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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Gouveia e Melo afina tática e aplica o 'garfo do cavalo' contra os "dois candidatos do sistema"

O tiro a Mendes foi bifurcado e almirante começou a atacar Seguro com a mesma frequência e (quase) com a mesma intensidade. Aplica ataques duplos ao centrão e argumentos também utilizados por Ventura.

Henrique Gouveia e Melo tem negado ter uma “tática” política definida, mas tem evoluído para aquilo que no xadrez se chama “garfo do cavalo”: atacar as duas peças de uma só vez. Apesar de ser sempre mais colérico quando fala do candidato apoiado pelo PSD, em todos os dias da campanha oficial, sem exceção, tem direcionado um ataque duplo contra Marques Mendes e António José Seguro. Chama a ambos de forma insistente os “dois candidatos do sistema”, “sapos que querem ser reciclados”, personalidades que “nem o próprio partido venceram” e que, ainda hoje, não são “consensuais dentro do próprio partido”.

Até ao arranque oficial da campanha, Gouveia e Melo estava mais focado em visar de forma quase obsessiva o ex-líder do PSD e antigo comentador político. Mas agora fica evidente que também quer ferir o antigo secretário-geral do PS. Nessa mesma estratégia, o almirante dá depois um passo em frente para ataques mais personalizados a cada um dos dois, mas tem quase sempre o cuidado de atacar ambos em cada intervenção. Sobre Mendes insiste que elegê-lo seria colocar um “facilitador de negócios em Belém”. Sobre Seguro,  reitera que é “indeciso” e “redondo”.

Os ataques duplos têm sido repetidos até à exaustão numa dialética muito similar à utilizada por André Ventura, que nas últimas campanhas atirou sempre aos candidatos do sistema e que há 50 anos que gerem os destinos do País. Os tiros de Gouveia e Melo parecem passados a papel químico dessa mesma narrativa. Em Campo Maior, na segunda-feira, atirou-se aos “dois candidatos do sistema: um a querer ir para Presidente para ajudar o Governo; e outro a querer ir para dizer que, de alguma forma, contraria o Governo”. Na mesma ocasião, Henrique Gouveia e Melo registava que Mendes e Seguro “nem sequer conseguem ter o pleno dos seus partidos”.

Horas depois, em Castro Daire, nova ofensiva do almirante contra “os candidatos do sistema que há 20 anos têm um Portugal estagnado e não conseguem oferecer novas soluções” e que “não conseguem unir o próprio partido, quanto mais o país”.

Na manhã seguinte, numa feira em Vila Verde, Alijó, atirava de novo aos dois candidatos, de forma repetitiva, que “nem sequer fazem o pleno dos seus partidos, quanto mais um país inteiro”, acrescentando que “a única coisa que dizem são generalidades e croquetes“. Ao passar por sapos de loiça em exposição na feira sugeriu ainda que Mendes e Seguro estavam no “pântano” político como “sapos que querem ser reciclados”.

À noite, no debate a 11 na RTP,  voltaria a atirar aos “dois candidatos que não conseguiram vencer os seus próprios partidos, nem ter consenso nos próprios partidos, mas vêm para aqui para ser o topo da pirâmide do Estado”. Ainda na contenda televisiva, outra farpa comum aos candidatos do centrão: “O problema da Saúde não aconteceu ontem, aconteceu nos últimos 20 anos e estiveram envolvidos nesse problema os dois principais partidos do sistema”. Mas os ataques também são ad hominem.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Mendes, o facilitador e ‘ordinário’

Apesar do esforço para criticar Seguro no mesmo peso e medida, há sempre uma altura em que o almirante se irrita e acaba por ser mais duro com Marques Mendes. No caso do candidato do PSD, os tiros personalizados têm por base dois argumentos: que será controlado pelo Executivo de Luís Montenegro; e que levará interesses opacos para Belém.

Nos últimos três dias, o almirante chamou por quatro vezes “marioneta política do Governo” a Marques Mendes. E foi variando nas expressões em diferentes ocasiões, acusando o adversário social-democrata de querer “ajudar o Governo”, de “ser submisso ao Governo” ou ainda de querer “ser eleito pelo aparelho partidário e não por mérito próprio”.

Outro tiro insistente contra Mendes é sobre ser um “facilitador de negócios”. Outra das expressões que repete muitas vezes é que um candidato não deve ser “opaco“. No debate a onze, a picardia subiu de tom. Em intervenções laterais, já depois da sua vez na ronda, Gouveia e Melo levantou suspeitas sobre ligações a privados (“empresas: JMF, ACA, Nutron, Atrys e outras empresas que estão relacionadas com influências. Por exemplo, os painéis solares da Madeira, como é que foram?”).

Sobre o que fazia Mendes também carregou nas tintas e questionou: “Já disse qual é a sua profissão?” ou “E tem praticado advocacia?”. Por fim, quando o candidato apoiado pelo PSD acusou o almirante de optar por “ordinarices”, Gouveia e Melo foi aos arames num tom de aviso: “Ordinarice, use a palavra com cuidado, porque ordinário em termos éticos é favorecer negócios com o Estado”. Soou a ameaça.

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Seguro, o indeciso e “redondo”

Com Seguro os argumentos personalizados são outros, mas também assentam em duas vias principais: a ideia de que o candidato apoiado pelo PS quer ir fazer oposição para Belém; e que é alguém incapaz de tomar decisões. Gouveia e Melo diz que o socialista quer ser Presidente para “fazer oposição” ou para “dizer que, de alguma forma, contraria o Governo”. O que, acredita, promove a instabilidade.

Gouveia e Melo tentou ainda argumentar que seria um Presidente fraco. Ao longo dos primeiros dias de campanha, repetiu que Seguro era um candidato “indeciso” e “redondo“. No debate foi ao ponto de voltar a chamar o fundador do PS para a contenda: “Amanhã [esta quarta-feira] faz nove anos que morreu Mário Soares, que disse sobre um candidato que está aqui ao meu lado que não tinha capacidade de decisão, era uma pessoa que não tinha o respeito do seu próprio partido”.

Apesar de não colocar em causa a ética e idoneidade em matéria de negócios, Gouveia e Melo também não dispensou acusar, de forma velada, Seguro de oportunismo. Numa nova terceira via estreada no debate, acusou-o basicamente de vender a alma aos costistas num “casamento por conveniência” apenas pela conquista do poder.

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