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Algumas pessoas caminharam quase duas horas
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Algumas pessoas caminharam quase duas horas

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Algumas pessoas caminharam quase duas horas

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Horas a caminhar, atos de solidariedade e um restaurante onde "ninguém fica sem comer". Como se viveu o apagão em Lisboa

A falta de energia gerou a confusão na rua. Uns lutavam para voltar a casa (de transporte ou a pé), outros queriam comprar alimentos e bens para resistirem às horas que que se avizinhavam.

A hora de almoço no restaurante da Avenida da Igreja, em Alvalade, está mais movimentada (e prolongada) que o habitual. Pelas 15h20, mais de 20 pessoas estavam na fila à espera para ser atendidas. “Quero uma dose de almôndegas, por favor”, pedia um cliente.

“Tem sido a loucura, as pessoas estão a levar comida para 6 a 8 doses”, conta o gerente do restaurante Riviera. “Como isto é take away é mais fácil. E temos o fogão a gás, por isso dá para desenrascar. Ninguém fica sem comer”, garante o gerente do restaurante Riviera, Fernando Lourenço.

De um momento para o outro, esta segunda-feira tudo foi abaixo: candeeiros, televisões, ares condicionados, microondas, esquentadores elétricos, máquinas automáticas, internet e, eventualmente, a rede móvel. Farmácias fecharam, hospitais ativaram planos de emergência, o policiamento foi reforçado e as pessoas correram aos supermercados e restaurantes para garantir alimentos para as próximas horas (ou dias) — porque ninguém sabia o que estava a acontecer nem durante quando tempo se prolongaria.

Fernando Lourenço garante que "ninguém ficou sem comer"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Fernando não sabe precisar quantos clientes recebeu esta segunda-feira, mas reconhece que houve um boom: “Tenho muito stock, felizmente, mas amanhã não sei como será por causa dos fornecedores… Não sei se vou conseguir repor”, diz. Ainda assim, e apesar da preocupação, não prevê fechar a porta quando o sol desaparecer. “Não temos gerador, mas quando a luz do dia acabar vamos usar pilhas [lanternas] que temos por aí”, responde o gerente.

Caos no trânsito, comunicações cortadas e corridas às lojas. O longo dia em que um apagão paralisou o país

Questionado sobre o método de pagamento, Fernando Lourenço conta que o multibanco “deixou de funcionar logo”, pelo que só estavam a aceitar dinheiro. “Mas há momentos em que facilitamos. Ficamos com o número das pessoas e o nome, por exemplo. Já tivemos várias pessoas nessa situação”, diz. E logo aproveita para perguntar se os jornalistas tinham as informações que ele mais queria obter: “Já sabem o que foi? Sabem se foi sabotagem? E quando volta?”

“Desde manhã que não consigo comunicar com o meu marido”

Mesmo à porta do restaurante, duas amigas reencontram-se por acidente. Dizem estar preocupadas por estarem “sem rede quase há três horas”, queixa-se uma delas. A conversa é intensa e nem há tempo para apresentações. Uma delas, na casa dos 40 anos, diz apenas que “fechou a farmácia” que detém e que está à pressa porque ainda tenho “de ir buscar mais uma filha à escola”.

“Falta-me ir buscar uma filha e, além disso, o meu marido, como trabalha com geradores, tem estado a trabalhar para pôr tudo a funcionar nos hospitais… Não consigo comunicar com ele, desde manhã que não sei nada”, partilha.

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Poucos metros ao lado, numa das ruas perpendiculares, uma dezena de crianças esperam para serem recolhidas pelos pais. Estão no recreio da escola básica Eugénio dos Santos, que pertence ao agrupamento Rainha D. Leonor, e onde se lia “Escola Encerrada” num papel entretanto afixado no portão. Por volta das 14h todos os alunos desta escola receberam indicações para ir para casa, à semelhança das restantes escolas do mesmo agrupamento.

Também escolas como o liceu Pedro Nunes e o agrupamento Virgílio Ferreira acabaram por seguir o mesmo protocolo, até porque receberam indicações do Ministério da Educação nesse sentido. Numa nota enviada aos agrupamentos e escolas não agrupadas, lia-se: “Relativamente à educação pré-escolar e ao 1.º ciclo do ensino básico, as crianças/alunos devem permanecer na escola até os encarregados de educação os recolherem ou até ao horário dos respetivos transportes escolares. Nos casos dos 2.º e 3.º ciclos do básico e do ensino secundário, deve ser avaliada casuisticamente cada situação.”

Compras de supermercado às escuras, filas para os transportes públicos e caos no trânsito. As imagens do apagão em Portugal e Espanha

Apesar do apagão que se fez sentir em Portugal e se estendeu também a Espanha, Andorra e partes de França, nesta escola todas as refeições foram distribuídas e asseguradas, sabe o Observador.

“Quando chegar a casa vou rezar”

Andar pelas ruas circundantes significava ver papéis onde se liam indicações como “Fechado sem sistema” em várias farmácias ou nos CTT.  E também esbarrar com mais pessoas que o habitual, porque toda a gente saiu à rua: para regressar a casa ou até para comprar bens alimentares ou lanternas, rádios, velas e pilhas.

Várias pessoas carregavam litros de água engarrafada num ritmo acelerado. Outras tentavam fazer compras urgentes. Foi o caso de Carla (que não quis divulgar o seu apelido), e que se pôs a caminho do Marquês de Pombal até ao Lidl de Alvalade, uma caminhada de cerca de 1h20.

Comércio acabou por fechar em virtude da falha energética

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Na fila para o supermercado contava que planeava “levar pouca coisa, só coisas essenciais, leite e fruta e pouco mais”. “Quando chegar a casa vou rezar. Não tenho velas nem lanternas e vou ser iluminada pelo céu, acordo quando acordar”, dizia.

Carla ia apenas comprar "bens essenciais"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Além da luta pela comida, havia também quem tentasse, desesperadamente, apanhar autocarros. Um destes transportes, que chegava à paragem já cheio, não tinha espaço suficiente para albergar o mar de gente que tentava regressar a casa. A espera impaciente ganhou forma numa passageira que acabou por forçar a entrada pela porta de trás, uma e outra vez, até conseguir entrar e seguir viagem comprimida contra o vidro.

Mas nem todos tiveram a sorte (ou capacidade de insistência) desta passageira. Pelas 16h30, a rua que liga a Avenida do Brasil à Rotunda do Relógio, uma distância de cerca de 1,7 quilómetros, estava repleta de pessoas que, frustradas pela falta de resposta dos transportes, se sujeitavam a caminhar várias horas.

Foi o caso de Ethan e Jess, casal que chegou a Lisboa há três dias e que esperava regressar a casa esta segunda-feira. “Íamos voltar hoje para Inglaterra, tínhamos o voo às 16h30, mas foi tudo cancelado. Tivemos o checkout [do hotel] às 11h. E depois até conseguimos apanhar um Uber até à Estrela. Mas a partir daí já não conseguimos mais”, conta o inglês entre respirações profundas devido ao cansaço.

Ethan e Jess esperavam voltar esta segunda-feira para Inglaterra

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Ethan e Jess fizeram mais de 40 minutos a pé, a subir, e carregados com malas de viagem. “Da estrela ao aeroporto fomos a pé, andámos duas horas… Usámos o Google Maps porque funciona offline, mas agora não sabemos. Vamos ter de marcar mais uma noite num hotel, vamos tentar comer e amanhã logo tentamos novamente”, diz o casal.

Pelo caminho até à rotunda do aeroporto, após quase 30 minutos de caminhada intensa, uma jovem na casa dos 20 anos não aguentou o calor. Sentada no chão, pedia a quem passava uma garrafa de água, mas ninguém parecia ter. No meio da quebra de tensão que aparentava sentir, um condutor de TVDE encostou, abriu o vidro e deu-lhe uma garrafa.

Desligar o quadro elétrico, limitar o uso do telemóvel e atenção à desinformação. O guia de medidas para o apagão

Na Rotunda do Relógio — para onde se dirigia — estava instalada a confusão que além do elevado número de veículos, se agravava pelo não funcionamento dos semáforos. As aplicações de mobilidade (como Uber e Bolt) deixaram de funcionar, mas os motoristas arranjaram uma alternativa: na bomba de gasolina que existe junto à rotunda que liga ao aeroporto, esperavam por turistas e faziam viagens fora da aplicação. “Vamos fazer dinheiro”, gritava um motorista.

Nessa mesma bomba de gasolina, entre os carros TVDE e aqueles que esperavam pela chegada de familiares e amigos ao aeroporto, estavam também viajantes que, com as malas ao lado, aguardavam e tentavam decidir o que iam fazer. “Não quero gastar o pouco dinheiro que tenho num táxi com um preço inflacionado”, comentava um turista também britânico.

Cerca das 20h50, a energia começou a voltar a Lisboa, onde foi recebida com gritos e apitos. Agora, resta avaliar todas as consequências das mais de nove horas de apagão, o maior dos últimos 25 anos.

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