterou na União Europeia, realça, onde “é provável que sejam menos agressivos”. “Não quer dizer que a Comissão Europeia não queira olhar para o caso de uma forma séria mas, do ponto de vista político, bloquear este tipo de negócios não está em alta como, digamos, no ano passado ou há dois anos.” Vai mais longe acrescentando que “a última coisa que a União Europeia quer fazer agora é ser responsável pelo colapso de um negócio grande de uma empresa norte-americana”.

De qualquer forma, o risco de o negócio não ser aprovado não é nulo, independentemente do mercado. Tanto que, segundo o Financial Times, o valor que a Google tem de pagar à Wiz se não houver luz verde é de 3,2 mil milhões de dólares, 10% do valor da compra. Habitualmente, nota o FT, o valor para uma transação deste género oscila entre os 2 a 3% ou 7% em casos mais complexos.

epa07590799 The Google Cloud logo is displayed at Google Inc. booth during the Cloud Expo Asia 2019 in Hong Kong, China, 22 May 2019. The expo runs through 23 May.  EPA/JEROME FAVRE

▲ Caso o negócio avance, a Wiz vai ser incluída na Google Cloud

JEROME FAVRE/EPA

O que faz a Wiz, que precisou de menos de três anos para chegar aos 10 mil milhões?

A Wiz nasceu em janeiro de 2020, imediatamente antes de a pandemia de Covid-19 deixar evidentes as necessidades de as empresas reforçarem a cibersegurança para resistirem às ameaças como intrusões, ransomware ou ataques de phishing.

A startup disponibiliza uma plataforma para manter os ambientes cloud em segurança, passando a pente fino tudo o que está armazenado na nuvem de uma empresa, alertando para potenciais riscos. De acordo com o site, metade das empresas que integram a lista Fortune 100 usam os serviços da Wiz.

A equipa de fundadores, composta por Assaf Rappaport, Yinon Costica, Roy Reznik e Ami Luttwak, é israelita, mas a empresa está sediada em Nova Iorque, nos EUA. O grupo fundou outra empresa, a Adallom, também de segurança, que foi adquirida pela Microsoft em 2015, por 320 milhões de dólares.

A Wiz precisou de um ano para se tornar um unicórnio, uma startup avaliada em mais de mil milhões de dólares. Foi em 2021, quando chegou a uma avaliação de 1,7 mil milhões de dólares. A lista de investidores da Wiz é repleta de nomes conhecidos da indústria tecnológica, como o fundo Vision do grupo Softbank, a Sequoia, Index Ventures e a Salesforce.

De acordo com dados da Pitchbook, a startup israelita precisou de 2,9 anos para chegar a uma avaliação de 10 mil milhões de dólares — foi a tecnológica a fazê-lo em menos tempo. Por exemplo, a Uber precisou de 5,2 anos, o Facebook de 5,7 anos e o antigo Twitter de ainda mais, com 7,6 anos.

A aquisição da Wiz torna-se também o maior negócio a envolver uma startup israelita desde que a Intel comprou a Mobileye, uma empresa de sistemas de assistência à condução, por 15,3 mil milhões de dólares, em 2017.

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